Conte Sua História de São Paulo: uma manifestação de amor que começou em 2013

Por Carlos Eduardo Pinto Vergueiro Filho

Ouvinte da CBN

Jovens concentrados com bandeiras, faixas e gritos de guerra em frente ao Teatro Municipal, o mesmo marco histórico da Semana de 22 e a mesma juventude que dois anos depois pararia o Brasil. Mas não é de passe livre, Black Blocks e 20 centavos esta história. É sobre amor. 

Foi na passeata que subiu a Consolação, virou na avenida Paulista e terminou no Paraíso que dois jovens se encontraram. Foi em um bar de esquina com a 13 de Maio que se apaixonaram. 

Foi na Vila Madalena que namoraram. Foi no Jaguaré que se casaram. Foi na Cupecê que tiveram um filho. 

E é saindo da estação Vila Sônia do metrô que conto essa história que funde amor entre duas pessoas com as ruas, bares e o subterrâneo da cidade das tensões, São Paulo do nosso coração!

Parabéns terra da garoa, das multidões, das manifestações e da multiculturalidade. Que a sua história seja lembrada também pelos amores que fez nascer, tal como o nosso que completa 12 anos.

Carlos Eduardo Pinto Vergueiro Filho e Kraly de Castella Camolez Machado são personagens do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também personagem da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para conhecer outros capítulos da nossa cidade visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Conte Sua História de São Paulo: minhas frutas da cidade

Por Paulo Valadares

Ouvinte da CBN

Foto de Engin Akyurt

Frequentei São Paulo desde os anos 1970. Bati pernas pelo Centrão. Corri a São Silvestres quando ainda era noturna. Os espectadores nos davam champanhe durante a virada do ano. Mesmo correndo. 

A minha São Paulo verde não tem bosques frescos; mas campos de futebol com grama natural e algumas frutas.

Explico: eu saía enfadado do escritório no fim do expediente. Descia do Paraíso e seguia até o Largo do Paissandu para comer frutas. 

Passava por jovens esperançosos que iam para o curso noturno. Pais que retornavam angustiosos para as periferias. Era o momento que a grande jiboia trocava de casca. Saia a população oficial, entravam mercadores de amores remunerados e outros marginais. 

Ao chegar ao carrinho de frutas postado, pedia uma fatia de melancia e outra de abacaxi. Despesa que cabia no bolso. Nunca perguntei de onde elas vinham, assim, como não perguntavam minha procedência. 

Para mim elas serão sempre frutas de São Paulo.

Paulo Valadares é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Daniel Mesquita. Seja você também personagem da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para conhecer outros capítulos da nossa cidade visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Conte Sua História de São Paulo: encontros marcados no Centro Velho

Por Neide de Souza Praça

Ouvinte CBN

Foto Mílton Jung

Nasci e sempre morei em São Paulo. Cresci em Itaquera, e, em 1978, quando conclui a universidade, morava na Parada Inglesa, na zona norte. Formada, comecei a trabalhar em regime de seis horas diárias com uma folga semanal. Por se tratar de uma maternidade, a folga não era fixa, variava de acordo com a escala de serviço. 

À época, o “centro velho” tinha lojas que atraíam a população, que variavam de utensílios domésticos a vestuário. Havia o Mappin, na Xavier de Toledo, logo após o Viaduto do Chá; a loja Pitter, próxima ao Teatro Municipal, com suas vitrines que expunham roupas modernas, voltadas aos jovens. Na rua São Bento havia a Mesbla, bonita loja de departamentos, a Botica Ao Veado d’Ouro, antiga farmácia de manipulação; a Casa Fretin, de materiais cirúrgicos, e muitas outras.

O movimento de pedestres era grande também nas ruas Direita, XV de Novembro, no Pátio do Colégio e nas Praças da Sé e do Patriarca. A linha azul do Metrô já havia sido inaugurada e a Estação Sé fora aberta no início daquele ano. Era por essa estação meu acesso ao Centro Velho. Após um percurso de aproximadamente 10 minutos de ônibus desde minha casa, embarcava no metrô, na estação Santana da linha azul, e viajava por aproximadamente 15 minutos até a Sé.

