A coluna esportiva menos imparcial da blogosfera é dedicada ao Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense e tem textos escritos no calor da emoção, logo após o encerramento das partidas do Imortal Tricolor ou a qualquer momento em edição extraordinária.
Tudo muito estranho para mim, confesso. Até no uniforme. A camisa é a recém-lançada, que deveríamos ter usado pela primeira vez naquela competição que você-sabe-qual. Pelo que percebo, a atual é baseada em um modelo dos anos 20 —- a retrô está no memorial aqui de casa, ao lado da camisa autografada por Danrlei e Geromel. A combinação com o calção branco ficou estranha. Sem marca. Sem alma. O que não tem a menor importância, eu sei. Uniforme não ganha jogo. Nem perde.
Senti estranheza, também, na figura ao lado do campo. Vou precisar me acostumar. Foram quatro anos e meio acompanhando Renato, suas caras e roupas. Tiago Nunes tem outro estilo — até no jeito de se vestir. Ainda é estrangeiro no ambiente tricolor, mesmo que tenha se esforçado para revelar intimidade nas primeiras palavras como técnico do Grêmio. Nada que o tempo e os resultados não superem.
O que mais me preocupou foi a estranha marcação dentro da área a cada cobrança de escanteio. Todo mundo parecia deslocado, sem saber qual função exercer, enquanto os adversários desperdiçavam gols atrás de gols.
Ouvi os entendidos na televisão dizerem que Renato gostava da marcação individual e Tiago quer marcar por zona. Que zona foi aquilo?!?
Ver a estatística no intervalo da partida e descobrir que o adversário teve 60% de posse de bola também foi esquisito —- especialmente porque nos últimos anos assistimos ao Grêmio jogar com a bola de pé em pé, às vezes além do necessário. Espero que tenha sido apenas circunstância do momento e quando o time entender o que o técnico quer, volte a dominar o campo de jogo. Ou será que eu também vou ter de me acostumar com isso?
Nada mais estranho, porém, do que a partida em si, na qual fizemos um jogo mediano e conquistamos a vitória em cinco minutos, após um pênalti bem cobrado (mesmo que mal assinalado), uma patacoada do goleiro adversário (e a gente não tem nada a ver com isso) e um belo chute de Vanderson que colocou o Grêmio com uma ótima vantagem no primeiro tempo: 3 a 0. Tão boa vantagem que mesmo a sequência de erros no segundo tempo não nos tirou a liderança do Campeonato Gaúcho ao fim de mais uma etapa classificatória.
Aliás, se tem coisas que não me causaram estranheza na noite deste sábado, foi ver o Grêmio, tricampeão, chegar como líder ao mata-mata do Campeonato Gaúcho, e saber que, ao fim de 66 partidas disputadas, os finalistas da competição são as duplas Gre-Nal e Ca-Ju. Estranho é saber que insistimos nessas fórmulas desgastantes para alcançarmos praticamente os mesmos resultados.
Gol de Diego Souza em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
Foi o locutor oficial da transmissão de TV da Conmebol* quem disse que o Grêmio combina com Libertadores — e não tenho dúvida que os torcedores pensamos da mesma maneira. No entanto, os resultados deste início de temporada não nos deram a oportunidade de manter a escrita dos últimos anos —- ahh, que falta fez aquele gol mal-anulado e sem VAR da fase preliminar. Com tudo isso, tivemos de encarar nesta quinta-feira à noite a estreia na Sul-Americana.
O Twitter oficial da Conmebol também tinha um tom de “que-falta-você-faz”. E foi quem me alertou para o fato de que há nove anos não disputávamos essa competição. Neste 2021, porém, é a Copa que temos para jogar. E uma Copa que começa diferente porque trocou a disputa de mata-mata por uma fase de grupo bastante rígida, jque apenas o primeiro colocado segue em frente. Ou seja, já que é para jogar que seja a mais difícil de todas as edições.
E jogamos razoavelmente bem para um time que ainda precisa se acostumar com essa realidade e passa por uma transformação dentro e fora de campo. Thiago Gomes, com H, tem feito às vezes de treinador do time principal enquanto aguarda que Tiago Nunes, sem H, assuma o lugar que é de Renato Portaluppi —- não pense que usei o verbo ser no presente por acaso.
Thiago, com H, comandou o time em três partidas, duas delas pelo Campeonato Gaúcho e fez, hoje, sua estreia em uma competição sul-americana. Soube manter a equipe com o que tinha de melhor à disposição, usando os dois principais reforços deste início de temporada —- ambos escolhidos por Renato. E mantendo o estilo de jogo que nos colocou entre os melhores do Brasil e da América nos últimos anos.
Diego Souza marcando um gol atrás do outro, além de dar assistência —- como no segundo, feito por Paulo Miranda —- foi o melhor da partida, na escolha da equipe técnica da Conmebol que, confesso, não tenho a menor ideia de quem seja nem como faz sua escolha. O atacante que Renato buscou para o time no ano passado, apesar das críticas, cumpre seu papel, é o goleador do time e ainda nos acrescentou qualidade na bola aérea. Com os cruzamento de um cada vez mais destemido Ferreirinha por um lado e de Rafinha pelo outro, Diego Souza tem tudo para consagrar-se como o artilheiro que é, em mais uma temporada.
Aliás, Rafinha, outro nome da safra recente de Renato, que muitos entendiam que era desnecessário, já mostrou seu talento nas poucas partidas que disputou.
Com a braçadeira de capitão, apesar de recém-chegado, o que revela a personalidade do lateral direito, Rafinha deu qualidade na bola que vem de trás. E tem um cruzamento para área que chama atenção. Nossas cobranças de escanteio voltaram a nos dar esperança de gol —- há muito tempo deixamos a desejar e desperdiçamos essas oportunidades com bolas curtas ou lançadas sem rumo para a defesa cortar.
Outro nome a quem devo elogios é ao de Thiago Santos, com H. Volante de profissão, marca com precisão, combate o adversário e rouba a bola em quase todas as investidas. Ao contrário do que os detratores tentaram impor —- sim, fizeram campanha na internet e acusaram mais uma vez Renato de fazer más escolhas —-, sabe sua função dentro do time, é bastante útil para uma equipe que precisava retomar sua característica guerreira no meio de campo e servir de contraponto ao futebol leve que nos faz chegar com toque de bola no ataque.
Foi ao estilo Renato, travestido de Thiago Gomes, que conquistamos os três primeiros pontos na Copa, mesmo tendo que sofrer parte do jogo com um a menos em campo, a medida que Rodriguez foi, justamente, expulso. Agora, com o time líder no Campeonato Gaúcho e vitorioso na estreia da Sul-Americana, o bastão passa às mãos de Tiago Nunes.
Quanto a você, caro e raríssimo leitor desta Avalanche, se gremista for como eu, caberá se acostumar com um novo estilo de técnico. Assim como com essa competição que não era a que sonhávamos, mas é a que estamos disputamos. E se é o que temos, ganhemos!!!
Foram-se cinco dias, dois jogos, um empate ‘oxo’ e uma vitória categórica desde a última vez que estive com você, caro e raro leitor desta Avalanche. Pelo ritmo acelerado com que se disputam partidas de futebol em um país paralisado pela pandemia, para quem esteve acostumado a dizer o que pensa e sente assim que a bola para de rolar, a distância entre o texto da quarta-feira passada e este é uma eternidade.
Deixei o tempo fluir para ver se absorvia melhor a saída de Renato Portaluppi, técnico mais longevo do futebol brasileiro e prestes a completar cinco anos no comando da equipe. Na versão oficial, foi comum acordo. Alguns dizem que ele foi demitido. Há os que compraram a ideia de que ele se demitiu.
Como permito que a ilusão domine meus pensamentos quando o assunto é Grêmio, insisto em acreditar que Renato, do alto da sua majestade, sacrificou-se em nome do time do coração. Vendo que havia divergências internas na direção e externas na torcida, preferiu se afastar da Arena para que as diferenças não causassem uma cisão sem retorno no clube. Porque ele haverá de retornar.
Mesmo com a noção de que muitas das coisas que escrevo ou penso nesta Avalanche estão mais sintonizadas com os meus desejos do que com a realidade —- repito: aqui me dou o direito à ilusão —-, ninguém minimamente saudável da mente e da boa-fé há de negar o que Renato representa para o Grêmio.
E digo isso, ciente do que pensava dele no início de sua carreira como jogador, época em que sua posição não era incontestável e a pressão pela sua escalação como titular, em 1982, foi um dos motivos do afastamento de Ênio Andrade do comando do time. Seu Ênio foi campeão brasileiro, em 1981, e vice, em 1982, pelo Grêmio —- este título, aliás, foi o que levou o time para a Libertadores de 83, que nos rendeu a primeira conquista sul-americana e o Mundial. Era amigo íntimo do pai, a quem confidenciava coisas dos bastidores da vida e do Olímpico e dividia garrafas de whisky, no bar que ficava atrás do campo suplementar. Adotei-o como padrinho pela intervenção famíliar que fez em momento dos mais difíceis na minha vida escolar. A saída do Seu Ênio me entristeceu e fez maldizer os responsáveis pelo ato —- Renato estava na lista.
Alguns poucos anos depois, —- já incontestável e campeão do Mundo — Renato foi um dos responsáveis pelo rumo que tomei na carreira. Um dia conto de forma mais detalha esse caso se é que você está interessado. Pra resumir: foi diante de uma negativa dele em ser entrevistado e uma fuga dos microfones, flagrada e estampada no jornal Zero Hora, que me levou a rever o interesse pela cobertura esportiva. Dia seguinte, pedi para ser transferido do esporte para o departamento de jornalismo —- e isso mudou minha vida, não sem antes reforçar minha bronca com o ídolo.
O tempo nos ajuda a enxergar melhor o que aconteceu. A mente é seletiva e distorce nossas lembranças. Passamos a armazenar imagens que nunca se realizaram e histórias que não foram contadas. As transformamos em nossa verdade. Acreditamos no que que queremos acreditar. E, em particular, prefiro guardar no coração o que me causou amor e esquecer meu rancor — tomara que com você também seja assim, Renato.
Renato construiu sua história. Fez o Grêmio maior do que era. Não o fez sozinho, mas fez. E com o Grêmio se fez grande, também. Fim dos tempos de jogador — em que os pés, o corpo e o coração se expressavam com talento nos gramados ——, assumiu o papel de treinador — que exige inteligência e criatividade, méritos da mente. Na casamata, sempre que passou pelo time, deixou sua marca vitoriosa, revelando-se então completo.
Na primeira, em 2010, nos elevou de uma constrangedora posição na zona de rebaixamento para a disputa de vaga na Liberadores. Na segunda, em 2013, foi vice-campeão brasileiro. E na terceira …. bem, esta acho que você ainda não esqueceu. Conquistou todos os mais importantes títulos desta década, do Tri-Gaúcho a Libertadores. Foi campeão da Copa do Brasil, da Recopa Sul-americana e da Recopa Gaúcha. Além de troféus, criou uma nova maneira de o Grêmio jogar futebol —- indo muito além da paixão e do coração, que sempre o moveram —, que encantou os críticos pelo Brasil.
Um cara que nos deu a chance de ser transformado em lenda ainda em vida —- coisa rara nas relações efêmeras que costumamos ver na sociedade contemporânea. A estátua na esplanada da Arena do Grêmio, no Humaitá, foi apenas a materialização de algo que já estava construído no coração de cada gremista. Lá permanecerá como permanece na nossa memória a revolução que Renato causou sempre que esteve em campo ou ao seu lado, em nome do Grêmio.
Por tudo isso e por tantas outras coisas que não tenho habilidade para escrever ou memória para lembrar, para mim é difícil entender a saída de Renato neste momento, quando caberia a ele —- e poucos terão essa capacidade —- administrar o novo ciclo que estamos iniciando, após assistirmos à passagem da geração vitoriosa que conquistou a América.
A mudança que se faz necessária somente é possível com alguém forte o suficiente para resistir a pressão pelos tropeços inevitáveis no processo de reconstrução de um time. Quem assumir terá a mesma responsabilidade —- tenho dúvidas se terá a força de Renato diante da adversidade. Torço para que seja blindado pela diretoria, co-responsável pelo que vier acontecer. E que tenha a tolerância do torcedor, algo raro nesses tempos em que os intolerantes contaminam as relações com suas palavras de ódio.
A me consolar, a alegria que tenho até hoje na mente — e essa não esquecerei jamais —- de Renato ter comandado o time que me fez sorrir e vibrar abraçado aos meus dois filhos (guris, o que foi aquela noite em Al Ain, nos Emirados Árabes?!?); e me permitiu compartilhar com o pai nossas últimas comemorações em vida pelo Grêmio, clube que ele me ensinou a amar.
Renato sai da casamata e abre espaço no vestiário para que alguém assuma a responsabilidade de manter no elenco e nos torcedores aquilo que ele resgatou logo que chegou em 2016: o prazer pelo futebol bem jogado e pelo título conquistado. Vai embora sem dizer adeus, porque de Renato jamais iremos nos despedir. No máximo, arriscamos um “até logo!”; quem sabe, “até breve”. Porque Renato não sai do Grêmio nem o Grêmio jamais sairá de Renato. Somos eternos. Imortais!
“A questão não é quantas vezes você cai mas quantas vezes você levanta”
Ouvi essa adaptação da frase de Rocky Balboa, personagem das lutas de boxes do cinema, de um dos meus filhos, no bate-papo do café da tarde, Sei lá porque surgiu o assunto, talvez premonição para o que aconteceria à noite. Provavelmente apenas coincidência. Com certeza, inspiração para essa nossa conversa marcada pela frustração de estarmos fora da Libertadores 2021 — fato raro na história gremista, especialmente nesta última década em que fomos campeões, em 2017, e por oito vezes disputamos a mais importante competição das Américas.
A queda não veio em um lance, por mais que os algozes de plantão queiram apontar o dedo para um ou outro jogador. Ela ocorre aos poucos. E é coletiva. Em um gol marcado e mal anulado —- refiro-me ao da primeira partida, lá no Paraguai. Em um, dois e três gols perdidos na cara do goleiro —- claro, que falo do que assistimos na partida de hoje. Na ausência de jogadores importantes ou na presença de outros tão importantes quanto mas sem a necessária condição física. Na dificuldade para montar um time com o talento que necessitamos.
Perde-se uma classificação até mesmo antes disso. A obra de hoje começou a ser construída na campanha claudicante do ano passado (que se encerrou apenas neste 2021). Na perda de pontos que nos colocariam facilmente na Libertadores, sem precisar passar por essa fase preliminar e perigosa, em que tivemos de disputar uma “final” em começo de temporada.
A derrota somente não será maior, se for pedagógica.
Semana passada escrevi que “na Libertadores é preciso até saber perder”. E o Grêmio, com todas as dificuldades (e, repito, um gol muito mal anulado) soube perder na medida certa — inclusive marcando fora de casa, o que lhe daria a classificação com uma vitória simples. Na Arena, começou na frente, dominando e superior em campo — mas não soube vencer. Jogou fora a vantagem que tinha e sucumbiu a qualidade técnica do adversário. E eis aqui mais uma lição a ser aprendida: admitir quando do outro lado havia uma força maior.
É preciso aprender com o revés deste início de temporada e lembrar que surge uma oportunidade rara que é a de ganhar tempo para treinar e se dedicar àquela que é a principal competição nacional, o Campeonato Brasileiro, vencido pela última vez, em 1996. Para isso, Renato terá de reestruturar o time, rever jogadores, investir em novos talentos, acreditar na juventude e encaixar as peças para que o futebol de 2017, que encantou o Brasil, volte a ser praticado em campo.
A tentação de zerar o jogo e começar tudo de novo, como se o que foi feito até aqui tivesse de ser esquecido é enorme. Ao mesmo tempo que perigosa. A ideia de terra arrasada só serve para satisfazer o fogo amigo, geralmente instigado por frustrações pessoais ou visão limitada diante da necessidade de um trabalho de longo prazo. Mudar tudo e todos tornará a derrota desta noite muito pior.
Cair, sentir o cheiro da lona, embrulhar o estômago com o sabor azedo da derrota faz parte da vida. Saber levantar-se e voltar a lutar à altura dos desafios que se impõe na jornada é para poucos. É para os Imortais. E nossa história já provou que somos. Vamos nos erguer!
Diego Souza comemora o gol em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Libertadores tem de saber jogar. É uma competição com características próprias. Aguerrida por natureza. Com sabor de rivalidade que extrapola o campo do jogo. Que contrapõe raízes, culturas e valores. Disputada nos bastidores, nos vestiários, nas arquibancadas (quando essas eram ocupadas por torcedores) e em cada centímetro do gramado, mesmo antes de a bola rolar —- lembre-se, já jogamos partida em que jogador foi expulso antes do apito inicial.
O Grêmio sabe que essa é um Copa diferente —- não por acaso somos tri-respeitados por nossos adversários (desculpe-me pelo trocadilho). Que se ganha na bola, no toque e no talento, como fizemos em 2017. Que também se alcança sem tirar o pé da dividida, dando bico para fora do estádio e na catimba malemolente, que impede a dinâmica do jogo. É do jogo.
Em 1983, quando forjamos nossa fama sulamericana, para sobreviver em campo. no sentido literal da expressão, tivemos de ceder um empate impossível de ser alcançado em situação normal —- e aqui, claro, me refiro a Batalha de La Plata na qual empatamos com o Estudiantes, da Argentina, por 3 a 3.
Em 1995, chegamos ao título mais uma vez com um empate fora de casa, após uma vitória retumbante no saudoso Olímpico Monumental. Antes disso, já havíamos provado nossa capacidade de sofrer, resistir e sobreviver, quando soubemos impedir que uma goleada nos tirasse das semifinais da competição.
Hoje à noite, no Paraguai, lamento informar aos torcedores equatorianos e secadores: não souberam nos derrotar. Saímos de campo vivos para a decisão que nos levará à fase de grupos da Libertadores.
E o fizemos a despeito de erro grotesco de arbitragem que anulou aquele que seria nosso segundo gol, ainda no primeiro tempo. Um lance de Alisson, Diego Souza e Ferreira, que vai entrar na lista dos mais belos gols anulados do futebol sulamericano.
Não bastassem todas as dificuldades de enfrentar um time bem montado e de futebol qualificado além do gol erroneamente anulado, antes mesmo de a bola rolar, fomos vitimados pela Covid-19 que tirou quatro jogadores do elenco e deixou longe da casamata o técnico Renato. Fomos impedidos de treinar no meio da semana. Tivemos deslocamento extra com a transferência do jogo de Quito, no Equador, para Assunção, no Paraguai. E mais uma série de jogadores afastados por lesões — sequelas da temporada passada que se encerrou somente neste ano.
Em campo, via-se claramente um time sofrido pelas ocorrências e disposto a resistir. E o fez muito bem até o fim do primeiro tempo quando, como disse, deveria ter saído para o vestiários com 2 a 0 no placar. Enquanto lá na frente Diego Souza foi preciso na finalização para marcar o primeiro gol de cabeça, em raro lance de ataque; Brenno se expressou com segurança lá atrás nas várias bolas disparadas contra o nosso gol.
Foi no segundo tempo que o revés se construiu. Faltaram pernas e posicionamento para segurar a velocidade e toque de bola do adversário que virou o placar — mas não o suficiente para nos tirar da disputa. Resistimos às nossas limitações, aos problemas físicos, a expulsão de um dos nossos zagueiros e a superioridade do time equatoriano. Além de ter um a menos em campo, terminamos a partida sem o principal atacante, com um zagueiro improvisado na lateral direita e um lateral esquerdo improvisado na zaga. Tínhamos ainda um goleiro e um homem de frente com problemas físicos.
Sobrevivemos. E quem conhece a relação do Grêmio com a Libertadores sabe que isso costuma ser fatal para o adversário. Quarta-feira que vem voltaremos à Arena para confirmar nossa presença na Libertadores.
Léo Chu comemora em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
Havia Brenno no início da jogada, Ricardinho e Léo Pereira no meio do caminho e Léo Chu para limpar e concluir o lance que culminaria em um dos mais belos gols que assistimos nos últimos tempos em um Gre-Nal. Um gol com DNA tricolor. De uma gurizada, que tem em média pouco mais de 20 anos, que nasceu ou floresceu dentro do clube, disposta a manter a hegemonia regional e a beleza de um jogo que, há muito, já conquistou outros rincões.
Com o devido respeito e reconhecimento de todos que chegaram depois, que forjaram suas histórias antes de vestir nosso azul, preto e branco —- uma gente da qual também temos orgulho pelas conquistas alcançadas —-, o que mais me alegra nessa gurizada é a reverência aos craques do passado.
Léo Chu é o mais expressivo —- mesmo que não seja o único. Ele se inspira em Tarciso, a quem foi apresentado pelas histórias que o avô contava e conheceu pessoalmente na Arena, alguns meses antes da morte do Flecha Negra. Admira Renato e não escondeu a alegria de poder abraçar o ídolo ao lado do campo ao comemorar seu gol, como se estivesse redivivo no time que nos levou à glória mundial, em 1983. Pensa em repetir a façanha de Luan que se transformou em Rei da América ao levantar a Copa Libertadores, de 2017.
Tricolor de nascença, aprendeu a sofrer logo cedo, quando assistia ao rival vencer campeonato após campeonato. Calejado pela provocação dos amigos de rua, que torciam para o adversário, e disposto a dar aos pais, avós e afins a alegria que eles contavam ter sentido naquela transição dos anos 70 para os 80, insistiu em permanecer no Grêmio, após o ano de empréstimo no Ceará. Teria chance de ir para o exterior, mas pediu para ficar. Quer realizar o sonho de ser campeão pelo time que ama.
No início da madrugada de Domingo de Páscoa, Léo Chu sonhou acordado quando recebeu a bola dos pés de Léo Pereira —- outro recém-entrado na partida. Havia a possibilidade de retribuir o passe ao colega de ataque, que já se deslocava em direção à área, ou superar os dois marcadores que estavam à sua frente. Preferiu a segunda opção. E no corte para dentro enxergou espaço para colocar a bola longe do alcance do goleiro adversário.
Como um súdito que sabe onde quer chegar, na comemoração do gol, já sem camisa, correu em direção a faixa pendurada por torcedores em homenagem a Tarciso e repetiu o gesto da semana passada, em que esboça o movimento de um arqueiro lançando sua flecha. Não passou despercebida a tatuagem desenhada no ante-braço direito, na qual ele aparece como um menino, pendurado no alambrado do campo de futebol e vestindo a camisa de número sete.
Assim com Léo Chu, muitos dos guris que hoje servem ao Grêmio querem deixar sua marca tatuada no coração dos torcedores. No momento do gol, nove deles estavam no time. E começam agora uma trajetória que costuma ser breve, pela incapacidade de mantermos os talentos entre nós por muito tempo. Assim como o amor de Vinicius de Moraes, em Soneto do Infinito, que a alegria dessa gurizada ao nosso lado seja eterna enquanto dure.
Toda vez que penso em escrever, me imagino cronista — autor desse estilo de escrita que nos aproxima do cotidiano, que surgiu com a intenção de oferecer um relato cronológico dos fatos. Ao longo do tempo mudou, sua intenção e formato. Ficou a ideia de textos inspirados nos acontecimentos diários, que tiveram seu auge nos anos 50 e 60, publicados nos jornais brasileiros, atiçando o interesse do leitor que via o comezinho do seu entorno ganhar contornos de literatura, tornando-se ele também personagem do fato.
Imediatamente à imagem que surge no meu pensamento, sou instado a encarar a realidade e minha limitação. Logo lembro de história contada por um dos bons cronistas deste tempo —- que por privilégio da profissão, posso conversar toda sexta-feira, ao vivo, na rádio. Em um dos comentários, ainda na época do Liberdade de Expressão, Artur Xexeo contou que, ao ser chamado para o palco onde receberia um prêmio de melhor cronista, iniciou sua fala de agradecimento com um ato de humildade: “eu nunca me vi cronista ….”. O que levou um dos que se viam como tal que estavam lá para prestigiar o evento, cochichar em alto e bom som: “e não é mesmo!”.
Registre-se: a despeito da arrogância do colega de palco, Xexeo é sim um excelente cronista na palavra escrita e falada —- e para quem ainda tem dúvidas, ligue o rádio às sextas-feiras, sete e pouco da manhã, ou abra O Globo aos domingos.
Se o Xexeo pode ser questionado pelos cronistas de plantão, imagine então o tamanho de meu atrevimento pensar em fazer crônicas toda vez que começo a escrever neste blog. Para evitar constrangimento ao Xexeo, ao Rubem Alves, a Martha Medeiros, o Otto Lara Resende, a Rachel de Queiroz, ao Zuenir Ventura —- todos integrantes de uma rica lista de cronistas brasileiros —- recolho-me a minha insignificância e decido, imediatamente após imaginar-me cronista, limitar-me a ser um blogueiro, seja lá que isso signifique para você.
Travestido de blogueiro, escrevo a Avalanche Tricolor, desde 2008 (se não me falha a memória), que alguns podem confundir com crônica esportiva, apesar da minha confessa parcialidade na escrita. Relato minha paixão pelo Grêmio e me esforço para tê-la como único foco, sem jamais atacar ou até mesmo citar o adversário —- convenhamos, para falar mal dos outros já existem outros. Tento encontrar em cada jogo jogado uma inspiração, e cumpri essa tarefa em momentos bem difíceis desta jornada esportiva. Neste espaço, falo com o caro e raro leitor —- cada vez mais caro e raro —-, logo após as partidas disputadas. Poucas vezes adiei a tarefa. Mais raro ainda foi não dizer uma só palavra sobre nosso desempenho em campo. Pois não é que isso aconteceu nesta semana.
Tivemos dois jogos disputados —- e nenhum deles aqui relatado. Um no domingo, às nove e meia da noite, goleamos; outro na quarta, às dez da noite, empatamos. Partidas que se encerraram tarde, muito tarde para coincidir com o toque de recolher em vigor no Rio Grande do Sul e impedir aglomeração de torcedor. Escrever me deixaria com pouco tempo de cama, já que às quatro da manhã tenho de estar em pé para trabalhar. No dia seguinte, tarefas de toda ordem me ocuparam o tempo, e a tristeza das notícias me roubaram inspiração.
Nesta manhã de Sexta-Feira Santa, no silêncio de um dia de feriado, encontrei-me com o blog e com o desejo de escrever uma crônica. Quanta pretensão! Um pecado! Especialmente ao perceber que é tentação expressa em data na qual os católicos reservamos para refletir sobre a humildade de um homem santo que se entregou à cruz e à humilhação para nos salvar. Que Deus me perdoe! E os cronistas, também.
A mais bela paisagem de Porto Alegre: a Arena Grêmio e o pôr do sol
Já vivo há mais tempo em São Paulo do que em Porto Alegre. São 30 anos aqui na capital de 57 de vida. Foi lá no Rio Grande, porém, que vivi os mais marcantes na formação de meu caráter e personalidade. De pequeno, segurando a mão do pai e da mãe; de criança, correndo com os amigos na calçada da Saldanha; de adolescente, batendo bola nas quadras e beijando no escurinho do cinema; até ser jovem, primeiro sem muita responsabilidade, fazendo aquelas coisas que hoje nos fazem pensar “como é que eu sobrevivi?”, para depois ser do tipo que tinha de pagar as próprias contas.
Saí por acaso de Porto Alegre, quase sem querer, para uma viagem festiva em São Paulo, quando deparei com a oportunidade de ouro na vida profissional. Tive tempo de voltar para Porto Alegre, jogar todas as roupas na mala, colocar o fusca grená à venda e dar um beijo nos mais queridos. Ainda passei lá no Zelig, o bar do Pio, ponto de encontro, bebedeiras, namoros e choradeira de muitos anos, na Cidade Baixa. No dia seguinte, um primeiro de janeiro, desembarcava na cidade que, hoje, é cenário de outros momentos muito importantes na minha vida. Deles conto em outra conversa.
Hoje, estou aqui ocupando o espaço de uma Avalanche —- em que o desafio seria garimpar valores e aprendizados na primeira derrota, lá em Bento Gonçalves, do time de jovens que está disputando o Campeonato Gaúcho — para falar de Porto Alegre porque minha cidade completa 249 anos, nesta sexta-feira, 26 de março. Aprendi na escola que a cidade foi fundada por casais açorianos que desembarcaram no Porto das Pedras, no século 18. Construí a fantasia de que sendo casais, teriam chegado em pequenas embarcações a remo, nas quais as moças estariam de chapéu largo e vestindo longo, enquanto os moços vestiam-se elegantemente de cartola, casaco e colete. Impossível, tendo todos vindos de tão longe.
Nossa imaginação é capaz de construir histórias que jamais vivemos e as contamos como se verdadeiras fossem. É efeito do cérebro que para rodar em alta velocidade deixa de lado algumas informações, inventa coisas e manipula pensamentos.
Se eu disparar a contar as experiência marcantes de Porto Alegre é possível que alguém mais próximo venha me cochichar no ouvido de que não foi bem assim que aconteceu.
O amor não era tão apaixonante, a beleza tinha lá suas distorções e as aventuras que acredito ter vivido eram até meio sem graça
Independentemente dessa realidade e sem saber ao certo o quanto do que lembro é ilusão, Porto Alegre é meu chão —- é onde tive meus primeiros traumas e prazeres. Muito do que experimentei lá, trago no meu comportamento, mesmo que hábitos tenham sido abandonados no meio do caminho. E agradeço de coração a todos que me ajudaram a viver e a aprender naquela cidade.
Quem sabe, para a passagem do próximo ano que nos levará a marcante data dos 250 anos, não dedique mais espaço neste blog para contar as histórias nas quais é provável tenha sido apenas um observador mas que as transformarei em memoráveis, até que me provem o contrário.
Pedro Lucas comemora em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
O início desta temporada tempestuosa do futebol, na qual sequer a bola deveria estar rolando, ao menos tem servido para nos apresentar nomes que há algum tempo estão na lista daqueles que podem ser craques vestindo nossa camisa.
Se no fim da semana passada, o goleiro Brenno deu mais um passo em direção ao time principal, neste início de semana, foi a vez de Pedro Lucas. Verdade seja dita, o garoto de apenas 18 anos —- completará 19 em julho — havia apresentado visão de jogo, boa movimentação e toque de bola preciso na partida anterior, em que saiu como titular. Demonstrara em campo, a fama que trouxe das categorias de base —- onde já conquistou título mundial pelo Brasil.
Hoje, completou a sequência com um golaço, aos 27 do segundo tempo. Ferreirinha que ensaiou vários dribles pelo lado direito, às vezes insistindo além do necessário, desta vez, passou pelos marcadores e cruzou no tempo certo. Pedro Lucas vinha em direção à bola e de bate-pronto com o pé esquerdo —- o seu preferido —- encaixou no ângulo. Um chute tão preciso quanto difícil pela posição que estava na área.
Pedro Lucas Tapias Obermüller, nascido no Baixo Guandu, no Espírito Santo, chegou ao Grêmio com 12 anos. Das escolinhas ao primeiro gol entre os profissionais, não bastasse o guri ter demonstrado habilidade com a perna esquerda —- o que sempre difere o jogador em campo —, maturidade para ascender nas categorias e conquistar espaço na seleção brasileira, revelou-se gremista de coração e o desejo de, antes de pensar em colocar o pé na Europa, colocar a mão em uma taça com a camisa do Grêmio.
Ao fim do jogo, mostrou com fala segura, olhar focado e discurso bem elaborado que domina as palavras tanto quando a bola:
“Eu tenho esse sonho de jogar no profissional do Grêmio. Desde os meus 12 anos quando cheguei aqui. Hoje, fazer meu primeiro gol como profissional é uma momento muito especial”
Tem sido especial também este momento de renovação. Os guris completaram quatro partidas invictos no Campeonato Gaúcho e colocaram o Grêmio na liderança da competição, mesmo tendo um jogo a menos do que seus adversários. Mais do que gols, pontos e classificação, o grande destaque no início da temporada tem sido a qualidade desta garotada que chega da base para conquistar seus sonhos no profissional.
Em uma partida resolvida ainda no primeiro tempo, na qual levamos a campo um time com idade média de 22,4 anos de idade, que alçou o Grêmio à liderança do campeonato e com 100% de aproveitamento, foi nosso goleiro quem mais se destacou.
Brenno Oliveira Fraga Costa foi assim batizado em Sorocaba, cidade que fica logo depois da Região Metropolitana de São Paulo, a quarta mais populosa do estado, e há pouco mais de uma hora de viagem daqui onde moro, desde 1991. Ele tem a idade do meu filho mais novo. Nasceu em 1º de abril de 1999. Em algumas semanas completará 22 anos. E, a partir de hoje, é considerado a principal esperança do torcedor gremista que, desde a saída de Marcelo Grohe, aguarda por um grande goleiro.
Com olhar sereno, semblante tranquilo, sorriso largo e cara de bom moço, Brenno —- assim mesmo com dois enes —- conseguiu um feito no jogo desta noite de sexta-feira.
No primeiro momento, ensaiou o movimento de Gordon Banks, na defesa que consagrou o goleiro inglês, após a cabeçada de Pelé, na Copa do Mundo de 1966 — a defesa do século 20. No segundo, lembrou Marcelo Grohe, no milagre contra o Barcelona de Guayaquil, do Equador, na semifinal da Copa Libertadores, em que nos consagramos campeões, de 2017 — a defesa do século 21.
Exageros à parte, Brenno já havia se apresentado bem na sua estreia forçada, no Grenal 418 de 2019, em que vencemos por 1×0. Na segunda partida da Libertadores deste ano, na vitória por 2×1 contra o Ayacucho, no Equador, foi menos exigido mas sempre que precisamos dele, se fez presente e preciso. Hoje, foi magistral.
Ao longo da partida, ouvi Gustavo Millani da SporTV chamá-lo de Brenno Banks. Em seguida, o repórter de campo, lendo as redes sociais, disse que um dos torcedores digitais havia lhe batizado de BreNeuer —- o que certamente deve ter soado bem aos ouvidos do guri que declarou, em 2020, ao site Minha Torcida:
“Meu maior ídolo é Neuer, pois quando eu comecei no futebol em 2014, nas categorias de base, ele arrebentou na Copa do Mundo”
Nem Banks nem Neuer. Nem mesmo Marcelo Grohe — por mais que tenha trejeitos dele em campo. Brenno é, por enquanto, um goleiro em ascensão, disposto a ser titular no Grêmio o mais breve possível, e, se tudo der certo, demonstrar autoridade e talento suficientes para entrar para a nossa história como Brenno, simplesmente, Brenno do Grêmio — o único time do mundo a dedicar seu hino a um goleiro.