Conte Sua História de São Paulo: minha melhor praça da cidade

José Carneiro de Laia

Ouvinte da CBN

Foto de  Flavio Bianchini Junior no GoogleMap

Vila Nova Sílvia, zona leste de São Paulo, CEP 03820-020.

Embora poucos de nossos moradores ou frequentadores saibam o seu nome, a pequenina praça se chama Natal Antônio da Cunha; tem o formato de um triângulo escaleno e foi criada 1981 com a construção de um conjunto habitacional do BNH, o Banco Nacional de Habitação — já extinto — do INOCOOP  e da  Caixa Econômica Federal.

Contam os antigos moradores de nossa vizinhança que aqui era um descampado, para onde traziam animais para pastar. Havia algumas árvores aleatórias e muito capim e carrapicho.

Com a nossa chegada, no início dos anos 1980, e os 500 sobrados que foram construídos era necessário no mínimo uma praça, por menor que fosse.

O local passou a ser cuidado pelos próprios moradores. Que além de preservar a praça ainda cobrava melhorias da subprefeitura da Penha. Foi assim que a nossa praça, mais de 40 anos depois, tornou-se ostentosa e bonita. Há períodos em que os órgão públicos de conservação de afastam, mas os moradores resistem. É por isso que nos orgulhamos de ter aqui plantadas árvores de décadas: um eucalipto, três pau-brasil, cinco paineiras, um jacarandá e três Ipês (um roxo, um amarelo e um branco). As mais apreciadas são as frutíferas: tem pés de manda, jambo, pitanga, ameixa, de limão e, em fase de crescimento, um pé de romã e outro de acerola.

Há espaço, também para um pequena academia ao ar livre, bancos planos e uma recente mesa para jogar dominó, o que faz da nossa praça um mini-ponto de atração para muitos moradores, atraindo até vizinhos mais distantes, o que nos leva a enfatizar que esta é a melhor praça de São Paulo

O Conte Sua História de São Paulo tem sonorização de Cláudio Antonio. Participe enviando seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: os nomes da cidade

Flavio Cruz

ouvinte da CBN

Não fujo do ridículo. Tenho companheiros ilustres. O ridículo é muitas vezes subjetivo.

Independe do maior ou menor alvo de quem o sofre.

Criamo-lo para vestir com ele quem fere

nosso orgulho, ignorância, esterilidade.

(Pauliceia Desvairada)

Falei com o Engenheiro Goulart e com o Ermelino Matarazzo e disse que ia tomar a Liberdade de ir até a Sé para conseguir alguma Consolação ou até alguma Luz para a Pedreira que é a vida do Paulista. 

No Pacaembu, procurei Palmeiras que acabei não achando. Achei, porém, Paineiras, no Morumbi, depois de passar pelo Paraíso sem pedir licença para a Ana Rosa. 

Andei também por Itaquera, mas só achei o que queria no Parque da Vitória, pois a dita cuja não estava lá. Falei com muitos santos: São Mateus, Santa Terezinha, São Domingo, Santa Ifigênia, São Lucas. Pedi a eles Socorro para minha Saúde. 

Santo Amaro, então, me falou que deveria ir até a Vila dos Remédios para encontrar o que eu queria. Fiquei com fome e fui pescar na Ponte Rasa, lá no Rio Pequeno. Não consegui nada. Fui então rezar na Vila Oratório para conseguir comida — a não ser que eu quisesse alguns Perus, pois as Perdizes estavam muito caras, tanto no Mercadão como no Mercado da Lapa.

Além de fome, senti sede e fiquei em dúvida entre a Água Fria, a Água Funda e a Água Branca. Achei melhor ir para a Água Espraiada, não sem antes fazer um Bom Retiro no Alto da Lapa, de onde se podia ter uma Bela Vista. 

Cheguei na Lapa de Baixo e falei Mandaqui um Limão, pois ainda vou passar pela Quarta Parada e pela Quinta da Paineira. Parei na Parada Inglesa e fiquei pensando por que tanta coisa com os ingleses – Chácara Inglesa, Morro dos Ingleses se nós temos apenas Brás e Brasilândia.

Sem dinheiro para o Metrô, fui ao Tatuapé e, enquanto andava, me perguntava por que a gente precisa de um Moinho Velho se há um Brooklin Novo, ou um Parque Popular se há um Real Parque?

É mesmo uma Pauliceia Desvairada, como dizia o Mario de Andrade. Ainda bem que, quando estiver chateado, posso ler uns trechos de Brás, Bexiga e Barra Funda, do Alcântara Machado, pegar o “Trem das Onze” com Adoniran Barbosa, ou tomar um “chopps” na esquina da Ipiranga com São João.

Flávio Cruz é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: um acróstico para a cidade que nos oferece sua natureza

Walter José Soares de Lima

Ouvinte da CBN

Photo by sergio souza on Pexels.com

Moro na Serra da Cantareira, Vila Rosa. E tenho várias experiências deste lugar maravilhoso que é a cidade de São Paulo. A Cantareira já me permitiu ter contato com diversas espécies de pássaros, macacos e gambás.

Sou adestrador de animais pela Federação Brasileira de Animais – FBAA, tenho dois cães e duas gatas. Uma vez, no muro de minha casa, peguei uma coruja enorme que estava assustada com a implantação do Rodoanel. Para que fosse preservada, a encaminhei para o centro de reabilitação.

Fico triste de ver grandes chácaras virarem condomínios. Assim como me incomoda, saber que as pessoas vivem com tanta pressa que, às vezes, não se dão conta que tem perto delas belezas naturais como cachoeiras, uma mata robusta, pássaros, insetos e animais dos mais interessantes.

Quando na caminhada com meus cães, descubro algo novo a cada dia. Receitaria, se psicólogo fosse, uma belo passeio pelas ruas do seu bairro aliviando o estresse — seja nas Palmas do Tremembé, na Vila Maria, na Vila Marieta, na Vila Arnoni ou na Vila Rosa, que são um pedaço do imenso território que é a cidade de São Paulo.

Cidade que assim descrevo em um texto que ganha a forma de um acróstico:

Sentimento que se confunde com muito amor e carinho;

Alimenta corações e cria relações de grande valia;

Olha por todos e cuida de tudo como se fossem filhos;

Perdoa com facilidade maus tratos que fazem com ela, e retribui com delicadeza;

Adormece e acorda em movimento tão frenético que as pessoas se tornam assim;

Unifica povos, recebe diferentes etnias, tribos, sempre de braços abertos;

Logo se torna um grande palco de expectativas e conquistas profissionais;

Obrigado por existir! Isso é o mínimo que podemos falar desta grande metrópole

Conte Sua História de São Paulo: o dia em que o William voou

Antônio M. Souza

Ouvinte da CBN

Photo by Mauriciooliveira109 on Pexels.com

  

Foram aproximadamente dois meses. No início, percebi que o Otávio (nosso cachorro) sempre espantava um pássaro que rondava a casa. Até que um dia vi gravetos jogados embaixo de uma das árvores, uma espécie de cerejeira que existe no nosso quintal.  Notei que se tratava de um ninho. Peguei os gravetos, juntei no gramado e observei. Após algumas horas, vi um movimento. Era um pássaro grande, um pouco maior que um pombo. Que descia da árvore e pegava, pacientemente, um a um dos gravetos. Um ritual para Judite que se preparava para a maternidade.

Ops, desculpa, preciso apresentá-la: Judite é o nome que minha filha Bárbara batizou o pássaro que iniciava o ninho em casa.

Passados alguns dias, notamos que Judite não saía mais do ninho. Passava todo o tempo quietinha só observando o movimento. Teve uma tarde chuvosa em que em meio a tempestade, trovões e vento —- que sacudia as árvores —, ela se manteve firme em seu propósito. Ao ver os pingos d’água escorrendo sobre suas pernas tive uma enorme vontade de ajudá-la, mas entendo que a natureza tem suas soluções e precisa ser respeitada.

Da janela do andar superior tínhamos uma visão completa do ninho e sempre que a abríamos, Judite se virava para nos olhar fixamente como se estivesse nos alertando: “Eu sei que estão aí!”

Num outro dia, Bárbara me avisou que havia uma movimentação estranha no ninho. Olhando em volta da árvore notei alguns pedaços de cascas de ovo caídos no gramado. 

Sim! Havia nascido William, assim batizado por Bárbara. William, filho de Judite e Kleber, que só conhecemos depois. O pai era muito parecido com a mãe , era um pouco menor e tinha as mesmas cores. Os dois se revezavam. Um cuidava do filhote enquanto o outro procurava alimento. A qualquer movimento estranho, os dois se apressavam em esconder William.

Bárbara que costumava ler à sombra da árvore, ficou surpresa ao notar que Wiliam, acompanhado de seus pais, arriscava alguns pulinhos de um galho para outro. No dia seguinte, houve uma revoada de andorinhas na árvore da casa ao lado da nossa. Comentamos que parecia ser uma festa da natureza, talvez pela mudança de estação, estávamos nos aproximando do fim do verão e no outono a cerejeira perde todas sua folhas dando lugar às delicadas flores de tom rosado.

 

No dia seguinte, mudamos de ideia. Concluímos que aquele balé das andorinhas  era para festejar mais um espetáculo da natureza que estava por vir. Abri a janela, cumprimentei Judite com um olhar, e fui me exercitar. Quando terminei, voltei e pra minha surpresa o ninho estava vazio. Procurei pelos galhos da árvore no quintal e nada. Enfim, Wiliam voou.

 

Temos duas árvores em nosso quintal e já vimos algumas famílias de pássaros se formarem por ali mas nunca nos apegamos tanto a eles; e confesso que ao ver aquele ninho  vazio, senti um aperto no peito, um misto de saudade e felicidade por terem tido sucesso.

 

Alguns povos acreditam que os espíritos nunca morrem, apenas trocam de plano ou seja, para que algum espírito venha a nascer para este mundo um outro precisa partir para outro. Nos meus devaneios me veio à cabeça uma ideia:  será que o Sr. Macedo  — meu sogro, falecido dias antes — se mandou para que Wiliam ganhasse um lugar neste mundo?

 

Não sei de nada! Só sei que Kleber e Judite cumpriram sua missão e agora Wiliam ganhou os céus para voar livremente como tem que ser com todos os seres.

Antonio M. Souza é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antônio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade; escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: o Ibirapuera é um dos privilégios de quem mora no Paraíso

Bete Marun

Ouvinte da CBN

Parque do Ibirapuera em foto aérea de Renata Carvalho, feita do helicóptero da rádio CBN

Passei minha infância no bairro do Paraíso. Estudava no Grupo Escolar Rodrigues Alves, na avenida Paulista. Minha mãe exercia o magistério na escola e alfabetizava os filhos de emigrantes chineses, húngaros, japoneses e todos que chegavam ao Brasil fugindo da guerra na Europa.

Naquele tempo, era um guarda municipal que apitava fazendo os carros pararem para os alunos atravessassem a avenida. Além do pipoqueiro, sempre esperando a saída dos alunos, havia o algodão doce e o homem da “machadinha” — um doce que de tão duro era cortado com a dita machada.

Morávamos na rua Sampaio Viana num conjunto de casas construídas para funcionários de bancos (antigo IAPB) e todos se conheciam. Éramos uma família.

O privilégio de ter minha infância no Paraíso foi a proximidade do parque do Ibirapuera onde fazíamos piquenique pelo menos uma vez por mês.

Nos anos 1940 só a vegetação nativa e os eucaliptos faziam sombra para nossas brincadeiras.

Nas noites de verão, juntávamos a turma e subíamos até a rua Cubatão para ir tomar sorvete no Alaska. Na rua Tutoia, uma padaria fazia pizza, que naquele tempo só poderia ser de aliche ou mussarela.

Lembranças de uma São Paulo onde nasci e a vi crescer vertiginosamente. Tenho orgulho da força dos que nela viveram e vivem.

Maria Elisabete Fonseca Marun é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Ouça outras histórias no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: os saguis e os saruês aproveitam o verde em Santo Amaro

Mario Curcio

Ouvinte da CBN

Parque Severo Gomes em foto da Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente de SP

Tive a sorte de crescer aqui no Jardim Hípico, uma vila de casas que tem este nome por estar colada ao Clube Hípico de Santo Amaro. 

Tanto o clube como um parque ao lado, o Severo Gomes formam um grande pedaço de Mata Atlântica preservada. Nem parece que a gente está em uma enorme cidade como São Paulo. Tem até um córrego passando aqui. 

Foi neste clube que eu vi pela primeira vez um bicho-preguiça. Além dos movimentos “em câmera lenta”, ele tem uma expressão meio sorridente e unhas muito compridas.

O clube é cheio de alamedas arborizadas. Tem uma grande variedade de árvores, plantas e todo o bairro abriga muitos pássaros. 

De julho até novembro, os sabiás-laranjeira nos acordam às quatro da manhã. A partir das seis horas, os pardais não dão mais sossego. Bem-te-vi? Maritaca? João-de-barro? Essa turma toda está aqui.

Nos anos 1980, também começou a surgir na vila um bicho com aparência bem esquisita, o saruê ou o gambá. Ele é um marsupial: cria os filhotes numa bolsa como os cangurus, mas se parece um ratão e invade os quintais atrás de comida, apavorando alguns moradores.

Na segunda metade dos anos 1990 cresceu muito a presença de saguis. Eles se espalharam a partir do clube para outros bairros ao redor. De manhã, costumam descer a rua principal da vila em bandos. Eles vêm sempre pela fiação dos postes e depois somem.

A impressão que tenho é que tanto os saruês como os saguis haviam se afastado nos anos 1960 por conta da presença humana e da criação da vila. Tempos depois acabaram voltando para o lugar — se acostumaram com o bicho homem. Como eles, eu também espero continuar aqui por muito tempo.

Mário Curcio é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: A Horta das Flores, o quintal dos moradores da Mooca

Áurea Fortes

Ouvinte da CBN

Foto reproduzida do Instagram @hortadasflores

Sou voluntária da Letraria, grupo que arrecada livros e os distribui gratuitamente na cidade de São Paulo. Depois de entregar centenas de livros, pensei que seria interessante participar de algum grupo que valorizasse o plantio de árvores, pensando em uma compensação mesmo. 

Encontrei a Horta das Flores, uma área verde que fica na Radial Leste, na Mooca, em São Paulo, e é cuidada por um coletivo comandado pelos gestores José Luiz Fazzio e Regina Grilli.

Comecei a frequentar o espaço, fui muito bem acolhida, levei árvore para ser ali plantada e fiz a compostagem do resíduo orgânico da minha casa. Sempre considerei a Horta das Flores uma espécie de quintal dos moradores da Mooca. Nosso bairro é muito árido, quase não tem árvores e áreas verdes. 

Ao longo dos anos, vimos a Horta das Flores ser muito ameaçada pelo mercado imobiliário e pela prefeitura, que chegou a negociar a venda da área. Participei de várias manifestações. Abraçamos a Horta, seguimos organizando as atividades de educação ambiental e reforçamos as atividades culturais da Letraria e até a mobilização social, com arrecadação de mantimentos destinada ao Arsenal da Esperança. Tudo realizado na Horta das Flores.

Felizmente com intervenção do Ministério Público e constante mobilização dos gestores, a Horta das Flores foi mantida, nenhuma árvore foi derrubada e as atividades seguem cada vez mais fortalecidas. 

Ao contrário de tantas outras que têm o meio ambiente em seu foco, essa é uma história com final feliz, em São Paulo.

Áurea Fortes é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítudo de São Paulo. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: a ‘floresta’ que nasceu de uma semente, no Largo de Pinheiros

Por Sergio Reis Alves

Ouvinte da CBN

Bosque da Batata: reprodução do GoogleMap

A minha história é sobre esperança e fé no futuro.

Escolhi falar de uma área extremamente degradada no Largo de Pinheiros, zona oeste de São Paulo. Área que  renasceu. Uma praça na rua Paes Leme, próximo da Igreja Matriz.

Eu sou um trabalhador que iniciei jornada em Pinheiros, limpando calçada das lojas Pernambucanas, na Teodoro Sampaio.

Fui para a  Pedroso de Morais, no Banco Santander, o antigo Noroeste, onde fiquei por seis anos  Depois, graças a Deus, segui para os livros: Editora Vozes, Editora É Realizações, Editora Cosmos e, voltando para Pinheiros, na Editora Todavia. Um volta para celebrar o espaço verde renascido.

Aquela praça me ensina como podemos ter esperança na semente —- tão pequenininha, tão minúscula. Começou do zero e hoje é uma pequena floresta. Até mesmo a temperatura muda quando passeamos por ela: é sempre amena. 

Que possamos sempre acreditar na semente!

Conte Sua História de São Paulo: Horto Florestal, o meu lugar preservado da cidade

Odnides Pereira

Ouvinte da CBN

Horto Florestal em foto de divulgação do Governo de São Paulo

Nasci em 21 de abril de 1959 na Maternidade de Vila Maria, na zona norte de São Paulo. Naquela época, morávamos em um cortiço no bairro de Vista Alegre e era bem arborizado.

Alguns anos depois, meus pais compraram uma casa no bairro de Vila Medeiros, divisa com Vila Sabrina — sempre na zona norte. Existiam muitos lugares arborizados até com lagoas onde pescávamos lambaris, que chamávamos de Varjão.

Com o passar dos anos e a necessidade de moradia, lugares arborizados foram sendo destruídos para a construção de casas. Nosso Varjão virou Jardim Guançã. Em 1978, casei-me e fui morar no Parque do Mandaqui onde encontrei ainda muitos lugares arborizados.

Um desses que frequento até hoje é o Horto Florestal. Durante muitos anos o Horto foi administrado pela prefeitura, e a depredação foi deixando o local impossível de se frequentar.

Quando começaram a cobrar entrada e ocorreram melhorias, o Horto voltou a ser aconchegante. Em 1993, passou a se chamar Parque Estadual Alberto Löfgren, homenagem ao naturalista, cientista sueco e idealizador do Horto Florestal.

Em 10 de fevereiro fará 127 anos. Hoje tem 187 hectares, abriga remanescentes da Mata Atlântica e contribui para a manutenção de um corredor ecológico que conecta a cidade de São Paulo à Serra da Mantiqueira. Lá estão instalados o Palácio de Verão do Governo do Estado, as sedes da Polícia Militar, Polícia Florestal do Estado e o Museu Octávio Vecchi, também chamado de Museu da Madeira Florestal, inaugurado em 1931.

Em 20 de janeiro do ano passado, o Governo de São Paulo assinou contrato de concessão por 30 anos para a iniciativa privada. O Horto Florestal é o meu lugar preservado de São Paulo.

 Odnides Pereira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha participar você também desta série especial em homenagem aos 469 anos da nossa cidade com textos sobre locais em que o verde e o meio ambiente foram preservados na capital paulista. Escreva agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. E vamos juntos comemorar mais um aniversário de São Paulo

Conte Sua História de São Paulo: fomos pescar na Ilha do Bororé

Durval Pedroso

Ouvinte da CBN

Reprodução de foto do site Refugios no Interior

Era julho de 1962, nascido no Bexiga, eu passava alguns dias de férias na casa de minha avó Antônia, em Santo Amaro. Foi quando recebi um telefonema de meu pai, num domingo de manhã, em que ele dizia que no fim da tarde me buscaria para cumprir uma promessa antiga: me levar a uma pescaria. 

Ele apareceu de caminhão, às quatro e meia da tarde, com mais seis pessoas — dois meninos de idade semelhante a minha, 11 anos, filhos de um dos seus quatro amigos. Subi na carroceria e meu pai foi na boleia. Logo avisou que precisávamos andar rápido, uma vez que a última balsa que ligava o Grajaú a Ilha do Bororé saía às seis da tarde. Chegamos um pouco antes do horário e fizemos a travessia. 

Acampamos à beira da represa Billings, em um pequeno rancho de um dos amigos. Chegamos quase sete da noite e estava relativamente escuro. O rancho parecia mais com uma garagem sem porta: três paredes e uma cobertura de sapé; mal cabiam cinco pessoas e nós estávamos em oito. Foi então que entendi a razão deles tirarem do caminhão uma grande lona, que seria colocada em frente à entrada para formar uma barraca. 

Foi o Zé Mineiro, um dos amigos do papai, quem deu por falta de duas grandes caixas de madeira onde estava toda a nossa comida, a cachaça e as garrafas d’agua. Tinham ficado na casa dele no bairro do Socorro.

Meu pai, que era o mais velho de todos, pediu calma e lembrou que o Seu Augusto, dono do rancho, sabia onde tinha uma venda na ilha. Chegamos lá quando o dono já estava quase fechando. Só havia cachaça de cabeça do seu próprio alambique, cebolas, uma réstia de alho, um pedaço de bacalhau seco, que servia de tira gosto para as pingas, e, com muita boa vontade, o dono da venda arranjou duas xícaras de arroz. Esse seria o nosso banquete antes de dormir: uma sopa de arroz com cebolas. Eu que nunca tinha tomado sopa de cebola e muito menos comido cebola crua, não titubeie quando a fome bateu para valer. Também tomei o meu primeiro gole de cachaça na vida. Desceu queimando.

No dia seguinte, depois de um café preparado pelo Zé Mineiro, fomos para beira da represa. Estava frio e após mais de quatro horas tínhamos pegado poucos peixes — os meninos sequer pescamos algum. Foram suficientes para o almoço preparado pelo Seu Augusto, acompanhados de arroz, feijão e carne seca, comprados pela manhã.

Em meio as garfadas, meu pai e Zé Mineiro resolveram brincar com o nosso medo. Falaram que, na madrugada, ouviram corujas e miados de onça do mato. O efeito da história foi percebido assim que o Seu Augusto convocou os meninos a arrumar as coisas e voltar para Santo Amaro. Nossa produtividade superou a dos adultos.

A Ilha do Bororé é, ainda hoje, um dos rincões de São Paulo, com muita Mata Atlântica e pouca densidade demográfica. Aos fins de semana, recebe um bom número de turistas, que apreciam as beiras da Billings. A balsa segue sendo o único meio de acesso, agora com capacidade para 20 automóveis e funcionando 24 horas, inclusive aos domingos.

Durval Pedroso  é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha participar você também desta série especial em homenagem aos 469 anos da nossa cidade com textos sobre locais em que o verde e o meio ambiente foram preservados na capital paulista. Escreva agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. E vamos juntos comemorar mais um aniversário de São Paulo