Avalanche Tricolor: o dia em que o Grêmio voltou a ser Imortal!

Inter 2×3 Grêmio
Brasileiro – Beira-Rio, Porto Alegre/RS

A foto é do mago das lentes: Richard Dücker @ducker_gremio

É difícil até saber por onde começar. Talvez pelas lágrimas que encheram meus olhos no apito final — daquelas que há muito tempo os resultados e o futebol jogado não me proporcionavam. Penso, porém, que seria egoísta começar por esse sentimento tão meu, após uma partida em que a força do coletivo se expressou de forma gigantesca.

Imagino que muitos artigos de jornais e mesas redondas de fim de domingo se dedicarão às decisões do árbitro que marcou três pênaltis contra o Grêmio. Três! Dois deles sequer percebidos em campo. Ainda expulsou Arthur ao reverter o cartão amarelo que ele mesmo havia considerado correto no momento da jogada. Vamos convir: ao fim, as marcações controversas só tornaram nossa conquista ainda maior. Não gastarei mais do que este parágrafo com esse descalabro.

Poderia começar pelo fim de uma sequência de oito Grenais sem vencer — a última vez havia sido em maio de 2023, na Arena, pelo Campeonato Brasileiro, época em que Suárez era nosso craque (3×1). Na casa do adversário, a distância de uma vitória era ainda maior: março de 2022 (0x3). Mas, convenhamos, o que são estatísticas senão números de um tempo que já passou? O passado é referência, eu sei. Mas não é suficiente para explicar a alegria do presente.

Os personagens do clássico deste fim de tarde de pôr do sol exuberante talvez merecessem o destaque inicial desta Avalanche. Carlos Vinícius, que marcou um gol após um ano e meio, logo em seu primeiro Gre-Nal, empatando a partida depois de termos sofrido o primeiro pênalti. E, para tornar tudo mais dramático, saiu lesionado em seguida. Ou André Henrique, o centroavante com a cara da humildade, que apareceu entre os zagueiros e empatou de cabeça após o segundo gol de pênalti deles — eles só fizeram gol de pênalti, né?

Ou Alysson, que precisou de apenas 45 segundos em campo para disparar, driblar os marcadores e mandar a bola no “fundo do poço” (saudade de ti, pai!). Apenas o segundo dele no time principal. O da virada. O da vitória — mesmo com mais um pênalti para eles antes do apito final.

Ou Willian, que estreou no Gre-Nal, participou diretamente dos dois primeiros gols e pode se transformar em peça importante na arrancada final do campeonato.

Ou Thiago Volpi, que fez ao menos três defesas muito difíceis, especialmente no segundo tempo, e impediu o empate quando já estávamos com um a menos. Teve ainda a sorte de ver a bola explodir no poste no último pênalti cobrado pelo adversário. Sim, foram três pênaltis contra o Grêmio!

Caro e cada vez mais raro leitor: começar esta Avalanche pelas minhas lágrimas, pelas decisões do árbitro, pelo fim de uma invencibilidade ou pelo brilho individual de quem vestiu a camisa do Grêmio não seria justo o suficiente para o feito deste domingo.

Se há algo que precisa ser exaltado logo de início é a retomada de uma mística. Aquele fenômeno que nos acompanha ao longo da história. Que surge quando o possível já não basta. Quando tudo conspira contra nós. Porque nada é maior do que o Grêmio, que volta a ser Imortal.

Sim, o Grêmio Imortal é que deveria abrir esta Avalanche. Mas é melhor eu encerrar por aqui, antes que o árbitro marque mais um pênalti contra a gente.

Avalanche Tricolor: o zodíaco não explica o Grêmio

Grêmio 0x1 Mirassol
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS

Arhur comanda o meio de campo em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Sou do tempo em que Zora Yonara era a autoridade em assuntos astrológicos — hoje seria chamada de influencer zodíaca ou algo do tipo. Suas análises eram motivo de conversa nas rodas de amigos, e o melhor a se fazer era prestar atenção no horóscopo do dia, mesmo que eu fosse um descrente. Cada um adaptava o que ouvia à sua circunstância. Fui tentar esse exercício na Avalanche de hoje para explicar o que vem acontecendo com o Grêmio, que voltou a perder em casa e, nesta segunda-feira, dia 15 de setembro, completará 122 anos.

Descubro que nem a astrologia dá conta de explicar o futebol que deixamos de jogar e a sequência de azares que nos perseguem. Pensei que fosse o tal do inferno astral, mas nem isso explica. Esse período, que antecede o aniversário e costuma ser sinônimo de confusão, não daria conta de justificar 18 meses de futebol capenga e resultados inconsistentes.

A última verdadeira alegria que os gremistas tiveram foi o título do Campeonato Gaúcho, em março de 2024. Alguém lembrará da felicidade recente de assumirmos a gestão da Arena, o que já nos garantiu um gramado de qualidade. Vamos convir, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, que por melhor que isso seja — e acredito que seja —, não influenciou em nada na qualidade do futebol apresentado.

O inferno futebolístico do Grêmio atravessa um tempo que nenhuma sabedoria extraterrena poderia prever. Nesse um ano e meio, uma penca de jogadores foi contratada e já estamos no terceiro técnico. Quando nos iludimos com uma contratação, uma lesão frustra as expectativas — caso mais recente do zagueiro Balbuena. Até mesmo jogadores contestados, mas necessários, como Braithwaite, caem vítimas dessa sina de contusões.

Se conseguimos um resultado mais animador, como na rodada anterior contra o Flamengo, logo a realidade nos joga ao chão com uma derrota caseira. Hoje, tivemos de suportar até jogador sendo substituído por engano.

Adoraria estar aqui comemorando a estreia de Arthur que, claramente, tem qualidade para mudar qualquer meio de campo. Mesmo sem entrosamento, mostrou como conduzir a bola com categoria e fazer o passe com precisão. Seria capaz de contagiar seus colegas de trabalho? Já não sei mais. E chega a me dar arrepio sobrenatural imaginar que ele também possa ser abatido por algum problema físico.

Apesar de tudo, insisto em negar a falência da esperança. Tento crer que, ao comemorarmos mais um aniversário nesta segunda-feira e diante de um clássico Gre-Nal — aquele jogo que dizem poder mudar o destino de qualquer clube —, no próximo domingo, sejamos capazes de iniciar um novo e vitorioso ciclo.

No fim, esperar é o que nos resta — e esperar, para o gremista, nunca foi pouco.

Avalanche Tricolor: entre o Sobrenatural e Veríssimo

Flamengo 1×1 Grêmio

Brasileiro – Maracanã, RJ/RJ

Volpi comemora gol de empate. Foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

“Joga-se o futebol de rua mais ou menos como o Futebol de Verdade” — escreveu Luis Fernando Veríssimo.

Impossível começar um texto, hoje, que se atreva chamar de crônica, sem buscar referência em Luis Fernando Veríssimo, escritor gaúcho que se despediu de nós, neste fim de semana. Ainda mais em um domingo em que o Grêmio desafiou a lógica e empatou com o Flamengo, no Maracanã. Veríssimo, colorado confesso, talvez não comemorasse o resultado, mas com certeza entenderia o improvável — afinal, quem melhor do que ele para traduzir um jogo em que o “ruim que vai para o gol”, como dizia no texto “Futebol de Rua”, vira o herói da noite?

O dia começou com desconfiança. Confesso que temi um desastre desde o início da semana, ainda mais depois da goleada histórica do nosso adversário na última rodada, no Brasileiro. O Grêmio anda claudicante, sem confiança, e vínhamos de um empate em casa contra um time que estava tão mal classificado quanto nós. Nem a Velhinha de Taubaté, personagem crédula de Veríssimo, acreditaria em outro resultado que não fosse o fracasso.

Enfrentar um gigante, dentro de um estádio gigante, lotado por uma torcida gigante, era tarefa hercúlea. Bastaram 18 segundos para que as piores previsões começassem a se desenhar, com o primeiro chute contra o nosso gol. Mal tocávamos na bola e, quando tocávamos, era só para despachá-la o mais longe possível de nossa área. E comecei a dar razão à estratégia: cada tentativa de passe curto se perdia no meio da pressão adversária.

A defesa, no entanto, se virava como podia. O Flamengo envolvia: toque rápido, dribles pela esquerda e pela direita, cruzamentos que vinham de todos os lados. Nossos marcadores — os onze que estavam em campo — espantavam o perigo do jeito que dava. A despeito da superioridade do oponente, fomos para o intervalo com um honroso zero a zero.

O segundo tempo foi estonteante. Vieram os escanteios, um atrás do outro. As defesas impossíveis de Tiago Volpi. A sensação era de que só o Cristo Redentor poderia nos salvar – foi quando lembrei que ele é carioca. Até que, em um raro contra-ataque, em que cheguei a pensar no impossível, mostramos por que estamos tão mal na tabela: o passe errado, a transição lenta e a defesa desorganizada. Para o nosso azar, a bola sobrou para um dos goleadores do campeonato — e o Flamengo abriu o placar. Ali, parecia que restava torcer apenas por uma derrota magra.

Mas o futebol, felizmente, adora contrariar previsões. Foi quando um outro personagem da crônica esportiva brasileira entrou em campo. Claro que não seria obra de Veríssimo — ele jamais evocaria uma de suas criaturas para ajudar o Grêmio. Foi o Sobrenatural de Almeida, de Nelson Rodrigues, um tricolor carioca assumido, que resolveu dar uma força. Entregou a Pavón, que havia errado tudo até então, a chance de se redimir: cavar um pênalti na tentativa de cruzamento.

E, em um time que sofre para chegar ao gol, o Grêmio recorreu ao talento improvável de um goleiro. Negando a escrita — ou o escrito por Veríssimo —, Tiago Volpi bateu o pênalti com a frieza de um centroavante e silenciou o Maracanã.

O empate coloca o Grêmio na terceira partida sem derrota no Brasileiro. Ficamos um pouco mais longe daquela zona — você sabe qual — e, incrédulos e crentes, vimos o time conquistar mais um resultado positivo fora de casa: vitória contra o Atlético Mineiro, empate com o Flamengo.

Por mais problemas que tenha, o Grêmio insiste em me surpreender. E, lá do céu, desconfio que Verissimo está sorrindo. Não pelo empate — colorado que era —, mas porque só ele saberia explicar como o futebol de rua, o da pelada, o do improvável, às vezes se sobrepõe ao tal Futebol de Verdade.

Avalanche Tricolor: a ilusão interrompida

Grêmio 0x0 Ceará
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Alysson parte para o ataque. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

A única coisa que buscava na noite deste sábado era a ilusão de emendar uma segunda vitória seguida no Campeonato Brasileiro. Depois dos três pontos fora de casa, da maneira como foram conquistados semana passada, a expectativa de mais três era até natural. O adversário estava no meio da tabela e o jogo era na Arena, diante da torcida. A vitória, mesmo com sabor de “me engana que eu gosto”, saciaria meus desejos.

O Grêmio atual, porém, não me deixa iludir. A todo instante faz questão de mostrar a que veio nesta temporada. Joga na cara o que não queremos acreditar. Na troca de passes sem convicção, na transição claudicante para o ataque, nos cruzamentos sem destino e nos raros chutes a gol, expõe suas fragilidades.

Nesta fase, o reforço que chega com cara de solução sofre lesão — vide o ocorrido com Balbuena. Os jovens que se anunciam com talento não conseguem ir além de alguns momentos de lucidez — como no futebol esforçado de Alysson e Riquelme. A bola que se apresenta para o gol é desperdiçada, como aquela que André Henrique perdeu quase dentro da pequena área. Somos uma sucessão de lances fortuitos e bolas sem rumo.

Como me disse um amigo confidente — gremista, gaúcho e jornalista como eu, parceiro de tantas pitangas tricolores —, o Grêmio apenas resgatou o seu “verdadeiro futebol”.

Avalanche Tricolor: uma vitória a Fernandão

Atlético MG 1×3 Grêmio
Brasileiro – Arena MRV, Belo Horizonte MG

Balbuena comemora o gol da virada. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

17 de agosto de 2025. Guarde essa data, torcedor gremista! Tende a ser definitiva nos destinos do Grêmio, nesta titubeante temporada que estamos encarando. Para o calendário futebolístico, é o início da metade final do Campeonato Brasileiro. Um momento crucial para as pretensões de qualquer clube, em especial daqueles que, como nós, estão na parte de baixo da tabela. Se há um momento de reação, a hora é agora. E o Grêmio reagiu!

Lá em Minas, em momento de extrema tensão e pressão, superou-se e venceu de virada o adversário que contava com o apoio maciço de sua torcida. O Grêmio foi a campo depois de ter sido alvo de injustificáveis agressões por parte de um grupo violento de pessoas que se identifica como gremista. Esses trogloditas, que têm de ser expulsos da Arena e do clube, se sócios forem, invadiram a área reservada à delegação no aeroporto Salgado Filho, antes do embarque para Belo Horizonte. Atacaram o ônibus, ameaçaram agredir os jogadores e feriram Luis Fernando Cardoso, conhecido como Fernandão, segurança do Grêmio e da seleção brasileira.

Fernandão é uma dessas personagens que surgem no futebol e ganham destaque sem precisar entrar em campo ou jogar bola. Seu caráter e a excelência do seu trabalho se expressaram ao longo do tempo. Está onde o Grêmio estiver — menos neste fim de semana, quando precisou ficar em Porto Alegre, afastado pela violência da qual foi vítima. Seguidamente é visto na beira do gramado na saída dos jogadores; sempre que aparece alguma treta no caminho para os vestiários, lá está ele para proteger a todos. Ao contrário do que possa estar no imaginário de qualquer um de nós, é o tipo de segurança que está lá para cuidar das pessoas, não para agredir.

Lembro do carinho com que Fernandão tratou meu pai quando fomos à Arena do Grêmio comemorar seus 80 anos de vida. No fim da partida, estávamos a caminho do vestiário, onde o pai receberia de presente uma camiseta do tricolor, das mãos da diretoria e da comissão técnica. Fomos parados em uma das barreiras necessárias para controlar a movimentação de pessoas. E, sem que precisássemos dizer uma só palavra, assim que ele percebeu a presença do pai fez questão de se dirigir até nós e pedir licença a todos para que dessem passagem ao que ele tratou como uma lenda do jornalismo esportivo: “este é o grande Milton Ferretti Jung”. Um ato singelo que ficou no coração de todos nós.

Fernandão já deverá estar de volta à ativa para receber a delegação que chegará em Porto Alegre com uma rara vitória fora de casa na bagagem. Rara e muito importante, especialmente pela maneira como foi construída. Havia uma aparente consistência defensiva quando tomamos o primeiro gol — e como temos levado golaços nestes últimos tempos.

Parecia que estávamos prestes a assistir a mais uma derrota. Porém, sem desistir, conseguimos o empate ainda no primeiro tempo, com Edenilson cabeceando para as redes depois de uma cobrança de escanteio. No segundo tempo, mais uma vez, de uma bola que veio do escanteio, Balbuena aproveitou a sobra e virou o placar a nosso favor. Receosos — gato escaldado tem medo de água fria — só acreditamos que a vitória seria nossa após Aravena completar nas redes uma assistência de André Henrique, a partir de jogada iniciada por Riquelme no meio de campo.

Essa vitória — e por isso convido você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, a registrar a data de hoje — pode ser o ponto de inflexão que o Grêmio precisava para se recuperar de uma temporada ruim. Que seja também uma vitória dedicada ao Fernandão, símbolo de proteção, caráter e resistência gremista.

Avalanche Tricolor: com os olhos mais velhos e abertos

Fluminense 1×0 Grêmio
Brasileiro – Maracanã, RJ/RJ

Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Foi um fim de semana de reencontro, abraços e presença da família. Completei 62 anos, na sexta-feira, e recebi a visita dos meus parentes de Porto Alegre. Um deles, meu irmão, ainda mora na casa da Saldanha, onde praticamente nasci. É o endereço vizinho ao saudoso estádio Olímpico, ambos parte de um território afetivo que ainda pulsa em mim — cenário de muitas das minhas histórias da infância e adolescência, algumas já confessadas nesse espaço.

Brinquei nas calçadas da Saldanha, joguei taco, bola de gude e futebol; andei de bicicleta, pulei corda (sempre desajeitado) e fiz mais um monte dessas coisas comuns para a época. O trajeto até o estádio, sem precisar da companhia dos pais, era sinal de autonomia, mesmo que a distância não fosse grande. Considerando que no início nem atravessar a rua era permitido, quando fui autorizado a ir ao Olímpico sozinho era como se tivessem expedido minha carteirinha de “gente grande”.

No Olímpico, vivenciei momentos marcantes. E não estou falando apenas das emoções dos dias de futebol. Fiz amizades, tive aprendizados, amadureci nas perdas e me lambuzei nas conquistas. Uma série de situações com as quais me deparei jogando futebol e basquete, mas, também, conversando com pessoas mais velhas, compartilhando confidências com mais jovens e observando o comportamento humano.

Parcela do que sou depois de mais de seis décadas de vida foi construída por lá. Isso explica por que o Grêmio se tornou tão importante para mim. Por outro lado, o tempo me fez trocar o fanatismo insano pela paixão racional. Gritava com o juiz antes mesmo do apito, encontrava um culpado externo para cada tropeço em campo e acreditava que bastava vestir a camisa para vencer. Hoje, continuo fanático — não perco um jogo, sofro a cada passe errado, vibro com cada gol. Mas minha paixão ganhou um contorno mais racional. Passei a entender melhor o que somos capazes de entregar, a reconhecer as limitações do time e a aceitar que, muitas vezes, a culpa não está lá fora, mas dentro de casa. Sigo acreditando, mas com os pés no chão e os olhos abertos.

E o que vi na noite de sábado, no Maracanã, me deixou pouco confiante em relação ao que podemos alcançar nas próximas rodadas do Campeonato Brasileiro — que as mudanças ocorram o mais breve possível. Consola saber que, na sala de casa, aqui em São Paulo, de onde assisti ao Grêmio, eu estava cercado pela família que veio comemorar meu aniversário.

Avalanche Tricolor: vitória a se comemorar!


Grêmio 2 x 1 Fortaleza
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Braithwaite comemora em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Vitória é bom. E eu gosto!

Se veio no sufoco, contra um time da parte de baixo da tabela… que diferença faz? Não estamos em posição de escolher adversário nem estilo de jogo. O Grêmio precisava pontuar — e pontuou. Três pontos na conta, o suficiente para afastar, ao menos por ora, aquele fantasma que ninguém quer nomear.

Pelo jeito, vai ser assim mesmo: jogo a jogo, com o coração na mão. Até que os reforços cheguem e o time encontre algum encaixe, vale a velha máxima: se der pra ganhar, ganhe; se não der, empata. E se perder… levanta, sacode a poeira e tenta de novo.

Houve quem lembrasse dos dois pênaltis logo no início, mas foram fruto de jogadas construídas com velocidade, inteligência e precisão — algo que andava em falta por aqui. Mérito de quem armou, mérito de quem correu, e mais ainda de Braithwaite, que cobrou com a frieza dos artilheiros de verdade.

Levamos um gol, sim, mais uma vez pelo alto. E isso já virou trauma. Mas desta vez não desabamos. Houve equilíbrio na marcação — apesar das trapalhadas de sempre, que insistem em colocar à prova o nosso coração tricolor.

Jogamos com o que temos. E com o que temos, fomos suficientes.

Quando virá a próxima vitória? Ninguém sabe. Por isso mesmo, hoje, a gente comemora.

Avalanche Tricolor: triste resignação


Palmeiras 1×0 Grêmio

Brasileiro – Allianz Parque, São Paulo SP

Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Levamos o gol aos três minutos. Três. Era como se o destino quisesse deixar tudo às claras desde o início. Nenhuma surpresa, nenhum suspense — apenas a exposição cruel da nossa fragilidade. O adversário nem precisou se esforçar tanto. Nós nos entregamos cedo demais, como quem esqueceu como se luta.

E, ainda assim, o que se viu depois foi um desastre controlado. A derrota por apenas 1 a 0, diante do que se desenhava, quase soou aceitável. E isso é lamentável. Porque quando passamos a tratar a derrota como alívio, é sinal de que algo se partiu por dentro — e nem ouvimos o estalo. Não fui forjado gremista para me sentir assim.

A noite teve cheiro de resignação. E ela pesa mais do que a própria derrota. Se arrasta, silenciosa, e ocupa os espaços antes preenchidos por fé, por brio, por teimosia. E, convenhamos, torcer pelo Grêmio sempre exigiu um pouco de teimosia. Uma dose de esperança irracional, dessas que desafiam a lógica mesmo nos momentos mais sombrios.

Preocupante é ver jovens como Riquelme, Igor, Alysson e Jardiel nesse campo minado. Eles carregam talento, energia, vontade — mas enfrentam um ambiente que, em vez de impulsioná-los, ameaça engoli-los. Um clube fragilizado pode afundar até o que tem de mais promissor. A história está cheia de promessas que não resistiram ao caos.

Mas talvez — talvez — seja justamente nesses nomes que more nossa esperança. Se não forem amparados agora, correm o risco de sucumbir. Mas se forem fortalecidos, protegidos e colocados no centro de um projeto real de reconstrução, podem representar não só o futuro, mas o presente do Grêmio. Talvez seja hora de parar de esperar que os veteranos resolvam o que já não sabem mais resolver — e apostar na coragem de começar de novo, de baixo, com quem ainda tem fome e futuro.

Aceitar as fraquezas não significa se conformar com elas. Reconhecer que estamos frágeis é o primeiro passo para reconstruir. E se há algo que não podemos perder, é a teimosia de acreditar. Porque teimar também é amar.

Avalanche Tricolor: terapia para tempos difíceis

Grêmio 1×1 Alianza Lima
Sul-Americana – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Escrevo pouco antes de começar mais uma sessão de terapia. Retomei os encontros com a psicóloga em meio à pandemia, depois de alguns anos distante da análise. Sou adepto da ideia de que não precisamos, necessariamente, apresentar problemas aparentes para nos submetermos ao escrutínio de um profissional da mente humana. Revisões de pensamento e comportamento devem ser constantes, especialmente diante da velocidade com que o mundo se transforma ao nosso redor.

Antes que a psicóloga me chame — sim, as minhas sessões são virtuais —, decidi “pagar a conta” dessa Avalanche, que originalmente era publicada minutos após o apito final do árbitro. Era a oportunidade de enaltecer os feitos e relativizar os defeitos do Grêmio ainda na emoção da partida recém-encerrada. Desde sempre defendi a ideia de que não caberia, neste espaço, a crítica exagerada do torcedor da arquibancada, muito menos o ataque virulento a jogadores que, por ventura, não estivessem à altura da nossa camisa. Foi graças a essa intenção que fui convidado, no passado, a republicar meus textos em um blog de gremistas — perdi o espaço quando o titular do blog arrefeceu diante da incapacidade de resistir aos ataques que a polarização que vivemos provocou em sua saúde mental. Uma pena!

Há algum tempo, especialmente devido aos meus compromissos profissionais, não tenho cumprido com a proposta inicial e as Avalanches passaram a ser publicadas quando encontro espaço na agenda. Escrever logo após os jogos me ajudava a distensionar, expressando minhas emoções, nomeando meus sentimentos e buscando, sempre que possível, justificativas para o que assisti em campo — especialmente nos momentos mais difíceis do nosso time (momentos como os atuais). Era uma terapia. Mais recentemente — e isso não começou neste ano — tenho me revelado mais amargurado do que gostaria. Alguns comportamentos do clube e de seus integrantes passaram a me incomodar, e perdi em parte a ilusão que sempre me moveu.

Este ano não tem sido fácil para os torcedores gremistas. Os resultados em campo estão aquém do que buscávamos (não me atrevo a escrever “aquém do que merecemos”). Perdemos o Campeonato Gaúcho, fomos eliminados da Copa do Brasil e, agora, da Sul-Americana, que já era um consolo por não termos conseguido, no ano passado, vaga na Libertadores. Levantar a Recopa Gaúcha, convenhamos, não leva ninguém a desfilar com a bandeira na Goethe (o pessoal ainda vai para lá, caro e raro leitor?).

A persistirem os sintomas, nossas pretensões no Campeonato Brasileiro serão bastante humildes — e humildade não costumava vestir nossa camisa, considerando a alcunha de Imortal. A não ser que alguma contratação extraordinária ocorra na próxima janela de transferências, será heroico se alcançarmos vaga na pré-Libertadores. A partida de ontem à noite, na Nossa Arena (com letras maiúsculas porque agora temos estádio próprio), foi uma demonstração de que existe uma limitação técnica que nos distancia das vitórias. Claramente, o time fez um esforço brutal para alcançar o resultado que nos classificaria às oitavas de final da Sul-Americana. Difícil apontar o dedo para algum jogador que não tenha se redobrado em campo para dar a fugaz felicidade que buscávamos em uma data tão especial para a história do clube. Mesmo assim, faltaram em muitos momentos o passe apurado, o deslocamento necessário e o chute certeiro ao gol adversário. Jogar futebol tem sido uma sofrência para os nossos jogadores.

A comemorar, apenas a retomada da Arena, com uma estratégia de compra e doação que ainda causa desconfiança — principalmente entre aqueles que buscam na lógica uma explicação que só o coração de um torcedor (bilionário) é capaz de justificar. Escrevi recentemente sobre o significado da atitude do empresário Marcelo Marques e de como a ideia de sermos donos do próprio estádio mexe com as emoções de um torcedor que, desde pequeno, pulava nas arquibancadas de cimento do Olímpico. A presença de mais de 40 mil torcedores na noite de ontem, em Porto Alegre, mostrou o orgulho que temos desse momento — sentimento que é confrontado com a frustração dos resultados em campo.

Terminei a partida com a impressão de que o Grêmio tem uma torcida e tem um estádio. Precisa, agora, de um time. A partir de agora, sermos competitivos e estarmos na disputa por títulos será uma exigência não apenas porque nos acostumamos com os grandes feitos ou pela dimensão do Grêmio na história do futebol. É improvável que a engenharia financeira criada para termos a Nossa Arena se sustente diante de desempenhos pífios da equipe — o que seria uma decepção sem tamanho.

Precisamos urgentemente nos desvencilhar da armadilha que criamos ao acreditarmos na imortalidade futebolística. De que tudo se realizará por obra divina. Se algo conquistamos, mesmo em momentos dos mais árduos, é porque fizemos por merecer. Recentemente, deparei com um pensamento que compartilho com você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, extraído do excelente Imortalidades, de Eduardo Giannetti:

Crer e ser — Crer-se imortal não torna imortal; ignorar-se mortal não torna imortal. Crer-se mortal não torna mortal; ignorar-se imortal não torna mortal. Fleumático ou sanguíneo, rebelado ou reconciliado, não importa: o mesmo faz quem se crê ou ignora. O que será, será.

Depois dessa, acho melhor me preparar, porque a sessão de terapia está para começar.

Avalanche Tricolor: que os deuses nos perdoem

Vasco 1×1 Grêmio
Brasileiro – São Januário, Rio de Janeiro/RJ

Gustavo Martins comemora gol, em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Havia depositado minhas esperanças na interrupção das partidas devido à Copa do Mundo de Futebol da Fifa. Imaginei que seria a oportunidade de o time se reorganizar, recuperar fisicamente seus jogadores e permitir que Mano Menezes descobrisse uma fórmula que fizesse os escalados oferecerem o que tivessem de melhor. Porém, desde que o calendário foi retomado, com exceção daquela vitória na Recopa Gaúcha, estamos em dívida com o futebol.

Goleado na volta do Campeonato Brasileiro e tendo colocado em risco a sequência na Sul-Americana, depois de perder a primeira partida do play-off por 2 a 0, cheguei a imaginar que hoje teríamos alguma felicidade à disposição. Apesar de estarmos jogando fora, tínhamos um adversário também fragilizado e poderíamos tirar vantagem da tensão que vinha das arquibancadas. Ledo engano!

Tivemos de contar com o excelente desempenho de Tiago Volpi — que evitou mais um desastre —, com a visão milimétrica do VAR — que anulou um gol ainda no primeiro tempo —, e com o voluntarismo de Gustavo Martins.

O guri, que está prestes a completar 23 anos (11/08), é zagueiro de origem e tem sido improvisado para resolver a ausência de nossos laterais direitos. Geralmente se destaca dentro da área adversária nas cobranças de escanteio e de falta. Foi dele o gol que nos levou à final do Campeonato Gaúcho, resultado de uma bicicleta já nos acréscimos. Hoje, no início da partida, Martins havia arriscado lance semelhante, mas a bola foi por cima da goleira.

Quando já estávamos perdendo e sob o risco de vermos o placar se ampliar, foi novamente Gustavo Martins quem apareceu para nos salvar (e veja só: uso o verbo “salvar” para um gol de empate). Depois de uma cobrança de falta do lado esquerdo, afastada pela defesa, Pavon ficou com o rebote e cruzou para dentro da área, encontrando nosso zagueiro-lateral entre os marcadores. Gustavo Martins fez de cabeça o gol que evitou a derrota.

André Henrique, que entrou no segundo tempo, quase conseguiu o gol da virada ao aproveitar um lançamento da nossa defesa que acabou batendo no travessão. Para um time que ofereceu tão pouco e foi dominado na maior parte do jogo, seria um prêmio imerecido (apesar de que eu ando aceitando qualquer coisa positiva que venha do campo).

No meio da semana, o torcedor gremista haverá de fazer sua parte enchendo as arquibancadas para comemorar a nova relação do clube com o seu estádio. Quero crer que o time entenderá a relevância deste momento e o que significará iniciar esse capítulo da nossa história com uma vitória capaz de nos levar à próxima fase da Sul-Americana.

Que os deuses do futebol nos perdoem pela escassez de talento e, ainda assim, nos abençoem neste encontro com a “Arena, verdadeiramente, do Grêmio”.