O aplauso como ferramenta de acolhimento e poder

Por Christian Müller Jung

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O ato de bater palmas é um dos gestos humanos mais antigos e universais. No entanto, “pedir uma salva de palmas” carrega camadas que misturam etiqueta, psicologia e, claro, estética. Essa atitude viaja pelo tempo através das mais diversas formas de reverência. Transita pela religião como louvor e aclamação de profundo significado espiritual, atuando como uma “tecnologia vibracional” que limpa o ambiente e quebra energias densas — algo muito presente em rituais como os da Umbanda e do Candomblé. É um ato de saudação, reverência e celebração.

No teatro grego, o aplauso servia para pedir aos deuses proteção para as artes. Séculos depois, Nero criou a famosa “Claque”: pessoas pagas para aplaudi-lo e garantir que sua entrada fosse triunfal — o que hoje poderíamos interpretar, de certa forma, como as “bolhas” e os exércitos de seguidores das redes sociais.

Centrando o assunto na atividade do Mestre de Cerimônias (MC), entendo que o aplauso é um alimento emocional.

Não só o ser humano merece ser aplaudido; a própria vida merece igualmente.

O MC não é meramente um anunciador de nomes; ele é o “anfitrião da energia” do ambiente. Ele não é o anfitrião do evento — papel que cabe à autoridade específica, como o Governador —, mas é quem conduz o clima da sala.

Via de regra, quando o MC pede uma salva de palmas para alguém que não está habituado ao palco, esse ato funciona como um abraço sonoro; um acolhimento acalorado que preenche o silêncio. É uma forma de dizer: “Eu te vejo e reconheço seu valor”. Em muitos momentos, o bater das palmas centra a plateia, cessa as conversas paralelas e volta a atenção para o palco. Nas entrelinhas, o Mestre está legitimando a fala que virá a seguir. Ele atua como um “Regulador Emocional”, assumindo a responsabilidade pela energia do recinto e tirando esse peso das costas do convidado.

O trajeto da cadeira ao microfone pode parecer infinito, gerando agonia e nervosismo. É aqui que surge o que a fonoaudióloga Leny Kyrillos explica com propriedade: a ativação do Sistema Límbico, a parte mais primitiva do nosso cérebro. Esse sistema, presente nos animais e em nós, ativa-se em momentos de desafio e oferece três caminhos: lutar, fugir ou congelar. Imagine-se em frente a um cão feroz; para algumas pessoas, o “silêncio” da plateia é esse predador.

Cabe ao Mestre avaliar o momento e deixar de ser uma estrutura estática para utilizar sua experiência como suporte psicológico. Para que não soe cafona ou artificial, o segredo está na justificativa.

Pedir palmas para si mesmo? Sim, isso é cafona.

Mas quando se sabe o que está fazendo, o pedido traz acolhimento térmico, redução da tensão e aprovação antecipada ao orador.

Tudo isso acontece rápido e, muitas vezes, intuitivamente. Acolher com empatia é uma das qualidades os que ainda persistem em nossa sociedade. Pedir palmas transforma o ambiente em um espaço amigável e seguro, disparando gatilhos cerebrais positivos.

As palmas preenchem o vazio acústico.

A elegância está na naturalidade.

O silêncio é “frio” e intimidador; o aplauso é “quente” e acolhedor.

Como gosto de dizer: “Evento bom é quando a autoridade se sente segura e a plateia se sente convidada”.

Por favor, uma salva de palmas para o nosso convidado!

Christian Müller Jung é publicitário de formação e mestre de cerimônia por profissão. Colabora com o blog do Mílton Jung (de quem é irmão).

O santo lá de casa faz milagre

Christian Müller Jung é mestre de cerimônia Foto: Arquivo Pessoal

Lá em casa éramos três irmãos. Uso o tempo passado porque falo da casa onde morei com meus pais, no bairro Menino Deus, em Porto Alegre. Jacqueline foi a primogênita. Christian, o caçula. Eu fiquei no meio do caminho. Nossa mãe nos ensinou muito. O pai, radialista e jornalista, deixou um legado comum aos três: o uso da voz.

No meu caso, a ligação é direta. Segui a profissão dele e estou nessa caminhada há mais de 40 anos. Minha irmã recorreu à voz diariamente para conduzir alunos nas salas de aula das escolas municipais onde lecionou. Hoje, está aposentada. Já meu irmão utiliza esse mesmo recurso à frente de eventos públicos que conduz.

É do Christian que quero falar. Formou-se em publicidade, trabalhou com artes gráficas e investiu em cursos técnicos de locução comercial. Dos três, é quem tem a voz mais radiofônica e mais próxima da do pai. Esse talento o levou a um convite decisivo: atuar como mestre de cerimônias no Palácio do Governo do Rio Grande do Sul. O que começou como uma experiência fora de seus planos imediatos transformou-se em carreira. Mais do que isso, em propósito.

Christian está há mais de 20 anos nessa função. Trabalhou com sete governadores diferentes. Atua em cerimônias oficiais de diversos órgãos do Estado e participa de eventos públicos e privados, no palco ou na tribuna. Tornou-se referência entre cerimonialistas e profissionais da área. Com frequência, é convidado para congressos, fóruns e mesas de debate, onde compartilha conhecimento e vivência acumulados ao longo do tempo.

Um dos traços mais marcantes de seu trabalho é o rigor na execução, sempre atento aos protocolos exigidos pelos cerimoniais públicos. Ao mesmo tempo, desenvolveu flexibilidade para lidar com contextos variados. Aprendeu a ajustar sua condução ao perfil das autoridades que comandam o governo: há governadores mais formais, outros mais afeitos ao improviso; alguns reservados, outros expansivos. 

Essa capacidade se revela ainda mais valiosa diante de situações inesperadas. Ambientes inadequados, mas inevitáveis. Calor excessivo ou chuva persistente. Palcos de teatro, salões luxuosos, palanques mambembes e carroceria de caminhão. Momentos de tensão política que exigem cuidado, precisão e leitura fina do ambiente.

Ao longo dessas duas décadas, Christian acumulou experiência e construiu reputação sólida. Foi além da prática. Pesquisou, estudou, buscou embasamento teórico em autores da comunicação. Com o tempo, desenvolveu um estilo próprio de apresentação. Compartilhou esse aprendizado por meio de artigos publicados em sites jornalísticos e nas redes sociais, sempre com a disposição de dividir o que aprendeu.

Agora, amplia esse trabalho ao atuar como mentor de quem deseja investir na carreira de apresentador e mestre de cerimônias. São encontros individuais, de uma hora, com troca de informações, análise de casos reais, exercícios práticos e avaliação de desempenho. Um trabalho conduzido por quem vive a atividade, conhece suas exigências e se dispõe a formar novos profissionais.

É verdade: sendo irmão, este texto chega até você com algum viés. Sou irmão, admirador e escuto esse vozeirão desde os tempos em que éramos guris de calça curta correndo pelas calçadas do Menino Deus. Talvez por isso eu saiba que, quando o santo é de casa, o milagre não pode vir do acaso: tem de vir de estudo, prática e respeito ao ofício. Por isso, deixo o convite para que você conheça, por conta própria, o trabalho que ele realiza. Fale diretamente com Christian pelo Instagram @christian.mc.jung ou pela sua página no LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/christian-jung/

O Cerimonial da Gentileza

Por Christian Müller Jung

Foto: Mauricio Tonetto / SecomRS

Não planejei a profissão que tenho hoje. Cheguei a ela pelos caminhos que a insatisfação abre quando percebemos que algo já não nos serve. Aproveitei o patrimônio biológico que carregava desde sempre: a voz. Fiz o curso de Locução, Apresentação e Animação, acrescentando uma nova formação ao diploma de Publicidade e Propaganda pela PUC-RS.

Enquanto procurava um espaço para exercitar essa nova habilidade,  surgiu a oportunidade de atuar como Mestre de Cerimônias do Governo do Rio Grande do Sul. Ali, entendi que a voz e o cerimonial tinham mais conexão com gentileza do que eu imaginava.

Chego, assim, ao tema central deste texto.

Fui instigado a falar sobre ele em um programa de televisão, no Dia Mundial da Gentileza. Recordei imediatamente a rotina do cerimonial, esse conjunto de formalidades que orienta os atos solenes e exige, antes de qualquer protocolo, lidar com seres humanos: autoridades, convidados, pessoas que entram no Palácio Piratini por razões muito distintas.

Lembro do meu amigo e ex-chefe do Cerimonail, Aristides Germani Filho, apresentando as primeiras instruções aos estagiários: “Aqui todo mundo é Senhor e Senhora.”

Era um resumo elegante do ofício de receber: tratar com atenção, preservar a delicadeza, reconhecer o espaço do outro. Em poucas palavras, ser gentil.

Com o tempo, percebi que gentileza funciona como um distintivo social. Ela aproxima da comunicação não violenta, afasta a arrogância e abre espaço para relações mais transparentes. Falar sobre o tema me fez revisitar atitudes que venho praticando nesses anos de trabalho no Palácio do Piratini: acolher quem chega, perceber angústias escondidas nos gestos, manter a relação institucional do Governo firme e respeitosa.

Falar em público também tem sua dose de gentileza. A forma como colocamos a voz revela estados de espírito. Uma articulação clara acolhe; um tom cansado distancia; a irritação fere. A voz, quando bem usada, é uma ponte — e pode ser uma ponte suave.

Gentileza com quem está acima de nós é bom senso. Com quem trabalha ao nosso lado, é cuidado para evitar ressentimentos que se acumulam em silêncio e viram sabotagens involuntárias. Na vida profissional, ela funciona como instrumento discreto e decisivo.

E há um ponto essencial: escutar. Em uma época em que todos falam com absoluta convicção, a escuta virou raridade. Quem escuta exerce gentileza, mesmo quando discorda. A escuta é o gesto mais simples e, ao mesmo tempo, o mais exigente.

Antes de tudo, precisamos ser gentis conosco. Conhecer limites, saber dizer não, recusar a ideia de que ser gentil é agradar a qualquer custo. Gentileza não é submissão. Também não é manipulação. É autoconhecimento e respeito ao espaço do outro.

Ao longo da vida, encontramos pessoas que já nos conhecem e reconhecem nossas intenções. Mas grande parte dos encontros acontece com quem nada sabe sobre nós. E é nesses encontros que a gentileza se torna cartão de visita.

Alguns estudos mostram que pessoas que cultivam a gentileza relatam níveis menores de estresse e até pressão arterial mais baixa. Há pesquisas que relacionam essa prática à ocitocina: o hormônio produzido no hipotálamo, associado ao vínculo e à empatia. É a lógica da velha metáfora:

“Quando acendo a minha vela apagada na tua vela acesa, ninguém perde; todos ganham luz.”

Gentileza é exercício diário, daqueles que amadurecem com o tempo. E, justamente por ser prática contínua, encontra pela frente muita dureza, quase sempre fruto de ignorância, que não escolhe classe social, nível de escolaridade ou aparência.

Platão escreveu que precisamos de graça e gentileza por toda a vida. Concordo.

E se você chegou até aqui, agradeço pela gentileza da leitura!

Christian Müller Jung é publicitário de formação e mestre de cerimônia por profissão. Colabora com o blog do Mílton Jung (de quem é irmão).

A IA chega sem cerimônias: o que restará aos MCs? 

Por Christian Müller Jung

Foto de Allie Reefer

Dizer que a chegada da Inteligência Artificial representa uma mudança no mercado de trabalho é chover no molhado. A essa altura, todos nós já fomos impactados, seja de maneira positiva ou negativa. De um lado, essa tecnologia é bem-vinda: facilita atividades e agiliza processos. De outro, transforma profissões, elimina algumas funções e cria novas.

