Conte Sua História de SP: 50 anos de uma incrível amizade

Por Elisabete Parra

 

 

Meu nome é Elisabete Parra, nasci em Catanduva, em setembro de 1956. Sou filha única e convivi com meus pais, avós e tios naquela cidade até meus sete anos, quando então meus pais resolveram mudar-se para São Paulo, para que eu pudesse estudar, pois a escola mais próxima do sítio que morávamos ficava a uns 4 km de distância, e não havia condução.

 

Chegamos em São Paulo em novembro de 1963. Pra todos nós e principalmente pra mim foi um choque, em todos os sentidos. Vivia numa casa simples, sem luz elétrica, mas confortável, onde não havia cercas, vizinhos próximos, somente verde e animais.

 

Fomos para a Vila Industrial na Zona Leste, morar em um quarto e cozinha nos fundos da casa do meu avô materno, numa rua de terra com muitas casas e cheia de crianças. O que me consolava é que meu pai para me agradar comprou um rádio, onde conheci as músicas do Roberto Carlos, e o sucesso da época era Calhambeque.

 

 

No inicio de 1964 fui pra escola, Escola Estadual Prof.Maria da Gloria da Costa e Silva, primeira escola de alvenaria da região. A escola ficava um pouco distante, então as mães tinham que levar e buscar as crianças a pé, e nessas idas e vindas três mulheres se conheceram, ficaram amigas e então começaram a se revezar para buscar suas filhas, entre elas minha mãe: D.Ermelinda; a D.Carmen, mãe da Rosa; e Roseli e a D.Enedina, mãe da Lala, Nice e Edna.

 

As crianças ficaram muito amigas, e os pais também. Frequentávamos as casas, comíamos juntas e conhecíamos toda a família. Brincávamos na rua, sem medo, conhecemos as primeiras paqueras, que também moravam no bairro, fazíamos bailinhos nas casas, íamos ao cinema, comprávamos nossas roupas e calçados na feira livre, participávamos das procissões da Igreja N.Sra de Fátima, no Bairro Sapopemba. Era tudo muito divertido, apesar de sermos muito pobres, não tínhamos noção disso, pois éramos muito felizes com o que tínhamos.
Essa amizade ficou tão forte, que já dura 50 anos. Desde aquela época passamos os Natais sempre juntos, pois consideramos essa a nossa grande família, família não de laços sanguineos, mas de laços fraternos, laços de amor.

 

Em setembro do ano passado, fizemos uma grande festa para comemorar meio século dessa amizade, com nossos filhos, que são amigos e se consideram primos.

 

Eu só tenho que agradecer a essa cidade que acolheu tão amorosamente aquela menina assustada, e me deu essa grande família de amor.

 


Para comemorar os 50 anos de amizade, foi produzido o vídeo que você assiste neste post. Delicie-se com a histórias das amigas eternas.

 

O Conte Sua História de São Paulo é sonorizado pelo Claudio Antonio. Você participa com textos enviados para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: Sampa City, minha cidade!

 

Por Fran Girão
 


 

 

Tem a igreja de Santa Cecília, onde fui batizado, batizei minha afilhada e fiz a primeira comunhão. Vi os Harlem Globetrotters, o Real Madrid, a seleção brasileira de futebol, de vôlei, de handebol.

 

 
Empolguei-me com o Cirque du Soleil e com a sinfônica da cidade no Teatro Municipal. 
Frequentei trupes de teatro em Pinheiros. Matei uma tarde no Ibira e outra no Museu da Língua Portuguesa.

 

 
Cruzei a Ipiranga e a avenida São João – e pude ver que, sim, alguma coisa acontece.
No alto do edifício do Banespa, colhi uma fruta no pomar e olhei para o fim do mundo.

 

 
Comprei um quimono na Liberdade, um narguilé no Bom Retiro e muambei na Vinte e Cinco. Almocei numa churrascaria porteña e, depois de uma peça no Sergio Cardoso, fui a uma cantina no Bixiga. Tudo, tudo, no mesmo dia.
 

 

Juro: voltei para casa numa noite e vi duas meninas se beijando no metrô, sem causar espanto. Quando saí da estação, vi um piano (!) deixado no meio da praça, com um cartaz convidativo: “Toque-me”. Alguns passos adiante, uma jovem vestida de branco, olhos fechados e braços abertos, segurando uma vela. Entre os três acontecimentos, menos de dez minutos.
 

 

Um momento marcante da minha vida, em algum lugar especial de São Paulo?
 

 

Ôrra, meu.
 

 


Fran Girão é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você participa com textos enviados para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: Meu pai, seu Geremias, o mecânico dos multiplus instrumentos

 

Por José Geremias Caetano

 

 

Corria a década de l940 e chegava a cidade de São Paulo, vindo da pequena Santa Lúcia na região de Araraquara, o senhor Geremias Caetano.

 

Como tantos, ele trazia na bagagem, sonhos, ilusões e o que mais coubesse. A “Terra da Garoa” logo mostrava a esse homem simples, que a vida por aqui não seria simples, mas ele estava disposto a mostrar a que veio e lutar era com ele mesmo , pois para quem vendia pamonha pelas ruas de São Carlos,na infância,(0 slogam era “olha a pamonha quente, quem não come fica doente” e nem pensar em trabalho de exploração infantil) cidade pela qual ele passou antes de se mudar em definitivo para São Paulo, a luta era só um item da vida e do dia a dia. Faço a ressalva que as pamonhas eram feitas pela minha avó, dona Benta. Consta que minha avó, dona Benta, chegou a enfrentar até uma pequena onça, com a pequena espingarda confiada a ela pelo meu avô Benedito. Por falar na família, não posso me esquecer da avó Rosalina, mãe de dona Yolanda, minha mãe. . .mulheres de fibra e de muito valor!

 

Voltando ao nosso personagem principal, já deu para percebeu que ele se casou, no inicio da década de 50, com dona Yolanda, minha mãe.

 

Se a vida já era difícil, os anos 50 se mostram bastante duros e nessa época, nosso personagem já começava a ao título fazer lastro, ao titulo acima, pois ele já trabalhava como mecânico em duas oficinas, na Secretaria da Educação de São Paulo e em uma transportadora que tinha por nome Nova União Portuguesa. Tudo isso durante o dia, pois a noite, meu Pai tocava seu saxofone e também a clarineta, vez por outra arranhava também o violão, nos bailes populares da época conhecidos como “gafieiras”. Imaginem vocês que meu Pai chegou a fazer parte de uma famosa orquestra da época, conhecida como Orquestra do Bem(um maestro muito popular nessa época em que era muito comum se copiar as “big bands ” americanas.). Papai chegou até a tocar com o conhecido maestro Erlon Chaves(sem querer ser maldoso, cada vez que o carro do maestro dava algum probleminha, lá vinha ele atrás de papai, não pelo seu lado musical, mas pelo seu lado mecânico!).Dinheiro ?! Só para se ter uma idéia, eram comuns os “bate bocas” no carnaval, pois mamãe queria papai em casa nessa época e ele afirmava que o carnaval “era o l3º do músico” e lá ia ele “pelos bailes da vida”ganhar o “seu 13º” ! São Carlos, Rio Claro, Araraquara e até outros estados, eram seus destinos frequentes na época do carnaval. Aliás esse bailes eram “empresariados” pelo tio João Francisco, que era de São Carlos e não se deixou seduzir pelo sonho da vinda a São Paulo Capital, e olhem, a qualidade de vida do tio João Francisco, foi bem melhor do que a de papai, que veio para São Paulo Capital, mas isso é uma outra história que vamos deixar para outra ocasião.

 

E a vida seguia seu curso, Na época do material escolar, tanto meus quanto de meus irmãos, papai se desdobrava nos seus múltiplos empregos e lá vinha ele com o dinheiro para comprarmos o material escolar!

 

As queixas de mamãe, tomavam vulto, mas papai não ficava em casa, tocando nos bailes, nem no Natal, Ano Novo ou aniversários tanto nossos como de casamento ! Nós não entendiamos que ele não poderia falta aos bailes, pois a concorrência era cada vez maior.

 

Mas, a vida e as tragédias não se desligam umas das outras. . .em um dos salões que papai tocava na época, o “28”, houve um grande incêndio em que dezenas de pessoas perderam a vida !

 

A romaria de pessoas em casa não cessava, , , elas vinham prestar solidariedade e saber notícias, já que alguns dos mortos eram músicos da orquestra !

 

Mas. . . As pessoas eram recebidas por um sorridente Geremias Caetano, que resolveu nesse dia, atender aos reclamos de dona Yolanda, não indo trabalhar e ficando com a família !

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, logo após às 10 e meia da manhã, no programa CBN SP. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode participar com textos enviados ao e-mail milton@cbn.com.br ou agendando entrevista no Museu da Pessoa no e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net

Conte Sua História de SP: o passeio de mãos dadas com o meu pai até o Cambuci

 


Por Roberto Furtner Caldeira

 

 

A brisa suave anunciava a chegada do outono na cidade, varrendo ladeira abaixo as folhas das árvores prestes a adormecer. O toc-toc dos sapatos apressados atravessando a rua de paralelepípedos era o prenúncio de mais um entardecer.

 

Seria mais um final de dia normal naquela cidade que via seu sonho de virar metrópole se aproximar a passos largos. Mas não para mim. Então aos 6 anos de idade, as terças feiras eram especiais. O dia da semana em que voltava a pé com meu pai do centro da cidade até nossa casa no bairro do Cambuci.

 

Como fazia toda semana, ao final do expediente meu pai me apanhava na escola. Ele gostava de caminhar, hábito adquirido nos tempos em que tudo em São Paulo ficava à distância de uma caminhada, se muito uma viagem de bonde.
Segurando firme sua mão, olhando o mundo de baixo para cima, eu sentia um misto de temor e excitação. Aquela caminhada de quarenta minutos era repleta de estímulos, de aventuras.

 

De um lado o ronco dos carros nacionais em meio aos antigos e bojudos carros americanos que ainda circulavam, brilhantes, imponentes. De outro lado o bonde alaranjado, com aposentadoria já anunciada, apinhado de pessoas em busca de um lugar em seus assentos de madeira gasta. Suas rodas emitindo um guincho estridente em função do atrito contra os trilhos de metal.

 

A medida em que nos afastávamos da praça da Sé em direção à Baixada do Glicério, os prédios mais altos ficavam para trás e surgiam restaurantes, bares e luminosos de neon. Uma profusão de cheiros, sons, vozes e risadas.
Me divertia especialmente na frente dos bares que naquela época jogavam as tampinhas de garrafa na calçada. Tampinhas de refrigerante, de cerveja e de pinga. Até ensaiei uma coleção, consumida meses depois pela corrosão do metal das tampinhas.

 

Como sempre, em meio a nossa animada conversa, parávamos no meio do caminho para comer pastel. O meu sempre de queijo, o de meu pai sempre de carne.

 

Após o lanche retomávamos nossa caminhada, cruzando pela baixada do Glicério, até chegarmos à outrora famosa rua do Lava Pés, conhecida pelo riacho e por ser a última parada dos viajantes para beber água e se refrescar antes de subir para o centro da cidade, nos tempos do império.

 

A caminhada então alcançava sua reta final ao cruzarmos o largo do Cambuci, já próximos de casa. Nasci e cresci no Cambuci. Embora nunca tivesse visto de perto uma árvore da espécie, cedo soube que o nome do bairro era homenagem a uma fruta outrora abundante na região.

 

Já no último quarteirão passávamos pelo açougue do seu Jairo, padaria do seu Milton, sapataria do seu Manuel e barbearia do Antônio. Naquela pequena comunidade todos nos conheciam pelo nome e acenavam ao nos verem passar.
Antes de entrarmos em casa meu pai refazia o ritual diário: colocar uma garrafa de vidro destinada ao leite, dentro da caixa de metal ao lado do portão, para que o padeiro pudesse trocar por uma garrafa cheia quando trouxesse o pão na madrugada seguinte. Leite que seria devidamente fervido para o café da manhã.

 

Ouvíamos o som dos cascos do cavalo trotando rua abaixo, puxando a carroça do catador de sucata. A brisa continuava, de tempos em tempos. O céu, mais escuro naquela época, mostrava um negrume salpicado de estrelas por todos os lados. Pedia para meu pai me apontar o cruzeiro do sul antes de entrarmos em casa onde minha mãe nos aguardava.

 

Como um herói que voltava da guerra cheio de estórias para contar, eu entrava em casa de peito estufado, dono do mundo, contando as novidades. Minha mãe ouvia tudo com atenção e o devido ar de surpresa. O único ponto de discórdia: ela achava que pastel não era um bom jantar para uma criança.

 

O tempo passou, eu me tornei adulto, a cidade se multiplicou.

 

Hoje já não consigo chegar aos lugares com uma caminhada apenas. O bonde se foi há tempos. Não mais consigo ver as estrelas com a mesma clareza, quanto mais apontar o cruzeiro do sul para meus filhos. Só quando viajamos para fora da cidade.

 

Tampinhas de garrafa de metal quase não existem mais. Não sabemos mais o nome dos vizinhos direito. Leite entregue em casa é coisa do passado. Açougue virou seção de supermercado.

 

Aquela cidade de indivíduos cedeu lugar a uma cidade de instituições. Para o bem, e para o mal.

 

Porém ainda caminho com meu pai, pela rua arborizada que ele escolheu para viver sua aposentadoria. Já aos 80 anos, hoje é a sua mão que busca apoio em meu braço. Aquela mesma mão que me guiou pela São Paulo de outros tempos.

 

Conversamos sobre causos da vida, enquanto a brisa suave anuncia a chegada de outro outono na cidade, varrendo ladeira abaixo as folhas das árvores prestes a adormecer.

 

Conte Sua História de SP: uma vida centenária na capital paulista

 

Por Jacob Pomerancblum

 

 

Tenho 100 anos. Nasci no dia 12 de setembro de 1914, numa pequena aldeia na Polônia. Assim que completei 13 anos, eu e meu irmão de 10 fomos colocados num navio, sozinhos, a caminho do Brasil. Cheguei em São Paulo em 1927 e cada vez que ando pelas ruas da cidade que me recebeu e onde construí minha vida lembro como era nos anos da minha juventude.

 

Vivi no Bom Retiro a maior parte da minha vida. Caminhei pelas ruas iluminadas por lampiões de gás e lembro que nas ruas laterais do Colégio Santa Inês sempre eram quebrados para manter as ruas escurinhas. Assisti a muitos filmes mudos nos “poleiros” dos cinemas de bairro.

 

Estive na inauguração do Estádio do Pacaembu e do Jóquei Clube. A avenida Pacaembu nem estava asfaltada ainda e ia-se ao Jóquei de bonde. Não havia nenhuma construção no entorno.

 

Depois que casei fui morar por uns anos no bairro do Tremembé. A estação do trem Maria Fumaça ficava no centro do bairro e muitas vezes a família ia para o centro de trem.

 

São 87 anos vividos nesta cidade que se tornou “minha cidade”, onde tive muitos e bons amigos com quem vivi muitas aventuras e alegrias e onde criei minha família. Só lamento que todos amigos tenham decidido “ir embora” e me deixaram sozinho com minhas lembranças, guardadas e vívidas na minha memória.

 

Jacob Pomerancblum é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva seu texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP – 461 anos: os lampiões de gás iluminavam os vagalumes da cidade

 

Por Alayde Toledo Silva Pinto

 

 

Ah, minha querida cidade São Paulo !

 

Nasci na Rua Conselheiro Furtado, 220 no ano de 1924 em uma família católica, apostólica, romana e paulista, maioria naquela época. Todas as passagens importantes da vida eram comemoradas em família: batizado, noivado e casamento, com a participação da vizinhança.

 

As festas do Natal não estavam focalizadas nas compras e presentes. A montagem do presépio natalino, por exemplo, era um acontecimento que unia a avó ao neto: todos os personagens eram arrumados nos mínimos detalhes em chão de alpiste. Na véspera da Natal, as crianças esperavam os adultos voltarem da Missa do Galo para aguardar seus presentes, que chegariam na madrugada pelas mãos do Papai Noel.

 

Brinquedos eram artesanais, feitos à mão, bastava a imaginação infantil para lhes dar vida…os meninos construíam caveiras na abóbora moranga recortada iluminada por velas, para causar susto nas meninas. Além disso, havia concurso de pipas que todos empinavam com talento. As pequenas, por sua vez, usavam uma espécie de argila para confeccionar panelinhas e bichinhos. Crianças brincavam nas ruas e nas escolas de jogos como barra-manteiga, cabra-cega, esconde-esconde, e de pular corda. Atividades simples e ingênuas que usavam apenas imaginação, sem gastos com dinheiro ou compras…

 

Lembro-me que ganhei uma boneca do meu tamanho em um aniversário da infância. Fui passear com a boneca e o tempo mudou, trazendo chuva forte. Minha bonecona foi se desmanchando e descobri então que ela era feita de papelão, não houve tempo para salvá-la na UTI…

 

Havia clara diferença entre os gêneros com uma escala gradativa para as mulheres: criança, menina, menina-moça e mocinha, para depois senhorita ou senhora. Os meninos até se tornarem moços, usavam bermudas, calça comprida era traje somente de reuniões solenes.

 

Nas cerimônias de batizados, além do padrinho e da madrinha, havia também a madrinha “de apresentação”, geralmente uma moça mais jovem que carregava o bebê até a pia batismal. E nos casamentos, havia a “madrinha de bandeja” para apresentar as alianças.

 

As casas sempre tinham árvores frutíferas nos quintais e nos jardins, na área da frente das moradias, as grades baixas eram coloridas por rosas trepadeiras e flores perfumadas, como madressilva, dama da noite e a rara e cobiçada “Flor de Baile” que só abria à meia-noite.

 

São Paulo era uma cidade romântica nas décadas de 40 e 50, até os anos 60, podemos dizer. Nas noites calmas e agradáveis, no clima fresco e com frequente garoa, nas ruas de paralelepípedo todos circulavam a pé ou de bonde, e era usual manter amizades com os vizinhos, sem rivalidade. No passeio noturno com meus pais e meus irmãos, apreciávamos assistir ao acendimento dos lampiões a gás para iluminação das ruas e ficávamos maravilhados com os lindos vagalumes, com suas asas em tons azuis e verdes, a colorir aquela atmosfera.

 

Ah, minha querida cidade que foi a terra da garoa !

 

Conte Sua História de SP – 461 anos: as peladas do Pateo do Collegio

 

Por Luis Silva

 

 

Em 1.971 trabalhava como office-boy numa companhia de seguros na Praça Padre Manoel da Nóbrega, perto da Praça da Sé, no centro de São Paulo. Na hora do almoço, após saborear a excelente refeição preparada com muito esmero por Dona Maria, que era a cozinheira da Cia. onde eu trabalhava, nós office-boys descíamos do vigésimo primeiro andar para dar umas voltas e apreciar o que existia de melhor  naquela época: ” A beleza da mulher paulistana”.

 

       Ficávamos sentados num banco existente no pátio do Colégio apreciando todas as meninas que passavam apressadas, vindo não sei de onde e indo para um lugar ignorado por nós, talvez algum banco, loja. Num determinado dia o Artur levou uma bola de futebol carcomida e propôs fazermos uma “pelada” no Pátio do Colégio, inicialmente ficamos um tanto apreensivos, eu os colegas achávamos que poderíamos ser presos, mas aceitamos e dividimos-nos em dois grupos e começamos a dar os primeiros chutes na velha bola de futebol.

 

        Com o passar dos dias, a “pelada” foi chamando atenção de outros office-boys que passavam apressadamente pelo pátio e pediam para participar, nem que fosse só um pouquinho e todos eram aceitos, a única restrição que fazíamos era que tinha que ser office-boy. Após algumas semanas surrando a bola, sempre no horário do almoço, nossa “pelada” já era conhecida por alguns transeuntes e uma pequena e ruidosa torcida composta de camelôs, engraxates, mendigos e alguns vagabundos que perambulavam pela redondeza que paravam para observar aquele bando de moleques sem juízo correndo em pleno centro da maior cidade da América Latina.

 

         Dois garotos tiravam “par ou ímpar” e começavam a escolher os “craques” que iriam compor o time, geralmente os garotos com porte físico avantajado tinham a preferência e rapidamente eram os primeiros a serem escolhidos, ficando os “miudinhos” e raquíticos para serem escolhidos no final ou aceitavam o ingrato convite para ser gandula.

 

         O jogo de futebol era muito divertido, pois tudo era improvisado, desde as traves que poderia ser dois pedaços de pedras subtraídas da construção do metrô da Praça da Sé, que estava sendo construido ou uma maleta 007 de algum office-boy ou mesmo um saco de roupas sujas de qualquer mendigo torcedor.

 

         Inicialmente não existia juiz, mas com o passar dos dias e aumentando o número de jogadores, aceitamos a sugestão de alguns torcedores e resolvemos “escalar” um juiz. O mais difícil era convencer um garoto office-boy a aceitar ser juiz,. cargo tão decisivo e perigoso, visto que qualquer desentendimento era fácil observar o juiz levando alguns cascudos, pegar sua maleta 007 e sair xingando a todos e ir embora; outro dia voltava, mas não aceitava ser juiz de jeito algum.

 

         Em toda partida de futebol, escolhe-se o melhor jogador em campo, na nossa “pelada” os torcedores escolhiam o pior jogador do Pátio e era dificílimo a escolha, pois um era pior que o outro, éramos verdadeiros “pernas de pau”, mas sempre existia o piorzinho de todos e não envergonho-me de ter sido escolhido algumas vezes, poucas vezes, mas…. Esse garoto que era escolhido ” o pior” era zombado em plena rua aos gritos por outros office-boys e mesmo dentro de algum banco da Rua XV de Novembro, enquanto aguardava pacientemente na quilométrica fila podia ouvir-se ” E aí pior!”. Quando tinha sido escolhido, nem ligava, fazia de conta que não era comigo, mas que dava um “odiozinho” dava.

 

          Aconteceu uma partida inesquecível em que participaram quarenta e quatro office-boys, vinte e dois de cada lado, acho que todos os office-boys dos escritórios da redondeza estavam lá naquele dia, tinha mais jogadores que torcedores no Pátio,infelizmente neste dia a partida foi interrompida por policiais de trânsito, que vendo aquele bando de garotos atrás de uma bola resolveram parar para observar o que estava acontecendo. Paralisaram nossa partida de futebol e tentamos explicar que era apenas uma “pelada”, que não estávamos prejudicando ninguém, a não ser algumas boladas que alguns transeuntes levavam, é claro, que a gente era trabalhador (office-boys), etc, etc. Não houve jeito, confiscaram nossa bola e pediram delicadamente para que voltássemos para nossos escritórios.

 

           Mas a gente não se  preocupava, pois no outro dia outro colega trazia outra bola e lá  estávamos nós correndo pra lá e pra cá novamente, mas sempre de olho nos policiais de trânsito.

 

            Estava chegando o final do ano e resolvemos promover um mini campeonato entre nós office-boys dos escritórios da região e decidimos que o mesmo seria realizado em pleno Pátio do Colégio e somente office-boys poderiam participar. Ficou estabelecido entre nós que o campeão ganharia um troféu, uma quantia em dinheiro e seria necessário os times ter camisetas próprias com o nome do escritório. Quando o campeonato começou era muito lindo ver a molecada abandonada dentro de lindas camisetas ostentando o nome do escritório, soubemos mais tarde que até alguns supervisores e gerentes de escritórios patrocimaram algumas camisetas, mas pediam para não serem identificados, pois poderiam ser demitidos pela ilegalidade do campeonato e pelo local ser um espaço público.

 

 
            Faltando alguns dias para o dia do Natal já estava definido os dois times finalistas,os jogos aconteceram em duas semanas, após várias partidas acirradas, no estilo “perdeu, cai fora”, o tradicional “mata-mata”.  Os dois times finalistas eram o nosso e de um outro escritório pertencente a um banco da rua Boa Vista.
golaço, mandando a bola na Rua General Carneiro, quase acertando a cabeça de um camelô. No segundo tempo novamente o Artur nos presenteou com outro gol maravilhoso. Resultado final, ganhamos  a partida por 2×0. Éramos Campeão! Abraços misturavam-se com gritos de: É Campeão!

 

            Atravessamos a Rua XV de Novembro aos gritos de “É Campeão!” e fomos comemorar nossa vitória comendo sanduiches de linguiça calabresa com guaraná na Rua do Tesouro. 

 

             Lá estava nosso troféu em cima do balcão de vidro e a cada mordida em que eu dava no meu sanduiche, olhava para o troféu com um orgulho danado em ter sido Campeão. Campeão da “pelada” do Pátio do Colégio.

 


Luis Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode participar, enviando seu texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP – 461 anos: quando os engenheiros chegaram para construir o Minhocão

 

Por Deborah Pereira

 

 

Em 1965, minha família se mudou para a Rua Albuquerque Lins no trecho entre a Praça Marechal Deodoro e a Brigadeiro Galvão. O bairro era ótimo, tranquilo e residencial. A rua era de paralelepípedos e andávamos de bicicleta com tranquilidade até a praça.

 

De repente começaram a aparecer uns engenheiros da prefeitura, mediam aqui, ali e só diziam que haveria uma obra enorme que mudaria o bairro. São Paulo não podia parar e isso, na época, era sinal de progresso, valorização dos imóveis e crescimento econômico. Nada foi perguntado ou informado aos moradores.

 

Depois dos engenheiros chegaram os trabalhadores e o minhocão começou a subir. E foi rápido. Se me lembro bem, coisa de um ano. Na véspera da inauguração deixaram as bicicletas curiosas subirem sob os olhares surpresos dos adultos.

 

Nossa que obra! Isso sim é um país que cresce!

 

E cresceu, e se tornou um problema para os vizinhos que moravam em frente e que aos poucos foram se mudando. A rua foi se deteriorando, meu pai foi transferido para uma cidade do interior e nós também partimos.

 

A vida me trouxe para morar na Rua Albuquerque Lins de novo, agora entre a Alameda Barros e a Rua Baronesa de Itú e daqui observo agora o destino que se quer dar ao elevado Presidente Costa e Silva.

 

Do meu modesto ponto de vista, ele deve ser demolido e o seu entorno recuperado. O sol deve voltar a iluminar a praça Marechal para que as crianças possam voltar a andar de bicicleta.
 

 

Deborah Pereira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode contar a sua história da nossa cidade, escrevendo para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo – 461 anos: da Serra Pelada ao Jardim Filhos da Terra

 

Por Clair Ramalho

 

 

Quando era pequena, ouvia dos velhos moradores algumas passagens históricas da conquista desse morro. No meu imaginário infantil, essas passagens eram tão fantásticas que me pareciam verdadeiras epopeias. Então, com o passar do tempo, eu quis recontar o que ouvi.

 

O pessoal daqui é gente simples! A riqueza está em nossa origem e em quem somos.

 

Construímos um patrimônio no alto do morro, carpindo o mato, limpando o terreno, martelando pregos em madeiras, colocando telhas de barro sobre a estrutura de paus, formando barracos.

 

Cada morador, ainda que não fosse muito escolarizado, escreveu a história desse lugar através da oralidade. Uma multiplicidade vozes sob uma arquitetura improvisada, no subir e descer das ladeiras, escadarias e becos.

 

Minha mãe também me contava, que o Jardim Filhos da Terra* (bairro localizado na região do Jaçanã, Zona Norte de São Paulo), a Serra Pelada, como ficou conhecido após a limpeza do mato, surgiu em um movimento de ocupação. Esse movimento foi iniciado pela igreja local na metade da década de 80, após a construção de um barraco à margem do córrego, abaixo da serra, para uma moça chamada Maria, vinda do nordeste com três filhos pequenos sem um lugar para moradia.