Eu tinha uma amiga que concluíra a faculdade na mesma turma, e que trabalhava em uma maternidade da zona sul da cidade, atuando em regime de 12 por 36, isto é, trabalhava 12 horas e tinha outras 36 de descanso. Pelo menos uma vez ao mês, sempre que nossas folgas coincidiam, agendávamos um encontro para conversar, passear e tomar um lanche.

Nosso encontro era marcado pela manhã nas escadarias da Catedral da Sé, no “Centro Velho” de São Paulo. Aquela que chegasse primeiro ao local do encontro, aguardava a companheira, esperando no topo da escadaria. Era um momento de observação do movimento de pedestres.

Permanecíamos tranquilas, sem qualquer preocupação com a segurança. As pessoas caminhando na Praça nos pareciam trabalhadores que, apressados, iam cumprir sua tarefa diária. Minha amiga vinha de ônibus do bairro da Aclimação onde morava, e descia no ponto na própria praça.

Assim que nos encontrávamos, entrávamos na Igreja, onde rezávamos por alguns minutos e agradecíamos nossa condição. A Igreja estava sempre silenciosa aquela hora da manhã. Chamava nossa atenção o número reduzido de pessoas em seu interior, rezando ajoelhadas ou sentadas em reflexão e agradecimento. O olhar distante delas nos passava a sensação de que buscavam paz interior. No entanto, permaneciam ali, silenciosas, por pouco tempo. O movimento de entra e sai de fiéis era constante.

A Igreja era pouco iluminado. A luz externa, filtrada pelos vitrais ao alto, era difusa e não suficiente para iluminar a nave. Nem mesmo a iluminação artificial dava conta da tarefa. Nós entrávamos, agradecíamos a vida que tínhamos, e alguns minutos depois saíamos para o passo seguinte de nosso encontro, quando passeávamos pelas ruas do entorno, observando as vitrines das muitas lojas.

Há vários anos, um ponto especial e bastante frequentado na rua Direita, era o das Lojas Americanas, onde se encontravam pequenos objetos para casa, mas também brinquedos e outros produtos. Ainda que sua principal porta de entrada fosse pela rua Direita, a loja era suficientemente grande para oferecer acesso, também, pela rua José Bonifácio, paralela à anterior. Nesta rua, quase em frente à anterior, localizava-se a “Nova Lojas Americanas”, mais moderna e com produtos diferenciados. As pessoas acostumadas à loja antiga, aos poucos descobriam a nova loja e era comum frequentarem ambas, já que bastava apenas atravessar uma rua para o acesso.

Após nosso encontro e prece na Catedral da Sé, e a caminhada pelas ruas próximas, minha amiga e eu dávamos continuidade ao nosso programa, indo à “Nova Lojas Americanas”. Nela, nos dirigíamos à lanchonete, que era exclusiva e cumpria seu papel de modernidade oferecendo produtos que não eram comumente encontrados na região naquele tempo.

Sentadas no balcão, sempre fazíamos os mesmos pedidos: eu solicitava um lanche “americano” e um “sunday”, enquanto minha amiga pedia um sanduiche tipo “cheese salada” e um “banana split”. Enquanto lá permanecíamos, colocávamos as notícias em dia, e trocávamos ideias sobre situações ocorridas em nossos trabalhos. Uma vez concluído o “almoço”, nos dirigíamos à Praça da Sé, onde nos despedíamos com a certeza de novo encontro no próximo mês, exatamente igual a este. Eu me dirigia à estação do Metrô e minha amiga ao ponto de ônibus que a levaria para casa.

Mantivemos estes encontros, exatamente iguais, por vários meses, até que nossa rotina de trabalho nos absorveu totalmente, e perdemos a oportunidade de fazer coincidir nossas folgas para podermos estar juntas em nosso prazeroso passeio ao Centro Velho de São Paulo, ao final da década de 1970.

Ouça aqui este episódio do Conte Sua História de São Paulo:

Neide de Souza Praça é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Daniel Mesquisa. Seja você também personagem desta cidade, escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade e ler o texto completo da Neide, visite o meu blog miltonjung.com.br e conheça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: as lembranças de infância de uma decendente croata na cidade

Por Arlete Bačić

Ouvinte da CBN

A catedral da Sé em foto de Thgusstavo Santana

Uma descendente de croatas em São Paulo.

Nasci em 1974 na maternidade do Brás — na época ainda se escrevia com Z — e sou apaixonada por São Paulo. Morei em vários bairros da zona leste, principalmente Belenzinho e Tatuapé, o que não me impediu de conhecer tantos outros.

Da minha infância, lembro com muito carinho do ônibus elétrico que saía da Praça Silvio Romero rumo ao centro; das compras no Mappin e na Mesbla; do Largo do Anhangabaú e suas fontes; da Catedral da Sé com suas iguanas escondidas na arquitetura; dos curiosos edifícios com os vidros para fora das persianas; dos belos jardins escondidos da Liberdade; do Centro Cultural onde tantas vezes fui fazer trabalhos de escola.

Tenho lembranças ótimas do Jardim Vila Formosa onde moravam meus avós; da Vila Santa Isabel com seus tradicionais tapetes de serragem nas ruas para o Corpus Christi; da Igreja São Paulo onde eram encomendadas as missas para os parentes falecidos; e de jogar taco e basquete, e andar de skate pela Rua Cantagalo, no Tatuapé.

Lembro também do Museu do Ipiranga com suas ânforas de cristal; do Parque do Tietê onde fazíamos piquenique; do CERET onde aprendi a nadar; dos peixes no Aquário de Itaquera, na Jacu-Pêssego, e do caminho saindo de São Paulo com destino a Bertioga.

São tantas lembranças que precisaria de muitas linhas para narrar todas, então me concentrei apenas nas da infância, pois são elas as mais importantes na memória afetiva que tenho da nossa maravilhosa São Paulo! 

Arlete Bačić é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também uma personagem da cidade. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, viste o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua Historia de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: tinha a impressão de que meu pai e meus tios eram donos dos prédios

Por Teofilo Rodrigues

Ouvinte da CBN

A caminho do Teatro Municipal, foto de Thgusstavo Santana on Pexels.com

Nasci em 1959, no Jardim Maringá, zona Leste de São Paulo; minha família foi uma das pioneiras no bairro onde o asfalto era uma raridade. Éramos oito irmãos. Eu, filho homem  mais velho, cresci seguindo meu pai, Seu Nestor Teofilo Rodrigues, que me levava com frequência à cidade, como chamávamos o centro.

Pegávamos o ônibus e eu ficava alucinado com o passeio, a começar com o pitoresco cobrador que transitava dentro do coletivo com o dinheiro dobrado entre os dedos, sem a mínima preocupação em ser assaltado. O ponto final era na Praça Clóvis Bevilaqua, ao lado da Praça da Sé. 

Ali começava a aventura:

A Praça da Sé era um monumento e eu observava os transeuntes, a maioria simples, mas tinha muitos de terno e chapéu. Eu me impressionava com as rodas que se formavam, desde o “homem da cobra” — este alegava que havia uma cobra num caixote, contava histórias mirabolantes, ameaçava soltar a cobra e propagava o seu produto, uma pomada que servia para tudo; e nada de a cobra aparecer. Tinha roda de capoeira, vendedores de bilhete da Loteria Federal, vendedores de bilhetes premiados, pedintes, pregadores evangélicos e um cadeirante que escrevia cartas para quem quisesse, com uma caligrafia impecável, chamava-se Dr. K-neta. Tinha na Praça o Restaurante “Um dois, feijão com arroz”, com um  “pf” delicioso.

Depois pegávamos a Rua Direita repleta de lojas; havia o Almanara que, na porta, servia esfihas assadas num forno de pedra. Tinha um sem número de pregoeiros gritando “calça Lee americana”, a última moda na cidade. Ter uma calça índigo, velha, azul e desbotada era o sonho de todos os jovens. Na Praça Patriarca, a Igreja de Santo Antônio distribuía pãezinhos bentos, no dia do padroeiro. 

Atravessar o Viaduto do Chá era emocionante; sempre parávamos no meio para admirar os carros trafegando no Vale do Anhangabaú.

Muitas vezes almoçamos na Liga das Senhoras Católicas, locadas debaixo do viaduto; serviam “bandejão” a preços populares, sempre acompanhados de um copo de leite frio. Ao fim do viaduto o Mappin era algo exuberante, um prelúdio dos shoppings de hoje; eles ofereciam inédito crédito para compras parceladas no carnê; tinha também o guarda Luizinho, fazendo troça com os motoristas e pedestres que desobedeciam o farol.