Tenho me perguntado até onde a IA irá impactar a minha área: a de Mestre de Cerimônias. E, por consequência, o campo em que atuo em conjunto, o cerimonial e o protocolo.

Neste artigo, quero me concentrar apenas na figura do Mestre de Cerimônias.

Vamos lá.

A voz é um ponto crucial na atuação do MC. Ela funciona como uma identidade, quase como uma impressão digital. Lembro sempre daquele velho exemplo do lobo tentando se passar pela vovozinha para enganar a Chapeuzinho Vermelho. Não colou!

Acontece que a IA já consegue estudar nossas características e criar vozes muito convincentes. E aqui encontramos outra área impactada diretamente: locução e dublagem.

Ainda que a IA consiga replicar a voz com perfeição, falta-lhe entender as nuances humanas. As variações de tom estão diretamente ligadas ao que acontece no momento, ao ambiente, à emoção que surge ali, ao vivo, durante uma solenidade.

Além disso, a função de mestre de cerimônias exige percepção aguçada para ler o público. Na relação humana, conseguimos captar se um conteúdo agrada ou não, se a forma como atuamos está de acordo com o que o público espera. Muitas vezes, basta um olhar rápido para perceber. Claro que, pensando em tecnologia e no potencial de aprendizado da IA, é possível imaginar que, num futuro próximo, ela também consiga fazer essa leitura. Mas ainda não.

Outro ponto dessa tecnologia que poderia ser vantajoso — se é que podemos dizer assim — é que a IA não se cansa. É constante, não lida com exaustão, problemas pessoais ou variações de temperatura. Poderia ser utilizada em vários lugares ao mesmo tempo, eliminando conflitos de agenda. Além disso, seria uma opção interessante do ponto de vista de custo-benefício.

Porém, como toda tecnologia, está sujeita a falhas — assim como o microfone que não funciona, o vídeo que trava ou o gerador que falha bem na hora do evento. E isso é algo que já vivi algumas vezes.

Lembro do dia em que tivemos de conduzir uma solenidade sem equipamento de áudio, porque alguém teve a brilhante ideia de montar o palco ao lado de uma UTI do hospital. O evento aconteceu “a capela”.

Em eventos, especialmente no cerimonial público, a improvisação é constante. Falta de equipamento, mudanças de roteiro, alterações na ordem das falas. Coisas que fariam uma IA, mesmo na sua forma mais avançada, questionar em que ano realmente estamos. MC com Inteligência Artificial combina com ambientes totalmente programados, estruturados, preparados para o uso da tecnologia.

Tudo bem, vamos supor um universo perfeito. Ainda assim, acredito que existe algo que mantém os humanos em um patamar acima da IA: a nossa história de vida. Não somos escolhidos apenas por uma voz bonita ou pela clareza na dicção. Somos escolhidos também pelo que carregamos: experiências, memórias, sensibilidade. Moldados por nossos arquétipos.

Reagimos a partir do que vivenciamos. Sabemos, com precisão, o peso de uma perda, a alegria de um nascimento, a força silenciosa de um abraço ou o significado de olhos avermelhados prestes a deixar uma lágrima escorrer.

No meu ponto de vista, a IA não substituirá o Mestre de Cerimônias. Tornar-se-á, isso sim, um excelente assistente, sempre pronto a apoiar e aprender mais.

Existe algo poético no ser humano que nos torna insubstituíveis. Mesmo nossos defeitos e desvios nos fazem únicos. Por sermos falíveis, somos sensíveis, capazes de compreender algo fundamental na relação humana: a empatia.

A despeito de a tecnologia avançar, dar a impressão de que vai “comendo pelas beiradas”, como quem espera a sopa esfriar, nos cabe desenvolver o poder de adaptação e fortalecer as habilidades que nos diferenciam. Afinal, não é de hoje que novas tecnologias causam inquietação. O poeta Mário Quintana já nos alertava sobre um dispositivo essencial para a vida moderna:

“O mais feroz dos animais domésticos é o relógio de parede: conheço um que já devorou três gerações da minha família.”

