Conte Sua História de São Paulo: memórias da cidade que vivi e cresci

Por Ana Paterno

Ouvinte da CBN

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O meu amor por São Paulo começou em abril de 1971 quando, com oito anos, desembarquei na cidade, vinda de uma pequena aldeia da região do Douro, em Portugal. Aquele dia ficou gravado na memória como uma fotografia em preto e branco.

Vivi 30 anos na São Paulo da garoa, das chácaras cheias de árvores, que ocupavam enormes quarteirões em ruas com filas de sobrados e casas.

Vivi na São Paulo na qual se brincava sem medo com os amigos, na rua, de queimada, de esconde-esconde, de amarelinha, de tantos outros jogos. Num tempo em que havia bailes de garagem, matinê nos clubes Espéria e Tietê, carnaval com banho de seringa nas ruas. E, também, as quermesses.

Vivi a São Paulo dos ônibus elétricos nos quais íamos à escola e às compras no centro da cidade.

Vivi em uma São Paulo que era segura e na qual os vizinhos se conheciam e sentavam-se ao portão para conversar no fim do dia.

Tenho na memória a beleza das flores dos ipês amarelos, a cor do céu ao entardecer, o cheiro da terra molhada.

Cresci em uma cidade que também vi crescer. Com as construções de prédios, de shoppings, em número de habitantes, em ruas, em progresso. Em violência e problemas de infraestrutura, também.

Cresci como pessoa e como profissional. Formei-me em psicologia. Trabalhei na TV Cultura, um lugar onde já havia inclusão, igualdade e diversidade, num tempo em que mais do que falar sobre cada um, respeitava-se cada um. Lá conheci pessoas incríveis, cheias de histórias interessantes.

Em São Paulo, tenho família, tenho os meus amigos, os melhores, e para a vida toda. Pessoas que amarei para sempre. Continuarei a amar a minha cidade e todos os lugares que dela conheci. A cidade que ficará para sempre no meu coração.

Hoje, vivo no Porto, em Portugal, e amo a minha terra, mas sou feliz por ter essas memórias de uma cidade que foi e continua a ser um dos lugares mais importantes da minha vida.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Ana Paterno é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também uma personagem da nossa cidade. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite agora o meu blog miltonjung.com.br ou ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: a nobreza do jogo de bocha

Por Cibele Alvares Gardin

Ouvinte da CBN

Uma pista que dá pista sobre encontros semanais de outrora regados à amizades. Hoje, embrulhada pela vegetação do Parque da Aclimação está  a cancha do jogo da bocha a espera do desembrulho de suas memórias. 

Insisto em rodeá-la, Sra Dona Cancha, na tentativa de conquistar sua confiança a me confiar seus segredos…

Com essa licença poética faço aqui um convite ao jogo da memória, ou melhor, da bocha, ao qual faço lances com as bolas em tom de cor desbotada mas que segue com o peso da estratégia. 

Sigo pegadas e novas pistas me levaram ao bairro vizinho onde de perto revi lances na cancha do Clube Atlético do Ipiranga.  São animadas estas senhoras bem alinhadas, Donas Canchas.

Mais uma chance e, num lance mais ousado, encontrei Sr. Maurício no bairro do Cambuci pedindo cobertura ao seu jogo, sempre regado a uma velha e parceira garrafa térmica com café.  

E mais uma Sra Dona Cancha, aliada ao Balneário do Cambuci e muito bem distinta, me abriu gavetas de suas memórias para me mostrar medidas que deram vitórias por milímetros de diferença entre uma bola e outra. Ah, todas as bolas levam ao bolim!

E assim, entre um gole e outro de café, as Donas Canchas, estimadas imigrantes e nobres senhoras, nos alimentam com desembrulhos de memórias. São relatos silenciosos mas que se fazem ouvir quando lemos as marcas das bolas que seguem feito tatuagem na superfície de seus tapetes mágicos. 

O jogo da bocha não envelhece, ele  enobrece nossos percursos por resgates da história. Segue o jogo na cordialidade dos afetos intergeracion

Cibele Gardin, moradora do bairro do Cambuci, é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Seja você também personagem da nossa cidade. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite agora o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: minha disputa com a máquina de fliperama

Por Jose Vicente Martins

Ouvinte da CBN

Imagem criada pelo Dall-E

 – Ô Vicente! A Dona Dayse quer que você leve esse envelope lá na rua Boa Vista. Mas é pra voltar antes do almoço.

Respondi que tudo bem. Mas já eram dez horas, não daria tempo de voltar antes do almoço. O certo era almoçar no refeitório da rua Boa Vista e voltar na parte da tarde. 

Fui pro banheiro trocar de roupa. Não dava pra andar pela rua com aquele uniforme. Calça de tergal azul marinho, camisa branca com o logotipo do Banco Itaú bordado no bolso e a gravata azul marinho. Afinal, eu aceitava o trabalho pra poder comprar minhas roupas. Minha identidade Black Power era formada na calça Levi’s, tênis All Star, cinto de couro e a camiseta com o Bob Marley. Era a capa do disco Kaya estampada em Silk Screen. 

Isso era São Paulo, 1979. A camiseta achada numa das galerias da rua Augusta. Saindo da Paulista, cortando por dentro do Conjunto Nacional,  descendo sentido Alameda Lorena, do lado esquerdo. No mesmo corredor em que comprei a bolsa de couro que eu usava atravessada no peito. Um cara, com sotaque de gringo, lá no décimo quarto andar da avenida Paulista ,1948 me perguntou: 

— Quem é o habitante da sua camiseta? 

— Ô Vicente, não vai demorar! Esse menino só faz dois serviços por dia, um de manhã e outro a tarde! 

Era o Ulisses,  meu chefe. Ele não era bem um chefe, era contínuo como eu. Era mais velho e trabalhava na diretoria há muito tempo. Não queria envelhecer como Office Boy, mas adorava flanar pelas ruas da cidade. 

Desci o elevador maquinando a estratégia.

Naqueles tempos, eu andava numa disputa com uma máquina do fliperama, Space Invaders. Ficava de olho fixo na tela vendo aqueles monstrinhos descendo enquanto tentava eliminar a maioria deles. Movimento nas mãos.

Velocidade,  tempo e espaço. Eu era bom nisso… Mas aquela máquina sempre me vencia. Acho que era aquele gosto amargo que vinha na boca, o coração disparava e eu ficava perdido… game over!

Saí do prédio do Banco, desci a Frei Caneca, virei a esquerda na Luís Coelho e entrei na Augusta sentido centro. O trólebus vinha chegando no ponto, deixei passar. Apertei o passo e fui descendo a Augusta. A jogada era essa. Economizava no dinheiro da passagem e jogava Space Invaders. Eu estava melhorando meu jogo. Antônio Carlos, Peixoto Gomide e fui tocando pro centro. O envelope na pasta e a pasta bem segura na mão.  Sempre um risco. Um vacilo e algum trombadinha pode querer levar minha pasta.  

A malandragem de rua estava sempre do olho nas pastas dos Office Boys. Eu já vi um cara de terno e gravata, no apertado do trólebus mexendo e fuçando na bolsa de uma dona. Martins Fontes. Na Xavier de Toledo, olhei nas vitrines do Mappin e namorei um relógio. Era um Porsche,  preto. Eu olhava no Mappin e comprava na Galeria Pajé. Cortei o Largo do Paissandu, ganhei a rua Antonio de Godoy e atravessei o Viaduto Santa Efigênia. 

Primeiro entregar o envelope e almoçar na Boa Vista, na volta eu passava no fliperama da rua Cristóvão Colombo. Uma vez cheguei no fliperama, coloquei a pasta em cima da máquina e gastei umas quatro fichas. Um boy me cutucou nas costas e disse que enquanto eu jogava, um cara pegou minha pasta e mexeu. Como não tinha nada dentro colocou de volta e saiu. Cruzei o Largo São Bento e já estava na rua Boa Vista. Eu andava rápido. Dava tempo de entregar o envelope e jogar uma antes do almoço.   

José Vicente Martins é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também um personagem da nossa cidade. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite agora meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: descobrindo as flores do asfalto

Por Valéria Dantas Machado do Nascimento

Ouvinte da CBN

Photo by Manoel Junior on Pexels.com

Quando penso em São Paulo, afirmo: logo eu existo.

Nasci e cresci aqui, então me sinto parte deste todo, deste mundão.

Hoje quase cinquentona, tenho muitas histórias pra contar.

Na infância, a Praça da Árvore foi meu berço, lá nasci, mas aos dois anos de idade fui para Vila Gumercindo.

De mãos dadas éramos quatro — papai, mamãe, maninho e eu — e hoje somos mais: irmãos, cunhada, sobrinho e afilhada. O ritmo é este: crescer, conhecer, surpreender-se com esta São Paulo.

Passeios com mãos dadas, os primeiros passos, a natureza no asfalto. Mamãe de Salvador e papai do interior de Jaboticabal,  já aqui afeiçoados, nos ensinavam que havia sim flor neste asfalto. Seja no Zoo, no Ibirapuera, no Horto ou na Cantareira, e até no ponto zero, na Praça da Sé, onde alimentar pombos era prazer de casa aos domingos.

Aqui vemos de tudo, e tudo com potência máxima. Do caos, ao crime, a paz, a evolução. Sim, São Paulo tem e é a pura satisfação. E quem aqui não nasce se torna cidadão de coração. Como destino ou de passagem, quem passa por São Paulo, leva consigo esperança, agito e o acreditar!

De manhã em oração quem me acompanha são as maritacas, os beija-flores que se reúnem em cima dos fios e dos postes de eletricidade. Totalmente adaptados à cidade grande. Vão e vem sem casa fixa, transformam seus ninhos em momentos de paz neste caos.

E é no Museu do Ipiranga que acontece a magia, a conexão com a natureza! No jardim frontal onde as palmeiras se transformam nas primeiras horas do dia, em pés de pássaros. Os jardins enchem nossos olhos e nos dão a impressão de simetria nem sempre percebida por pessoas que na pressão cumprem suas metas sem se dar conta da vida ao redor.

Na pista de cooper as folhas, os galhos, os diversos cantos e os passos de corredores anônimos marcam o início de mais um dia. 

No “story” registro o momento em que carros param, buzinas cessam e me conecto com a natureza em meio ao agito. Por instantes, a pressão se torna calmaria, o tempo não marca as horas, o agito se acalma dentro de nós.

Ao voltar para casa, meus pés pisam no asfalto da avenida, um carro freia, o pedestre reclama e o ciclista diante de tudo isso continua seu trajeto. Mas algo dentro de mim mudou, renovou e percebo que ao voltar não integralmente mais a mesma dentro de mim ainda me conecto aos minutos vividos  e sei que tudo já deu certo!

Nas estações que se mesclam e não seguem o calendário, já aprendi que reclamar do tempo é como se queixar da previsão não assertiva dos meteorologistas. Então, é assim viver aqui, rezar para ir e voltar, agradecer e acreditar que amanhã será ainda mais bonito do que hoje. E de geração para geração, a CBN faz parte do meu dia a dia.

Viva a vida em São Paulo. Viva a flor no asfalto.

Valéria Dantas, filha da Dona Selene, nossa ouvinte querida, é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também personagem da nossa cidade. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: o homem que tinha um relógio no meio da praça

Por Joaquim Alessi

Ouvinte da CBN

foto do autor

Conheci e trabalhei com o homem que tinha um relógio no meio da praça e inovou na publicidade. Pode parecer história de maluco, mas é história real. Não via a hora de contar essa passagem com o senhor Octávio de Nichile.

Dos 15 aos 18 anos, gerenciava a HJ Contabilidade do meu saudoso cunhado Hélio Horta, em sociedade com o José Armando, de São José dos Campos. Entre as dezenas, mais de uma centena, de empresas colocadas aos meus cuidados, uma chamava particularmente a atenção: De Nichile Publicidade.

Minha função era emitir, à mão, a nota fiscal todo mês, com suas três vias, duas em papel carbono, e datilografar a guia do ISS — Imposto Sobre Serviços a ser recolhido à prefeitura de São Paulo.

E quais eram os serviços prestados pela De Nichile?

Simples, o senhor Octávio herdara do pai um inovador relógio instalado desde 5 de abril de 1935, na Praça Antônio Prado, centro da capital paulista. 

O relógio ficava no alto de uma imponente coluna clássica, e entre ela e ele havia placas de publicidade. Recordo que uma das anunciantes era a então famosa Botica Ao Veado D’Ouro.

Ao longo dos anos, o escritório mudou várias vezes de endereço. Primeiro na Vila Maria, em uma sala do depósito de areia César Toscano. Depois, mais chique, na rua Tabapuã, em prédio novinho no Itaim Bibi — uma sala linda. Na sequência, Avenida Jabaquara, quase esquina com a rua Luís Góis. E quando a grana não dava mais para suportar o aluguel, o porão da casa dos meus pais, na rua Protocolo, quase esquina com estrada das Lágrimas, em São João Clímaco, periferia do Ipiranga.

Em todos esses endereços, mês a mês, o senhor Octávio ia até a gente. Guardávamos seu talão de notas fiscais, as quais preenchíamos rigorosamente dentro da lei a cada 30 dias, e entregávamos a Guia do ISS para o recolhimento.

No Jabaquara, ficávamos muito perto dele, que morava próximo à Praça da Árvore. Um pulinho, ou voo, fosse um passarinho. A Rua Protocolo era mais distante, mas ele, todo mês, pegava o ônibus e ia até lá, protocolarmente, cumprir seu dever de empresário responsável.

Nessa época, eu já cursava o primeiro ano de Jornalismo. Era 1976, eu com 17 anos de idade, e muitas vezes chegava de madrugada em casa. E ele, logo às oito da matina, estava no portão, esperando para eu abrir a porta do porão, que ficava na parte de frente da casa, e providenciar seus documentos.

Não se importava em esperar, e me falava: “jovem é assim mesmo, precisa dormir um pouco mais, pois quando a gente fica velho tem mania de acordar cedo…”

Eu entregava tudo na hora exata, na hora marcada pelo relógio hoje tombado da Praça Antônio Prado.

 Joaquim Alessi e o relógio de Nichile são personagens do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Seja você também personagem da nossa cidade. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: meu “escritório” é o verde da Unidade do Sesc de Interlagos

Por Giuliana Pereira Agnelli Estrella

Ouvinte da CBN

Foto de arquivo da Unidade do Sesc de Interlagos cedido pela autora do texto

Pensar a cidade é pensar o todo, a junção do cinza com o verde.

Desde pequena sempre fui muito apaixonada pela “Selva de Pedra”, identificando suas belezas mesmo nos locais onde muitos não a encontravam, o que, com certeza, me fez vir a cursar arquitetura e urbanismo. O centro da cidade – o antigo e o novo, como costumam identificar – sempre me fascinou.

Foi minha mãe Maria Amélia que instaurou o hábito de frequentar as “áreas verdes” de São Paulo, me levando quase que diariamente ao parque. Na verdade, meu primeiro contato foi com a Praça Polidoro, no bairro da Aclimação, onde ia diariamente tomar meu banho de sol, ainda no carrinho de bebê.

Depois migramos para o Parque da Aclimação, local lindo lá no fiM dos anos 70, com seu lago central e a concha acústica; e, mais tarde, na juventude, para o Parque do Ibirapuera, onde, além de ter o privilégio de um respiro verde na cidade, ainda se unia ali a possibilidade de participar de atividades culturais e de lazer.

Seja para fazer uma caminhada, socializar, ficar de bobeira mesmo, curtindo um ‘ócio criativo’, nada melhor do que uma área verde, onde nos reconectamos e nos mimetizamos (ou tentamos) com a natureza, sempre tendo em mente a importância de um convívio respeitoso e de troca.

Nos últimos 8 anos de minha vida profissional, tenho tido o privilégio de trabalhar num ‘pulmão verde’ no extremo sul da Zona Sul da Cidade – a linda Unidade do Sesc Interlagos.

A área de 500 mil metros quadrados está às margens da represa Billings, um dos maiores mananciais em área urbana do mundo. No nome Interlagos, há referência à sua localização entre dois grandes lagos artificiais, as represas Billings e Guarapiranga, importantes reservatórios de abastecimento de água da cidade, mas que enfrentam graves problemas com o despejo de lixo e esgoto. Construídas com a finalidade de geração de energia, atualmente estas duas represas são responsáveis pelo abastecimento de bairros da região Sul e Sudoeste da capital, além de municípios da região metropolitana de São Paulo.

A Unidade vem desenvolvendo um processo de recomposição das suas matas ciliares através do reflorestamento das áreas que são contornadas pela represa Billings. O objetivo é garantir a proteção das nascentes e a produção de água.

Show de Roberto Carlos na inauguração/Foto cedida pela autora do texto

O espaço, que antes era uma fazenda, nos idos de 1975 foi aberto ao público como Unidade, inaugurada com um show do Rei Roberto Carlos, em uma área verde incrível. Essa área passou por muitas mudanças, espaciais e programáticas e tem caráter de parque, além de abrigar quadras para prática físico-esportiva, piscinas, quadras de tênis, ginásio, teatro, área de exposições, carreta BiblioSesc, entre tantos outros equipamentos culturais, socioeducativos, de lazer e saúde. À época de sua inauguração, na década de 70, a cidade ainda estava longe; ao ver os registros de imagens aéreas da época é visível como a cidade veio avançando e, a certo ponto, ‘passou’ a Unidade.

E esse caráter de “Parque” que tem foi o diferencial durante a pandemia, sendo uma das primeiras unidades do Sesc a reabrir as portas ao público, justamente num momento tão delicado, em que as pessoas estavam trancafiadas em casa, sem um espaço para tomar sol, caminhar, sentir a brisa e, literalmente, respirar…

É justamente esse local que me dá o orgulho de diariamente atravessar a cidade, e ver o impacto positivo que o contato com a natureza promove na vida das pessoas, e que está no cerne do trabalho do Sesc: a promoção do bem-estar. Realmente é um privilégio aqui estar, trabalhar para o lazer e cultura do público, ver cada criança maravilhada com um espaço tão rico e encantador, com uma vasta amostra das plantas nativas da mata Atlântica.

Um lugar onde, além de curtir e apreciar a paisagem, é possível discutir os conceitos e as possibilidades para o maior contato das pessoas com a natureza, a construção de hábitos saudáveis e, principalmente, a importância da conservação e entendimento sobre as áreas verdes.

Fica aqui minha declaração de amor à cidade de São Paulo em seu aniversário, e meu convite aos queridos e queridas radialistas da CBN, que sempre me acompanham no caminho de ida e volta do trabalho, e ao público em geral – venham conhecer e respirar o ar puro em Interlagos!

Giuliana Pereira Agnelli Estrella é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Seja você também um personagem da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite agora o meu blog miltonjung.com.br

Conte Sua História de São Paulo: um beijo na elegância do aeroporto de Congonhas

Por Elizabeth Figueiredo

Ouvinte da CBN

Arquivo: Werner Haberkorn/Wikipedia

São Paulo é conhecida como capital da moda e da diversidade, prova do quanto esta cidade é acolhedora e favorável a todo tipo de liberdade com responsabilidade, respeito e criatividade, a começar pela indumentária que tanto mudou ao longo dos tempos.

Meu primeiro beijo aconteceu no Aeroporto de Congonhas. Sou mineira e apaixonada pela capital paulista e, à época conhecendo o que esta megametrópole já oferecia, meu primeiro namorado me levou ao Aeroporto de Congonhas e, acreditem, as pessoas frequentadoras daquele ambiente se vestiam como se estivessem indo para uma festa.

Outro lugar que também chamou minha atenção à época foi o  Jockey Club pela elegância com o que os frequentadores se vestiam.

E, na sequência visitei o Museu do Ipiranga, que agora preciso revisitar para certificar se está tão magnífico quanto era antes da reforma.

Parabéns Senhora São Paulo npor acumular tanta ousadia e riquezas culturais, imagino que inspiradas à partir da Semana de Arte Moderna de 1922.

Elizabeth Figueiredo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Daniel Mesquita. Seja você também personagem da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para conhecer outros capítulos da nossa cidade visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Conte Sua História de São Paulo: uma manifestação de amor que começou em 2013

Por Carlos Eduardo Pinto Vergueiro Filho

Ouvinte da CBN

Jovens concentrados com bandeiras, faixas e gritos de guerra em frente ao Teatro Municipal, o mesmo marco histórico da Semana de 22 e a mesma juventude que dois anos depois pararia o Brasil. Mas não é de passe livre, Black Blocks e 20 centavos esta história. É sobre amor. 

Foi na passeata que subiu a Consolação, virou na avenida Paulista e terminou no Paraíso que dois jovens se encontraram. Foi em um bar de esquina com a 13 de Maio que se apaixonaram. 

Foi na Vila Madalena que namoraram. Foi no Jaguaré que se casaram. Foi na Cupecê que tiveram um filho. 

E é saindo da estação Vila Sônia do metrô que conto essa história que funde amor entre duas pessoas com as ruas, bares e o subterrâneo da cidade das tensões, São Paulo do nosso coração!

Parabéns terra da garoa, das multidões, das manifestações e da multiculturalidade. Que a sua história seja lembrada também pelos amores que fez nascer, tal como o nosso que completa 12 anos.

Carlos Eduardo Pinto Vergueiro Filho e Kraly de Castella Camolez Machado são personagens do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também personagem da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para conhecer outros capítulos da nossa cidade visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Conte Sua História de São Paulo: minhas frutas da cidade

Por Paulo Valadares

Ouvinte da CBN

Foto de Engin Akyurt

Frequentei São Paulo desde os anos 1970. Bati pernas pelo Centrão. Corri a São Silvestres quando ainda era noturna. Os espectadores nos davam champanhe durante a virada do ano. Mesmo correndo. 

A minha São Paulo verde não tem bosques frescos; mas campos de futebol com grama natural e algumas frutas.

Explico: eu saía enfadado do escritório no fim do expediente. Descia do Paraíso e seguia até o Largo do Paissandu para comer frutas. 

Passava por jovens esperançosos que iam para o curso noturno. Pais que retornavam angustiosos para as periferias. Era o momento que a grande jiboia trocava de casca. Saia a população oficial, entravam mercadores de amores remunerados e outros marginais. 

Ao chegar ao carrinho de frutas postado, pedia uma fatia de melancia e outra de abacaxi. Despesa que cabia no bolso. Nunca perguntei de onde elas vinham, assim, como não perguntavam minha procedência. 

Para mim elas serão sempre frutas de São Paulo.

Paulo Valadares é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Daniel Mesquita. Seja você também personagem da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para conhecer outros capítulos da nossa cidade visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Conte Sua História de São Paulo: encontros marcados no Centro Velho

Por Neide de Souza Praça

Ouvinte CBN

Foto Mílton Jung

Nasci e sempre morei em São Paulo. Cresci em Itaquera, e, em 1978, quando conclui a universidade, morava na Parada Inglesa, na zona norte. Formada, comecei a trabalhar em regime de seis horas diárias com uma folga semanal. Por se tratar de uma maternidade, a folga não era fixa, variava de acordo com a escala de serviço. 

À época, o “centro velho” tinha lojas que atraíam a população, que variavam de utensílios domésticos a vestuário. Havia o Mappin, na Xavier de Toledo, logo após o Viaduto do Chá; a loja Pitter, próxima ao Teatro Municipal, com suas vitrines que expunham roupas modernas, voltadas aos jovens. Na rua São Bento havia a Mesbla, bonita loja de departamentos, a Botica Ao Veado d’Ouro, antiga farmácia de manipulação; a Casa Fretin, de materiais cirúrgicos, e muitas outras.

O movimento de pedestres era grande também nas ruas Direita, XV de Novembro, no Pátio do Colégio e nas Praças da Sé e do Patriarca. A linha azul do Metrô já havia sido inaugurada e a Estação Sé fora aberta no início daquele ano. Era por essa estação meu acesso ao Centro Velho. Após um percurso de aproximadamente 10 minutos de ônibus desde minha casa, embarcava no metrô, na estação Santana da linha azul, e viajava por aproximadamente 15 minutos até a Sé.

Eu tinha uma amiga que concluíra a faculdade na mesma turma, e que trabalhava em uma maternidade da zona sul da cidade, atuando em regime de 12 por 36, isto é, trabalhava 12 horas e tinha outras 36 de descanso. Pelo menos uma vez ao mês, sempre que nossas folgas coincidiam, agendávamos um encontro para conversar, passear e tomar um lanche.

Nosso encontro era marcado pela manhã nas escadarias da Catedral da Sé, no “Centro Velho” de São Paulo. Aquela que chegasse primeiro ao local do encontro, aguardava a companheira, esperando no topo da escadaria. Era um momento de observação do movimento de pedestres.

Permanecíamos tranquilas, sem qualquer preocupação com a segurança. As pessoas caminhando na Praça nos pareciam trabalhadores que, apressados, iam cumprir sua tarefa diária. Minha amiga vinha de ônibus do bairro da Aclimação onde morava, e descia no ponto na própria praça.

Assim que nos encontrávamos, entrávamos na Igreja, onde rezávamos por alguns minutos e agradecíamos nossa condição. A Igreja estava sempre silenciosa aquela hora da manhã. Chamava nossa atenção o número reduzido de pessoas em seu interior, rezando ajoelhadas ou sentadas em reflexão e agradecimento. O olhar distante delas nos passava a sensação de que buscavam paz interior. No entanto, permaneciam ali, silenciosas, por pouco tempo. O movimento de entra e sai de fiéis era constante.

A Igreja era pouco iluminado. A luz externa, filtrada pelos vitrais ao alto, era difusa e não suficiente para iluminar a nave. Nem mesmo a iluminação artificial dava conta da tarefa. Nós entrávamos, agradecíamos a vida que tínhamos, e alguns minutos depois saíamos para o passo seguinte de nosso encontro, quando passeávamos pelas ruas do entorno, observando as vitrines das muitas lojas.

Há vários anos, um ponto especial e bastante frequentado na rua Direita, era o das Lojas Americanas, onde se encontravam pequenos objetos para casa, mas também brinquedos e outros produtos. Ainda que sua principal porta de entrada fosse pela rua Direita, a loja era suficientemente grande para oferecer acesso, também, pela rua José Bonifácio, paralela à anterior. Nesta rua, quase em frente à anterior, localizava-se a “Nova Lojas Americanas”, mais moderna e com produtos diferenciados. As pessoas acostumadas à loja antiga, aos poucos descobriam a nova loja e era comum frequentarem ambas, já que bastava apenas atravessar uma rua para o acesso.

Após nosso encontro e prece na Catedral da Sé, e a caminhada pelas ruas próximas, minha amiga e eu dávamos continuidade ao nosso programa, indo à “Nova Lojas Americanas”. Nela, nos dirigíamos à lanchonete, que era exclusiva e cumpria seu papel de modernidade oferecendo produtos que não eram comumente encontrados na região naquele tempo.

Sentadas no balcão, sempre fazíamos os mesmos pedidos: eu solicitava um lanche “americano” e um “sunday”, enquanto minha amiga pedia um sanduiche tipo “cheese salada” e um “banana split”. Enquanto lá permanecíamos, colocávamos as notícias em dia, e trocávamos ideias sobre situações ocorridas em nossos trabalhos. Uma vez concluído o “almoço”, nos dirigíamos à Praça da Sé, onde nos despedíamos com a certeza de novo encontro no próximo mês, exatamente igual a este. Eu me dirigia à estação do Metrô e minha amiga ao ponto de ônibus que a levaria para casa.

Mantivemos estes encontros, exatamente iguais, por vários meses, até que nossa rotina de trabalho nos absorveu totalmente, e perdemos a oportunidade de fazer coincidir nossas folgas para podermos estar juntas em nosso prazeroso passeio ao Centro Velho de São Paulo, ao final da década de 1970.

Ouça aqui este episódio do Conte Sua História de São Paulo:

Neide de Souza Praça é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Daniel Mesquisa. Seja você também personagem desta cidade, escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade e ler o texto completo da Neide, visite o meu blog miltonjung.com.br e conheça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.