Passando o viaduto, encontrávamos o majestoso Teatro Municipal e atrás dele a Pitter, uma loja futurista com decoração exótica, roupas ousadas e  moderníssimas; dentro da loja me imaginava nos Estados Unidos, sem nunca ter saído do Brasil. 

Meu pai e meus tios, que vieram do interior de Minas, se fixaram como faxineiros, ascensoristas, zeladores nas Ruas Xavier de Toledo, Barão de Itapetininga e Rua Sete de Abril. Eu tinha a impressão que eles eram donos dos prédios; conhecidos por todos, eram muito populares; eram super trabalhadores, pau para toda obra. Também eram boêmios e fanfarrões.

Nunca me esquecerei da comida de rua da Barão de Itapetininga; eram pontos na porta de bares e lojas, onde serviam uma esfiha aberta cuja cobertura era um parco molho com alguma lembrança de carne moída. Ficavam empilhadas aos montes e eram servidas num guardanapo; tínhamos o “churrasco grego”, retalhos de carne de segunda, dispostas num espeto vertical e giratório, numa estufa; o compacto de carne era fatiado e servido no pão. Uma delícia… Pertinho dali, no largo do Café, tinha o Rei da Salsicha: servia sanduíches de frios, recheados exageradamente, para serem degustados na rua, pois o espaço era minúsculo.

Na rua Aurora íamos no Restaurante Tabu, onde se saboreava um delicioso Mocotó e a feijoada que era servida a partir da meia noite na sexta-feira. Meu primeiro chopp, ainda menor de idade, foi no Bar do Léo, na calçada da rua Aurora, em meio as sensuais damas da noite, que faziam ponto na região. Sem esquecer o Restaurante Parreirinha na Rua General Jardim, que era muito caro; só fui uma vez comer o prato da casa: rã servida de várias maneiras; local muito frequentado por artistas e classe média. Havia o Ponto Chic, no Largo Paissandu, onde serviam o tradicional bauru no prato com o queijo rococó.

Desde criança com meu pai e depois sozinho sendo office boy, a explorar a cidade. Ainda passei 12 anos trabalhando em um escritório na Praça da República para depois minha história tomar outros rumos. Sem nunca perder na memória o cenário da vida deliciosamente registrado lá na cidade.

Teofilo Rodrigues em passeio com seu pai é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também personagem da nossa cidade. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: delírio com o Canindé e um sonho com o Tietê

José Emilio Guedes Lages

Ouvinte da CBN

Foto aérea do estádio do Canindé; autor: Will Lusa

A primeira vez que fui a São Paulo, vindo de Belo Horizonte, desci no terminal rodoviário Tietê cheio de curiosidades. Logo de cara, esperando o táxi, vislumbrei o campo da Portuguesa, time da minha maior admiração na capital Paulista  — Félix, Ivair, o Príncipe, Leivinha, Lorico. Só com isso aí já fiquei satisfeito. Lembrei também do livro Quarto de Despejo, em que autora Carolina Maria de Jesus falava da favela do Canindé, onde passa parte de sua obra , aí então o astral melhorou mais ainda.

No táxi, pedi para que fosse para o Alto de Pinheiros e o taxista me perguntou se era para passar pela Cerro Corá. Como eu não conhecia nada da cidade e achei o nome muito lindo, disse que sim.

Quando passávamos por uma rua, próximo ainda a rodoviária, vi uma frase no muro que me encantou sobremaneira: “Kdê o Salvador daqui?”.

Cheguei ao endereço que me esperava e apaguei! Acordei no dia seguinte, para conhecer a Ipiranga com a São João, uma bela história que me ronda até hoje. No passeio, puxei da memória o que havia visto no dia anterior, após deixar a rodoviária: lembrava de ter ficado deslumbrado ao passar pelas marginais Tietê e Pinheiros, encontrado s ruas arborizadas e floridas; e a criançada pulando de um trampolim imaginário e — “tibum” — nadando de braçada naquelas águas límpidas dos rios que cortavam a grande metrópole.

Somente no dia seguinte, quando voltei a cruzar as marginais é que percebi que aquelas cenas eram apenas imaginação, resultado do sonho que sonhei enquanto descansava. O que era real, porque voltei a encontrá-la, no dia que retornei a Belo Horizonte, era a frase no muro: “Kdê o Salvador daqui?

José Emilio Guedes Lages é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é da Débora Gonçalves. Seja você também personagem da nossa cidade. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua Historia de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: o Pedro, o Lobo e os meus amiguinhos de corrida

Paulo Mayr Cerqueira

Ouvinte da CBN

Foto de Caique Araujo

Mil anos atrás, mesmo não sendo próximo a minha casa, costumava correr na Pista de Cooper do Parque do Ibirapuera. Estacionava o carro em uma travessa da 4º Centenário e caminhava um pouco.

Dois dias seguidos, um menino de uns três, quatro anos, que estava com a empregada no jardim de casa puxou conversa:

– Quem é você?

– Sou o corredor do Parque.

Parei e continuamos o bate-papo.

Na semana seguinte, ao me ver, chamou o irmão, um pouco maior, para me apresentar.

Meu já amigo, o Pefeli, e o novo, o Nirani.*

E assim foi indo. Com frequência, eles estavam por ali e conversávamos.

Então, no começo de dezembro, fiz uma fita K7 com a História do Pedro e o Lobo do músico russo ProKofiev, narrada por Roberto Carlos, no início do início da carreira do ídolo.

A ideia do autor era introduzir, de maneira lúdica, crianças no mundo da música erudita. Assim, cada personagem da história era representada por um instrumento de orquestra.

Em um envelope natalino, além da fita, o histórico, que xeroquei da contracapa, e um cartão meu de Feliz Natal. Eles não estavam em casa. Deixei com a empregada, já minha conhecida.

Dia 25 de dezembro, por volta de meio dia, antes de ir para o Almoço da família, passei por lá. Toquei a campainha. A avó, pelo interfone, perguntou quem era. Disse que havia deixado uma fita K7 para as crianças.

Ela:

– Não vai embora, não vai embora.

E veio correndo para o portão.

Novamente, os meninos não estavam. Ela contou que todos haviam se encantado comigo; e insistiu para eu tomar uma bebida com eles. Agradeci, mas não aceitei.

Hoje Pefeli e Nirani são homens feitos e talvez tenham um toca-fitas de museu só para, de vez em quando, ouvir com chiados a lembrança que o Corredor do Parque lhes deu.

Paulo Mayr Cerqueira e seus amigos, Pefeli e Nirani, são personagens do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também um personagem da nossa cidade: escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: meus personagens da Vila Jafet

Olga Pereira Pinto da Silva

Ouvinte da CBN

Palácio da família Jafet, no Ipiranga

Meu nome é Olga Pereira Pinto da Silva. Tenho 78 anos. Morei, dos sete aos 15 anos na Vila Jafet, no Ipiranga. Todas as casas dessa vila eram destinadas aos trabalhadores da tecelagem e estamparia Jafet. Em todas as residências havia crianças e adolescentes — amiguinhos que até hoje guardo na lembrança. Meu pai era funcionário da fábrica.  

Minha infância foi marcada por personagens interessantes. O Sr. Armando vinha com seu veículo cheio de pães de todos os tipos e as nossas mães,  todo dia, compravam os deliciosos produtos. O que eu mais gostava eram os pães doces. Maravilhosos! O padeiro atendia a todas com muita educação e sempre bem humorado.

O Sr. Paco, um simpático espanhol, era o verdureiro. Chegava com sua carroça lotada de frutas, verduras e legumes. Minha mãe era sua freguesa assídua. Mas ela reclamava, pois ele chegava bem na hora do almoço,  quando ela estava servindo à mesa e tinha que largar tudo para fazer a compra….  porém, minha mãe o elogiava pelos produtos frescos e de boa qualidade.

O mais esperado e o mais querido de todas as crianças era,  sem dúvida,  o sorveteiro, sr. Jean. Ele era um senhor belga, falando um português com sotaque francês, o que lhe dava um charme especial. Seus sorvetes de massa eram divinos. A gente tinha que levar um copo de vidro, no qual ele punha as bolas do que, para mim, eram verdadeiros manás dos céus.  