Christian Müller Jung é publicitário de formação e mestre de cerimônia por profissão. Colabora com o blog do Mílton Jung.

Nos bastidores da política, entre discursos e ações

Por Christian Müller Jung

Trabalhar na política — ou com políticos — me ensinou a relativizar o que se diz e o que, de fato, se faz. Essa é uma constatação que vale tanto para quem ocupa cargos públicos quanto para quem os critica. No ambiente político, a palavra e a prática nem sempre caminham juntas, e essa distância costuma aumentar nos períodos de maior polarização — que, diga-se, sempre existiu, mas ganhou um novo fôlego com o formato inflamável das redes sociais.

É impressionante a quantidade de comentários distorcidos sobre governantes que circulam por aí. E não me refiro apenas aos exageros dos militantes ou às narrativas fabricadas, mas também às críticas mal embasadas, que ignoram a complexidade do processo público. Não estou aqui para defender A ou B. Se boa parte da população pensa mal da política, é porque continua a assistir a verdadeiras barbeiragens administrativas — para não falar das falcatruas escancaradas.

Mesmo assim, a vida em sociedade segue seu curso. E isso só é possível porque há muita gente séria atuando nos bastidores. O problema não está na política em si, nem na função pública, mas na condição humana. A corrupção não nasce do cargo, mas da escolha de quem o ocupa — inclusive de quem julga, acusa e, por vezes, também comete seus deslizes pela vida afora.

Estar próximo do dia a dia político permite enxergar o que muitas vezes passa despercebido: a quantidade de projetos, estudos, articulações e superações de barreiras burocráticas que existem por trás de cada ação governamental. Processos que, idealmente, servem para proteger o contribuinte, mas que, em muitos casos, acabam travando o próprio serviço público. E quando esses projetos chegam à ponta, nem sempre a população percebe sua origem.

Há uma ineficiência estrutural na forma como a política se comunica. As propagandas eleitorais, por exemplo, contribuem pouco para a compreensão do que se faz — e muito para a confusão sobre o que se promete. Parte dessa falha, aliás, vem dos próprios políticos, que, ao assumir o papel de oposição, muitas vezes desconstroem o trabalho de colegas que atuam na mesma esfera. E isso vale, inclusive, para aqueles que já estiveram no poder. É o jogo político. Mas esse jogo, que alimenta uma eleição, também corrói a credibilidade de quem trabalha de verdade.

Aristóteles definia a política como o instrumento para promover a felicidade dos cidadãos. O que vemos hoje, no entanto, é uma performance superficial, marcada por discursos fabricados. Muitos políticos que conheço, com conhecimento técnico e vivência legítima, se transformam em robôs lendo teleprompter — com textos genéricos, escritos por agências que parecem desconectadas da realidade de quem atua na linha de frente.

Esse distanciamento impede que a comunicação política cumpra seu papel: aproximar, esclarecer, criar vínculos. O que chega ao eleitor, no fim das contas, é um discurso raso, repetido ano após ano, como se nada tivesse mudado — ainda que algo tenha mudado. E mesmo quando se apresentam realizações concretas, há sempre quem diga que tudo não passa de autopromoção. A crítica até faz sentido. Mas também revela um paradoxo: para sobreviver na política, é preciso comunicar. E para comunicar, é necessário visibilidade.

No meio disso tudo, há quem siga acreditando que política é, sim, uma ciência nobre — voltada ao bem comum. E que vale a pena dedicar tempo, energia e inteligência para desenvolver programas de governo que façam a diferença na vida das pessoas. O desafio é mostrar isso sem ser engolido pela caricatura do “mais do mesmo”. Porque há uma diferença entre estar na política e fazer política. Quem vive os bastidores sabe.

Christian Müller Jung é publicitário de formação e mestre de cerimônia por profissão. Colabora com o blog do Mílton Jung.

Até que tá durando!

Por Christian Müller Jung

Conviver com pessoas com deficiência ou alguma síndrome vai muito além das dificuldades de espaço social, acessibilidade e inclusão no mercado de trabalho. É preciso também lidar com a ignorância. Já contei em outros artigos que sou pai da Vitória, que tem paralisia cerebral, e meu genro tem síndrome de Down. Aprendi muito nesses 30 anos de vida — idade da Vitória. Não é nada fácil. E aqui me restrinjo a falar sobre eles, porque, em diferentes casos, teremos diferentes comportamentos, alguns relacionados às limitações cognitivas, outros às limitações físicas.

Dia desses, encontrei um pai com uma menina de 9 anos com síndrome de Down. Feliz, ela corria pelo posto de gasolina, desfilando com seu uniforme do colégio. Me aproximei e comentei sobre as possibilidades que ela teria pela frente, já que, na minha bagagem, carrego algumas batalhas vencidas.

Quando somos pais novos, corremos atrás de informações o tempo todo. Precisamos romper barreiras de preconceito que reduzem nossos filhos a pessoas doentes, limitadas, sem perspectiva. Há decisões difíceis: escolher entre escola particular ou pública, enfrentar experiências frustrantes com instituições que carecem de estrutura pedagógica adequada, lidar com professores que, muitas vezes, não estão preparados ou encontram dificuldades no ensino. Tudo isso, no fim, é uma loteria. Há colégios públicos com excelentes profissionais, particulares com limitações — e vice-versa. Cada fase nos obriga a repensar.

De volta ao pai e sua filha no posto de gasolina. Contei sobre a importância do convívio social e das possibilidades de viver em harmonia: participar de festas, ter amigos, namorar, noivar, casar, se for o caso. Conviver com pessoas que também enfrentam suas dificuldades e limitações. Alguns se alfabetizam, outros não… e tudo bem. Não adianta colocar as frustrações acima das expectativas. Com certeza, não é como nos comerciais de margarina — nada é como nos comerciais, aliás. E lembrei que, por vezes, achamos que não vamos conseguir.

Na troca de ideias, ele me perguntou:

— E vocês? Amadureceram muito?

— Envelhecemos — respondi.

Me arrependi na hora. Mas foi o peso da responsabilidade que veio aos ombros. Conforme envelhecemos, e nossos filhos também, é inevitável pensar no futuro deles: haverá alguém para ampará-los? E esse alguém precisa assumir essa responsabilidade? São perguntas que nos atormentam diariamente, porque não temos como prever o destino de cada um.

Mesmo com todas as nossas preocupações como pais, sabemos que hoje há avanços médicos e sociais que garantem uma qualidade de vida muito melhor para nossos filhos, especialmente se compararmos com um passado em que o conhecimento sobre tratamentos era mais limitado.

No caso de pessoas com síndrome de Down e paralisia cerebral, sabemos que a estimulação precoce, os avanços na medicina — com exames e cirurgias —, o acolhimento e o apoio são transformadores. Para os pais também. Não é fácil. Temos momentos de alegria e tristezas arrebatadoras. Momentos de instabilidade emocional e de suprema surpresa.

No caso da Vitória e do meu genro, a relação vem sendo construída há anos, envolvendo tanto a família dele quanto a nossa. Não existe uma independência definitiva. Mas existe a possibilidade de amarem alguém, como todo mundo. De viverem as alegrias de conquistar e perder um amor, de se tocarem, conhecerem seus corpos e aproveitarem a vida com o que lhes foi dado. É uma construção diária, até o fim.

Mas a ignorância sempre nos dá um tapa na cara.

Em uma dessas conversas de clube social, à beira da piscina, um casal se aproximou dos pais de uma jovem com síndrome de Down. Ela é querida, bonita, esperta, divertida e extremamente gentil. A família é descolada, experiente, já enfrentou várias batalhas. Mas sempre pode ser surpreendida.

