Coritiba 2 x 1 Grêmio
Brasileiro – Curitiba (PR)
Perdoem-me pela falta de comentário. Estou de férias e fui mergulhar.
A coluna esportiva menos imparcial da blogosfera é dedicada ao Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense e tem textos escritos no calor da emoção, logo após o encerramento das partidas do Imortal Tricolor ou a qualquer momento em edição extraordinária.
O sol se põe no oeste. É pra lá que olho no momento em que escrevo esta Avalanche desde a varanda de um cruzeiro que segue em direção a Ilha Bermuda. Nosso destino fica no vértice de um triângulo que teria engolido barcos e aviões dizem séries fantásticas de televisão e livros de história. Não há risco de sermos subtraído nesta figura geográfica seja porque lendas costumam causar apenas medo e expectativa seja porque atracaremos antes de entrarmos nela.
Isolado no meio do Atlântico, onde só o barulho do oceano nos alcança, além do sinal de meu celular, lembrei-me a instantes de colegas muito queridos como Heródoto Barbeiro e Cátia Toffoletto. Faz duas semanas, quase três, que estou distante deles. São pessoas de primeira qualidade, daquelas que sempre queremos ter ao lado, seja qual for o momento de nossas vidas. Hoje, em especial. Imaginei que fosse pelo prazer que sinto enquanto navego.
Descobri, navegando na tela de meu Blackberry, que havia outros motivos – excelentes motivos – para lembrar de colegas tão queridos. Durante dois ou três minutos que levaram para fechar minha conexão com os satélites que nos rodeiam e as informações surgissem diante de mim, confesso que houve alguma apreensão. Se você já baixou notícia pela WEB via celular sabe do que estou dizendo. A conexão é lenta. Aparecem algumas imagens, surgem letras, nem sempre o que você mais procura.
No serviço de web para celular do Terra, o destaque era a vitória do Atlético Mineiro sobre o Cruzeiro. Dá-lhe, Roth ! Na sequência havia declarações de Adriano sobre fazer gol e não comemorar em respeito a sei lá o quê. Eles continuam confundindo as coisas. Nos resultados da hora, tinha a goleada do Vitória sobre o Santos e outros dois resultados que não lembro mais.
Precisei navegar além para descobrir o que realmente me levava a ter saudade de Heródoto e Cátia. Mais apreensão. Mais demora para as notícias aparecerem. Houve uma ameaça de queda de sinal, mas o acesso a internet resistiu a distância. E algumas tentativas a seguir a boa nova.
Gol, gol, gooooooooooool ! Comemorei com um grito tardio que ecoou nas ondas a notícia que, finalmente, se concretizou na pequena tela de meu celular. O Grêmio havia alcançado importante vitória neste domingo. Um dia glorioso, não tenho dúvida, pois o adversário era daqueles que respeitamos desde sempre. Somos todos mosqueteiros, é bom lembrar. Nossas histórias se cruzaram muitas vezes. A última, ou melhor, a penúltima de triste lembrança para meus dois colegas de trabalho.
Pelo visto, a última, também.
O compromisso desta tarde era significativo, ainda, pois pela primeira vez nos reencontraríamos com Mano Menezes (aposto que torcedores fizeram festa para ele no Olímpico Monumental); havia Ronaldo no ataque a chamar atenção de todos, o centro-avante que um de nossos zagueiros disse não ser normal (e não é); e tínhamos um agradecimento especial pelas causas alcançadas recentemente pelo Corinthians contra nosso conterrâneo.
Com tantos atrativos não é de se espantar que Heródoto e Cátia não me saíram da cabeça mesmo em alto mar. É com eles que divido estas emoções, enquanto olho para o sol que se põe e ouço o capitão do navio anunciar: “O vento está a nosso favor !”.
Da saída da Libertadores, estou recuperado. Parece que o time, também. Por mais importante que seja o futebol (haja vista o mundaréu de dinheiro que movimenta e a quantidade de gente que emprega), sou capaz de brincar comigo mesmo quando derrotado. Não por acaso escrevo esta coluna há dois anos, sempre pronto a encontrar algo magnífico, heróico, mesmo na mais pífia das performances gremistas em campo.
Mas ainda estou extremamente incomodado com título do portal Terra – onde já trabalhei e sei como as coisas do Rio Grande são cuidadas pela boa turma de jornalistas que lá está – que mal-tratava a torcida gremista ao confundi-la com uma parcela de gente sem-alma: “Torcida gremista faz insulto racista contra Elicarlos”. Tivesse ficado na manchete, a generalização se justificaria pela necessidade de fazer caber o título no espaço reservado à notícia. Porém, o texto também inclui todos os torcedores nesta atitude repudiável: “O jogador do Cruzeiro sofreu com atos racistas por parte da torcida gremista, no Olímpico, durante a classificação dos mineiros para a decisão da Copa Libertadores”. Foram alguns torcedores, não a torcida do Grêmio, caro repórter.
Evidentemente que a reportagem do Terra é apenas um relato descuidado de algo muito mais grave: a existência de pessoas que agem de forma descriminatória e são capazes de imaginar haver raça superior, como já o fez Hitler no passado. A utilizo, porém, para mostrar o risco que nós torcedores gremistas corremos ao permitirmos que esta gente ainda fale alto na arquibancada.
Por isso, fiquei feliz ao ler a coluna No Ataque, do jornalista Diogo Olivier, no site ClicRBS, na qual destacava afirmação feita pelo presidente do Grêmio Duda Kroeff que se comprometeu a expulsar do clube, caso sejam sócios, os poucos torcedores que imitaram um macaco para agredir o jogador Elicarlos do Cruzeiro. Ficarei ainda mais satisfeito se esta promessa for cumprida. Kroeff estará sinalizando ao Brasil o quanto diferente e corajoso pode ser um dirigente de futebol neste país em que todos os erros são acochambrados para atender a interesses de grupos privilegiados.
O Grêmio merece esta atitude em respeito a sua história e a sua estrela dourada que brilha na bandeira, homenagem ao lateral da seleção brasileira tricampeã do Mundo, em 1970, Everaldo.
Tempo extra
Do jogo de hoje nada escrevo além do placar, pois como devem saber estou distante do Brasil e das transmissões de futebol na televisão. E mais um jogo pela internet é “too much” neste período de férias.
Ridgefield é uma pequena e rica cidade do estado americano de Connecticut. Futebol aqui é coisa de mulher. Das outras vezes em que vim para cá descansar vi muitas meninas batendo um bolão. Exceção feita aos brasileiros que vivem na cidade mais próxima, Danbury, poucas são as referências ao futebol do Brasil. Não chega a ser assunto em mesa de bar nem mesmo na primeira página do jornal do dia seguinte. O lugar ideal para escrever esta coluna, talvez.
Em volta da casa em que estou, há um interminável bosque e o barulho lá fora é da chuva que marca o início do verão no nordeste americano. Assisti ao jogo na tela de meu computador o que provoca uma situação curiosa. Apesar de começar uma hora antes – devido ao fuso horário – acontece para mim quase um minuto depois – é a demora provocada pela transmissão digital. Não muda nada no que vai acontecer em campo, mas nos tira a pretensão de que somos capaz de influenciar o destino da partida com nossa torcida.
Torcida ? Como senti falta de estar ao lado dela nesta noite de quinta-feira. Assim como estive há dois anos, na final da Libertadores. A imagem daqueles alucinados na arquibancada era inebriante. Vê-los cantando e pulando, e cantando e acreditando mesmo quando o maior dos crentes não teria mais motivo para tal é contagiante.
Em um momento qualquer daquela partida, mesmo com todas as desvantagens a nos incomodar, ela não nos dava motivo para esmorecer. Havia dois gols contra nós; havia atacantes nossos a perder gols – e como os perderam em toda esta temporada -; houve carência de talento em alguns setores – e digo isso porque nossa paixão não nos cega -; tivemos até mesmo o prejuízo provocado pela expulsão de um dos nossos; mas, nada, absolutamente nada, mudou a obsessão daqueles torcedores.
E somente aqueles que acreditam na Imortalidade são capazes de fazer o que a torcida gremista fez no estádio Olímpico. Aos que nunca entenderão o significado deste sentimento, uma só explicação: “Não somos Imortais porque nunca perdemos, o somos porque jamais desistimos”.
Começa a caminhada de volta para a Libertadores !
Aos adversários
Que o Cruzeiro esteja a altura do futebol brasileiro na final da Libertadores, afinal é o nosso Capitão América que está no seu comando. Sorte, Adílson !
