Conte Sua História de São Paulo: a saudosa maloca virou quadra de beach tennis

Vinicius Moura

Ouvinte da CBN

Quando São Paulo fazia 397 anos, em 1951, Adoniran Barbosa escrevia Saudosa Maloca. Muito tempo depois, foi marcante, ao comemorar meus 20 anos, arriscar-me a cantá-la num karaokê da Liberdade. Era 1985, e Sampa estava com 431 anos. Eu segurava o microfone com a responsabilidade que uma música clássica pede. Mas não imaginava do que falava a música. Curiosamente, quando a “terra da garoa” fez 460 anos, foi que o assunto veio à pauta: a maloca, a saudosa maloca, estava sendo demolida.

Não moro em uma cidade que olha para trás. Lá em 1951, éramos 2,6 milhões de pessoas. Os homens usavam chapéus e os tiravam para acenar em respeito ao funeral que passava. Quem era? O que empreendeu? Que missão teria cumprido neste seu tempo? É possível que se perguntassem em silêncio, enquanto o gesto gentil ainda se sustentava no ar. É o que ainda fazemos — não o gesto, claro, mas as perguntas. Só que nossa cidade não tem vocação para lamentar o que passou.

Seu Antenor nasceu quando São Paulo completava 391 anos — 1945. Sua casa é remanescente de uma incorporadora que lamenta não ter conseguido fechar negócio, e a casa antiga se sustenta espremida entre os muros altos de uma moderna torre de studios. Mas saiba que o Sr. Antenor não vende, contrariando a urgência dos filhos. Este aposentado com problemas de mobilidade crê não precisar de mais nada. Mantém o saudosismo da velha vila e a lembrança dos vizinhos que se foram. Era isso que eu ouvia dele em 2019. Sampa é uma cidade de muitas histórias.

Contudo, sei que, mais do que tudo, lá no fundo, o Sr. Antenor — e tantos outros — mantinha o desconforto de ter vindo do interior de Minas e de ter trabalhado na construção civil, lá nos anos 60, para essa mesma construtora que agora quer seu pequeno pedaço de chão. E foi justamente o rendimento deste trabalho que lhe permitiu comprar seu pequeno lote. Que ironia: hoje, os netos do seu antigo empregador querem que sua casa se transforme numa quadra de beach tennis e agregue valor. São Paulo é uma cidade que olha para cima.

Em 2025, São Paulo fez 471 anos, e eu acabo de me mudar para o vigésimo terceiro andar de um desses prédios que esmagou algumas das antigas casinhas. Me enche de orgulho enxergar tão, tão distante através da grande vidraça. É festa aos olhos observar o céu alaranjado no fim de tarde, contrastando com o fundo escuro das árvores no Ibirapuera. Quantos podem pagar por essa vista? A terra da garoa cobra caro.

Por mais incômodo que pareça, Adoniran falava disso: vamos colocar quem não pode pagar num lugar um pouco mais afastado. Foi esse o motivo da demolição da Saudosa Maloca — e é o motivo pelo qual ela continua sendo demolida até hoje. São Paulo sempre olha para o retorno do investimento futuro.

Quando São Paulo fez 420 anos, fui com meu pai conhecer o metrô, em sua inauguração. Era a promessa sendo cumprida para quem tivesse ido morar longe: o metrô traria com rapidez. São Paulo sempre tem pressa. São Paulo não é unanimidade: é feia para uns — para quem está nas periferias, principalmente. E é bonita para outros — para quem está nos bairros bacanas, principalmente. É a cidade que permite executar novos sonhos ao mesmo tempo em que asfalta suas antigas histórias. São Paulo não tem tempo a perder.

Tenho certeza de que, assim como eu, o Sr. João Rubinato amava de paixão esta cidade de muitas tradições e enormes contradições. Quem é João Rubinato? Sabe não? É o nome de batismo de Adoniran. Já o Sr. Antenor era Antenor mesmo, um vizinho que morreu de Covid. Seu imóvel é hoje uma quadra de beach tennis. Será que os filhos do Sr. Antenor estão mais felizes?

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Vinicius Moura é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio.
Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: mais do que uma cidade, é uma experiência de vida

Nelson Sganzerla

Ouvinte da CBN

É impossível falar de São Paulo sem destacar sua essência vibrante, marcada pela diversidade cultural, pela inovação e pelo espírito acolhedor que abraça a todos que chegam com sonhos e esperança.

Ao longo dos séculos, São Paulo transformou-se no coração pulsante do Brasil, uma metrópole que dita tendências e inspira o país.

Seus arranha-céus — como o próprio nome diz — tocam o céu, simbolizando a determinação e o trabalho incansável de milhões que fazem da cidade um lugar único e dinâmico.

Cada bairro conta uma história, desde as tradições do centro histórico até a modernidade da Avenida Paulista; cada rua respira história e inovação.

A gastronomia é um capítulo à parte, oferecendo uma viagem ao redor do mundo sem sair da cidade. De feiras de rua a restaurantes premiados, São Paulo é um banquete de sabores e culturas que representa o espírito cosmopolita que define essa metrópole.

Além disso, São Paulo é um celeiro de arte e cultura. Seus museus, teatros e galerias são palcos de expressões artísticas que encantam e provocam reflexões. A cidade respira arte urbana, música e literatura, sendo um farol cultural que ilumina não só o Brasil, mas o mundo.

São Paulo é mais do que uma cidade; é uma experiência de vida. Com seus 471 anos, continua sendo uma terra de oportunidades, onde as histórias se encontram, sonhos são realizados e o futuro é constantemente reinventado.

Com toda sua grandeza e complexidade, segue sendo um símbolo de força, resiliência e esperança, inspirando todos que têm o privilégio de chamá-la de lar.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Nelson Sganzerla é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva gora a sua história e envie para contesuahistoria@cbn.com.br  Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog, miltonjung.com.br, ou acesse o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: a adolescência nos Jardins

Fabio Lemmi

Ouvinte da CBN

Photo by C. Cagnin on Pexels.com

Nasci na Pró Matre paulista há 75 anos. Meus pais moravam na tranquila avenida Nove de Julho, quase na Lorena. Com a morte de minha mãe em 1956, fui morar com meus avós na Peixoto Gomide, esquina da Tatuí. Foi lá que vivi o fim da infância e o início da adolescência – um tempo feliz.

Nos anos 50 e 60, o bairro era feito de casas, vilas e ruas calmas. A Tatuí, com seu único quarteirão asfaltado, virou nosso campinho: jogávamos taco, pingue-pongue, patinávamos, soltávamos bombinhas e, claro, jogávamos futebol. Era o nosso forte.

O time da Tatuí enfrentava, com frequência, os meninos da José Maria Lisboa. O clássico virou rotina e, aos poucos, a rivalidade virou amizade. Da Tatuí: Paulo Carioca, Paulo André, Gui, Garaude, Carlinhos, Augusto, Osvaldo, Dandado. Da Zé Maria: Cido, Tabela, Alex, Wilson, Bubi, Frederico e Antonio. Ainda nos encontramos, de vez em quando.

Tinha também o Boris, mais velho, apresentador na rádio Santo Amaro, que organizava partidas em campos improváveis: Pacaembu, Hebraica, Santa Cruz… Sempre jogávamos, quase sempre perdíamos. Dali saíram dois nomes da imprensa: Guilherme Ivo Cunha Pinto, o jovem Gui, editor no Jornal da Tarde e na revista Playboy, e o próprio Boris, Casoy de sobrenome.

Entre travessuras, lembro de uma coleção de 400 garrafinhas de bebida que ficou pra trás após um divórcio. Aos poucos, “degustamos” todas. Criamos habilidades em repor os líquidos sem levantar suspeitas. Ninguém virou alcoólatra. Até onde sei.

Outra figura: João Grandão, magro, alto, com um Fusca, que adorava seguir balões juninos. Virou, dizem, um personagem exótico e loiro que exibe sua excentricidade sobre um conversível em avenidas paulistanas.

E teve a Bic, minha primeira paixão. Dorothèe, uma francesa vizinha. Quando ela terminou o namoro após férias na França, repeti de ano. Três meses depois, a moça estava na capa da revista Realidade e desfilando para Denner. Eu? Tinha de vê-la todos os dias nas bancas, nas fotos gigantes do Center 3. Adolescente sofre.

Entre os vizinhos: os irmãos italianos Marco e Fabio, que ouviram o assassinato de Kennedy em rádios de bolso; e Bruce, filho de diplomata americano, frustrado por nunca conseguirmos construir o carrinho de rolimã. Mais tarde virou diplomata no Caribe.

E mais: o rotundo guarda noturno Seu Antonio; o carteiro João e suas frases para o diabo; Ataliba, o vendedor de biju que jogava bola; o padeiro das cavacas anotadas em caderneta; o verdureiro empurrando a carroça; o tintureiro japonês; o milionário garoto do Aero Willys; e o eterno comprador de roupas usadas, gritando: “compá ropá”.

Os Jardins de 60 anos atrás. Ainda sem prédios. Ainda cheios de histórias.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Fabio Lemmi é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Para ler o texto completo do Fabio, visite agora o meu blog miltonjung.com.br. Você pode enviar as suas lembraças para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, vá agora para o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: fui office-boy com pastinha de plástico na mão

Carlos Assis

Ouvinte da CBN

Foto: Ouvinte da CBN Ricardo Biserra

Meu pai tinha uma firma de material industrial na rua dos Andradas. E minha mãe ajudava fazendo os pagamentos nos bancos. Antigamente, um título do Bradesco — título, era assim que chamávamos os boletos — só podia ser pago no Bradesco. O do Banco do Brasil só no Banco do Brasil. E havia bancos em São Paulo com apenas uma ou duas agências. Então, a gente tinha de ir ao centro velho, na rua Boa Vista, na São Bento, na Quinze de Novembro … E fazia tudo a pé. Não tinha metrô. Desse modo, conheci bem a cidade. 

Passei dezenas e dezenas de vezes no viaduto Santa Ifigênia, no viaduto do Chá, no Largo Paissandu. A agência do Citybank era na avenida São João com a Ipiranga, em frente ao Bar Brahma — bar que nunca visitei, apesar de passar pela frente uma centena de vezes. 

Minha mãe era uma pessoa simples e católica, o que me fez conhecer as igrejas do centro: o Mosteiro de São Bento, a Sé, a de São Francisco, a do Rosário, a de Santo Antônio.

Lembro quando fui com ela pagar um título no Unibanco, na Praça do Patriarca. Assim que entramos havia uma escada rolante. Precisávamos subir no primeiro pavimento. Minha mãe tinha medo da escada rolante, que era algo novo na cidade. O segurança teve de desligar a escada para a gente subir e depois descer. 

Com uns 13 anos, já era office-boy e andava com aquela pastinha de plástico na mão. Mas não me atrevia a fazer malabarismos como os garotos maiores. Minha diversão era entrar por uma rua e sair em outra, passando por dentro de prédios. Adorava andar na galeria da Avenida São João, passar pelas lanchonetes, sentir aquele cheiro de comida no ar, e sair na 24 de Maio. 

Entrava nas Lojas Americanas e Brasileiras, na rua Direita, e saia na rua José Bonifácio, do outro lado. Entrava no Banco de Boston, no Vale do Anhangabaú, e alcançava a Libero Badaró — essa agência foi a primeira a ter porta automática e era m luxo ver a porta se abrindo sozinha. Outro atalho que usava era entrar no prédio da Telefônica, na Sete de Abril, e sair na Basílio da Gama. Ou entrar na Galeria Metrópole para chegar na praça da Biblioteca Municipal.

Além de pagar contas, eu fazia entregas de documentos, cartas e cotações. Frequentava os Correios para passar telegramas e despachar cartas. Os Correios tinham máquinas automáticas que selavam as cartas. Eu levava centenas de cartas em uma mochila. E lá era o único lugar em que se podia fazer isso. Entregava cotações paras as empresas. 

A CSN Companhia Siderúrgica Nacional ficava na avenida Senador Queirós; a Petrobras na Barão de Itapetininga; a Petrobras Distribuidora ficava no Edifício Andraus. Sim, eu estive no vigésimo-segundo andar do mesmo prédio que pegou fogo. Dei sorte. E algumas vezes, ia na avenida Paulista entregar cotação na Liquigás, no Conjunto Nacional. Fui dezenas de vezes nas Indústrias Matarazzo, na Água Branca, e a na Companhia Antártica, na Borges de Figueiredo. Uma vez fui na Bayer, em Santo Amaro. Acho que demorei quase duas horas para chegar lá. 

Certa vez, passando o farol fechado —- office-boy não esperava o farol abrir —, na rua Xavier Toledo, em frente ao Mappin, levei um apitaço do Guarda Luizinho. Meus ouvidos ficaram zunindo. Nem entendi o que ele disse. Só vi as pessoas rindo. Daquele dia em diante, aprendi a usar a passagem subterrânea que tinha do lado do prédio da Light — acho que por pura vergonha. 

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Carlos Assis é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outras histórias como essa, vá no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: de office-boy ao pioneirismo dos motoboys

Comecei minha vida profissional ainda menor, em 1972 na Techint, uma empresa de engenharia na Praça da República, que participou da construção da primeira linha do Metrô da cidade. Eu era office boy, e vivia nas ruas e avenidas do centro, pegando fila, entrando em bancos, cartórios e repartições publicas. Vendo e vibrando com cartazes de cinema escritos e pintados à mão; teatros, fliperamas, lojas e galerias  movimentadas.

Comia, às vezes, no restaurante Sopa Paulista, na Avenida São João, mas geralmente carregava minha marmita no Penha-Lapa lotado e à noite estudava no ginásio.

Até no famoso Bar Brahma almocei, mas pra mim o bom mesmo era o churrasco grego, com suco no copo de plástico, que vez ou outra vinha com uma abelha — era bem rapidinho.

Entrava no Cine Maraba, na Loja Pitter,  na Pirani e na Eletro-Radiobras. Gostava do fliperamas da Play Time. Uma felicidade! E tinha o icônico Mappin. Esse, sim, onde mais tarde eu seria um dos pioneiros dos motoboys com minha Suzuki “cinquentinha”. Eu entregava as temidas cartinhas de cobrança aos devedores dos carnês do famoso magazine.

Frequentava a General Osório para ver os novos modelos de motos que chegavam do Japão — e os antigos, também. Nas sextas-feiras, tinha o movimento Black Power, no Viaduto do Chá, onde inúmeros adeptos ao movimento dominavam o cenário usando boas roupas e cabelos da moda Black. 

Nas andanças pelo centro, também vi de perto os incêndios  dos edifícios Andraus e Joelma — tristes recordações.  Ainda trabalhei na Sabesp e, finalmente, no Tribunal de Justiça na Praça da Sé, onde permaneci até  me aposentar.

Tenho na lembrança,  e com saudades, um tempo mágico que vivi em São Paulo e se mantém muito presente na minha memória, mesmo morando agora em Santa Isabel.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Domenico Ban é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade você visita agora o meu blog miltonjung.com.br ou vai lá no Spotify e coloca entre os seus favoritos o podcast do Conte Sua História de São Paulo. 

Conte Sua História de São Paulo: minha ruinha da Vila Mariana

Por Flávia Benyunes

Ouvinte da CBN

Imagem criada no Dall-E

Tornei-me uma saudosista. Nasci em São Paulo, na década de 50, e cresci em meio a uma família bastante numerosa. Vivíamos numa bela casa em Vila Mariana numa rua que ocupava apenas um quarteirão, alojado entre quatro ruas principais. Sua localização propiciava liberdade e segurança aos moradores. 

Na ruinha, como era conhecida nas redondezas, passamos nossa adolescência entre amigos, vizinhos e primos. A via de paralelepípedos era estreita e quando estendíamos uma rede de uma casa a outra, aquele pedaço se transformava numa quadra de vôlei de dar inveja: era onde improvisávamos jogos que faziam o tempo voar. 

Brincar de esconde-esconde virou mania quando já não éramos mais assim tão crianças. Nas noites de sábado, organizávamos torneios de tranca e um festival de panos verdes cobria as mesas dos vizinhos, cujas portas ficavam sempre abertas. Fomos amadurecendo, mas a movimentação continuou. As manhãs exalavam o cheiro do pão fresco da padaria Astral, do Sr. Manoel, bem ali na esquina da Borges Lagoa com a Coronel Lisboa.

Tenho certeza de que se algum de nós estiver sintonizado na CBN nesse momento, irá se derreter de saudade daquele reduto que nos acolheu durante nossa adolescência. Essas memórias, construídas em uma época em que o mundo era bem mais simples, moldaram quem eu sou e me ensinaram a valorizar a diversidade.

Os anos foram passando e os amigos que antes se escondiam atrás dos postes e nos jardins das poucas casas, agora se dedicavam aos estudos, sonhando com suas profissões. Alguns de nós partiram para outros estados, outros se casaram e a vida seguiu como deveria ter sido.

A ruinha passou a ser um outro espaço. Enquanto nossos pais envelheciam, formávamos novas gerações para quem nosso cenário já não se aplicava mais.

O tempo trouxe mudanças. A Vila Mariana se transformou: prédios altos surgiram onde antes havia nossas casas; a padaria Astral, a doceira Duomo, a Droga Kleber e o Armarinho do Seu Salim foram substituídos por supermercados, salões de beleza sofisticados, e o nosso quarteirão agora dá lugar à saída de carros dos moradores dos edifícios que ali foram erguidos. Mas, mesmo assim, a essência daquela ruinha permanece viva no meu coração.

Hoje, quando passo por ali, sinto uma mistura de saudade e gratidão. A ruinha ressoa com as risadas de um passado que não volta mais, mas que permanece guardado com carinho imenso em meu peito já meio envelhecido. A nostalgia é uma parte importante de quem sou, e, apesar das mudanças, a conexão com a ruinha é algo que carrego comigo para sempre, não importa o peso dessa carga!

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Flavia Benyunes é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade você visita agora o meu blog miltonjung.com.br ou vai lá no Spotify e coloca entre os seus favoritos o podcast do Conte Sua História de São Paulo. 

Conte Sua História de São Paulo: na cidade e na arte, encontrei acolhimento e inclusão

Márcia de Castro Sá

Concerto do Bem Foto: Instituo Olga Kos

Nasci prematuramente, em 7 de outubro de 1984, no Brooklin, em São Paulo— (minha mãe deu à luz quando completou sete meses de gestação. O meu pai, que trabalhava como assessor econômico em uma fabricante de automóveis; minha mãe, totalmente empenhada com os cuidados do lar e da família, assim como os meus irmãos mais velhos, acolheram-me com muito carinho. 

Nos anos 1980, durante um passeio em um clube paulistano, acompanhada de meus pais, uma prima paterna, fisioterapeuta, notou que eu não reagia a determinados movimentos como normalmente ocorrem em bebês. Logo, fui encaminhada para uma consulta médica, onde foi constatado o diagnóstico de paralisia cerebral.

Em um primeiro momento, aquela notícia surpreendeu a todos. Os cuidados para comigo passaram a ser redobrados. Adiante, recebi mais um diagnóstico: o de baixa visão no olho esquerdo; e miopia no olho direito, o único ainda com capacidade de visão. Digo isso, pois recentemente fui diagnosticada com catarata no olho direito e terei que me submeter a uma cirurgia. Isso sem contar que há mais de 20 anos aguardo uma vaga de uma cirurgia para sanar uma escoliose severa.

Empenhada em superar barreiras em função de minhas deficiências e contando com o apoio familiar total, segui e sigo adiante, em busca de encontrar vias que ajudem a me motivar.

Em 2009, entre minhas sessões de reabilitação, uma fisioterapeuta me apresentou o Instituto Olga Kos. Um momento marcante, pois me abriu portas e ajudou a ressignificar o meu cotidiano, fazendo aflorar algumas aptidões artísticas, como a minha identificação com música, canto e pintura sobre telas.

Recordo que por meio do Instituto, participei de projetos como o “Pintou a Síndrome do Respeito”, que abriu a oportunidade de eu produzir releituras de artistas renomados da pintura nacional.

Desde então, fui sendo inserida em outros projetos, como o “Cor e Ritmo – Arte Inclusiva”, que, além das artes, fez-me notar como música e canto regam minha vida positivamente.

Mais recentemente, outros registros inclusivos são as minhas participações no “Concerto do Bem”, que já teve três edições, sendo a última no Memorial da América Latina, um dos cartões postais de São Paulo, com recorde de público.

Faço questão de observar que todas as atividades que participo ocorrem em locações na cidade de São Paulo, um berço cultural. Não consigo imaginar viver em outra cidade.

Quanto ao Instituto Olga Kos, agradeço pelo acolhimento e por todas as oportunidades que me deram e, certamente, darão. O Olga, como é carinhosamente chamado, desenvolve projetos artísticos e esportivos, além de pesquisas pela inclusão de pessoas com deficiência e em situação de vulnerabilidade social. A minha história espelha, inclusive, a alma desse instituto, que é trabalhar por um mundo mais inclusivo.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Márcia de Castro Sá é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade você visita agora o meu blog miltonjung.com.br ou vai lá no Spotify e coloca entre os seus favoritos o podcast do Conte Sua História de São Paulo. 

Conte Sua História de São Paulo: trabalhei na banca de revista em troca da leitura de gibis

Marcelo Bailão Silva

Ouvinte da CBN

Foto de João Saplak

Corria o ano de 1967 e minha família – eu, papai, mamãe e minhas duas irmãs – mudávamos de Santos para São Paulo. Na capital, papai recomeçaria a vida depois de momentos profissionais difíceis em Santos.

Viemos para o Itaim, na época um bairro de classe média baixa, recortado pelo Córrego do Sapateiro, que ligava o Ibirapuera à Marginal do Pinheiros e era circundado por uma enorme favela. Morávamos praticamente ao lado dessa favela. E estudávamos na escola pública, boa na época, Ludovina Credidio Peixoto, que existe até hoje. Meus amigos eram a turma favela, que frequentava minha cara e por quem sempre tive carinho e amizade. Alguns morreram, outro foi assassinado, houve os que se  perderam na vida e os que venceram as dificuldades e saíram da miséria.

Sempre amei ler, desde aquela época. Lia o que caía em mãos, principalmente gibis de heróis — (Homem-Aranha, Conan, .. ) — eram raros e caros.

Na minha esquina havia a banca do Seu José. Ele vendia revistas e jornais. Eu era conhecido dele porque vivia folheando os gibis. Com o apoio de minha mãe, fiz um acordo com Seu José: enquanto ele dava uma pausa para almoçar, eu tomava conta da banca e poderia ler as revistinhas. Maravilha! Melhor “salário”, impossível!

Durou pouco tempo – um tempo inesquecível. Alguns meses depois, papai começou a trabalhar na Editora Abril e voltava para casa com um caixote cheio de publicações da editora. Aí é que me afundei na leitura de vez.

Essa paixão perdura até hoje e consegui transmiti-la aos meus filhos Júlia e Vitor, ávidos leitores. Durante a infância deles, sempre frequentamos livrarias como a Cultura e a Martins Fontes. Eles sempre me ouviram falar:“escolham um livro, eu nunca vou negar um livro a vocês”.

Acredito que ler é viver. Fico triste sempre que uma livraria ou editora fecha e, se pudesse, acabaria com impostos sobre livros. Recuperar o prazer da leitura, seja em papel ou no digital, devia ser foco do ensino básico. Pobre país que se esquece do seu povo e de sua cultura. Se pudesse dar um presente à nossa cidade, daria um livro de para cada um que aqui vive.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Marcelo Bailão Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade você visita agora o meu blog miltonjung.com.br ou vai lá no Spotify e coloca entre os seus favoritos o podcast do Conte Sua História de São Paulo. 

Conte Sua História de São Paulo: trabalhei nos cinemas da cidade

Ednaldo José Silva de Camargo

Ouvinte da CBN

Foto de Nicolette Villavicencio

Sou um apaixonado por cinema desde criança. Nasci em Cananéia, onde morei até os sete anos de idade. Naquela cidadezinha ainda sem televisão, um dos meus maiores divertimentos era ir ao cinema aos domingos, assistir a Os Três Patetas e Flash Gordon (aquele de 1936), que era exibido em formato de seriado.

Corta para 1983, cerca de quinze anos após minha mudança para São Paulo. Por indicação de um amigo, Eduardo Ramires, fui contratado para trabalhar como gerente no Cineclube Bixiga, na Rua Treze de Maio, 124.

Foi a primeira sala de projeção em São Paulo a, entre outras novidades, permitir a reserva antecipada de assentos marcados. Sua programação era bastante específica:

  • Segundas-feiras: exibição de filmes nacionais, seguida de debates – muitas vezes com a presença dos próprios diretores.
  • De terça a domingo: filmes europeus, americanos, asiáticos, enfim, o que se chamava, na época, de “filmes de arte”.
  • Sextas-feiras e sábados: uma sessão especial à meia-noite, sempre com um filme diferente.

A cabine de projeção ficava em uma espécie de aquário, permitindo que o público que aguardava no hall visse o projecionista em ação. Além disso, um projetor exibia animações francesas, polonesas, italianas e de outras nacionalidades na parte interna do toldo do cinema, tornando a espera ainda mais especial.

Durante minha passagem pelo Cineclube Bixiga, conheci pessoas incríveis: Diogo Gomes dos Santos e Antônio de Gouveia Jr., idealizadores do projeto; Adhemar Oliveira, que mais tarde criaria o Cineclube Estação Botafogo no Rio de Janeiro e, hoje, está à frente do Espaço Itaú de Cinema; Felipe Macedo, uma das maiores autoridades em cineclubismo, fundador do Cineclube Oscarito, que ocupou o antigo espaço do Cine Bijou, na Praça Roosevelt. E tantos outros: Arnaldo Vuolo, Adalberto Vieira…

Também tive o privilégio de conhecer cineastas como João Batista de Andrade, Denoy de Oliveira e Ivo Branco.

Trabalhava no período da noite, mas, algum tempo depois, fui convidado a assumir o turno diurno, cuidando da administração. Para me substituir no horário noturno, contrataram um jovem cineasta que havia acabado de ganhar um prêmio em Gramado por uma animação em Super 8. Um nome que, na época, ainda era pouco conhecido, mas que hoje dispensa apresentações: Carlos Imperio Hamburger, mais conhecido como Cao Hamburger – criador de sucessos como Castelo Rá-Tim-Bum, Xingu e O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, filme que representou o Brasil no Oscar de 2008.

Só São Paulo possibilita esses encontros e histórias.

Eu poderia contar sobre quando vi Renato Braz começando sua linda trajetória no Café Paris, ou sobre Mônica Salmaso, mas essa é uma história para outro momento. Hoje, o tema é o cinema.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Ednaldo José Silva de Camargo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade você visita agora o meu blog miltonjung.com.br ou vai lá no Spotify e coloca entre os seus favoritos o podcast do Conte Sua História de São Paulo. 

Conte Sua História de São Paulo: meu espelho na estação Pinheiros

Por Thays Bertin Rodrigues

Ouvinte da CBN

Photo by Andre Moura on Pexels.com

No Conte Sua História de São Paulo, o texto da ouvinte da CBN Thays Bertin Rodrigues:

Minhas primeiras lembranças de São Paulo são da infância. Eu sabia que havíamos chegado à capital pelo obelisco imponente que nos recebia logo na entrada de quem vinha da Rodovia dos Bandeirantes — e pelo perfume nem tão agradável do Rio Pinheiros.

Observava a cidade através da janela do Escort branco da família, a caminho do litoral sul. Sentia uma mistura de ansiedade e euforia, uma energia que me arrepiava. Naquele momento, sem saber interpretar, já percebia uma conexão com a cidade, uma vibração dessa metrópole imensa — tão gigantesca quanto os sonhos de uma menina de oito anos, sem imaginar que, um dia, aquele cenário se tornaria seu destino.

Foi somente em 2018, na fase dos “de repente 30”, que me tornei residente da cidade. Nos anos seguintes, São Paulo me presenteou com muito: amigos, cultura, diversidade e até um Rio Pinheiros com um novo perfume, que passou a me acompanhar diariamente no caminho para o trabalho.

Depois, veio a pandemia, um período de restrições e isolamento. E, quando menos esperava, São Paulo me trouxe um marido de origem nordestina e, em seguida, o privilégio de gerar no meu ventre um futuro paulistano.

Hoje, às 18h, na Estação Pinheiros, enquanto faço a baldeação entre a Linha Amarela e a CPTM, olho para cima. Vejo os andares repletos de escadas rolantes, as pessoas indo e vindo, a cidade pulsando com sua funcionalidade, sua diversidade! Tudo aquilo me lembra um formigueiro — igual ao que vi no Planeta Inseto no último sábado, quando levei meu pequeno paulistano para conhecer.

É nessa grandiosidade da Estação Pinheiros que sinto, novamente, a mesma conexão e vibração que me arrepiavam quando era apenas uma menina do interior. É como um espelho: nessa São Paulo, reconheço quem eu sou. Amiga, diversa, funcional, alegre, forte e, ao mesmo tempo, doce. Grande!

E, nesse olhar ao espelho, me apaixono novamente. Pela minha vida. Por quem sou. Pela cidade que escolhi e que também me escolheu: São Paulo.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Thays Bertin Rodrigues é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite agora meu blog miltonjung.com.br ou vá até o Spotify e adicione entre os seus favoritos o podcast do Conte Sua História de São Paulo.