O dilema do amor onipotente

Por Caio Luizetto

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Um dos questionamentos mais profundos da fé é a aparente inação de Deus frente ao sofrimento humano. Se Ele é todo-poderoso e bom, por que o mal persiste? As respostas comuns esbarram em limites de poder ou de vontade. Este texto propõe um caminho diferente: o limite supremo de Deus é o Seu próprio amor.

Se Deus não amasse, a solução seria simples. Basta um ato de vontade, um reset cósmico, o apagar puro e simples do que causa o problema. O poder, sozinho, não encontraria obstáculos.

Mas o amor não permite soluções simples. Ele cria um limite que não é de poder, mas de sentido. É por causa do amor que o sofrimento se torna também um problema para Deus. Porque é justamente o amor que O impede de eliminar o mal pela raiz — e a raiz do problema está no próprio humano, objeto desse amor.

O problema, portanto, não está fora de Deus, como algo que Ele apenas observa. Está no mesmo lugar onde Seu amor repousa. Destruir o problema significaria destruir o humano — e isso o amor não autoriza.

Por isso Deus não apenas vê o mal. Ele o suporta. Não porque o aceite, mas porque não pode abandonar aquilo que ama.

O amor, então, deixa de ser apenas virtude divina e passa a ser também o Seu impedimento. Não um impedimento de agir, mas de agir contra o próprio amor.

Assim, Deus não resolve o mundo. Ele permanece nele. E permanece sofrendo, porque amar é escolher não se retirar.

Eis, então, a natureza do dilema: a onipotência encontra seu único limite naquilo que a própria onipotência escolheu ser — o amor. Por isso, a solução simples permanece para sempre no reino da hipótese vazia. A realidade é esta, mais complexa e mais profunda: Deus não sofre apesar do amor. Deus sofre porque ama. E nesse sofrimento, paradoxalmente, reside a confirmação final de Seu amor. 

Caio Luizetto é teólogo e cientista da religião, pós-graduado em Missão Integral em contexto urbano. Sua produção aborda as relações entre fé, dor, sentido e maturidade espiritual na vida contemporânea. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Deus Sem Atalhos: uma teologia da permanência no caos

Por Caio Luizetto

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Há quem repita, quase como um refrão automático: “Deus está vendo tudo.”
Mas se Deus fosse apenas um observador que assiste ao desfile interminável de injustiças, violências e misérias humanas, então Sua contemplação seria tão cruel quanto estéril.

Um Deus que apenas vê seria um Deus diminuído, reduzido a ídolo: um olhar distante pairando sobre um mundo em ruínas. Uma divindade assim não seria mais que um mito — um eco vazio projetado sobre o infinito.

Mas o Deus que faz sentido não é o Deus voyeur da dor alheia.
É o Deus vulnerável, o Deus afetado, o Deus que sofre.

Se o prazer de Deus está na reciprocidade — na chama que se acende quando seres humanos se reconhecem, se ajudam, se amam — então a ruptura dessa ordem amorosa fere o próprio coração divino.
O antagonismo do prazer é o sofrimento; onde o amor se rompe, Deus se dilacera.

Dizer que Deus “vê tudo” empobrece o drama divino-humanal.
Deus não contempla de longe: Ele participa.
Não paira em neutralidade: Ele se compromete.
Não observa as dores do mundo: Ele as incorpora.

Se a marca dos discípulos está no mandamento do amor — amai-vos uns aos outros — então cada vez que odiamos, negamos, ferimos ou abandonamos, não é apenas o outro que sofre: é Deus que sangra através dele.
O sofrimento humano não acontece à revelia do sagrado; acontece dentro de Deus.

Por isso, não é adequado imaginar um Deus que tudo vê.
Esse Deus seria estático, impermeável, imóvel.

O Deus vivo, porém — o Deus que vale a pena ser chamado Deus — é aquele que, ao ver, geme; ao testemunhar a injustiça, se contorce; ao encontrar violência, se rasga; ao perceber a fratura entre irmãos, agoniza.

Assim, Deus não está simplesmente vendo tudo.
Deus está sofrendo tudo.
E talvez aí resida a maior dignidade de Sua divindade: Ele não se exime do peso do mundo; Ele o carrega consigo.

Um Deus que sofre não é um Deus derrotado — é um Deus que ama até o limite da dor.

Caio Luizetto é teólogo e cientista da religião, pós-graduado em Missão Integral em contexto urbano. Sua produção aborda as relações entre fé, dor, sentido e maturidade espiritual na vida contemporânea. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.