A TV quase não deu bola. Preferiu repetir exaustivamente jogadas em que os adversários se digladiam dentro da área ou em uma disputa qualquer em detrimento da informação. Na pequena torcida gremista que esteve no estádio da Ilha do Retiro, no Recife, havia a faixa: “Sou azul, negro e branco”.
Recado claro a quem, propositalmente ou não, tenta confundir os fatos, desde o bate-boca de Maxi Lopez e Elicarlos, durante a primeira partida da semifinal da Libertadores, no Mineirão, em Belo Horizonte. Momento em que conhecidos sanguessugas do futebol saíram a dar palpite e se apresentaram como defensores da moral e ética de toda a nação brasileira.
Falei pouco esta semana sobre o tema, e nada escrevi a propósito no blog porque sabem bem aqueles que me acompanham o tom do meu discurso nesta Avalanche. Meu colega de redação Fernando Gallo, que algumas vezes abrilhantou este espaço com ótimos artigos, deixou gravado nos comentários sua frustração por não ter lido por aqui alguma palavra minha. Como se fosse preciso.
Não sinto necessidade de escrever que sou honesto. Parto do princípio que aqueles que me conhecem sabem disso. Os que desconfiam do contrário que me conheçam melhor antes de construir qualquer pensamento a respeito.
Preciso dizer que discordo de qualquer atitude racista ? Minhas posições são públicas, e publicadas diariamente no CBN São Paulo. Quem acompanha o programa conhece minha postura. Quem lê este blog não deve ter dúvida do meu comportamento.
Também jamais me verão levados pelo espetáculo dos fatos, típico no futebol e em boa parte da cobertura jornalística no País. Daqueles que fizeram coro contra Maxi Lopez muitos são os mesmos que fazem comentários jocosos sobre situação social quando falam da torcida do Corinthians, se assanham a fazer piadas sexistas quando o assunto é o São Paulo ou taxam a ignorância de “baiana” e a arrogância de “argentina”. Não quero a companhia desses em nenhuma campanha.
É preciso também buscar informacão, ter comedimento e relativizar os fatos.
Lá no pampa argentino, macacos somos todos nós brasileiros, não pela cor de nossa pele, mas por supostamente imitarmos os americanos. Diferentemente do uso dado a palavra no pampa gaúcho, onde a expressão tem conotação racista. Que se mude os hábitos, aqui e lá.
Não vou aqui julgar o atacante gremista. Se ele tomou alguma atitude errada – e, ao contrário de outras oportunidades, isto não ficou claro diante das câmeras – que responda pela injúria. Mas, por favor, não se aproveite desta situação para expor ideias xenofóbicas. Faça deste caso um momento de reflexão sobre atitudes que já tenham sido tomadas por você contra ou a favor de qualquer tipo de preconceito.
Entre torcedores, assim como nas demais comunidades que se formam neste país seja por afinidade política, religiosa ou social, deve haver quem entenda ser superior ao outro pela diferença de raça. Infelizmente, este é um pensamento que ainda existe na sociedade brasileira. E precisamos condená-lo nos fóruns competentes e com atitudes produtivas, não, oportunistas.
Para o Grêmio, que fique claro a todos, não há opção: somos azul, negro e branco. Somos de todas as raças. Somos um time de raça.
O mais antigo e o melhor amigo que tenho é colorado (acredite se quiser). Terça à noite, ele visitou São Paulo e, enquanto dividíamos uma pizza, colocamos a conversa em dia. Falamos muito de futebol, é lógico. Estávamos em lados opostos no campo e na mesa. Não costumamos dar o braço a torcer quanto ao melhor time do mundo no nosso coração, mas às vezes confessamos algumas coisas inconfessáveis diante da grande massa de torcedores.
Uma pequena admiração por um jogador adversário, uma injustiça que a torcida oposta comete com seu craque incompreendido e até aquele jogo que eles foram bem melhores, mas nós ganhamos.
Quase na hora de pagar a conta (e desta vez, ele é que pagaria), veio o maior de todos os reconhecimentos. A esperança dele ser campeão da Copa do Brasil, quarta-feira que vem, está depositada em uma história escrita pelo seu maior adversário: a da Imortalidade. Aquela que fez do Grêmio não apenas um time de futebol, mas uma façanha a ser lembrada para sempre. Que nos permitiu gravar na camisa que visto está noite a frase “Nada Pode Ser Maior”.
Nesta noite, por sinal, lembrei do Paulo – o meu amigo colorado -, aos 33 minutos do segundo tempo, quando vi Souza ajeitando a bola no gramado e um mundo de jogadores se postando diante dele para impedir a visão do gol na cobrança de falta. Souza não precisa enxergar o gol, ele tem o faro apurado e o pé calibrado, tanto quando a língua afiada.
No intervalo, havia chamado atenção para a perda de três gols feitos que resolveriam com facilidade a classificação à final da Libertadores da América: “quem não faz leva”, disse o craque usando de um dos mais famosos lugares-comum do futebol.
Mas por que haveria de ser fácil, Souza?
Foi preciso desperdiçar três gols, levarmos três, perdermos a cabeça, errarmos passes e assistirmos a um juiz trapalhão que acabou substituído por problemas físicos até que a história retomasse seu rumo.
Com o toque sob a bola que a fez superar a barreira gigante e deslizar pela rede da goleira do Cruzeiro até o fundo do poço (sempre com a autorização de seu autor), Souza começa a escrever mais um capítulo da nossa Imortalidade. E com seu sotaque alagoano bem lembrou o ditado gaúcho ao fim da partida: “Não tá morto quem peleia”.
Semana que vem, Paulinho, eu pago a conta aí no Sul !
Foi do banco que partiu o grito; “Bola na área”. Foi lá da intermediária e dos pés de Joílson que ela foi lançada. Foi da cabeça de Maxi Lopez que ela ganhou a direção do gol. E foi deste gol, aos 47 minutos do segundo tempo, que mais uma vez me vei0o a cabeça aquela sensação de como é imortal o tricolor.
Alguém há de lembrar que este jogo era contra o Goiás e dentro de casa. Que o Grêmio não fez, mais uma vez, uma boa partida. Que a defesa errou duas vezes para levar dois gols. Que esquecem de usufruir do talento que há no meio-campo. Que este um ponto que ganhamos mudou pouco nossa condição no Campeonato Brasileiro.
É tudo verdade.
Como é verdade, também, que o gremista enxerga no detalhe o sinal do destino. E, assim como Máxi que acreditou até a última cabeçada, Herrera também não desistiu de lutar pela posse de bola até ser derrubado dentro da área e proporcionar a cobrança de penâlti de Tcheco.
Sinal da imortalidade que haverá de se anunciar novamente na quarta-feira, quando entraremos no Mineirão lotado para enfrentar o Cruzeiro, na luta pela vaga na final da Libertadores da América.
“Sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra”. A frase estampada em uma faixa sobre o pequeno muro que separa a torcida do foço que circunda o Olímpico Monumental me chamara a atenção desde o primeiro tempo da partida nas poucas vezes em que o Grêmio se deixou atacar pelo adversário.
A escrita atrás do gol de Marcelo Grohe destacou-se entre as dezenas de outras que adornam a bela torcida gremista. É um trecho da poesia escrita por Francisco Pinto da Fontoura cantada por todo o Rio Grande do Sul como seu hino oficial.
Nesta noite de quarta-feira fria, no Rio Grande e em São Paulo, de onde escrevo, nem todos os gaúchos tiveram motivos para cantarolar:
“Mostremos valor, constância
Nesta ímpia e injusta guerra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda a terra”
Foi privilégio destes tricolores – entre os quais me incluo – que nunca entenderam o prazer da vitória sem o sofrimento da batalha. Que precisaram ver sua cidadela por pouco invadida pelos venezuelanos que chegavam na última hora do jogo certos da consagração; que se uniram ao corpo de um valente Rever estendido na área, disposto a qualquer sacrifício para proteger a honra de seu povo, no minuto final; que assistiram a seus guerreiros – Herrera e Tcheco – discutirem porque ambos defendiam as mesmas cores e paixão; para somente então vibrarem com mais uma façanha na Libertadores da América.
O Grêmio, e também o Nacional (me desculpem amigos palmeirenses por lembrar deste uruguaio), são os únicos dos clubes que sobreviveram, até aqui, na competição sul-americana sem sentir o sabor da derrota.
Aos demais gaúchos, restou o verso final da canção rio-grandense:
“Povo que não tem virtude
Acaba por ser escravo”