Sobre o sentimento do ciúmes

Por Beatriz Breves

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O ciúme é um daqueles sentimentos que todo mundo conhece, mas que raramente é compreendido em profundidade. Ele aparece como um aperto no peito, um desconforto, uma sensação de ameaça e, no fundo, nasce do desejo de manter o outro por perto e do medo de perdê-lo.

Há uma crença popular de que “quem ama, sente ciúme”. Mas amor e ciúme não são necessariamente dependentes. É possível amar e sentir ciúme, como também amar sem sentir ciúme. Ainda assim, é raro que o ciúme não apareça em algum grau. Ele funciona como sal na comida: se em excesso, estraga; se em falta, empobrece; na medida certa, deixa a comida saborosa. Uma pitada de ciúme pode até fazer bem, por revelar cuidado e presença.

Outra ilusão comum é imaginar que o ciúme envolve somente duas pessoas. Na verdade, ele sempre forma um triângulo: eu com alguém e mais alguma outra pessoa ou coisa. Sim, até coisas. Há quem sinta ciúme de um trabalho, de um automóvel, de um celular. O ponto central é sempre o mesmo: a sensação ameaçadora de perda.

O ciúme nunca vem sozinho. Ele se mistura a outros sentimentos. Quando caminha ao lado, por exemplo, do amor, da solidariedade e do companheirismo, tende a ser leve. Quando se alia ao desespero, à angústia ou ao medo intenso, pode se tornar controlador e sufocante. E, ainda, quando se junta ao desejo de dominar, ao impulso cruel ou à violência, a pessoa tende a perder o controle de si mesma. Portanto, a questão principal não é o ciúme na sua condição isolada, mas os sentimentos que se agregam a ele.

Por isso, a pergunta mais importante não seria “por que sinto ciúme?”, mas “com quais sentimentos o meu ciúme está andando?”. É essa combinação que irá diferenciar um incômodo passageiro de um sofrimento profundo.

Pode-se dizer com uma certa segurança que o ciúme vai aparecer em algum momento da vida, e ainda bem. Ele é um sentimento que mostra onde dói, onde há falta de segurança, onde existe o desejo, onde há amor. O problema surge quando não se sabe o que fazer com o que se sente.

Fato é que o ciúme é somente a ponta de um iceberg no oceano dos sentimentos. Quando alguém consegue enxergar o que está se aliando a ele — inseguranças, desejos, medos, necessidades afetivas, etc — o ciúme passa a ser compreendido como um mensageiro de fragilidades, desejos e necessidades afetivas. É justamente a partir desse reconhecimento que se torna possível construir relações mais maduras.

A dificuldade, para muitos, está em administrar os próprios sentimentos. Seja por desconhecimento, seja por receio, poucas pessoas têm a oportunidade de falar sobre o que sentem sem, de alguma forma, se censurar ou ser censuradas. E, quando não se pode expressar o que se sente, o ciúme e os sentimentos a ele agregados, como qualquer outro sentimento, tendem a se distorcer.

Portanto, falar sobre os próprios sentimentos, sobre o que se está sentindo, é uma das atitudes mais saudáveis que alguém pode ter. Guardar tudo para si é como se afogar no mar dos sentimentos. Quando uma pessoa pode compartilhar a sua insegurança com alguém em que haja reciprocidade no gostar, seja parceiro(a) ou amigo(a), cria um espaço externo e interno para acolhimento, compreensão e conexão.

Leia o livro Falando de Sentimentos com Beatriz Breves

Beatriz Breves é presidente da Soc. da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com Esp. em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia tit. Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Como diferenciar frustração de toxicidade e proteger suas relações

Por Beatriz Breves

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Quem nunca percebeu que, ao conviver com certas pessoas, alguns sentimentos ou comportamentos parecem ganhar força; com outras, simplesmente estes sentimentos não surgem? Isso acontece porque, quando duas ou mais pessoas se encontram, seus aspectos individuais entram em interação. Elementos semelhantes ressoam e se influenciam mutuamente, moldando a forma como cada um sente, reage e se posiciona naquele vínculo.

É justamente essa dinâmica que ajuda a explicar por que há relações que evoluem para a harmonia, enquanto há aquelas que deslizam para a toxicidade. O encontro entre duas subjetividades pode tanto gerar um campo fértil para o crescimento, quanto ativar padrões que ferem, limitam e desgastam.

Muitas pessoas confundem uma relação harmoniosa com uma relação perfeita. Harmonia não é sinônimo de perfeição, e perfeição, por sua vez, está longe de ser garantia de saúde. Se imaginássemos um casal “perfeito”, provavelmente veríamos uma convivência marcada pela monotonia, pela ausência de espaço para movimento, tensão criativa ou crescimento pessoal. Isso porque o ser humano amadurece justamente nas diferenças, ou seja, nas ausências, nos desencontros e nos contrastes que geram movimento.

Usando uma metáfora musical, é no intervalo entre as notas que o corpo encontra espaço para dançar. Da mesma forma, é no espaço entre as certezas, entre os pequenos atritos, que a relação se constrói e amadurece.

As frustrações cotidianas não significam que a relação está ruim; elas apenas indicam que algo precisa ser ajustado. Podem surgir do desejo por mais atenção ou da expectativa de mudança em algum comportamento, entre outras situações. Enfim, são ocorrências comuns, que costumam se resolver com diálogo, empatia e, em certos momentos, com a aceitação madura de que nem tudo pode, ou deve, ser transformado.

As frustrações cotidianas são inevitáveis e naturais; portanto, são frustrações saudáveis. Em qualquer relação, o não atendimento ocasional das expectativas faz parte do fluxo saudável entre duas pessoas, porque ninguém consegue corresponder integralmente ao que o outro deseja o tempo todo. O que realmente importa é como cada pessoa lida com esses pequenos desencontros — se eles se transformam em espaço para o diálogo e passam a fazer parte do amadurecimento do vínculo.

A frustração tóxica não segue esse padrão. Como o próprio nome sugere, ela intoxica. Enquanto a frustração cotidiana aponta para ajustes possíveis dentro de um vínculo que permanece respeitoso, a frustração tóxica corrói, desorganiza e fere. Manifesta-se por comportamentos repetitivos gerando sofrimento psicológico constante e, por vezes, físico. Nessas relações, os conflitos se tornam a base da convivência, pois prevalecem o desrespeito, o controle e a manipulação.

Uma relação tóxica drena a vitalidade emocional, porque funciona por repetição de padrões que machucam, desgastam e desorganizam o bem‑estar de quem está envolvido. O sofrimento deixa de ser pontual e é constante, criando um ambiente de tensão, insegurança e exaustão afetiva, gerando intenso desgaste emocional.

A frustração saudável abre espaço para conversa e reajuste; a que contém toxicidade, instala medo, insegurança e perda de autonomia. A frustração cotidiana funciona como um remédio amargo que, mesmo causando incômodo, favorece o crescimento, a reorganização e a maturidade emocional. Já a tóxica age como um veneno que corrói lentamente, enfraquece a capacidade de discernimento e paralisa a iniciativa.

Transformar uma relação tóxica é um processo complexo porque exige que ambos reconheçam o padrão e se comprometam com a mudança. Esses padrões costumam estar profundamente enraizados, muitas vezes construídos ao longo de anos, e, por isso, não se desfazem somente com boa vontade ou promessas. O primeiro passo é admitir a necessidade de mudança; o segundo, identificar os comportamentos que sustentam a dinâmica tóxica; e o terceiro, buscar apoio para reconstruir a forma de pensar, sentir e se relacionar.

Entre os comportamentos tóxicos mais conhecidos estão o gaslighting, quando um dos parceiros distorce a realidade do outro a ponto de fazê‑lo duvidar da própria sanidade; o manterrupting, caracterizado por interrupções constantes e desnecessárias que impedem o outro de concluir seu raciocínio; e o mansplaining, que ocorre quando um dos parceiros fala condescendentemente, explicando o óbvio como se o outro fosse incapaz de compreender.

Estão nesta lista de comportamentos tóxicos também o love bombing, marcado pelo excesso de carinho no início da relação para, mais tarde, exercer controle; o silêncio punitivo, usado como forma de castigo que gera insegurança; e o ciúme possessivo, que funciona como controle disfarçado de cuidado.

Compreender a diferença entre frustração cotidiana e frustração tóxica ajuda a nutrir relações mais saudáveis, sensíveis e respeitosas. Essa compreensão fortalece os vínculos e amplia a nossa potência de amar.

Leia o livro Falando de Sentimentos com Beatriz Breves

Beatriz Breves é presidente da Soc. da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com Esp. em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia tit. Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Sobre o sentimento de abandono

Por Beatriz Breves

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O sentimento de abandono, quando vivido em sua forma mais intensa, pode fazer o tempo parecer arrastado, o espaço tornar-se áspero e a dor ocupar toda a região interna do peito. É uma experiência que pode emergir da ausência de alguém, do enfraquecimento de um vínculo ou da quebra de expectativas que sustentavam a sensação de pertencimento. Em muitos casos, sentir-se abandonado equivale a perceber o chão se desfazendo sob os próprios pés.

É natural existirem diferentes intensidades desse sentimento, variando desde pequenos abandonos até vivências mais profundas. Inclusive, experimentar pequenos abandonos se faz até necessário para que a pessoa aprenda a se cuidar melhor e a se acompanhar com mais presença de si mesma.

Há também diversas defesas para evitar o sofrimento associado ao abandono. Entre elas, observa-se quem, movido pelo medo da perda, abandona antes de ser abandonado. Há ainda quem recorra a subterfúgios externos — às vezes evidenciados por excessos de ação — na tentativa de não entrar em contato com a dor, defesa que vale para qualquer forma de sofrimento.

Ainda assim, o abandono costuma vir acompanhado do desamparo, que ressoa em solidão, angústia, desespero, insegurança e tantos outros sentimentos. Acrescenta-se ser comum a sensação de um vazio interno que revela o quanto a pessoa se sente só diante da própria existência. A gravidade desses sofrimentos dependerá da intensidade com que se manifestam e do quanto paralisam a vida de quem os vivencia.

Fato é que sentir-se só pode nos afastar de nós mesmos e nos levar a perder nossas referências internas. É nesse movimento que pode emergir um abandono ainda mais sofrido: a renúncia de nós por nós mesmos.

É fácil compreender que, quando nos abandonamos, atropelamos a dor que sentimos, silenciamos necessidades legítimas e seguimos adiante sem nos escutar. Aspectos importantes de quem somos são colocados à margem, deixando-nos em desamparo e sem acolhimento, promovendo uma grande desarmonia interior. A desconexão interna então se impõe.

Entretanto, quando percebemos que nossas lágrimas não são somente pelo que perdemos, mas também pelo que deixamos de ser para nós mesmos, pelas palavras gentis que não nos oferecemos e pela atenção que deixamos de nos dedicar, compreendemos que o sentimento de abandono não diz respeito somente ao que se foi, mas também ao que nós mesmos nos negamos. É justamente aí que surge a possibilidade de resgate: ao percorrermos nossos caminhos internos pela via do autoacolhimento, temos a chance de recuperar nossa presença em nosso próprio mundo e voltarmos a nos acompanhar.

Ao nos cuidarmos com atenção e gentileza, abrimos um espaço interno onde a dor não precisa dominar, podendo ser vivida com mais lucidez e menos solidão. Nesse gesto de autoacolhimento, descobrimos uma força cuidadora que habita em cada um de nós, uma força que sustenta, reorganiza e nos permite seguir adiante, amparados pela presença mais constante que temos em nossas vidas: nós mesmos. Afinal, se nós não nos tornarmos o nosso melhor amigo, dificilmente alguém poderá ocupar esse lugar.

Beatriz Breves é presidente da Soc. da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com Esp. em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia tit. Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

O universo que vibra em nós

Por Beatriz Breves

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Vamos imaginar que a espécie humana, ao longo de sua evolução, não tivesse desenvolvido o sentido da visão. Como perceberíamos o mundo? Como teria se desenrolado a história da humanidade se pudéssemos falar, ouvir, tocar, sentir o paladar e o cheiro, mas jamais enxergar?

Fica difícil imaginar esse cenário porque as pessoas com deficiência visual de hoje vivem em um mundo projetado por quem enxerga. Por isso, aprendem conceitos moldados pela experiência visual. Ainda assim, algumas desenvolvem técnicas próximas à ecolocalização — o mesmo mecanismo usado por morcegos para identificar objetos por meio do eco de sons de alta frequência. Esse fato revela que, mesmo sem a visão, a humanidade encontraria caminhos próprios de desenvolvimento, ainda que muito diferentes dos que conhecemos.

Ampliando esse exercício, no que diz respeito à audição, imaginemos que a espécie humana, que evoluiu percebendo sons entre 20 e 20 mil ciclos por segundo, tivesse adquirido a capacidade auditiva de um cachorro, capaz de alcançar até 50.mil ciclos por segundo. Ou de certas mariposas, sensíveis a frequências que ultrapassam 100 mil ciclos por segundo? Como teria evoluído nossa cultura, nossa linguagem, nosso conhecimento científico, enfim, a nossa percepção de mundo?

Os limites da percepção humana

Não é difícil concluir que cada ser vivo percebe o universo a partir de um campo sensorial próprio, moldado pela evolução. Assim, um cachorro vive na dimensão C; uma mariposa, na dimensão M; e o ser humano, na dimensão H. Essas dimensões não são lugares, mas modos de recortar o real, filtros que determinam o que existe para cada espécie.

A dimensão H, portanto, não é o universo em si, mas um fragmento do que conseguimos captar. A solidez da matéria, a estabilidade dos objetos, a separação entre o visível e o invisível, tudo isso é, em grande parte, uma construção da nossa forma de perceber.

Para tornar essa ideia ainda mais clara, imaginemos o inverso: e se tivéssemos evoluído para perceber diretamente o microcósmico — o domínio quântico, onde partículas, campos e interações fundamentais constituem a base de tudo? Nesse nível, a realidade não aparece como objetos sólidos, mas como oscilações, probabilidades, padrões vibratórios. O quântico não descreve “coisas”, mas processos vibracionais.

Se esse fosse o nosso campo perceptivo natural, a incerteza não estaria no subatômico, mas nas células, nos genes e nos processos internos do corpo. O que hoje chamamos de “material” seria somente uma manifestação ampliada, ou reduzida, de uma realidade vibracional mais profunda.

Assim, quando dizemos que cada espécie vive em sua própria dimensão, estamos reconhecendo que o universo é um só, mas a natureza que cada ser experimenta é profundamente diferente.

Como escrevi em O Homem Além do Homem (2001):

“A dimensão H é o ponto de origem da criação de todas as concepções humanas, ou seja, a matemática, as ciências, a filosofia, os mitos, tudo o que o ser humano concebeu e ainda irá conceber.” (p. 46, RJ: Mauad X)

Cabe ressaltar que, além da dimensão H, observa-se a dimensão h, aquela que, individualmente, cada ser humano, em sua subjetividade, com os recursos que a natureza lhe concedeu, concebe e interpreta a si e o mundo à sua volta.

Essa perspectiva nos leva a compreender que divisões como massa e energia, psíquico e corpo, início e fim, são efeitos da nossa percepção limitada. É a própria evolução humana que cria a fronteira entre o visível e o não visível, o material e o não material, o macro e o microcósmico. 

Do paradigma material ao paradigma vibracional

Frente a essa constatação, a crítica ao paradigma cartesiano‑materialista se torna inevitável. Ele descreve a realidade como composta por entidades separadas, sólidas e independentes, privilegiando aquilo que é mensurável e visível.

O paradigma vibracional, por outro lado, parte da premissa de que a vibração é o fundamento comum a todos os níveis da realidade — seja da ordem quântica, biológica, psíquica ou cosmológica. Enquanto o paradigma materialista fragmenta e reduz o real a objetos isolados, o paradigma vibracional compreende a realidade como um sistema — um conjunto de processos em constante interação — no qual nada existe isoladamente, mas somente em relação, movimento e ressonância.

Sob esse olhar, o ser humano, em seus níveis material e quântico, revela‑se como um complexo vibracional macromicro uno, inteiro e indivisível, uma totalidade à qual não temos acesso direto. Da mesma forma, soma e psique deixam de ser causa e efeito, sendo duas expressões distintas de uma mesma realidade vibratória.

Esse é justamente o princípio que fundamenta a Ciência do Sentir: compreender o sentir como a experiência vivenciada da vibração que somos e com a qual interagimos. Assim, ao acessarmos a totalidade da natureza, não o fazemos pela visão, pela audição ou por qualquer sentido isolado, mas pela capacidade do nosso sistema perceptivo de captar vibrações que se expressam, no sentir, como sensações, sentimentos e pensamentos.

Em última instância, a Ciência do Sentir reconhece que, para compreender a totalidade vibracional que somos, precisamos aprender a sentir o universo que vibra em nós. 

Leia, também, aqui no blog, “A ciência do sentir: uma nova compreensão vibracional do ser humano”

Beatriz Breves é presidente da Soc. da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com Esp. em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia tit. Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

A ciência do sentir: uma nova compreensão vibracional do ser humano

Por Beatriz Breves

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Um equívoco recorrente consiste em imaginar que a transdisciplinaridade se resume a importar conceitos de uma área para outra. Esse procedimento ignora que cada campo do conhecimento possui objeto próprio e métodos específicos, o que pode gerar interpretações profundamente equivocadas. Em termos triviais, seria como afirmar que “a vida dá voltas” porque a Terra gira em torno do Sol. A física investiga matéria, energia e suas interações; a psique pertence a outro domínio de realidade, com dinâmicas e critérios próprios de investigação.

Foi justamente essa lacuna, somada à ausência de uma reflexão mais profunda sobre o sentir, que me levou, após três anos como psicóloga, a buscar, em 1986, a graduação em Física, para compreender a energia a partir daqueles que a têm como objeto formal de estudo.

Os sonhos no encontro entre psique e energia

A primeira articulação consistente entre essas duas áreas surgiu por volta de 1988, quando investigava a fenomenologia dos sonhos. Analisando relatos oníricos, especialmente os de pessoas com deficiência visual, foi possível estabelecer uma sequência de observações: se na natureza não existe cor sem ondas eletromagnéticas; se os sonhos apresentam cor em sua expressão fenomenológica; e se os olhos, receptores dessas ondas, durante os sonhos, apresentam o movimento REM; então os sonhos poderiam ser compreendidos como um fenômeno psíquico processado sob a forma de ondas eletromagnéticas, isto é, ondas que se propagam à velocidade da luz.

Em contrapartida, o estado de vigília se apresenta extremamente lento quando comparado à velocidade da luz, sugerindo que a psique humana poderia funcionar em duas velocidades distintas: uma próxima da luz e outra próxima de zero. E foi nesse contexto conceitual que o Inconsciente Relativístico ganhou forma.

Chamo de Inconsciente Relativístico porque se baseia na teoria da relatividade de Einstein quando propõe que, quando dois sistemas interagem, um estando próximo à velocidade da luz e outro próximo à velocidade zero, surgem os efeitos relativísticos como dilatação do tempo, contração do espaço e variação de massa. Assim, os sonhos, a psique em estado inconsciente, processados à velocidade da luz, ao interagir com a psique em vigília, processada à velocidade zero, produziriam efeitos relativísticos, o que ajudaria a compreender a lógica aparentemente absurda dos sonhos. Nesse sentido, o inconsciente possuiria tempo, mas um tempo dilatado em relação ao da consciência.

O ponto cego da neurociência tradicional

A neurociência tradicional, porém, questionaria essa hipótese, afirmando que os neurônios atuam por sinais eletroquímicos extremamente lentos quando comparados à velocidade da luz, o que inviabilizaria ondas eletromagnéticas como base do sonho. Contudo, posso questionar a neurociência ao descrever o que acontece no cérebro, mas não explicando por que isso gera uma experiência tão semelhante à percepção real, especialmente no que diz respeito à vivência da cor. E este seria, digamos, um ponto cego importante: a neurociência tende a confundir correlação com explicação. O fato de certas áreas cerebrais se ativarem durante o sonho não prova que essa ativação seja a causa da experiência, mas somente que ocorre simultaneamente.

A fenomenologia dos sonhos expõe uma lacuna entre o funcionamento neural e a experiência subjetiva. A vivência onírica possui qualidades luminosas, intensas e imediatas que não se encontram nos sinais lentos do cérebro, sugerindo que a experiência ocorre em um regime distinto daquele descrito pela neurociência. E, ainda, soma-se a essa questão o tempo subjetivo: nos sonhos, segundos podem parecer horas. O ritmo onírico não acompanha a temporalidade fisiológica, reforçando a hipótese de que a psique humana funciona em mais de um regime temporal.

Fato é que, se deixamos o paradigma estritamente materialista e migramos para o paradigma vibracional, no qual o universo quântico também se faz presente, uma nova interpretação se torna possível. No modelo materialista clássico, a psique é tratada como consequência do cérebro, e toda experiência subjetiva seria produto direto de interações eletroquímicas. Já no paradigma vibracional, a realidade não se limita à matéria densa, mas inclui padrões sutis de organização que interagem com princípios do universo quântico. Nessa visão, o “padrão quântico” deixa de ser metáfora e passa a se constituir como hipótese estrutural. Certos fenômenos subjetivos, especialmente os oníricos, parecem obedecer a dinâmicas temporais e qualitativas incompatíveis com o processamento neural.

O gato, a incerteza e a experiência psíquica

Foi dentro desse contexto que vivi uma experiência decisiva quando meu gato esteve gravemente doente e o veterinário avaliou que poderia sobreviver ou falecer naquela noite. Mesmo angustiada pela incerteza, acabei adormecendo e, quando acordei de madrugada, tomada por um receio profundo, não tive coragem imediata de verificar se ele estava vivo ou morto. Permaneci somente pensando e, quando imaginava que estava vivo, sentia alegria; quando imaginava que havia falecido, a tristeza me invadia. Continuei por alguns instantes entre esses dois sentimentos que, apesar de superpostos, eram completamente distintos, até finalmente criar coragem para ir vê-lo.

Essa vivência me remeteu imediatamente ao experimento mental do gato de Schröndinger. Enquanto não observava, a incerteza imperava. Foi quando percebi que o funcionamento da representação psíquica, enquanto não materializamos a experiência por meio da observação, se apresenta como um campo de possibilidades superpostas.

Não tenho elementos para afirmar que a representação psíquica em sua subjetividade seja literalmente um fenômeno quântico, mas posso afirmar que a dinâmica é análoga: antes da observação, coexistem estados possíveis; no instante em que interagimos diretamente, um deles se atualiza como a experiência. Essa analogia reforça a pertinência de incluir o padrão vibracional‑quântico como ferramenta conceitual para compreender modos de funcionamento da psique que escapam ao paradigma materialista estrito e apontam para a necessidade de modelos mais amplos, como o próprio Inconsciente Relativístico.

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