— Que idade ela tem?
— 34!
— Nossa, como ela tá durando!

Quando pensamos que já ouvimos de tudo, nos vemos encurralados, tendo que justificar a ignorância alheia.

— Por que ela disse isso, mãe? Eu tenho que morrer?

Engulo minha lágrima enquanto reproduzo esse diálogo e concluo: infelizmente, a ignorância ainda “tá durando”!

Christian Müller Jung é pai da Vitória e do Fernando, publicitário de formação e mestre de cerimônia por profissão. Colabora com o blog do Mílton Jung — o irmão dele, com muito orgulho.

Em memória de minha querida cunhada Helena Zang

Por Christian Müller Jung

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A vida me ensinou a ter casa cheia!

Se há algo que guardo na memória do tempo de adolescente, é a quantidade de pães, presuntos e queijos que minha mãe trazia do supermercado. A geladeira sempre cheia, porque nunca se sabia quem mais poderia chegar. E assim eram os cafés da tarde, os jantares. A mesa rodeada de amigos que se misturavam aos meus irmãos. Família completa que habitava aqui mesmo, onde moro. Ao todo, éramos seis integrantes, mas houve tempos em que éramos mais. Na ordem de precedência, pai, mãe, irmã, irmão e uma prima.

Por duas vezes, as avós também vieram morar aqui. A mãe da minha mãe, que ficou por muitos anos, e depois a mãe do meu pai, que veio para receber os cuidados de saúde necessários para não precisar ir para uma clínica. Minha mãe sempre acolhia a todos. E assim, a mesa sempre repleta de pessoas. Parentes e amigos que se misturavam a toda hora. Os colegas do basquete do meu irmão, os meus colegas do Rosário, da banda de jazz, gente que entrava e saía e já sabia até onde ficava a chave da porta. E por isso aquela pilha de queijo sempre presente na geladeira.

E assim, eram as festas de final de ano. Faltava espaço e sobrava alegria. Por uma infelicidade, dessas tantas que se abatem sobre nós, ainda mais quando já somamos alguns anos de vida, minha mãe também se foi, muito antes do que o previsto na tabela do tempo, e eu me vi perdido, tentando juntar as pessoas como peças que caíam da caixa do jogo de xadrez. E a casa foi se esvaziando, cada um saindo aos poucos, tomando seu rumo, desenhando suas histórias. Para mim, um tanto de sofrimento de ver os cômodos vazios, precisando naquele momento, não de pão, presunto e queijo abarrotando a geladeira, mas de vozes se cruzando ao redor da mesa.

Mas essa vida é uma roda. Casei e a família da Lúcia passou a ser também a minha família. Ali, onde eu me agregava a uma turma nova, também trazia os meus a se somarem. E aos poucos fomos ocupando os espaços. Os filhos, cunhados, tios, avós, uma enorme corrente que novamente se unia formando um grande grupo. Recebi por herança essa vontade de reunir. Talvez por isso a casa tenha três churrasqueiras e quatro fogões. De fato, estar com as pessoas é o que mais nos enriquece, afinal precisamos uns dos outros. E ainda assim, a vida insiste em escorregar por nossas mãos.

Nessa roda que já citei anteriormente, muita gente que aparece nas fotos que se misturam entre álbuns, gavetas e paredes vai se indo. E não depende de nós esse controle. É um jogo que devemos aproveitar, não pra ganhar, mas por saber que teremos pessoas à volta dispostas a estarem contigo o tempo que lhes for dado. Que, à medida que tombamos no caminho, saibamos repor e dar espaço a novas vidas que se agregam. Os amigos do filho. Da filha. O genro, a nora, afilhados, sobrinhos, gente querida que dá prazer de novamente abarrotar a geladeira de queijo e presunto só pra ter a mesa novamente repleta de felicidade e toalha suja de comida. Pratos que se acumulam na pia e uma casa que no final do dia temos que colocar em ordem.

Sempre gostei de casa cheia. E pra cada um desses que se foram e que passaram por aqui, saibam que a casa sempre será de vocês, porque onde se soma alegria, mesmo na memória, o certo é que nos veremos um dia.

Christian Müller Jung é publicitário de formação, mestre de cerimônia por profissão. Colabora com o blog do Mílton Jung — o irmão dele, com muito orgulho.

O rádio de madeira no balcão de casa

Por Christian Jung

 Este texto foi escrito originalmente para o site Coletiva.Net

O rádio SEMP em que ouvia o pai. Foto: Arquivo Pessoal

Na casa onde nasci e ainda moro, no período que tinha família com mãe, pai e irmãos morando juntos, havia um rádio de madeira da marca SEMP. Ficava em lugar privilegiado sobre o balcão da sala de jantar. Era nesse aparelho que ouvíamos as notícias, ao longo dos dias. Além da programação musical e os jogos de futebol.

Não por acaso, o rádio sempre esteve muito presente em minha vida e dos meus irmãos: era dentro daquela caixinha de madeira que nós escutávamos a voz do pai. Ele era o locutor do principal noticiário do rádio gaúcho, o Correspondente Renner, e narrador esportivo. O forte apelo emocional que o futebol tinha sobre o público e o fato de o rádio ser o único veículo a levar ao ar as emoções da bola, naquela época, faziam dos narradores esportivos, personalidades.

O pai era famoso pela precisão e velocidade na locução; e o jargão mais conhecido dos torcedores era o grito de gol: “Gol, gol, gol!”. E assim, por muitas vezes, quando andava com ele pelas ruas de Porto Alegre, escutava as pessoas gritando do outro lado da calçada:  “Milton Jung, o Homem do Gol, Gol, Gol!”

Mas voltemos ao SEMP. 

A imagem do velho rádio, que revi dia desses, me remeteu à ingenuidade da minha infância. Escutava o pai mais de uma vez por dia lendo as notícias “chatas de adultos”, que nada resolviam os meus problemas de criança. E diante dos meus momentos de malcriação, a mãe me repreendia e lembrava que o pai, dentro daquela caixinha, estava me escutando. 

Mesmo não achando muito provável, ao menos em frente ao rádio, procurava manter o silêncio. Era uma época em que a figura paterna impunha muito respeito. E os pais costumavam cobrar de forma austera. A bem da verdade, o pai não era desses de dar grandes broncas.

Apesar de desconfiar que estava sendo ludibriado, um fato me deixava em dúvida: ao voltar para almoçar em casa, o pai já sabia de tudo que eu havia aprontado. E ainda me chamava com o seu vozeirão: “Christian, o que aconteceu hoje?”. A ideia de que o rádio teria me delatado persistia. Sem perceber que era a mãe quem me entregava assim que ele chegava em casa. Por um bom tempo respeitei a caixinha de madeira da sala de jantar.

Hoje, é meu irmão que ocupa o espaço – dentro da caixinha de madeira – aliás, dentro do rádio e em rede nacional, mas meus sobrinhos não sofrem do mesmo terror – bem mais espertos e comportados do que o tio, logicamente. 

Sem contar que o modelo “rádio de madeira” virou item de colecionador. Atualmente, são várias as plataformas que permitem a transmissão das notícias e levam a informação a locais muito mais distantes. Não se corre mais o botão do dial para sintonizar a emissora preferida. Basta apertar a tecla ou usar o comando de voz para se ouvir a rádio e o locutor desejados.

Se acessar as notícias ficou mais fácil, o mesmo não se pode dizer da tarefa de unir a família no almoço. Ainda mais quando, na maioria das vezes, as cabeças sequer olham as panelas sobre a mesa porque estão afundadas na tela do celular.

Para que não seja indevidamente difamado: lá em casa, não aprontei muito, e aprendi de mais sobre o poder da comunicação.

Este texto foi escrito, originalmente, para o site Coletiva.Net

Christian Jung é publicitário, locutor e mestre de cerimônias (macfuca@gmail.com)