Conte Sua História de São Paulo: minha ruinha da Vila Mariana

Por Flávia Benyunes

Ouvinte da CBN

Imagem criada no Dall-E

Tornei-me uma saudosista. Nasci em São Paulo, na década de 50, e cresci em meio a uma família bastante numerosa. Vivíamos numa bela casa em Vila Mariana numa rua que ocupava apenas um quarteirão, alojado entre quatro ruas principais. Sua localização propiciava liberdade e segurança aos moradores. 

Na ruinha, como era conhecida nas redondezas, passamos nossa adolescência entre amigos, vizinhos e primos. A via de paralelepípedos era estreita e quando estendíamos uma rede de uma casa a outra, aquele pedaço se transformava numa quadra de vôlei de dar inveja: era onde improvisávamos jogos que faziam o tempo voar. 

Brincar de esconde-esconde virou mania quando já não éramos mais assim tão crianças. Nas noites de sábado, organizávamos torneios de tranca e um festival de panos verdes cobria as mesas dos vizinhos, cujas portas ficavam sempre abertas. Fomos amadurecendo, mas a movimentação continuou. As manhãs exalavam o cheiro do pão fresco da padaria Astral, do Sr. Manoel, bem ali na esquina da Borges Lagoa com a Coronel Lisboa.

Tenho certeza de que se algum de nós estiver sintonizado na CBN nesse momento, irá se derreter de saudade daquele reduto que nos acolheu durante nossa adolescência. Essas memórias, construídas em uma época em que o mundo era bem mais simples, moldaram quem eu sou e me ensinaram a valorizar a diversidade.

Os anos foram passando e os amigos que antes se escondiam atrás dos postes e nos jardins das poucas casas, agora se dedicavam aos estudos, sonhando com suas profissões. Alguns de nós partiram para outros estados, outros se casaram e a vida seguiu como deveria ter sido.

A ruinha passou a ser um outro espaço. Enquanto nossos pais envelheciam, formávamos novas gerações para quem nosso cenário já não se aplicava mais.

O tempo trouxe mudanças. A Vila Mariana se transformou: prédios altos surgiram onde antes havia nossas casas; a padaria Astral, a doceira Duomo, a Droga Kleber e o Armarinho do Seu Salim foram substituídos por supermercados, salões de beleza sofisticados, e o nosso quarteirão agora dá lugar à saída de carros dos moradores dos edifícios que ali foram erguidos. Mas, mesmo assim, a essência daquela ruinha permanece viva no meu coração.

Hoje, quando passo por ali, sinto uma mistura de saudade e gratidão. A ruinha ressoa com as risadas de um passado que não volta mais, mas que permanece guardado com carinho imenso em meu peito já meio envelhecido. A nostalgia é uma parte importante de quem sou, e, apesar das mudanças, a conexão com a ruinha é algo que carrego comigo para sempre, não importa o peso dessa carga!

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Flavia Benyunes é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade você visita agora o meu blog miltonjung.com.br ou vai lá no Spotify e coloca entre os seus favoritos o podcast do Conte Sua História de São Paulo. 

Conte Sua História de São Paulo: na cidade e na arte, encontrei acolhimento e inclusão

Márcia de Castro Sá

Concerto do Bem Foto: Instituo Olga Kos

Nasci prematuramente, em 7 de outubro de 1984, no Brooklin, em São Paulo— (minha mãe deu à luz quando completou sete meses de gestação. O meu pai, que trabalhava como assessor econômico em uma fabricante de automóveis; minha mãe, totalmente empenhada com os cuidados do lar e da família, assim como os meus irmãos mais velhos, acolheram-me com muito carinho. 

Nos anos 1980, durante um passeio em um clube paulistano, acompanhada de meus pais, uma prima paterna, fisioterapeuta, notou que eu não reagia a determinados movimentos como normalmente ocorrem em bebês. Logo, fui encaminhada para uma consulta médica, onde foi constatado o diagnóstico de paralisia cerebral.

Em um primeiro momento, aquela notícia surpreendeu a todos. Os cuidados para comigo passaram a ser redobrados. Adiante, recebi mais um diagnóstico: o de baixa visão no olho esquerdo; e miopia no olho direito, o único ainda com capacidade de visão. Digo isso, pois recentemente fui diagnosticada com catarata no olho direito e terei que me submeter a uma cirurgia. Isso sem contar que há mais de 20 anos aguardo uma vaga de uma cirurgia para sanar uma escoliose severa.

Empenhada em superar barreiras em função de minhas deficiências e contando com o apoio familiar total, segui e sigo adiante, em busca de encontrar vias que ajudem a me motivar.

Em 2009, entre minhas sessões de reabilitação, uma fisioterapeuta me apresentou o Instituto Olga Kos. Um momento marcante, pois me abriu portas e ajudou a ressignificar o meu cotidiano, fazendo aflorar algumas aptidões artísticas, como a minha identificação com música, canto e pintura sobre telas.

Recordo que por meio do Instituto, participei de projetos como o “Pintou a Síndrome do Respeito”, que abriu a oportunidade de eu produzir releituras de artistas renomados da pintura nacional.

Desde então, fui sendo inserida em outros projetos, como o “Cor e Ritmo – Arte Inclusiva”, que, além das artes, fez-me notar como música e canto regam minha vida positivamente.

Mais recentemente, outros registros inclusivos são as minhas participações no “Concerto do Bem”, que já teve três edições, sendo a última no Memorial da América Latina, um dos cartões postais de São Paulo, com recorde de público.

Faço questão de observar que todas as atividades que participo ocorrem em locações na cidade de São Paulo, um berço cultural. Não consigo imaginar viver em outra cidade.

Quanto ao Instituto Olga Kos, agradeço pelo acolhimento e por todas as oportunidades que me deram e, certamente, darão. O Olga, como é carinhosamente chamado, desenvolve projetos artísticos e esportivos, além de pesquisas pela inclusão de pessoas com deficiência e em situação de vulnerabilidade social. A minha história espelha, inclusive, a alma desse instituto, que é trabalhar por um mundo mais inclusivo.

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Márcia de Castro Sá é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade você visita agora o meu blog miltonjung.com.br ou vai lá no Spotify e coloca entre os seus favoritos o podcast do Conte Sua História de São Paulo. 

Conte Sua História de São Paulo: trabalhei na banca de revista em troca da leitura de gibis

Marcelo Bailão Silva

Ouvinte da CBN

Foto de João Saplak

Corria o ano de 1967 e minha família – eu, papai, mamãe e minhas duas irmãs – mudávamos de Santos para São Paulo. Na capital, papai recomeçaria a vida depois de momentos profissionais difíceis em Santos.

Viemos para o Itaim, na época um bairro de classe média baixa, recortado pelo Córrego do Sapateiro, que ligava o Ibirapuera à Marginal do Pinheiros e era circundado por uma enorme favela. Morávamos praticamente ao lado dessa favela. E estudávamos na escola pública, boa na época, Ludovina Credidio Peixoto, que existe até hoje. Meus amigos eram a turma favela, que frequentava minha cara e por quem sempre tive carinho e amizade. Alguns morreram, outro foi assassinado, houve os que se  perderam na vida e os que venceram as dificuldades e saíram da miséria.

Sempre amei ler, desde aquela época. Lia o que caía em mãos, principalmente gibis de heróis — (Homem-Aranha, Conan, .. ) — eram raros e caros.

Na minha esquina havia a banca do Seu José. Ele vendia revistas e jornais. Eu era conhecido dele porque vivia folheando os gibis. Com o apoio de minha mãe, fiz um acordo com Seu José: enquanto ele dava uma pausa para almoçar, eu tomava conta da banca e poderia ler as revistinhas. Maravilha! Melhor “salário”, impossível!

Durou pouco tempo – um tempo inesquecível. Alguns meses depois, papai começou a trabalhar na Editora Abril e voltava para casa com um caixote cheio de publicações da editora. Aí é que me afundei na leitura de vez.

Essa paixão perdura até hoje e consegui transmiti-la aos meus filhos Júlia e Vitor, ávidos leitores. Durante a infância deles, sempre frequentamos livrarias como a Cultura e a Martins Fontes. Eles sempre me ouviram falar:“escolham um livro, eu nunca vou negar um livro a vocês”.

Acredito que ler é viver. Fico triste sempre que uma livraria ou editora fecha e, se pudesse, acabaria com impostos sobre livros. Recuperar o prazer da leitura, seja em papel ou no digital, devia ser foco do ensino básico. Pobre país que se esquece do seu povo e de sua cultura. Se pudesse dar um presente à nossa cidade, daria um livro de para cada um que aqui vive.

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Conte Sua História de São Paulo: trabalhei nos cinemas da cidade

Ednaldo José Silva de Camargo

Ouvinte da CBN

Foto de Nicolette Villavicencio

Sou um apaixonado por cinema desde criança. Nasci em Cananéia, onde morei até os sete anos de idade. Naquela cidadezinha ainda sem televisão, um dos meus maiores divertimentos era ir ao cinema aos domingos, assistir a Os Três Patetas e Flash Gordon (aquele de 1936), que era exibido em formato de seriado.

Corta para 1983, cerca de quinze anos após minha mudança para São Paulo. Por indicação de um amigo, Eduardo Ramires, fui contratado para trabalhar como gerente no Cineclube Bixiga, na Rua Treze de Maio, 124.

Foi a primeira sala de projeção em São Paulo a, entre outras novidades, permitir a reserva antecipada de assentos marcados. Sua programação era bastante específica:

  • Segundas-feiras: exibição de filmes nacionais, seguida de debates – muitas vezes com a presença dos próprios diretores.
  • De terça a domingo: filmes europeus, americanos, asiáticos, enfim, o que se chamava, na época, de “filmes de arte”.
  • Sextas-feiras e sábados: uma sessão especial à meia-noite, sempre com um filme diferente.

A cabine de projeção ficava em uma espécie de aquário, permitindo que o público que aguardava no hall visse o projecionista em ação. Além disso, um projetor exibia animações francesas, polonesas, italianas e de outras nacionalidades na parte interna do toldo do cinema, tornando a espera ainda mais especial.

Durante minha passagem pelo Cineclube Bixiga, conheci pessoas incríveis: Diogo Gomes dos Santos e Antônio de Gouveia Jr., idealizadores do projeto; Adhemar Oliveira, que mais tarde criaria o Cineclube Estação Botafogo no Rio de Janeiro e, hoje, está à frente do Espaço Itaú de Cinema; Felipe Macedo, uma das maiores autoridades em cineclubismo, fundador do Cineclube Oscarito, que ocupou o antigo espaço do Cine Bijou, na Praça Roosevelt. E tantos outros: Arnaldo Vuolo, Adalberto Vieira…

Também tive o privilégio de conhecer cineastas como João Batista de Andrade, Denoy de Oliveira e Ivo Branco.

Trabalhava no período da noite, mas, algum tempo depois, fui convidado a assumir o turno diurno, cuidando da administração. Para me substituir no horário noturno, contrataram um jovem cineasta que havia acabado de ganhar um prêmio em Gramado por uma animação em Super 8. Um nome que, na época, ainda era pouco conhecido, mas que hoje dispensa apresentações: Carlos Imperio Hamburger, mais conhecido como Cao Hamburger – criador de sucessos como Castelo Rá-Tim-Bum, Xingu e O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, filme que representou o Brasil no Oscar de 2008.

Só São Paulo possibilita esses encontros e histórias.

Eu poderia contar sobre quando vi Renato Braz começando sua linda trajetória no Café Paris, ou sobre Mônica Salmaso, mas essa é uma história para outro momento. Hoje, o tema é o cinema.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Ednaldo José Silva de Camargo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade você visita agora o meu blog miltonjung.com.br ou vai lá no Spotify e coloca entre os seus favoritos o podcast do Conte Sua História de São Paulo. 

Conte Sua História de São Paulo: meu espelho na estação Pinheiros

Por Thays Bertin Rodrigues

Ouvinte da CBN

Photo by Andre Moura on Pexels.com

No Conte Sua História de São Paulo, o texto da ouvinte da CBN Thays Bertin Rodrigues:

Minhas primeiras lembranças de São Paulo são da infância. Eu sabia que havíamos chegado à capital pelo obelisco imponente que nos recebia logo na entrada de quem vinha da Rodovia dos Bandeirantes — e pelo perfume nem tão agradável do Rio Pinheiros.

Observava a cidade através da janela do Escort branco da família, a caminho do litoral sul. Sentia uma mistura de ansiedade e euforia, uma energia que me arrepiava. Naquele momento, sem saber interpretar, já percebia uma conexão com a cidade, uma vibração dessa metrópole imensa — tão gigantesca quanto os sonhos de uma menina de oito anos, sem imaginar que, um dia, aquele cenário se tornaria seu destino.

Foi somente em 2018, na fase dos “de repente 30”, que me tornei residente da cidade. Nos anos seguintes, São Paulo me presenteou com muito: amigos, cultura, diversidade e até um Rio Pinheiros com um novo perfume, que passou a me acompanhar diariamente no caminho para o trabalho.

Depois, veio a pandemia, um período de restrições e isolamento. E, quando menos esperava, São Paulo me trouxe um marido de origem nordestina e, em seguida, o privilégio de gerar no meu ventre um futuro paulistano.

Hoje, às 18h, na Estação Pinheiros, enquanto faço a baldeação entre a Linha Amarela e a CPTM, olho para cima. Vejo os andares repletos de escadas rolantes, as pessoas indo e vindo, a cidade pulsando com sua funcionalidade, sua diversidade! Tudo aquilo me lembra um formigueiro — igual ao que vi no Planeta Inseto no último sábado, quando levei meu pequeno paulistano para conhecer.

É nessa grandiosidade da Estação Pinheiros que sinto, novamente, a mesma conexão e vibração que me arrepiavam quando era apenas uma menina do interior. É como um espelho: nessa São Paulo, reconheço quem eu sou. Amiga, diversa, funcional, alegre, forte e, ao mesmo tempo, doce. Grande!

E, nesse olhar ao espelho, me apaixono novamente. Pela minha vida. Por quem sou. Pela cidade que escolhi e que também me escolheu: São Paulo.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

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Conte Sua Historia de São Paulo: o cardápio japonês tipicamente paulistano do bar dos meus pais

Por Yukiko Yamaguchi Tame

Ouvinte da CBN

No Conte Sua História de São Paulo, o texto da ouvinte da CBN Yukiko Yamaguchi Tame:

Sou a quarta filha de seis filhos de Shigeru e Mitsuru Yamaguchi. Meus pais chegaram ao Brasil em junho de 1959, trazendo quatro filhos pequenos, poucos pertences na bagagem e, no coração, muitos sonhos.

Ao desembarcarem no porto de Santos, fomos enviados para uma fazenda nos arredores de Campinas. Morávamos em uma casa de barro com telhado de sapê.

Após um ano de trabalho árduo, meus pais conseguiram quitar as dívidas da viagem com o fazendeiro e se mudaram para Parelheiros e, depois, para Piraporinha, onde passaram a trabalhar também como feirantes, além da lavoura. Nessas localidades nasceram mais dois filhos.

Cinco anos depois de chegarem ao Brasil, um golpe de sorte – e uma colheita excepcional de tomates – permitiram que meus pais realizassem um grande sonho: mudar-se para São Paulo. Com o dinheiro conquistado, adquiriram um bar e restaurante no bairro do Ipiranga, mais precisamente na Rua Lima e Silva, 725. Foi ali que começaram, de fato, a se sentir em casa, com esperança de criar os filhos e garantir a eles uma educação digna.

Frequentamos a querida Escola Estadual Visconde de Itaúna, que na época era uma das melhores de São Paulo, com professores excelentes e dedicados.

As festas juninas eram um evento aguardado. A rua era fechada, e as mesas ficavam repletas de quitutes em frente às casas, com fogueiras e brincadeiras. Apesar da dificuldade com a língua, a comunicação nunca foi um problema – meus pais eram brincalhões, respeitados e queridos por todos. Quando chovia e os pedestres corriam para dentro do bar para se abrigar, meu pai logo brincava:

“Chuva lá fora, mas pinga aqui dentro!”

O cardápio do dia também chamava a atenção dos clientes, que se divertiam com a maneira peculiar como meu pai anunciava os pratos:

“MACARONADA E FURANGO FURITO, FEJON ADA, BIRADO PAURISUTA!”

O bar estava sempre cheio, e o que dava um sabor especial aos pratos era o tempero extra: aji no moto, sakê, shoyu e pitadas de gengibre.

Minha mãe, Dona Mitsuru, tornou-se uma figura querida no bairro. Como os fregueses não conseguiam guardar seu nome, passaram a chamá-la simplesmente de Mamãe. Assim, ela ganhou filhos de todas as idades, cores, estados e profissões.

Meu pai, apesar de ser uma excelente pessoa, gostava muito de beber. O problema é que geralmente era uma dose para o freguês e duas para ele. Não foram poucas as vezes em que isso causou confusão, e a polícia precisou ser chamada. Mas ele já era tão conhecido que os policiais brincavam:

“Seu Shigeru, vamos passar essa noite no hotel da delegacia.”

No dia seguinte, ele voltava sóbrio e tudo recomeçava.

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Conte Sua História de São Paulo: em Sampa tem altos picos

Por Renilson Durães

No Conte Sua História de São Paulo, a poesia do ouvinte da CBN Renilson Durães:

Sampa

Atrás do morro tem rampa,

Quando o mundo gira

Só para em Sampa;

Na incerteza do tempo

Na instabilidade do clima;

Zona norte, zona sul

A grana corre para baixo e para cima;

Em Sampa tem muito mais

Além de saúde e saudade;

Um sarau na paulista

Um axé na liberdade;

Em Sampa tem altos picos

Tem farol do Santander;

Vales profundos no Anhangabaú

Aventuras e folia logo ali na praça da sé.

Em Sampa há muitas surpresas

Encontros não marcados;

Cachaça, pastel e linguiça

Na miscelânea do mercado;

Sampa é de todo mundo

Acolhe, aceita, abraça

No choro ou na alegria;

Tem samba e poesia

Rock rola na galeria;

Em Sampa se aprende o riscado

Não se arrisca na contramão;

É só seguir o Eduardo, o Beto e o Zelão.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Renilson Durães é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade você visita agora o meu blog miltonjung.com.br ou vai lá no Spotify e coloca entre os seus favoritos o podcast do Conte Sua História de São Paulo. 

Conte Sua História de São Paulo: deleitaram-se lançando asfalto no meu leito

Por Expedito Peixoto

Ouvinte da CBN

Avenida e Rio Aricanduva, na zona leste de São Paulo: Foto Marcos Santos/Jornal da USP

No Conte Sua História de São Paulo, o ouvinte da CBN Expedito Peixoto da Paz faz poesia que tem como título ‘O Grito’ e inspiração o Aricanduva

Aricanduva 

Lento silencioso calmo sinuoso

Entre morros morrinhos igarapés 

Nasci lá na Leste. Éh!, sou majestoso

Natureza rodeia beija meus pés

Meu percurso é longo e grandioso 

Sereno límpido arborizado por ipês. 

Quanta vida!, que vida eu vivia

Animais peixes índios pássaros 

Se e me alimentavam noite e dia

E quando vinham temporais, não raros,

Ahh! como eu brincava ah! como eu sorria;

Papagaios sabiás piabas algas ágaros

Assim vivi infância e juventude 

Tempo correu e junto a maturidade

Enquanto sonhava ser plenitude

Dos humanos me faltou humanidade,

Ao encontrá-los me tornei cruel, rude

Roubaram-me o brio a serenidade.

Logo na 2′ curva me jogaram a ‘Choff, Ragueb’

Na 6′ curva um porre me cortaram na ‘Itaquera’

‘Jd.do Carmo, Sesc’! minh’água já não bebes

Caí no choro, roubaram-me o melhor amigo, ‘Rio das pedras’ 

Implantaram Aps, Igrejas e suas sedes

Quebraram meus mimos alegrias e  regras  

Deleitaram-se lançando asfalto no meu leito

Me cuspiram seus restos, sobras

Me injetaram prédios e seus efeitos

Jogaram-me no lodo à sombrias sombras

Hoje só transita esgoto no meu peito

De dor choro a invasão de suas obras 

Por nascer numa metrópole 

Meu destino é súbito, induzido 

Enquanto pensava ser prole

Nas Trilhas, Avenidas, Marginais; fui traído

Me encharco me encachaço quando chove

Sonhos e esperanças foram-me subtraído

Me assolaram desatolaram sem dó 

Ao avesso e travesso fui revirado

Sem amor, perdi a cor, vivo na dor

Quando chove piro, deságuo ira irado

Engulo animal, gente até automotor 

De agonia golfo vômito catarrado.

Violência!!?, Não nunca quis ser bravo 

Mas o desencanto surrou min’alma

Ao ver minha foz ‘Alberto Badra’

Meu único desejo, amigo, é correr feliz e calmo

Não! não me entrego a lutas que me trava

Meu grito é de alerta,

Quero vida, me socorre me acalma.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Expedito Peixoto é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade você visita agora o meu blog miltonjung.com.br ou vai lá no Spotify e coloca entre os seus favoritos o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: criei até um cordão carnavalesco

Por Fatel Barbosa

Ouvinte da CBN

Reporodução do Instagram @cordaodasamoxtradas

No Conte Sua História de São Paulo, o texto da ouvinte da CBN Fatel Barbosa:

Minha história com São Paulo começou ainda em Montes Claros, no norte de Minas Gerais, terra do saboroso pequi. Seu Ioiô, meu pai, vinha de trem trazendo engradados de galinhas vivas para vender no Mercadão. Eu, com seis anos, chorava, suplicando para que me trouxesse com ele para conhecer São Paulo.

Seu Ioiô me consolava dizendo: “O que você quer fazer em São Paulo, minha filha? São Paulo é o cê-u do mundo.” Desculpem o palavrão, mas era exatamente assim que ele falava.

O tempo passou, e, em 1972, fui trazida para ajudar a cuidar dos meus sobrinhos, filhos da minha irmã, que veio com o marido, torneiro mecânico, morar na Zona Leste. Minha felicidade durou pouco. A família resolveu retornar a Montes Claros logo em seguida. A revolta foi tanta que botei fogo nas poucas peças de roupa que tinha. De nada adiantou, já que eu era menor de idade. Tive que voltar com eles.

De volta a Montes Claros, comecei a cantar no grêmio estudantil do Colégio São José, onde estudava, além de me apresentar em bandas de baile, grupos regionais e festivais da região. Em 1980, ganhei todos os prêmios no festival de música de Sete Lagoas.

Tornei-me cantora profissional, mas seguia focada no meu maior sonho: vir para São Paulo. Em 1989, prestes a completar 30 anos, finalmente cheguei à capital paulista, no dia 9 de março, pela manhã.

A rodoviária ainda era no centro da cidade. Chovia muito. Fui acolhida pelo meu conterrâneo e padrinho artístico, Téo Azevedo, na Rua Conselheiro Nébias.

De lá para cá, já se passaram 35 anos. Hoje, aos 66, sigo vivendo na minha adorada Sampa.

Foram muitas lutas, mas sempre recompensadas pelo prazer de cantar e pelo apoio de tantos amigos e amigas que fiz ao longo desses anos. Canto forró tradicional, gravei alguns vinis e CDs, e participo ativamente dos movimentos culturais da cidade. Sou gestora do Ponto de Cultura Casa di Fatel, em Parelheiros, extremo sul da capital — um polo de ecoturismo onde moro e trabalho com diversos coletivos do território, trazendo cursos, eventos e colaborando com o desenvolvimento da cultura local. E, claro, sempre ligada na CBN.

Criei até um cordão carnavalesco para resgatar o carnaval tradicional. Chama-se Cordão das AmoXtradas, e, em 2025, realizaremos nosso sexto ano de cortejo pelo bairro.

Minha história com São Paulo é uma história de puro amor. Através do meu trabalho, busco a realização dos meus sonhos e dos sonhos de outras pessoas que, como eu, acreditam que a arte salva.

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Conte Sua História de São Paulo: sete dias intensos na cidade que deixou marcas

Por José Emilio Guedes Lages

Ouvinte da CBN

Photo by sergio souza on Pexels.com

No Conte Sua História de São Paulo, o ouvinte da CBN José Emílio Guedes Lages fala de uma viagem especial feita à capital paulista:

Minha primeira visita a São Paulo rendeu uma história interpretada brilhantemente aqui no Conte Sua História de São Paulo. Naquela ocasião, foi uma passagem rápida, sem tempo para conhecer a cidade. Mas ficou o desejo de voltar.

Anos depois, surgiu a chance de planejar uma viagem especial. Cheguei numa segunda-feira para assistir à gravação do programa Som Brasil, de Rolando Boldrin, onde um amigo meu se apresentaria. Foi um sucesso! Ele se tornaria um artista de renome nacional. Após a gravação, exploramos a noite paulistana, com sua garoa e energia vibrante.

No dia seguinte, fui ao Parque do Ibirapuera, onde passei o resto da semana caminhando, fazendo amizades e vivendo momentos memoráveis. À noite, fui ao Sesc Pompeia assistir a Tom Zé. Saímos inebriados por tamanho talento e competência. Depois, seguimos para a Bela Vista, onde provamos pizzas deliciosas e ouvimos histórias sobre Adoniran Barbosa, contadas por garçons que se tornaram amigos do compositor.

São Paulo, para mim, virou uma festa; assim como Paris foi para Hemingway.

Também visitei o MASP, na Avenida Paulista, durante uma exposição da pintora Djanira — uma coisa e outro mundo.

Antes de encerrar a viagem, realizei outro sonho de infância, de quando ouvia pelo radinho de pilha os lances apaixonantes e o barulho das torcidas: conhecer o estádio do Pacaembu. A imponente fachada me impressionou, mas, ao entrar, senti falta da icônica concha acústica, substituída pelo “tobogã”, que sempre aparecia nas páginas da Revista do Esporte, nossa bíblia futebolística.

Por fim, voltei para casa, ao contrário da vez anterior em vez de busão voltamos de asa dura. Lá de cima, admirei a grandiosidade da Pauliceia Desvairada, relembrando os sete dias intensos que vivi na cidade, onde até um sentimento nasceu e deixou marcas duradouras.

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José Emílio Guedes Lages é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo, que também está lá no Spotify. 

(os textos originais, enviados pelos ouvintes, são adaptados para leitura no rádio sem que se perca a essência da história)