Às vezes, fico pensando que todas estas personagens da minha infância já estejam em outro plano quem sabe saboreando as alegrias que nos ofereceram aqui na terra.

Ouça aqui o texto completo do Conte Sua História de São Paulo de Olha Pereira com narração de Mílton Jung

Olguita Maria é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também uma personagem da nossa cidade. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: flanando nas lembranças da cidade

por Adair Loredo

Ouvinte da CBN

Photo by Vinu00edcius Pimenta on Pexels.com

Num sábado qualquer, decidi passear pelo centro de São Paulo. Não tinha ideia por quais ruas ou lugares passaria. O meu destino era incerto. Me entregaria ao acaso, sem hora para chegar a qualquer lugar. Sem itinerário fixo, e nem horário para retornar. A única fixação que tomava conta de mim era sair e perambular pelos locais que um dia fizeram parte da minha vida, que me transformaram na pessoa que sou hoje.

Queria fazer algo diferente daquilo que fazia desde 1981, quando tinha 14 anos, e saía de Ferraz de Vasconcelos para trabalhar no centro de São Paulo, como office boy.  Naquela época, o meu tempo era cronometrado. O olho sempre fixo nos ponteiros do relógio para não me atrasar. Aliás, o tempo não era meu, ele não me pertencia. Fui engolido por ele, que mastigou a minha infância e cuspiu o resto que juntei ao longo da minha juventude. Só me restou a opção de buscar a sobrevivência por meio dos estudos e do trabalho prematuro.

São Paulo transforma, tanto para o bem quanto pro mal. Dá mas também nos tira muitas coisas. Quem vive aqui, se choca com os contrastes construídos por misturas de vidas, histórias, horrores, tragédias e belezas.

Caminhei pelos calçadões de pedras portuguesas da Praça da Sé até o local onde fui apresentado a ela: Praça Antônio Prado, número 33. Aqui foi um divisor de águas. Tudo foi diferente depois desse trabalho. Não foi o meu primeiro, mas foi onde encontrei alternativas que poderiam converter a vida pacata em novas oportunidades.

Parado na frente do prédio lembrava da minha chegada acanhada no primeiro dia. O olhar sempre em direção ao chão. Tudo era muito estranho. Eu tinha medo de não me adaptar. Pensei em desistir ao fim da primeira semana. Queria voltar para a minha cidade e me ocupar com o serviço de antes: engraxar sapatos na Praça Independência, em frente a estação de trem.

O meu gerente percebeu que eu estava deslocado naquele ambiente, quando me convidou à sua sala e me disse: “não desista garoto, você tem capacidade para enfrentar os novos desafios. Siga em frente…”. Foi o que fiz!

Hoje estou aqui de volta. Muita coisa mudou. Parado no meio da praça, observava as pessoas caminhando, de um lado para o outro, os prédios, as loja. Contudo, eu só conseguia ver o meu passado. A cidade se esvaziou. Não mudou para mim, porque há mais lembranças guardadas na memória. As áreas públicas tem menos verde, e muita sujeira espalhadas pelas vias públicas.

Enquanto me refrescava na sombra que vinha do antigo prédio do Banespa, olhava para o relógio instalado no ponto inicial da Avenida São João, sem funcionar, enferrujado e com a sua estrutura de mármore toda empoeirada. Não estava lá o coreto, local onde populares e apoiadores do movimento Diretas Já, costumavam se aquecer, antes de se dirigirem ao Largo do Anhangabaú e Praça da Sé. Os engraxates profissionais também desapareceram. A banca de revistas e periódicos, onde comprei o meu primeiro jornal: O Estado de São Paulo já não ocupava o seu lugar.

Atravessei a praça e Fui até a esquina com a Rua São Bento. Neste lugar funcionava a loja de roupas masculinas Ducal, onde comprei minhas primeiras calças e camisas sociais, com a gratificação que ganhei, por ter alcançado em primeiro lugar, as metas estabelecidas pelo meu gerente. A alegria tomava conta de mim.

Me lembro da felicidade da minha mãe quando, no portão de casa, me viu chegar com as sacolas cheias de roupas novas. Ela cuidava com tanto carinho, que até passou a engomar as golas das camisas.

Caminhei pela São João. A minha direita estava o prédio antigo do Correio, ao seu lado o Viaduto do Chá, por onde eu atravessava todos os dias, com a minha pasta de plástico cheia de documentos que deveriam ser entregues em alguma escritório, empresa, banco ou cartórios. A esquerda o Vale do Anhangabaú, que passou por reformas. Mais a frente, o Largo do Paissandu, e a sua volta várias tendas improvisadas para abrigar moradores de rua.

Encontrei-me com o prédio do SPCine, que dava sinais de total abandono. Continuei minha andança e cheguei nas esquinas da São João com a Ipiranga, e, para a minha tristeza, notei que os cines Marabá e o República também estavam com suas atividades encerradas. Estes cinemas foram palcos de grandes exibições de filmes e atraiam pessoas de vários pontos do Estado. Recordo do dia em que eu e o meu irmão fomos ao Marabá assistir ao lançamento do filme “Rambo – programado para matar”. Era uma tarde de domingo, ensolarada. Nas mãos pipocas e refrigerantes. Os olhos atentos na sequência de imagens vindas do videoteipe projetadas no telão.

O passeio e as lembranças pareciam não ter fim, mas agora já era noite e o cenário não era mais o mesmo daquela época. As ruas com iluminação precária, e vários comércios com suas portas fechadas, em total abandono e degradação. Retornei às minhas lembranças em que São Paulo era mais linda.

Adair Loredo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também personagem de São Paulo. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: a política estudantil me apresentou à cidade

Janice Paulo

Ouvinte da CBN

Igreja na praça da Sé, foto de Claudinéia Regina/Flickr CBNSP

Era o ano de 1983. Eu havia ingressado no Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas da Unesp, em São José do Rio Preto. Bacharelado de Letras-Tradução. Com 18 anos, nascida e criada em uma pequena cidade do interior paulista, sentia-me um peixe fora d’água naquele ambiente tão politizado, com colegas super descolados. 

Nem imaginava que, em breve e, justamente, com eles, pisaria em São Paulo, pela primeira vez. A abertura política se fazia lenta, mas progressivamente. Nesse contexto, a comunidade universitária da UNESP, em sintonia com o movimento Diretas-já, propunha um processo de eleição para a indicação do candidato ao cargo de reitor da universidade. 

No início de 1984, realizou-se a consulta à comunidade, num ato democrático extraordinário, para a época. Mas o Conselho Universitário e o governador Franco Montoro não acataram a nossa vontade expressa pelo voto. Isso gerou profunda revolta, motivando uma prolongada greve e a ocupação da reitoria e das diretorias de várias unidades. 

Naqueles dias, embarcou no trem RioPreto-São Paulo um grupo de destemidos, do qual eu fazia parte. Uma noite inteira, não só de café com pão, café com pão… mas, também, de pão com mortadela, mortadela com pão. Na manhã seguinte, chegamos em São Paulo para revezar com os colegas que estavam ocupando a reitoria há vários dias. 

Eu fingia naturalidade no metrô, fingia saber onde estávamos ou para onde íamos. A ninguém eu havia dito que jamais estivera na capital. Imagina! Na Praça da Sé, olhei deslumbrada a Catedral, os prédios do Tribunal de Justiça e da própria reitoria. Notei que faltavam árvores e sobrava gente. 

Dado o risco de estarmos sendo vigiados, entramos rapidamente na reitoria, de onde só saí oito dias mais tarde com todos os companheiros, expulsos por Michel Temer, então Secretário de Segurança Pública de São Paulo. 

Seguidos à distância pela força policial, fomos em passeata pelo entorno, gritando palavras de ordem, cantando o hino da época: ”para não dizer que não falei das flores”. Ouvia aplausos de alguns, palavras de apoio de outros, e chuva de papel picado a nos receber.

Lá se vão 38 anos de muitas outras histórias de manifestações, comícios, protestos, passeatas, quase sempre em São Paulo. Mas é essa passagem que divido com você, na Praça da Sé, o marco zero da minha história de lutas e paixão por essa cidade.

Janice de Paulo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também um personagem de São Paulo. Escreva seu texto e envie para o email contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo