Conte Sua História de São Paulo: nossa árvore de Natal

José Simões Neto 

Ouvinte da CBN


Nessa pandemia seguimos com o isolamento, consciente de estarmos preservando os demais e a nós mesmos e realimentando esperanças de um mundo menos isolado. Convivência familiar limitada e até impedida é remediada por vídeos chamadas. Nesse contexto, minha filha, Marília, casada com Daniel, e meus netinhos Oliver e Nina, ficaram a uma distância geográfica e sanitária impossível de vencer. Moram na Áustria, na cidade de Bregenz. Tanto eu como demais familiares acumulamos saudades sem fim.


Para engajar as crianças, a  Marília criou uma rotina dentro da tradição católica, forte na Áustria, de seguir as quatro semanas que precedem o Natal, celebrando o Advento. Atividade que registra em vídeos compartilhados com toda a família.


A cada dia meus netos de três a cinco anos buscam um dos envelopes pendendo de uma planta da sala, onde encontram a foto de um de nós  — tios, tias, primos e avós —- quando éramos crianças. Em raras ocasiões os pequenos identificam de pronto o personagem do dia. As dicas para identificá-los ficam escondidas pela casa, exigindo uma caça ao tesouro, coordenada pelos pais. Uma dica leva a outra dica. Ao final, descobrem uma cartinha escrita para eles pelo personagem do dia, com um foto recente. 


A árvore de Natal, então, ganha mais dois adereços: a foto de uma criança que fomos e a foto do que somos, amenizando a saudade, celebrando o advento e realimentando diariamente a esperanças de nos encontrarmos em breve.


José Simões Neto é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Participe dos festejos de 468 anos da nossa cidade: escreva para  contesuahistoria@cbn.com.br com o tema “em cantos de São Paulo”. E ouça seu texto em uma ediçao especial do Conte Sua História de São Paulo

Conte Sua História de São Paulo: o Natal das Helôs

Talita Ribeiro

Ouvinte da CBN

Meus avós tiveram quatro filhas – as “Quatro Helôs” – cuja descendência já soma 112 integrantes, entre nativos e agregados. Reunir a família toda para o Natal, como fazíamos há 25 anos, agora nem pensar. Mas que eu pensava, pensava! 


Ainda mais neste ano, 2020, em que nem aos mais próximos tivemos acesso presencial. Desde março, eu precisei me reinventar, como muitos, e criar grupos de Whatsapp para dar aulas de bordado às minhas alunas, através de vídeos caseiros, fotos, textos, áudios e até ligações por vídeo pra cada uma. Que experiência! 


De repente a ideia: por que não formar um grande grupo de Whatsapp – 75 adultos – e preparar uma celebração de Natal com dia e hora marcados, todos juntos? Convoquei um primo de cada ramo “Helô”, para conseguirmos todos os nomes, idades e números de Whatsapp. Também cada primo se responsabilizou por conseguir dois ou três depoimentos por vídeo sobre como foi a vida na pandemia – temos queridos na África do Sul, Estados Unidos, Alto Paraíso, Cunha, Vinhedo, Ubatuba, Taubaté…. Entre ideia e execução, apenas oito dias! 


Criei um grupo de Whatsapp só meu, e lá fui acomodando as postagens, na ordem em que seriam apresentadas: fotos dos nossos avós, das “Quatro Helôs”, dos netos, dos bisnetos e dos trinetos. Depois, uma música de Natal muito popular nos nossos antigos Natais – com a letra para cada um cantar na sua casa e se imaginar cantando em grupo! Depois, o depoimento da prima da África do Sul, cujas crianças nem falam português – mas que apareceram no vídeo usando um aplicativo que as deixou com caras de gatinhos, focinho, orelhas… Uma graça! 


E assim fui mesclando as postagens, até chegar no ápice, que foi uma oração de esperança para o ano de 2021, seguida de um PowerPoint com fotos de absolutamente todos os integrantes da família, por ramo, tendo como fundo uma lindíssima música de Natal que dizia “This is the story”… A história de cada um… E tudo isso aconteceu no dia 19 de dezembro, às cinco da tarde. Por quase uma hora e meia, em que eu ia encaminhando postagem por postagem; aguardando o tempo necessário para que todos lessem, vissem ou ouvissem. Terminada a celebração, todos puderam escrever seus votos de Natal, postar selfies, fotos da pequena família, da infância e… Meu Deus, que festa! 


Estávamos todos dentro de uma grande sala virtual, nos curtindo, nos alegrando. Uma tia de 88 anos – a Helô caçula – chegou a dizer que foi o Natal mais emocionante da vida. No 25 de dezembro, reativamos o grupo e o deixamos aberto a tarde toda, para que todos compartilhassem suas lembranças e fotos dos Natais de cada pequena família! Desta enorme família das Helôs!


Talita Ribeiro é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Participe dos festejos de 468 anos da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br com o tema “em cantos de São Paulo”. E ouça seu texto em uma ediçao especial do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: passeio de Natal

Neusa Stranghette

Ouvinte da CBN

Foto do ouvinte Luis F Gallo

Dezembro de 2005 ou 2006, quando ainda havia passeios para visitar a decoração de Natal do Banco Real, na Av. Paulista. Uma noite, em cinco amigos, nos encontramos na Praça da República e embarcamos no ônibus que fazia esse passeio. Nós e mais metade da população de São Paulo. Muito mais adultos do que crianças!

Se tivéssemos ido a pé teria sido mais rápido, o trânsito não andava. Mas chegamos e do lado de fora já estava lindo, encaramos a fila com disposição e naquele vai-e-vem, até encontramos mais três amigas vindas de São Caetano. Realmente, às vezes São Paulo é uma província.

Finalmente entramos e voltamos aos tempos de criança, embevecidas com Árvore de Natal, gnomos, renas, Papai Noel, as músicas de nossa infância que todos sabiam as letras. Que delícia!

A visita terminou, comemos um pacote de pipocas e pegamos o ônibus de volta para a Praça da República, onde chegamos mais ou menos 11 da noite. E agora? Tínhamos ido separados e estávamos em cinco, quase para o mesmo destino: eu, para Santa Cecília e quatro para Higienópolis. Táxi nenhum vai querer levar…

Mas é perto, vamos a pé, caminhar faz bem! 

Noite quente, bonita, pessoas passeando, tomando seu chopp nos barzinhos … pegamos a Marques de Itu, Amaral Gurgel, Alameda Barros onde eu fiquei, e os outros quatro seguiram para a Dr. Veiga Filho, felizes e encantados!!

São cerca de 15 anos e ainda podíamos andar a pé pela noite de São Paulo, sem nenhuma preocupação nem importunação. 15 anos para dizermos aquela sonora frase: que bons tempos! 15 anos e dos cinco, Norma e Janete já não estão entre nós. Pedro e Manoel mudaram para uma cidadezinha no interior de Minas (loooongeee); e só eu ainda estou aqui em Sampa para dizer que saudade para os tempos não tão antigos e para os amigos que se foram! 

Que saudade!!! 

Neusa Stranghette é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Participe dos festejos de 468 anos da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br com o tema “em cantos de São Paulo”. E ouça seu texto em uma ediçao especial do Conte Sua História de São Paulo

Conte Sua História de São Paulo: no caminho do saber

Sonária Souza

Ouvinte da CBN

Foto de Pixabay no Pexels

Sou professora de Atendimento Educacional Especializado, trabalho na EMEF Benedito Calixto, unidade escolar na zona leste de São Paulo. A pandemia de Covid – 19 trouxe muitos desafios, e grandes oportunidades de aprendizagens.

No ensino da prefeitura, faz parte do currículo do 9º ano, apresentar no fim do ano o TCA — Trabalho de Conclusão Autoral. Mas com a pandemia como fazer?

Após um reunião online com a delegacia regional de ensino, nossa gestora, Cíntia, ficou entusiasmada com a ideia de realizar o TCA remoto: fazer um Diário de Bordo. Os professores abraçaram a proposta mesmo com dúvidas se daria certo fazer o trabalho de conclusão pelo Meet no Google Classroom. Começamos a planejar, compartilhar ideias e o trabalho foi ganhando forma, emoção, participação, inspiração…

Nos reuníamos com os alunos pelo Meet todas as quartas feiras das 10 ao meio-dia, abordávamos temas que traria repertório para a produção dos Diários de Bordo. Cada aluno trazia suas reflexões, havia momentos de escuta e escolhiam uma palavra-chave para representar aquele dia, e todos falávamos bem alto juntos. 

Organizamos as audições para apresentação previa dos trabalhos. Os alunos se mobilizaram para ter acesso a internet, contavam com doações de celulares, iam atrás de informações, contavam com parcerias dos colegas para elaboração e apresentação, tudo de forma remota.

As audições online foram espetaculares, cada aluno apresentava de acordo com suas habilidades e especificidades. Houve respeito, comprometimento, empatia, harmonia entre a equipe de docentes e alunos. Os professores faziam observações para contribuir com os trabalhos apresentados. 

Nos dias primeiro, dois e três de dezembro tivemos as apresentações do TCA definitivas, e cada trabalho foi simplesmente maravilhoso! Aprendi muito, conheci os alunos de modo amplo e particular. Nós professores tínhamos uma sintonia mágica, compartilhamos ideias, dávamos suporte um para o outro.

Gratidão por ter participado deste trabalho, com professores incríveis como: Alberto, Filomena, Igor, Jaqueline, Márcia, Maria Sandra, MarInez, Paulo, Rúbia, Tatiane. 

2020 ficará marcado para sempre na vida dos alunos e professores. Parabéns EMEF Benedito Calixto, Escola das oportunidades!

Descobri qualidades nos meus colegas antes não percebidas, pois no cotidiano escolar não tínhamos oportunidades de nos reunirmos com frequência para dialogar, e a tecnologia nos permitiu conhecer melhor os alunos, suas famílias, o grupo de professores e funcionários.

Gratidão a todos por estarmos juntos na caminhada do saber.

Sonária Souza é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite agora o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: “tenho a cor negra no sangue que a pele não mostra”

Rodrigo G. Tomaz

Ouvinte da CBN

foto do autor

Amarelo, preto, vermelho, branco. 

Sua foto o que diz? 

Meu pai foi negrinho engraxate, minha avó preta empregada, a mãe dela escrava, e Zé Índio meu vô.

Tenho cor clara pra quem olha, mas melanina não define quem sou.

Sou ítalo africano brasileiro americano. 

Sou cidadão do mundo, tenho um pouco de tudo.

Já fui menino de rua, do mato, da loja, da escola, agora da Califórnia. 

Tenho uma história mulata que minha aparência sonega. 

Sou o mesmo que eles, aqueles julgados por fora. 

Injustiça que mata. 

Mas foi mais fácil pra mim. 

Subir os vidros do carro, esconder os pertences, sentir o medo no olhar. 

Já estive dos dois lados, se assustar e ser julgado, mas qualquer roupa me muda de patamar.

Posso ser rico, ser pobre, bem vestido ou rasgado. 

Sou apenas o que decido ser.

Tenho a cor negra no sangue, que a pele não mostra.

Mas a vida é injusta, e foi mais fácil pra mim.

Sou igual mas diferente. E é bem mais fácil pra mim.

Eu nunca fui presidente, atleta de elite, ou guitarrista dos bons. Não fui artista famoso, escritor respeitado, ou então pensador. 

Por que eu seria superior? 

Eu sou melhor em quê? 

Se tem um vírus que mata, bota o lenço na cara. 

No espelho o que vê?

A cor do pano te muda?

Você se sente mais forte, mais esperto, mais nobre? 

A cor muda você? 

Se tapamos o rosto, se olhamos no olho, não somos todos iguais?

Você se acha distinto, mas é melhor em quê? 

Rodrigo Tomaz é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite agora o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: lições de um cadete do Barro Branco especialista em despedidas

Luiz Eduardo Pesce Arruda

Ouvinte da CBN

reprodução Governo de SP

Quando ingressei na Polícia Militar, em 1977, como cadete da Academia do Barro Branco, havia duas oportunidades de se dar bem: ser atleta de uma das equipes da academia ou na CORP – a Comissão de Relações Públicas da Academia. Como para atleta não servia, restou-se a CORP. E como funcionava: todo sábado, 16 cadetes engalanados e sorridentes dirigiam-se a um baile de debutantes, escalados pela academia. Um dançava com a aniversariantes, os demais com as amigas. Todos elegantemente vestidos, de uniforme azul de gala, quepe branco, e espadim reluzente. Arrasavam corações já na entrada do baile.

Eu bem que tentei, mas nunca era escalado. Não sabia dançar. Restou-me a comissão de pêsames. A despeito do motivo do evento, eu passei até a curtir as saídas da academia para os velórios. A paz, o ritual, a lembrança da finitude humana, a insensatez da vaidade, a fugacidade da beleza física. Tudo aquilo dizia muita à minha alma jovem. Era uma materialização de Esclesíastes, na reprimenda à vaidade. E sempre havia café ou um lanchinho para acompanhar.

No fim do curso, quase cinco anos depois, formado em câmara ardente, nos velórios mais prestigiosos de São Paulo, tornei-me uma referência, uma lenda viva, reconhecida pelos pares como o maior expert no assunto.

— Arruda, conheceu o coronel João, o Aviador?

— Fui no velório dele

— O coronel Pedro, o Paraquedista?

— Não conheci em vida, mas fiz câmara ardente para ele.

E fazia minha recomendações: no cemitério da Quarta parada tem um trailer de lanche e a calabresa com queijo é muito honesta. O Gethsêmani e o Morumbi têm uma lanchonete que é uma beleza, mas leva dinheiro porque é tudo muito caro. Se for escalado no Perus ou Santo Amaro, leva lanchinho de casa, porque o serviço é bem fraquinho.

Ao chegar no local, identifique a viúva e os parentes, faça expressão séria, ofereça os pêsames em nome da Academia e cuidado para não entrar em rodinha de gente inconveniente, bêbada e piadistas —- essa fauna sinatrópica que não vive sem um velorizoinho. Mas também, convenhamos, sem esse povo não tem a menor graça.

Luiz Eduardo Pesce Arruda é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br.. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite agora o meu blog miltonjung.com.br e acompanhe o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: sonhava ser o motorista do “Papa Fila”

Ismael Medeiros

ismaelmedeitos@outlook.com

Nasci em 13 de julho de 1946, no Hospital Umberto Primo, o Matarazzo, próximo de onde meus pais moravam, na rua Herculano de Freitas, na Bela Vista. Aos dois anos mudamos para São Miguel Paulista, onde a economia girava em torno da Nitro Química, fábrica da Votorantim.  Meus avós maternos seguiram morando nos velhos sobrados da Nove de Julho, ao lado do túnel — o que nos levava a visitar frequentes ao Bexiga.

Sair dos limites da zona leste era uma saga. Pegávamos um ônibus até a Penha. Era o ônibus do Toninho, seu proprietário. Depois de passar pela curva da morte, na Ponte Rasa, desembarcávamos na praça Sete de Setembro para, em seguida, subirmos no bonde —  ou o Camarão,  de cor alaranjada, ou o aberto. Na Praça Clóvis Beviláqua, saltávamos de um bonde para outro, para chegar na rua Manoel Dutra, próximo a praça 14 Bis.

Nos bondes, havia propaganda de produtos no alto. Uma das que não esquece tinha um careca correndo atrás do macaquinho que lhe roubara o vidro da loção capilar: “vem cá Simão! Traga a minha loção”.

O ouvinte Ismael é o menino menor desta foto feita na Praça 14 Bis em 1948

Na praça 14 Bis tinha um jardim que seguia até o túnel, com espaços onde andava de bicicleta com o primo Joãozinho. Havia bancos de assentos para apreciar o movimento de carros, geralmente Ford e Chevrolet. Eu e ele apostávamos se passariam mais carros verdes ou pretos. Ainda por lá, ao lado do túnel, tinham dois chafarizes que davam uma vontade louca de mergulhar. 

Ainda lembro do retorno a São Miguel, no fim da tarde, início da noite, quando a cidade virava uma festa de luminosos, colorindo e encantando as pessoas. O meu preferido era o Elmo do Banco Auxiliar de São Paulo que eu avistava do ponto de ônibus, no parque Dom Pedro II – já era época em que os bondes começavam a ser substituídos. Do lançamento do ônibus ‘Papa Fila’,  uma espécie de carreta da CMTC, guardo a lembrança do motorista que ficava isolado no cavalo mecânico, enquanto os passageiros vinham na parte articulada de trás. 

Sonhava ser o motorista daquele ônibus. Fazia do contorno do assento meu voltante. Com a boca, imitava o ronco do motor. Trocava marchas imaginárias. E seguia conduzindo meus passageiros pela Rangel Pestana, Celso Garcia, Penha e de volta a São Miguel Paulista. 

Ismael Medeiros é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. E ouça outros capítulos da nossa cidade no meu blog miltonjung.com.br e no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: meu amigo Edinho, o Macalé

Samuel de Leonardo

Ouvinte da CBN

O menino trajava calça curta azul-marinho, camisa branca e, nos pés, exibia um conga — esse talvez novinho. Avistei-o na empoeirada ladeira da antiga Estrada 4, numa manhã de fevereiro de 1964. O período letivo estava começando e nos encontrávamos na estrada que, anos depois, deixaria de ser número e passaria a se chamar Avenida José Joaquim Seabra, no Rio Pequeno, na região do Butantã, em São Paulo.

Aproximei-me e fiz ao menino a mais óbvia de todas as perguntas naquelas circunstâncias: — Você está indo para a escola? De imediato, ele respondeu sim, reforçando a fala com o movimento da cabeça. Depois dessa “densa e longa” conversa, fizemos em silêncio o restante do caminho. Aquele era meu segundo ano na escola e, como se repetiria em todo início de período, estava na expectativa de fazer novos amigos entre a turma da classe — era assim que a gente chamava a sala de aula. As instalações do grupo escolar resumiam-se a dois galpões de madeira, que um dia tinham recebido uma demão de tinta azulada, com vidraças quebradas, tetos sem forro e buracos nas telhas de amianto, por onde entrava a luz matinal. Por coincidência, o garoto que eu acabara de conhecer fazia parte da nova turma.

Nesse breve espaço de tempo teve início uma amizade que perdurou até os dias atuais. Foi também nessa mesma ocasião que descobrimos que apenas algumas quadras separavam nossas casas, e isso contribuiu para que nos tornássemos amigos quase inseparáveis. Edson — nome com o qual eu o conheci — era um menino esperto e se tornou companheiro de incontáveis jornadas. Um dos primeiros talentos que nele percebi e parecia lhe ser inato era a habilidade com a bola de futebol. Enquanto ele a tratava com intimidade, eu só tentava jogar. À dupla original, se juntaram outros garotos da vizinhança — nessa época, era comum que os pais conhecessem quase todos nossos amigos, mesmo que as famílias não se relacionassem ou sequer se vissem. Dos familiares do Edinho — diminutivo pelo qual todos o tratavam — carrego boas recordações do Sr. Antônio, o pai, das feijoadas da Dona Raimunda, a mãe, e das irmãs Cidinha, Lili e Edna, além dos primos Dudu e Carlinhos.

Dele, uma das lembranças frescas em minha memória é sua quase indestrutível farda de bombeiro — enquanto coube em seu corpo, foi usada como fantasia de diversos carnavais. Com o Edson, o Tute — assim eu era conhecido pelos amigos — cursou o primário e o ginasial. Nesse período, exploramos terrenos baldios onde jogávamos futebol e disputávamos partidas de taco e nos aventurarmos a ir mais longe, como nas partidas de futebol aos domingos à tarde no Morumbi, estádio então recentemente concluído.

Aos sábados de manhã, era com ele que eu e outros amigos nos dirigíamos a uma feira livre no Itaim-Bibi para fazer carretos. Ainda nem éramos exatamente adolescentes quando tivemos que abrir mão das brincadeiras de crianças e encarar o batente. Agora era trabalho de dia e estudo à noite. Mesmo assim, continuávamos próximos e juntos concluímos o antigo ginasial e ingressamos no ensino técnico em administração no Colégio Fernão Dias, em Osasco. Nesse período, nos víamos quase que apenas em sala de aula: cada um saía do trabalho direto para a escola.

Edinho estava trabalhando numa empresa do ramo alimentício. Já com mais de 18 anos, a empresa havia colocado um carro à sua disposição. Foi nesse fusca branco que, por vezes, eu e o Keko — outro amigo do bairro — pegávamos carona para voltar pra casa.  O fusca foi também testemunha de nosso primeiro “enquadro”. Numa dessas noites, quando voltávamos da escola, uma viatura da Rota — divisão da Polícia Militar do Estado de São Paulo que já na época era reconhecida pela truculência — nos abordou na Avenida Rio Pequeno, — esquina da Avenida Corifeu de Azevedo Marques. “Delicadamente”, com a arma — uma calibre 12 — engatilhada e apontada para a cabeça do Edinho, o policial gritou: — Parou, parou! Mãos na cabeça, negão! Eu disse as duas mãos.

Enquanto isso, outros dois soldados apontavam suas escopetas para os caronas. Saímos do carro com as mãos levantadas. Grosseiro como só os policiais sabem ser, o trio nos empurrou de cara para o muro e passou a nos revistar. Da minha bolsa, retiraram a marmita, abriram, constataram que estava vazia e, aos risos, abandonaram-na no chão da calçada.

—  Negão, de quem é esse carro e cadê os documentos? — indagou um dos soldados. Calmamente, Edinho entregou os documentos e, de imediato, foi questionado pela “autoridade”: —  Quem me garante que o fusca não é roubado? Sem exibir qualquer traço de nervosismo, Edinho mostrou sua carteira funcional.  Terminada a abordagem, os policiais entraram na viatura e arrancaram sem esboçar um mero pedido de desculpas.

A humilhação de ter a marmita exposta foi até insignificante diante das evidências de racismo praticado pelos militares ao abordar o motorista e tratá-lo sem nenhum respeito. Percebi certo constrangimento na expressão do Edinho. O ato preconceituoso tornou-se marcante em minha vida, pois, se, de um lado, revelou como a polícia tratava jovens da periferia, de outro mostrou a dignidade de meu amigo.

Algumas vezes eu e o Edson saímos juntos à procura de emprego. Em uma dessas jornadas, acabamos indo parar na zona norte de São Paulo. Ali a fome bateu e decidimos almoçar num boteco da Rua Voluntários da Pátria, que tinha no cardápio um prato chamado feijoada. Não tínhamos ideia da qualidade e do que pudesse ser, assim mesmo resolvemos experimentar. A novidade era tão ruim que, ao fim do almoço, meu amigo observou que o melhor daquela feijoada fora o pãozinho, para, em seguida, soltar uma tremenda gargalhada.

Concluído o colegial, seguimos caminhos diferentes e acabamos nos afastando. Nunca, porém, deixamos de nos encontrar. Faculdade, trabalho, casamento e filhos nos tornaram ainda mais responsáveis do que éramos nos distantes anos de nossa infância e juventude. Nos últimos anos, algumas vezes conseguimos almoçar e tomar café juntos. Dele, preservo diversas e boas lembranças — só o fato de me apresentar Billy Paul, mostra o quanto o cara era conhecedor de boa música. Infelizmente, vitimado pelo Covid, Edinho partiu, mas deixou muitas recordações. Ao menos três coisas com ele não consegui aprender: jogar futebol, sambar e tratá-lo por Macalé.

Samuel de Leonardo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. Para ler o texto completo desta lembrança dele com o amigo Macalé, visite agora o meu blog miltonjung.com.br. A sonorização é do Cláudio Antonio. Aproveite e envie o seu texto também: contesuahistoira@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: sinto falta dos sabiás

Por Fernando Ceravolo

Ouvinte da CBN

Foto: Mílton Jung

Sinto falta dos Sabiás. Aqui, onde hoje moro, em uma praia ao norte da ilha de Santa Catarina, eles não existem. Uma pena!

Há os Bem-Te-Vis, os Tico-Ticos, os Joões-de-Barro que cantam também, mas não como os Sabiás. E os inúmeros Pardais, que fazem enorme barulheira quando em grupos – vieram de Portugal, introduzidos no inicio do século passado, pois antes não existiam no nosso País. Virou praga!

Também, há as Gaivotas e Fragatas que voam imponentes e maravilhosamente, mas não cantam. Como os Urubus no seu planar majestoso, totalmente mudos. Mas Sabiás não há. Não sei o motivo, talvez não gostem de praia como eu. Uma pena…

Essa é a época do ano do acasalamento dos Sabiás, cantando forte e longamente para atrair as fêmeas, no raiar do dia e ao cair da noite, alegrando as nossas almas. Mas aqui não os ouço, só sinto a sua falta.

Os Bem-te-vis cantam e é gostoso de ouvir também. Sei que eles adoram água, e talvez por isso estejam aqui e não os Sabiás. Talvez?

Os Joões-de-Barro cantam como se fosse um grito. Gosto de ver esses pássaros construtores bicando o barro e voarem aos seus ninhos em construção, instalados em lugares incríveis, tais como, por exemplo, nos semáforos das ruas da cidade, tapando uma das luzes. Mas não cantam como os Sabiás!

Sou da cidade de São Paulo, onde vivi por anos e escutava o cântico dos Sabiás, há muitos lá, ecoando pela cidade. Uma melodia apaixonada, harmônica e romântica, com notas longas e agudas, expressando a sua necessidade de amor. Acalmava-me ouvir e me despertava para os lindos dias da primavera, com a floração dos Ipês e das flores espalhadas pelos canteiros da cidade, com os seus cheiros e dias luminosos e quentes.

Os Sabiás são os arautos dessa maravilhosa estação do ano, do reinicio da vida.

Sinto falta dos Sabiás! 

(texto escrito originalmente para o Blog do Cera)

Fernando Ceravolo Junior é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio —- e dos sabiás, também. E você? Quando vai enviar a história. Escreva agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Se quiser ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Conte Sua História de São Paulo: o dia que o carro oficial parou na porta do meu barraco

Por Sueli de Souza

Ouvinte da CBN

Mudei para a Capital, em dezembro de 1974, quando me casei. Tinha 24 anos. Fui morar na Rua Nestor Pestana, no centro, e consegui um emprego como secretária na rua da Consolação, era só atravessar a rua.

No segundo semestre de 1975, nossa situação econômica se deteriorou bastante. Não conseguimos renovar o contrato de aluguel do apartamento e fomos viver na periferia, na zona oeste, divisa com Osasco, num barraco cedido por um amigo.

Eu havia prestado um concurso público para a Câmara Municipal de São Paulo e esperava que me chamassem logo, pois fora bem classificada. Havia, inclusive, me demitido do emprego. A convocação demorou e o dinheiro foi ficando escasso. Meu marido também mudará de emprego e começara a trabalhar como vendedor, profissão para a qual não tinha a mínima vocação. 

Quando recebi a convocação para fazer os exames médicos e tomar posse, em janeiro de 1976, não tinha um tostão para fazer as cópias dos documentos, o exame de sangue e pagar a passagem de ônibus até o centro. Assim, não pude atender imediatamente ao chamado.

Um dia, qual não foi a minha surpresa, vi estacionar na porta do barraco um carro oficial. O motorista trazia o recado do diretor do Departamento de Pessoal da Câmara Municipal, querendo saber o motivo de eu ainda não ter comparecido.

Consegui emprestado o dinheiro da passagem de ida e volta e fui explicar ao diretor o porquê de minha demora. Quando lhe disse que o motivo era falta de dinheiro, ele imediatamente emprestou-me a quantia necessária. E disse para eu devolver quando recebesse o primeiro salário.Aceitei porque senti honestidade em sua oferta.

Tomei posse e comecei a trabalhar em seguida. Quando o primeiro salário caiu na minha conta, fui pagar o empréstimo. 

Trabalhei na Câmara durante dois anos; depois, mais 36 anos na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, onde também ingressei por concurso público. Estou aposentada há quatro anos.

Tenho, até hoje, uma profunda gratidão por aquele senhor, que acreditou em minhas razões e me estendeu a mão num momento extremamente difícil de minha vida. Essa solidariedade que experimentei nos meus primeiros tempos em São Paulo e em muitas outras ocasiões,  foi o que mais me cativou e me fez concluir que São Paulo é a minha cidade.

Sueli de Souza é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você a sua experiência aqui na cidade e envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br Para  ouvir outros capítulos, visite agora o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo