Avalanche Tricolor:  a Arena é do Grêmio, verdadeiramente!

Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Eu vivi as arquibancadas ainda descobertas do Olímpico, em Porto Alegre. Época em que a vibração do torcedor era ritmada por uma corneta impulsionada por ar comprimido. Forjei-me como torcedor quando o alambrado era a barreira que nos impedia de invadir o gramado e levar o time às conquistas impossíveis. 

Quando já éramos Monumental, cantei em coro o grito de “Grêeemioooo, Grêeemioooo, Grêeemioooo…” com suas sílabas esticadas, que mais pareciam um chamado à equipe para que encorpasse nossa imortalidade e superasse suas dificuldades. Foi com este grito que vencemos todos os títulos que estiveram a nosso alcance. 

Experimentei a Avalanche Tricolor que desaguava pelas arquibancadas inferiores em uma sintonia inexplicável, considerando a quantidade de pessoas que participava daquele êxtase. Um movimento desfeito quando tivemos que mudar de endereço, deixando para trás parte de nossa história e levando mala e cuia para o Humaitá. 

O estádio na Azenha era meu vizinho de infância e foi lá dentro que cresci como gente, aprendi com o sofrimento e entendi  o valor de virtudes como coragem, lealdade e fortaleza. Assim como eu, gerações inteiras de torcedores se formaram e lembram com saudade do velho casarão. Uma conexão que nunca se realizou de verdade com a Arena, apesar de, na nova sede, termos reconquistado Copas do Brasil e Libertadores, além de uma sequência de campeonatos gaúchos.

Hoje, 15 de julho de 2025, essa história começa a mudar. Marcelo Marques, um torcedor criado no Olímpico Monumental, assim como eu, você e uma nação inteira de “imortais” — apenas mais rico do que todos nós juntos —,  comprou a gestão da Arena e doou ao Grêmio. Algo que nos parecia inacreditável. Foi um anúncio nada formal, com lágrimas, palavrões, gritos de guerra e aplausos intermináveis. Não me atrevo a explicar a negociação que teria custado cerca de R$ 130 milhões em acordo assinado com a Revee e a Arena Porto-Alegrense, responsáveis até agora pela gestão da Arena. Sou incapaz de endossar as projeções financeiras feitas pelo empresário, maior fabricante de pão francês do mundo. Torcerei muito para que o tempo ratifique o sucesso das contas feitas por ele.

O que importa neste instante, e por isso esta data entra para a história do Grêmio, é que Marcelo Marques, na eloquência de sua paixão, concretizou um sonho que começou a ser sonhado na gestão de Fábio Koff, em 2014, dois anos depois da nossa mudança para o Humaitá. O presidente do Mundial, da Libertadores, do Brasileiro, das Copas e tantos outros títulos anunciara naquela época um acordo com a OAS para a compra dos direitos de exploração da Arena. Foi dele a frase que, somente agora poderá ser gravada nas paredes de nosso estádio: “A Arena é do Grêmio, dos meus filhos, dos meus netos …”.

Havia dificuldades financeiras, imbróglios jurídicos e uma complexa burocracia envolvendo diversos interesses e empresas, algumas de idoneidade questionável. Havia desrespeito ao torcedor, tratado como se a ele não pertencesse aquele espaço, mesmo sendo a razão da existência daquela Arena. Havia entraves, quase intransponíveis. 

Mas o Grêmio foi forjado diante do impossível: foi assim quando calou um Morumbi inteiro para ser Campeão Brasileiro, quando surpreendeu o mundo ao superar os alemães em Tóquio, quando se sobrepôs à violência de La Plata e à garra sul-americana para ganhar suas Libertadores ou quando conquistou a Batalha dos Aflitos.

O Grêmio alcançou hoje uma das vitórias mais importantes de sua história, porque resgata o protagonismo do seu torcedor — que, imediatamente, correspondeu associando-se em grande número e depositando seu entusiasmo em uma era que se inicia. Garante que cada novo gremista possa sentir o significado de ser o dono de sua própria casa. E dará às novas gerações a possibilidade de eternizar na Arena a alma imortal que nasceu no Olímpico — um balé de corpos em avalanche, um sopro agudo e valente da corneta, e um grito que ecoará, eterno, pelos séculos tricolores.

Avalanche Tricolor: a taça não é do Mundo, mas é nossa!

Grêmio 2×0 São José

Recopa Gaúcha – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Estava cansado de torcer para os outros. O mês que passou me proporcionou sensações estranhas. Na ausência do Grêmio, acompanhei a Copa do Mundo de Clubes da Fifa — confesso que, antes do início, não dava muita bola para a disputa. Mas alguma coisa aconteceu no meu coração ao cruzar pela televisão e assistir aos times brasileiros enfrentando os estrangeiros, especialmente os europeus. 

Fui flagrado sofrendo e vibrando pelas graças alheias — reação que me causou espanto, já que sempre me considerei torcedor de um time só. O bom desempenho de alguns clubes nacionais, me animou com as possibilidades do futebol brasileiro, embora não acreditasse que chegaríamos ao título. Em alguns instantes, confesso: senti inveja da oportunidade que os quatro representantes do país tiveram nesta competição inédita. 

Que baita vontade de estar lá na gringa com meu Grêmio!

A realidade, como sempre, se impôs. Nem o Grêmio tinha condições de se credenciar para a competição no momento atual, nem os times do Brasil estavam à altura dos europeus — apesar de terem conseguido vitórias e resultados dignificantes até a semifinal da competição. 

Por coincidência do calendário, assim que o último brasileiro foi eliminado do mundial, o Grêmio voltou à ativa diante de seu torcedor na decisão da Recopa Gaúcha. Com pouco mais de 12 mil testemunhas na Arena, o time  de Mano Menezes teve a chance de mostrar um esboço do que conseguiu reconstruir no recesso.

Do ponto de vista de formação, praticamente nenhuma mudança no Grêmio. A única novidade no time principal foi o volante Alex Santana, recém-chegado, que fez boa estreia. Fiquei decepcionado ao perceber que a parada não foi suficiente para recuperar alguns jogadores fisicamente — e, pior, ainda levou outros ao departamento médico. Esperava mais, tanto da recuperação como das contratações.

O principal destaque da partida foi Alysson. No primeiro gol, demonstrou qualidade no domínio e força no chute, depois de ter sido presenteado por Dodi dentro da área. No segundo, foi dele a arrancada pela direita em alta velocidade e o cruzamento preciso que encontrou Amuzu para estufar as redes. O atacante pela direita ganhou a posição de titular desde que Mano Menezes assumiu. Tende a ser cada vez mais decisivo, à medida que o seu futebol amadureça e encontre companheiros que acompanhem seu raciocínio.

Espero que, em breve, a diretoria consiga driblar as dificuldades para contratar os reforços necessários. Também torço para que os problemas físicos cessem e todos os jogadores fiquem à disposição de Mano Menezes, permitindo escolhas de fato — e não apenas as possíveis. Precisaremos de muito mais para alcançar os objetivos que nos restaram na temporada. 

A despeito disso, aqui estou, retomando essa Avalanche, para comemorar com você, caro e cada vez mais raro leitor, a quinta conquista da Recopa Gaúcha. Não é nada, não é nada … é o que temos por enquanto a festejar. E se tem taça em jogo, eu quero é ganhar!

Quando o céu ameaça, o jogo muda: o alerta que falta no futebol brasileiro

O jogo entre Palmeiras e Al Ahly, pela Copa do Mundo de Clubes, foi interrompido no MetLife Stadium, em Nova Jersey, não por uma falta dura nem por um apagão no VAR. A partida parou por causa de um alerta meteorológico — que contrastava com o céu azul e o sol que causava um calor absurdo. O aviso chegou pelos celulares dos torcedores, foi exibido no telão e, quase sem discussão, jogadores e público se afastaram do campo: “Para a sua segurança, por favor, deixe o assento externo e a área do campo…”. A orientação era clara, objetiva e respeitada. Era uma questão de segurança, de cuidado com a vida.

A cena, que se repetiu três vezes em três dias durante o torneio, contrasta com o que estamos acostumados a ver no Brasil, onde jogos seguem mesmo com o gramado alagado, raios cortando o céu e torcedores encharcados nas arquibancadas. A bola rola, ainda que boie.

Por aqui, o futebol resiste ao temporal como se fosse uma prova de virilidade nacional. Jogadores deslizando na lama são lidos como heróis épicos e o torcedor que não abandona o estádio, mesmo sob chuva torrencial, vira exemplo de paixão. Poucos se perguntam: e a segurança? E os protocolos? E o direito à proteção?

Aqui, faço uma confissão. Sou apaixonado por jogadores bravos e corajosos, como Kannemann, meu eterno zagueiro do Grêmio, que, numa partida contra o Huachipato, do Chile, pela Libertadores da América, no ano passado, protagonizou uma imagem que me marcou profundamente. Ele aparece com o uniforme branco tomado pela lama — símbolo da entrega total, da luta até o fim, do espírito de um guerreiro. A fotografia é espetacular (lamento não ter descoberto o nome do fotógrafo que fez o registro). Mas ela só é possível, e talvez por isso mesmo tão incômoda, porque há uma estrutura que impõe aos jogadores essa condição extrema. O que leio como bravura também é, em certa medida, um retrato da imprudência.

A diferença de postura entre os dois países não se resume à organização de um evento. Ela revela o quanto o alerta, como política pública, é uma ferramenta poderosa de cultura preventiva. Nos Estados Unidos, sistemas de monitoramento climático estão integrados a eventos esportivos, e a decisão de interromper uma partida é técnica, não emocional. Parte-se do princípio de que nenhuma paixão justifica o risco à integridade física.

No Brasil, os alertas existem — o sistema da Defesa Civil funciona e pode ser acionado por SMS, por exemplo — mas sua articulação com o cotidiano das grandes aglomerações ainda é frágil. O futebol, que movimenta milhões e mobiliza multidões, não tem como rotina a checagem climática como critério para iniciar ou suspender uma partida. Espera-se que o céu caia — literalmente — para tomar alguma decisão.

Esse episódio na Copa do Mundo de Clubes serve como um lembrete: é possível agir antes do pior acontecer. É possível levar o torcedor a sério. É possível interromper um espetáculo esportivo em nome do bem-estar coletivo, sem que isso seja visto como fraqueza ou desrespeito ao jogo.

Quem dera os estádios brasileiros se preparassem para o tempo ruim não apenas com drenagem no gramado, mas com cultura de prevenção. Porque quando a sirene toca e a chuva cai, o que está em jogo é muito mais do que os três pontos. É a capacidade de um país proteger seus cidadãos — dentro ou fora de campo.

Avalanche Tricolor: amor que empata, mas não esfria

Grêmio 1×1 Corinthians

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre RS

Foi no Dia dos Namorados que o Grêmio entrou em campo para enfrentar o Corinthians. Um a um, placar final. Um empate que, à primeira vista, parece pouco para quem jogou em casa. Mas quem ama sabe: nem todo encontro precisa ser vitória esmagadora. Às vezes, o que vale mesmo é não sair derrotado.

Essa partida foi mais do que futebol. Foi quase um jantar a dois, daqueles em que os dois lados evitam discussões maiores, escorregam num ou outro erro, mas permanecem sentados à mesa. O Grêmio, que vinha tropeçando muito no Campeonato Brasileiro, resistiu. E resistência, numa fase dessas, é mais do que suficiente para manter acesa a chama.

Sim, tem quem diga que empatar em casa é tropeço. Pode até ser, tecnicamente falando. Mas para quem, como eu, vive esse relacionamento de décadas com o tricolor gaúcho, há algo mais profundo. Quando a maré anda brava, o que importa é não deixar o barco virar. E o Grêmio não virou. Manteve a invencibilidade dos últimos jogos — há cinco partidas não perdemos . E isso já é uma forma de cuidado, de reencontro com um pouco de estabilidade.

Mano Menezes agora terá tempo com a parada para a Copa do Mundo de Clubes. E tempo, todo casal sabe, é matéria-prima do recomeço. Com tempo, ajeita-se a defesa, melhora-se o entrosamento, encontra-se o tom certo da conversa entre meio-campo e ataque. Com tempo, o amor reencontra seu jeito de jogar.

Amar um time é como viver um relacionamento longo. Há momentos de paixão arrebatadora, títulos levantados como declarações públicas de afeto. E há fases de silêncio, de desentendimentos, de expectativas frustradas. Mas a gente permanece. Não por teimosia, mas por compromisso. Por memória. Por promessa.

No Dia dos Namorados, o Grêmio me presenteou com um empate. Não foi buquê nem bombom. Foi apenas o sinal de que, apesar das falhas e da fase, ainda estamos juntos. E isso, convenhamos, também é uma forma de amor.

Avalanche Tricolor: o Grêmio está estranho — e isso é bom

Juventude 0x2 Grêmio
Brasileiro – Alfredo Jaconi, Caxias do Sul RS

Cristian Olivera fez o 2º gol. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Um domingo estranho para os padrões gremistas dos últimos meses. Uma vitória por dois gols de diferença não acontecia desde o início de abril; a última vez que ganhamos três partidas consecutivas foi em janeiro; e agora completamos quatro jogos sem tomar gols — somados os resultados do Brasileiro, Copa do Brasil e Sul-Americana.

A sorte também esteve ao nosso lado, o que não víamos há algum tempo. O pênalti infantil cometido pelo goleiro adversário, ainda nos primeiros minutos, tornou o caminho da vitória mais fácil — e contou com o auxílio do VAR. O mesmo VAR que evitou que fôssemos prejudicados com o pênalti assinalado contra nós, quando ainda vencíamos por apenas um a zero — e parecia que a história de não sabermos segurar o placar favorável se repetiria.

Alguém pode dizer que o recurso do VAR não é questão de sorte. É auxílio técnico usado para ajudar os árbitros em lances difíceis e polêmicos. Primeiro: se você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, pensa assim, convido-o a puxar a “ficha corrida” dos lances de arbitragem em rodadas anteriores (com exceção do jogo contra o Bahia). Segundo: que um dos jogadores adversários estivesse em posição irregular no instante da jogada em que derrubamos o atacante deles na área é sorte, sim.

Ao falar de sorte, não estou reclamando. Fico bem feliz em saber quando ela decide trocar de lado. Porque, geralmente, quando isso acontece, é sinal de que o time começa a fazer por merecer. E hoje, fizemos.

Mesmo que o adversário estivesse fragilizado, é preciso considerar que continuava sendo uma fortaleza dentro do seu estádio. Mais do que isso, o Grêmio fez sua melhor partida dos tempos recentes, a começar por um sistema defensivo mais coeso. Houve intensidade na marcação, com a participação dos jogadores de ataque. Na maior parte do jogo, preferiu-se a troca de passes e, sempre que se chegava pelas alas, nossos atacantes foram atrevidos ao driblar. O meio de campo também participou ativamente, com destaques para Villasanti e Cristaldo.

Se o que assistimos foi circunstancial ou se estamos vendo o início de uma reação gremista, sob nova direção, teremos de esperar pela resposta que o tempo nos oferecerá. O Grêmio joga mais uma partida antes da longa parada para o Mundial de Clubes — tempo em que Mano poderá, se tudo correr bem, ganhar os reforços necessários e organizar melhor seu grupo. Com isso, quem sabe vitórias seguidas, defesa mais firme e boas arbitragens deixem de causar estranheza a este escrivinhador e torcedor.

Avalanche Tricolor: do Grand Slam à grande sofrência

Grêmio 1×0 Sportivo Luqueño
Sul-Americana — Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Riquelme comemora em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Sentei à noite diante da televisão ainda sob o impacto da vitória de João Fonseca em Roland Garros, no meio do dia. O jovem brasileiro eliminou o francês Pierre-Hugues Herbert por três sets a zero, com autoridade e talento que saltavam aos olhos. Desde sua estreia no Grand Slam de Paris, tenho dividido com amigos e ouvintes o prazer de torcer por alguém que vence com brilho próprio — sem precisar de pênalti forçado ou gol chorado.

Minutos depois, a realidade me trouxe de volta à Arena. Bastaram alguns toques na bola para que o sofrimento habitual se escancarasse. Nem mesmo um adversário fragilizado foi capaz de facilitar a missão. O Grêmio não conseguiu apresentar um futebol minimamente agradável. Sequer o árbitro, figura tantas vezes questionada, servia de bode expiatório. Foi preciso, correto ao marcar o pênalti e justo nas expulsões dos paraguaios.

Mesmo com um a mais em campo durante boa parte da partida — e dois nos minutos finais — desperdiçamos a penalidade e mal conseguimos aproveitar a vantagem numérica. Dizer que estávamos com um time alternativo, poupando titulares para o Campeonato Brasileiro, pouco aliviava a frustração. Pelo contrário: aumentava a preocupação ao ver Mano Menezes recorrer a nomes que já deveriam ter sido deixados para trás há algum tempo.

Para tornar a noite ainda mais amarga, o empate entre Godoy Cruz e Atlético Grau, na Argentina, teve gosto de oportunidade perdida. Os argentinos chegaram a estar perdendo, mas reagiram, e com o empate em 2 a 2 mantiveram a liderança do grupo. Bastariam mais dois gols do Grêmio — contra um adversário com dois a menos — para que conquistássemos a vaga direta à próxima fase. Dois gols. Não parecia pedir demais.

O que consola este torcedor é a aparição de Riquelme. Saído do banco no segundo tempo, foi ele quem marcou o único gol da noite. Aos 18 anos, mesma idade de João Fonseca, decidiu a partida e salvou o Grêmio de um vexame maior.

Será que ao menos isso… pode me dar alguma ilusão?

Avalanche Tricolor: o Grêmio venceu!

Grêmio 1×0 Bahia — Campeonato Brasileiro
Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Kannemann é um dos nossos méritos. Foto: Lucas Uebel/GremioFBPA

Fazia tanto tempo que eu não via um árbitro marcar pênalti para o Grêmio que, no primeiro momento, nem reconheci o lance como tal — entenda como quiser essa frase. A verdade é que não temos o luxo de discutir as circunstâncias de uma vitória — elas têm sido raras demais. Esta foi apenas a segunda nas últimas treze partidas.

Apesar das limitações repetidas e dos riscos desnecessários de sempre, o Grêmio teve alguns méritos neste início de domingo. A resiliência diante de um adversário mais organizado e com talento no meio-campo foi um deles. E não dá para reclamar da entrega dos nossos jogadores que, visivelmente, têm redobrado esforços para impedir qualquer triunfo adversário. Surpreendentemente, hoje, não tomamos gol. Mesmo aqueles que, ao receberem a bola, parecem não saber exatamente para que serve aquele objeto, correm intensamente no gramado — registre-se: o mais feio da Série A do Campeonato Brasileiro.

Christian Oliveira, pelo lado direito, também está na restrita lista de méritos gremistas. Pena que não tenhamos sido competentes para transformar seus dribles e cruzamentos em finalizações. Ao lado dele, Kannemann. Apesar das duas cirurgias recentes e dos 34 anos, continua um exemplo de dedicação. Vê-lo protagonizando jogadas ofensivas — hoje, deu chapéu, cruzou para a área e ainda deu assistência — revela tanto o destemor do nosso zagueiro quanto o grau de desorganização que ainda nos define. Tem ainda a cobrança de pênalti certeira nas redes de Braithwait — um surpresa se pensarmos que nossos jogadores não têm tido o costume de ver árbitros apitando pênalti a nosso favor.

Por fim, é claro, os três pontos. Conquistados a despeito de todas as condições, são o que temos a comemorar, por enquanto. O Grêmio venceu! Portanto, que comemoremos!

Avalanche Tricolor: nem a Imortalidade salva!

Grêmio 0x0 CSA

Copa do Brasil – Arena Grêmio, Porto Alegre RS

Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

É difícil até escolher por onde começar diante de um fracasso tão retumbante. Cair na Copa do Brasil na terceira fase não foi a primeira vez, mas é raro. Agora, ser eliminado sem vencer nenhum dos adversários é algo para não esquecer tão cedo. E todos os três times que enfrentamos eram, no máximo, da Série C.

Faço um mea culpa: me deixei levar pelo entusiasmo quando conquistamos as vagas nas duas primeiras fases com gols heróicos, marcados nos últimos minutos ou nos acréscimos, e, em seguida, superando os adversários nos pênaltis. Me iludi com a ideia de que aquelas classificações expressavam a Imortalidade que nos consagrou. Errei. Não eram sinais da nossa resiliência, mas da nossa fragilidade.

A derrota para um time da Série C, em casa, depois de termos sofrido a virada no jogo de ida, escancara mais um episódio da temporada deprimente. No Campeonato Gaúcho, desperdiçamos o Octa. No Brasileiro, estamos na 17a. posição da tabela, naquela zona que você sabe qual é. Na Sul-Americana, mesmo enfrentando equipes de pouca expressão em seus países, só conseguiremos avançar disputando os play-offs — uma espécie de repescagem.

Em campo, os ajustes recentes no posicionamento dos jogadores deram alguma esperança de que alcançaríamos maior consistência defensiva, mas seguimos sofrendo gols desnecessários. Falta criatividade no meio-campo, e os atacantes seguem à míngua, esperando por uma chance que quase nunca chega.

Como se não bastasse toda essa fragilidade, ainda somos obrigados a assistir aos descalabros cometidos pela arbitragem. Ontem, mais uma vez, fomos claramente prejudicados com a anulação do gol que nos daria a chance de decidir nos pênaltis. Nos foi roubado até o direito a mais uma classificação no estilo “me engana que eu gosto”.

Já disse — e escrevi — que me recuso a decretar a falência da esperança, mas está cada vez mais difícil preservá-la. Que venha logo a parada para o Mundial de Clubes, e que Mano Menezes tenha tempo para colocar a cabeça dos jogadores no lugar. A cabeça — e o pé, é claro.

Avalanche Tricolor: luto, lamentos e lágrimas

São Paulo 2×1 Grêmio
Brasileiro – Morumbi, São Paulo (SP)

O luto na braçadeira dos jogadores. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

É tarde da noite, neste sábado, e não me arrependo da decisão de não ter ido ao Morumbi — que fica próximo de onde moro desde que vim para São Paulo. Ao longo do dia, considerei algumas vezes a ideia de assistir ao jogo no estádio, experiência que sempre me trouxe prazer, mesmo quando o resultado não colaborava.

Ver o Grêmio apenas se defendendo desde o primeiro minuto, sem demonstrar qualquer vontade ou possibilidade de atacar, foi o suficiente para me convencer de que tinha feito a escolha certa ao permanecer diante da televisão. Evitei o desconforto de chegar ao estádio, o ingresso sempre mais caro do que o espetáculo merece, a arquibancada descoberta e fria, e a insegurança de voltar para casa no fim da noite.

Foi, então, que em um raro contra-ataque, Aravena balançou as redes. Já passava da meia hora de jogo quando, pela primeira vez, o time entrou na área adversária e chutou em direção ao gol — e ao fim da partida, saberíamos que isso só se repetiria outras duas vezes, sem o mesmo sucesso.

O gol, aos 36 minutos, foi o único instante em que minha memória afetiva me fez questionar a ausência no estádio. Que saudade de poder pular na arquibancada, comemorar uma conquista, abraçar quem estivesse ao lado com aquela intimidade que só os torcedores sabem exercer. Uma sensação fugaz.

Infelizmente, os fatos que se seguiram confirmaram que a alegria seria momentânea, e a ausência no estádio, longe de ser lamentada. Abdicamos da posse de bola, insistimos em apenas nos defender e repetimos os vacilos na marcação que têm sido frequentes nas últimas três temporadas. Sim, há três anos o Grêmio sofre uma quantidade absurda de gols, e essa sangria parece não ter fim — seja quem for o técnico na casamata.

O pênalti marcado — e, como sempre, discutido — além de irritação, deveria provocar reflexão. Independentemente da qualidade dos árbitros e dos erros do VAR, é preciso admitir: o Grêmio se expõe a esses riscos por conta das circunstâncias do seu jogo. Um time que vive com a bola sendo jogada dentro ou ao redor da própria área está sempre à beira do desastre, seja por trapalhadas do juiz, seja pelas próprias falhas defensivas.

Lamento pelo futebol mal jogado e por estarmos de volta àquela zona que você sabe qual é. Mas esse é o tipo de lamento que se dissolve no jogo seguinte. Sempre há espaço para recuperação, seja daqui uma semana, seja algumas rodadas à frente.

Confesso, porém, que me envergonha ficar desanimado com as coisas do futebol quando a vida impõe tragédias reais, como a enfrentada por Mano Menezes. A morte de dois de seus ‘netos de coração’ em um acidente automobilístico é uma dor infinita, que eterniza uma cicatriz na alma. A ele e a todos os familiares que choram por essas duas crianças, nossa solidariedade e nossas lágrimas de tristeza e consternação.

Avalanche Tricolor: aprendendo a salivar no amargo

Grêmio 1×1 Godoy Cruz
Sul-Americana – Arena do Grêmio

Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O sabor do empate já foi tema desta Avalanche em outras ocasiões. Foram tantas as vezes em que saímos de campo com esse estranho resultado no placar, que ele já começa a parecer rotina. Cada um azeda nossa boca de uma forma diferente. Alguns são absorvidos com a acidez amarga de um café queimado no fim do expediente. Outros se parecem com o vinagre branco, seco e implacável, que desce cortando, como quem não aceita réplica. Da mesma forma que os empates, há azedos que despertam, outros que ardem.

Perdi a conta — e não vou me dar o trabalho de rever — da quantidade de vezes que saímos à frente e fomos incapazes de manter a vitória em nossas mãos, nesta temporada. O fato é que me esforço para tirar de cada um desses empates algum ensinamento e um pouco de esperança. No desta noite, em Porto Alegre, a dupla Braithwaite e Arezo, com o dinamarquês jogando de ‘meio-atacante’ — é assim que se chama quem fica naquela posição? —, sinalizou que pode evoluir à medida que insistirmos nessa formação. Talvez não seja a solução, mas é uma opção.

Sei que tem torcedor que não reconhece, mas é evidente que o time está num esforço desmedido para oferecer mais. Percebe-se uma doação da alma para que a bola seja alcançada, a jogada se complete e, especialmente, o adversário não nos imponha risco. Não existe acomodamento. O treinador tenta de um jeito, escala de outro, explora o potencial de cada jogador que tem à disposição… aí vêm as lesões — hoje, os dois laterais direitos saíram machucados de campo; aparecem os tropeços, os limites técnicos acabam se impondo e, mesmo quem pode entregar talento, sucumbe. Nem vou falar do descaso dos árbitros com as infrações que poderiam nos beneficiar.

Como, porém, fui forjado na sofrência de um time que carrega a alcunha de “Imortal”, fique certo, caro e cada vez mais raro leitor: mesmo com o azedume do empate (mais um empate), agora na Sul-Americana, sou capaz de lembrar que o gosto da vida não precisa ser suave para ser bom. Como disse na abertura desta conversa, o azedo incomoda, mas também desperta. Faz salivar, limpa os excessos, realça o que estava apagado. É o gosto do estranhamento que, quando aceito, vira prazer.

Sigo à espera de salivar o sabor da vitória.