Assisto à partida desta noite em um quarto de hotel em Florianópolis, Santa Catarina, onde amanhã realizarei uma palestra sobre o potencial do rádio brasileiro. Há dois dias, estive em Belém, no Pará, gravando um programa sobre sustentabilidade e preservação ambiental, que vai ao ar neste domingo. Foram dias de aeroportos lotados, voos atrasados, incertezas quanto ao clima e apreensão em relação ao cumprimento dos compromissos assumidos. Mas, apesar de tudo, a energia consumida pelo trabalho em excesso logo será recompensada pela satisfação de cumprir o prometido.
Quanto ao jogo, confesso que não esperava mais do que vi pela televisão, o que me incomoda, pois fui forjado na esperança de que sempre é possível e na coragem de jamais me entregar. No entanto, como bem sabe o caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, resigno-me a contar os dias que nos restam. Hoje, contei os minutos. Antes ou depois do gol — que parecia inevitável — só ansiava pelo apito final para riscar mais um dia no calendário.
É o que me resta. Contar. E minha contagem anuncia: agora, só faltam cinco jogos.
Fluminense 2×2 Grêmio Brasileiro – Maracanã, Rio de Janeiro/RJ
Time comemora gol de Braithwaite. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Minhas redes sociais têm reproduzido nestes últimos dias uma série de momentos memoráveis do Grêmio. Revi o gol de Luan contra o Lanús, na Libertadores de 2017. Rolando a tela do Instagram, encontrei lances da batalha contra o Peñarol, em 1983. Por uma dessas circunstâncias que só o destino é capaz de explicar, até a vitória contra a Portuguesa, em 1996, quando conquistamos pela segunda vez o Brasileiro, apareceu na tela do meu celular. Todas são cenas que mexem com minha memória afetiva e me fazem pensar quantas glórias tivemos o privilégio de assistir nessas mais de seis décadas de vida.
Aqueles tempos estão distantes do futebol que assistimos recentemente. Libertadores e Copa do Brasil vemos apenas pelo retrovisor. O Campeonato Brasileiro, que no ano passado ainda conseguimos chegar em segundo lugar, tem sido um martírio atrás do outro. Cada partida é um drama. Nunca se tem certeza do que seremos capazes. Conquistamos um ponto aqui e outro acolá. Quando fazemos três, torcemos para os demais concorrentes empacarem no lugar.
Hoje, nos restou festejar um resultado alcançado na bacia das almas. Após sairmos na frente em um contra-ataque com boa participação de Aravena e conclusão de Braithwaite, não suportamos a pressão do adversário e tomamos a virada. O gol de empate, já nos acréscimos, veio de uma jogada fortuita de ataque em que Nathan Fernandes, que andava esquecido no elenco, conseguiu alcançar a bola com calcanhar e a fez, inadvertidamente, encontrar Arezo dentro da área. Reinaldo, em uma excelente cobrança de pênalti, igualou o placar.
Sei que já fui bem mais feliz ao comemorar Libertadores, Brasileiros e Copas do Brasil. Já sofri com viradas históricas, assim como vibrei em partidas heróicas. Mas, atualmente, na escassez de resultados e conquistas, o que me resta é valorizar cada ponto conquistado, ainda que na bacia das almas, e lembrar que, por mais que o Grêmio esteja distante das glórias de outros tempos, a paixão tricolor permanece intacta. Porque torcer é isso: é saber festejar o mínimo, é não desistir diante das dificuldades e é manter viva a esperança de que um dia o ciclo das vitórias voltará a girar ao nosso favor. Diante das atuais circunstâncias, não tem como exigir muito mais do que um empate no Maracanã. Só faltam seis jogos!
Villasanti comemora o gol. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA
A temporada 2024 não tem sido fácil para o torcedor do Grêmio. A tragédia provocada pelas enchentes no Rio Grande do Sul nos atingiu de forma contundente. Fomos obrigados a jogar fora do nosso estado e do nosso estádio, muito mais do que qualquer outro time gaúcho. Voltamos a Arena há menos de dois meses e a Arena voltou a ser toda nossa apenas na tarde deste sábado, na trigésima-primeira rodada do Campeonato Brasileiro.
O prejuízo técnico e tático que a equipe sofreu foi enorme, mesmo que não explique a baixa qualidade do futebol apresentado em muitos dos jogos. Boa parte dos melhores reforços chegou apenas no meio da temporada, o que tornou mais complexo o funcionamento daquela engrenagem que os times bem treinados costumam apresentar. Verdade que a essa altura do campeonato já deveríamos estar oferecendo um trabalho coletivo mais competente, mas o time tem enfrentado dificuldades para “pegar no tranco”, como costuma-se dizer no popular.
A sequência de fatos e defeitos reduziu nossas expectativas. A equipe que começou o ano prometendo presença competitiva em todas as disputas, encerrará apenas com a comemoração do Hexacampeonato Gaúcho, nos primeiros meses de 2024. Na Copa do Brasil e na Libertadores fomos despachados nas disputas eliminatórias. No Brasileiro, depois de um esforço para não correr o risco de rebaixamento, nos contentaremos com uma classificação à Copa Sul-Americana, o que me parece garantido após a vitória deste sábado.
A partida que marcou a volta definitiva da Arena, com quase 37 mil torcedores presentes, apresentou muito do que temos assistido neste ano de futebol mediano. Cometemos pênalti com uma facilidade de chamar atenção. E os vemos ser convertidos quase sem reação. Temos uma fragilidade defensiva capaz de transformar o lanterna do campeonato em uma equipe perigosa no ataque.
Dependemos de jogadas individuais como a que nos levou ao gol de empate, porque falta entrosamento. Nossos destaques são Soteldo e Villasanti, não por acaso dois dos que marcaram nossos gols. Justiça seja feita ao esforço de Braithwaite que luta contra os zagueiros e se entrega de uma maneira cativante. O primeiro e o terceiro gols tiveram a participação importante dele.
Como escrevi, a vitória de hoje foi crucial para eliminar as possibilidades de rebaixamento e nos colocar na Sul-Americana, apesar de matematicamente ainda haver condições para o pior dos cenários. Mesmo que algumas partidas que nos restem sejam de alta periculosidade, acredito que ocupamos agora o quinhão que nos está reservado para esta temporada. Desejo apenas que saibamos mantê-lo até o fim, que, felizmente, está próximo. Só faltam sete partidas para nos despedirmos de 2024.
Inter 1×0 Grêmio Brasileiro – Beira-Rio, Porto Alegre/RS
Foto de arquivo: Lucas Uebel/GrêmioFBPA
No futebol, o técnico é muito mais do que um estrategista tático. Ele ocupa o papel central de liderança, conduzindo um grupo de jogadores com diferentes personalidades e habilidades. Assim como em qualquer ambiente corporativo, a liderança no esporte vai além da técnica e da competência operacional — trata-se de inspirar, engajar e unir a equipe em torno de um propósito.
O líder que faz a diferença é aquele que inspira seus jogadores a acreditarem que podem alcançar mais do que imaginam. Essa inspiração não vem de discursos vazios ou entrevistas mal conduzidas, mas da capacidade de ser exemplo, de se comunicar com autenticidade, de demonstrar compromisso com os objetivos e de entender as necessidades individuais e coletivas do grupo. Esse líder faz seus jogadores acreditarem que o sucesso só é possível quando cada um entende seu papel e colabora com os demais.
No futebol, assim como nas empresas, é fundamental que cada membro da equipe se sinta parte de algo maior. O técnico precisa engajar os jogadores, respeitando suas características e limitações, mas também desafiando-os a superar barreiras e a evoluir. O líder de sucesso não é apenas aquele que dá ordens — ele escuta, ajusta, e cria um ambiente onde todos se sentem essenciais. Ele também participa ativamente do dia a dia do clube, caminhando ao lado de seus liderados.
Outro ponto crucial é a capacidade de unir o time em torno de um propósito comum. O objetivo no futebol é claro: vencer. Mas, para que a vitória seja alcançada, o técnico deve fazer com que cada jogador entenda que o coletivo supera o individual. Um time é forte quando todos remam na mesma direção e estão preparados para jogar coletivamente. O bom técnico, como um verdadeiro líder, constrói uma cultura de coesão, onde as diferenças são respeitadas e as qualidades individuais se somam para alcançar o objetivo comum.
Por fim, o técnico é o arquiteto dessa unidade. Sua liderança vai muito além de distribuir camisas, definir esquemas táticos ou caminhar à beira do gramado com anotações na mão, como se precisasse se lembrar de quem pode contar. Ela está no coração da equipe, motivando, orientando e trazendo à tona o melhor de cada jogador para que, juntos, possam conquistar vitórias e superar desafios.
Além de inspirar e unir, um aspecto fundamental da liderança — tanto no futebol quanto em qualquer outra área — é a capacidade de se reinventar. Mesmo os técnicos que já foram grandes ídolos, reverenciados por suas conquistas, correm o risco de fracassar se acreditarem que podem viver eternamente à sombra de sua fama passada.
O líder que não se atualiza, que não busca entender as novas dinâmicas do jogo e dos jogadores, tende a perder relevância. No futebol, como na vida, o sucesso é passageiro para quem se acomoda. A história está cheia de exemplos de grandes técnicos que, por não acompanharem as transformações do esporte ou por se prenderem ao passado, viram suas trajetórias desmoronarem. O verdadeiro líder sabe que a evolução constante é parte essencial de sua jornada.
Por mais que sua imagem seja eternizada em uma estátua, nenhum líder é eterno se não continuar evoluindo e se adaptando aos novos tempos — a imobilidade da escultura não pode ser refletida na liderança.
Grêmio 3×1 Fortaleza Campeonato Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS
Aravena comemora primeiro gol. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA
O Grêmio enfrentou três dos clubes mais bem classificados do Campeonato Brasileiro nas últimas quatro rodadas. Hoje, venceu o Fortaleza (3º); no domingo passado, havia empatado com o Botafogo (1º); e, há menos de duas semanas, superou o Flamengo (4º).
Vai entender um time assim!
É verdade que a campanha nesse segundo turno da competição é uma das melhores entre todos os participantes. Porém, convenhamos, quem nos vê na tabela, com “aquela-zona-que-você-sabe-qual-é” no retrovisor, não deveria esperar sucesso contra as equipes que estão disputando o título. O fato é que, apesar dos defeitos, o Grêmio se afasta do maior risco e ocupa um lugar no meio da tabela.
Nesta sexta-feira à noite, a articulação da bola, do meio para a frente, foi de qualidade, com velocidade nos passes, deslocamentos pelos lados e intensa participação dos atacantes. Braithwaite praticamente não desperdiçou uma bola que chegou aos seus pés. Distribuiu o jogo e abriu espaço para os companheiros entrarem na área. E, como se não bastasse, ainda fez o gol que encaminhou a vitória.
Aravena demonstrou talento, movimentação e precisão no chute, o que o levou a marcar o primeiro gol, após jogada entre Braithwaite e Cristaldo pelo lado direito. Edmilson também apareceu bem no ataque, além de fechar o meio de campo para conter as investidas do adversário.
A vitória foi ratificada com um chute de Soteldo, que entrou na parte final da partida e, mais uma vez, teve uma participação intensa no ataque. Fez o gol após uma assistência de Igor, um garoto de apenas 19 anos, que teve importante presença na marcação e se apresentou com qualidade na frente.
Ver a dupla de zaga Geromel e Kannemann de volta, uma contingência da lesão de Gustavo Martins – justamente na semana em que nosso capitão anunciou que se aposentará do futebol no fim do ano –, foi um presente extra para os torcedores, exaustos de tanto sofrimento nesta temporada. Faz bem ao coração vê-los lado a lado, dominando a área por cima e por baixo, mesmo com todos os problemas do sistema defensivo e sabendo que a condição física, especialmente de Geromel, já não é a mesma do passado.
Temos problemas a serem resolvidos e ainda não dá para respirar aliviado, imaginando que estamos livres do perigo maior. Mas nós, torcedores, estávamos merecendo um resultado como este.
Aravena ensaia um ataque em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA
O Grêmio estava irreconhecível na noite deste sábado.
A marcação precisa, quase infalível, surpreendeu tanto o torcedor gremista quanto o líder do campeonato. Essa foi apenas a décima vez em 27 jogos disputados na competição que o time não tomou gols. O feito se torna ainda maior se considerarmos que o adversário tem o melhor ataque da competição, ao lado do Palmeiras.
A mudança no meio de campo, especialmente no posicionamento e na atitude dos jogadores, e a maneira com que o time escolheu ficar mais tempo com a bola no pé, diminuiu a pressão sobre a defesa. Corremos riscos, lógico. E chegamos a levar um gol. Mas até isso esteve a nosso favor, em Brasília. O VAR identificou posição irregular do atacante e anulou o que seria uma injustiça para com a equipe que soube ser resiliente e já causou sofrimento suficiente a nós torcedores.
Especialmente no primeiro tempo e em alguns poucos momentos no segundo, chegamos a impor perigo ao adversário. Estivemos prestes a assistir a um gol que entraria para a história, no minuto final do jogo, quando Walter Kannemann fez o desarme lá atrás e disparou com a bola para o ataque, atropelando os marcadores e concluindo para fora. Seria pedir muito!
O time foi guerreiro para impedir as investidas na sua área e aparentou tranquilidade para trocar passes. Villasanti e Pepê souberam tocar a bola colocando Cristaldo em jogo. Edmilson apareceu bem lá atrás, fechando o meio de campo, e na frente, entrando na área e arriscando a gol. O time, de uma maneira geral, superou a expectativa de um torcedor que tem bons motivos (ou seriam maus?) para estar desconfiado.
Por mais que a posição na tabela de classificação exigisse três pontos, principalmente depois da derrota em casa no meio da semana, ter saído de Brasília com um 0 a 0 é motivo de comemoração. Ou, ao menos, de alívio.
Cristaldo aparece no ataque em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA
O Grêmio reforçou o grupo no meio da temporada. Trouxe jogadores de talento ascendente ao perceber suas carências. Apostou em um centroavante gringo experiente, diante da falta de gols. Encheu seu elenco de estrangeiros, considerando o risco de rebaixamento que se desenhava na primeira parte da competição. Mais recentemente, até para a Arena retornou, o que parece não ter sido suficiente para conquistar o torcedor, incapaz de lotar os poucos lugares disponíveis.
Mesmo que tenha enfrentado todos os elementos para percorrer aquilo que os mais românticos — e confesso que assim fui até há algum tempo — exaltariam como sendo parte da jornada do herói, em que viajamos do mundo dos comuns, aceitamos o chamado e encaramos a provação suprema, o Grêmio segue sendo um time propenso a oferecer sofrimento ao seu torcedor, uma partida após a outra.
Às vezes, esboça boas jogadas no ataque, sem, porém, transformá-las em risco de gol. Ao mesmo tempo, não resiste à mínima pressão do adversário na defesa. Nos últimos quatro jogos, levou nove gols. Nas 26 partidas disputadas no campeonato, foram 34 gols sofridos. Essa equação é insustentável.
Rodada após rodada a batalha que nos aflige é a proximidade com aquela-zona-que-você-sabe-qual-é. Não há um dia de sossego. Quando pensamos que o olhar se voltará para o alto, que poderemos sonhar com alguma conquista, por mais medíocre que seja, a realidade se impõe. Pode ser com os melhores do elenco em campo, pode ser na sua casa ou pode ser contra adversários de menor expressão. O Grêmio só tem a oferecer sofrimento. E assim será para todo e sempre, nesta temporada.
Cristaldo comemora o primeiro gol. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA
O Campeonato Brasileiro já está em sua vigésima-sétima rodada e esta foi apenas a quarta partida do Grêmio na Arena. Desde as enchentes que nos afastaram de casa, foi o segundo jogo no próprio estádio e a primeira vitória. Isso diz muito sobre o que se passa com o time nesta temporada, mesmo que não justifique não justifique as dificuldades em apresentar um desempenho mais seguro e qualificado em campo..
Foi um ano penoso em diversos aspectos e o futebol que apresentamos até aqui tornou tudo ainda mais complicado. O sistema defensivo é vulnerável — sofreu 32 gols em 25 jogos, sete apenas nos três últimos —, enquanto o meio de campo e o ataque nem sempre entregam a qualidade que aparentam ter.
Hoje, mesmo com um adversário muito desfalcado e atuando a maior parte do segundo tempo com um a menos, corremos riscos até o minuto final. Um sofrimento a cada lance. Mesmo assim e, talvez, até por ter sido assim, temos que comemorar muito essa vitória.
Cristaldo segue decisivo e preciso em seus chutes. Braithwaite cumpriu seu papel ao escorar às redes uma das poucas bolas que surgiram no seu caminho. Monsalve, apesar do desempenho aquém do esperado, fez uma jogada linda que nos levou ao terceiro gol. E Diego Costa voltou a marcar. Há ainda Soteldo que é sempre um escape diante da falta de solução.
Mais importante do que tudo isso é que ganhamos. E depois de cinco meses e todas as intempéries que cruzaram nosso caminho, ganhamos na Arena.
Braithwaite marca o gol inicial, em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Foram 134 dias distante da Arena, desde as enchentes que destruíram o Rio Grande do Sul e deixaram marcas no coração dos gaúchos. O Grêmio foi o time de futebol mais prejudicado com a tragédia que abateu o Estado. Peregrinou como um circo mambembe por estádios brasileiros disputando três competições importantes. Embora tenha conquistado resultados significativos, despediu-se de dois torneios, em meio a essa jornada cambaleante, e persiste no Campeonato Brasileiro com a pouco inspiradora luta para ficar longe da zona-que-você-sabe-qual-é.
O retorno ao estádio foi marcado pela precariedade. A infraestrutura não permitia jogos sem luz natural, por isso a disputa foi às 11 da manhã de domingo. Apenas parte das arquibancadas está liberada e muitos espaços internos seguem interditados. As manchas da lama aparecem em várias paredes e no mobiliário da Arena. O gramado foi instalado de maneira emergencial e trouxe uma cor e aparência estranhas.
A coincidência do calendário nos trouxe de volta à Arena em momento de emoções diversas. Não bastasse a retomada nossos estádio, o adversário foi o clube que melhor soube acolher o drama de todos os gaúchos. Merecia nossa reverência. Há uma semana, havíamos perdido o patrono e o “maior de todos os torcedores”, Cacalo. E o futebol amargava o luto provocado pela morte de Juan Izquierdo, do Nacional, esse time uruguaio que nos é próximo do coração.
Com a bola rolando, o sofrimento, a alegria e a frustração voltaram a se expressar. Ter Gustavo Martins expulso com menos de 20 minutos de partida – exagerada ou não a punição ao zagueiros que fez dupla trapalhada na jogada — nos colocava diante de dois cenários: o da derrocada iminente, que serviria para destruir a ilusão de que o drama que enfrentamos nesta temporada haveria de ser recompensado com uma recuperação heróica; ou o da vitória pela superação, sustentando a escrita da imortalidade e da energia emanada por um lugar sagrado que voltava a nos abrigar.
O primeiro tempo, em especial, e boa parte do segundo rascunhavam uma história incrível, daquelas de contar para os filhos, reunir os amigos e deixar a lágrima correr pelo rosto. Dizer do gigantismo deste time pelo qual escolhemos torcer e agradecer àqueles que nos tornaram gremistas. O primeiro gol veio pelos pés de Braithwaite, o atacante dinamarquês pelo qual já nos apaixonamos, e o segundo, na insistência de Cristaldo, que voltou a marcar.
De tão incrível que era o roteiro, sequer sofremos com o primeiro gol do adversários, aos 26 minutos do segundo tempo, após mais um pênalti cometido pelo nosso time e não defendido por nosso goleiro — que tem a capacidade de errar o lado em que a bola vai em quase que 100% das cobranças as quais é submetido. O revés naquela altura do jogo, estaria ali apenas para corroborar como seria glorioso sofrer pelo Grêmio. Ledo engano!
Nos acréscimos, aquele momento em que nosso técnico insiste em sinalizar a seus jogadores que “acabou, acabou”, levamos dois gols e a virada. O primeiro, de empate, também de pênalti e o segundo na pressão do adversário, quando tínhamos quatro zagueiros dentro da área. A jornada do herói imortal foi desconstruída em poucos minutos. Restaram a tristeza e a frustração, sentimentos dolorosos diante da expectativa que tínhamos no retorno à Arena.
A verdade é que o futebol é jogado dentro de campo, minuto a minuto. A história que nos trouxe até aqui pode não servir para nada na partida seguinte. O jogo depende muito mais das escolhas feitas pelo técnico e os jogadores, no instante em que a bola está rolando, do que qualquer fenômeno sobrenatural que costumamos evocar. A partida desta manhã de domingo chutou para longe toda e qualquer ilusão de que os deuses do futebol estariam dispostos a interferir a nosso favor. Eles não estão nem aí para nós. É no que acredito, ao menos até a próxima partida.
Criciúma 0x1 Grêmio Brasileiro – Heriberto Hülse, Criciúma/SC
Na braçadeira de capitão, uma das homenagens a Cacalo. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA
“Cacalo vivia o Grêmio como poucos viveram. O defendia com a gana de um Dinho, a disposição de um Kannemann e o sarcasmo de um Danrlei. Cacalo nunca foi Valdo, tampouco Gessy. Porque esses jogavam com diplomacia vestidos de Grêmio. Quando se tratava de Grêmio, Cacalo dispensava as diplomacias. A paixão era maior.”
Leonardo Oliveira, GZH
Aproveito-me do talento no texto e da proximidade que o jornalista Leonardo Oliveira, da GZH, tinha com Luiz Carlos Silveira Martins para homenagear um dos maiores dirigentes destes quase 121 anos de história do Grêmio. Cacalo morreu no sábado, aos 73 anos. Era o patrono do clube, título concedido a alguém que se satisfaria em ser apenas torcedor, porque era o maior deles.
Quando ascendeu na hierarquia gremista, eu já estava distante dos bastidores do time. Lembro dele de algumas conversas apaixonadas no pátio do Olímpico Monumental, exercendo a função que mais sabia fazer: torcer pelo Grêmio. Dos presidentes gremistas, conheci mais de perto Hélio Dourado e Fábio Koff, muito mais pelas mãos de meu pai do que por minhas competências. Admirava aquelas figuras pelo poder que tinham de construir o time do coração.
Assim como Dourado e Koff, Cacalo fez do Grêmio um campeão. Com presença ativa entre o fim da década de 1980 e ao longo dos anos de 1990, ele participou de grandes conquistas do clube, com destaque para a Libertadores de 1995, o Brasileiro de 1996 e as Copas do Brasil em 1994 e 1997. Foram 13 títulos no total. ‘Aposentado’ do papel de cartola, foi defender o Grêmio na imprensa, como colunista do jornal Diário Gaúcho e, depois, comentarista da rádio Gaúcha de Porto Alegre.
Era ‘sanguinário’, como bem disse o texto publicado pelo Grêmio ao anunciar a morte do ex-presidente. Era feliz em ser gremista, sentimento expresso na frase que ele imortalizou e estava estampada na braçadeira de capitão e na camisa do técnico e dos jogadores que entraram em campo, em Criciúma, nesta tarde: “Como é bom ser gremista.”
Por essas coincidências que a vida nos apronta, Cacalo morreu às vésperas de uma partida do Grêmio. Considerando que noutra vez em que esteve em coma por cinco dias, ao acordar, a primeira coisa que perguntou foi se o Grêmio havia vencido, desconfio que tenha sido dele o cuidado para que o velório se encerrasse uma hora antes de o jogo de hoje se iniciar. Cacalo tinha pressa, queria assistir ao Grêmio lá do alto e transmitir a energia necessária para o time se recuperar das duas eliminações recentes, na Libertadores e Copa do Brasil.
Na preleção que antecedeu a partida, o atual presidente do Grêmio, Alberto Guerra, falou aos jogadores sobre a importância de Cacalo na história do clube. Pediu a vitória em homenagem ao dirigente falecido. Em campo, o que se viu foi um Grêmio buscando o resultado desde o início, mesmo diante da pressão adversária e de desacertos na movimentação e troca de bola em algumas jogadas.
Com Cristaldo e Monsalve no meio de campo, o Grêmio se arriscou mais. No gol, Marchesín fez defesas importantes. No ataque, Soteldo aparecia com destaque. A vitória foi alcançada no segundo tempo, após as entradas de Arezo e Aravena. Foi o chileno quem fez a jogada pela esquerda e cruzou para Monsalve brigar com os zagueiros e o goleiro antes de desviar a bola às redes.
Foi só um a zero, mas não precisava mais do que isso para somarmos três pontos na tabela de classificação, nos afastarmos mais um pouco daquela-zona-que-você-sabe-qual-é, e começarmos a olhar para cima. Ao fim do primeiro tempo e no encerramento da partida, tanto Villasanti quanto Monsalve, aos serem entrevistados, fizeram questão de lembrar o nome de Cacalo. Dois jogadores que não tiveram proximidade com o dirigente, mas que entenderam o simbolismo dele para o clube.
Que Cacalo, lá em cima, siga nos iluminando para que nós, cá embaixo, sejamos fortes e capazes de manter o legado que ele nos deixou.