 

A notícia desse fato se espalhou rapidamente e trouxe inúmeras Marias e Josés, com histórias parecidas. Então, a igreja liderou a busca de terra e moradia.
Um terreno foi encontrado, estava desocupado e sem uso, no topo do morro íngreme e sinuoso. A estratégia de abrigar quase mil famílias foi desenha em cartolinas brancas que receberam grafites e riscos com a divisão do terreno para cada família. Tudo estava organizado.

 

Há 30 anos, no cair da noite, a ladeira foi tomada por um longo tapete de pessoas. Era quase cinco mil! Estavam com tochas, foices, martelos e enxadas as mãos. Mulheres grávidas e crianças à frente do grupo, formando um cordão, para repreender confronto policial, caso houvesse. O restante do grupo viera depois. Os policiais não usaram seus revólveres, e nem a multidão usou suas foices. A ocupação foi pacífica, com reza, com canto e com a lua testemunhando essa chegada.

 

A Pracinha, lugar que preserva o verde de nossa origem, foi o primeiro lugar a ser ocupado. Depois formaram ruas estreitas, ao lado, barracos de madeira ligeiramente construídos. Surgiu a periferia! A informalidade urbana na metrópole paulistana. Nasceram os “Filhos da Terra”.

 

O tempo trouxe a evolução de nossas casas. Agora tijolo, cimento e laje.

 

O bairro foi edificado e vive nas lembranças doces dos antigos moradores que viveram essa conquista. E, hoje, a história perpetua em suas vozes, nas vozes de seus filhos e nas de tantas outras crianças, que assim como eu cresceram e continuam contando, aqui, no alto do morro.

 

Clair Ramalho é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também a sua história da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo – 461 anos: meus passeios na Galeria do Rock e o cheiro do churrasquinho grego

 


Por Rogério Loro

 


 


Quando meus pais disseram que mudaríamos para a cidade de São Paulo, eu sabia que muita coisa seria diferente na minha vida. Imagina o que seria para um garoto de 14 anos que nasceu e viveu em uma cidade do interior, se mudar para a capital.

 


Nossa nova casa ficava em uma rua sem saída no bairro da Vila Formosa, bairro que tratei logo de explorar com minha bicicleta. Pedalando em meio ao trânsito local, pude conhecer lugares como o Mercado Municipal, o CERET, a Praça Sampaio Vidal e a Praça Silvio Romero.

 


Fui estudar na escola SENAI na Rua Anhaia no bairro do Bom Retiro e para chegar até lá utilizava o Metrô saindo da Estação Tatuapé, passando pela Sé até a Luz, mas na volta dava preferência ao trem que saia da Estação Brás, pois ele era mais barato que o Metrô e o dinheiro economizado, eu juntava com o que meu pai me dava, para comprar meus discos e camisetas na Galeria do Rock no centro, lugar que conheci com meus amigos de escola.

 


O centro de São Paulo era um paraíso para nós, lá ficavam além da Galeria, a maioria dos cinemas, lojas de troca de discos e livros e componentes eletrônicos. Ruas como a Barão de Itapetininga, 7 de Abril, Santa Ifigênia e a Praça da República, faziam parte do nosso roteiro particular em busca de novidades e claro, dos inesquecíveis carrinhos de Churrasco Grego com suco grátis, que alimentavam toda a molecada com um precinho bem camarada. As recomendações de meus pais eram sempre as mesmas: “-Tome cuidado nas ruas, pois é muito perigoso andar pela cidade e não fique comendo bobagens por aí”. Ah, nossos pais sempre exageram, a cidade nem era tão perigosa e os lanches e as esfihas da Rua Mauá nem eram tão porcaria assim. No Vale do Anhangabaú, eu e meu pai pegávamos os ônibus da CMTC em direção ao Morumbi para assistirmos aos clássicos do Timão, ou quando os jogos eram no Pacaembú íamos caminhando da Praça Marechal Deodoro até o estádio, e sempre tive a impressão que as caminhadas eram sempre mais curtas do que nossas conversas.

 


Passei minha adolescência e me tornei um adulto, casei e constitui família sempre aproveitando todas as inúmeras oportunidades que a cidade oferece, cheguei a retornar para Jundiaí minha são cidade natal, mas acabei voltando para São Paulo atraído pelas inevitáveis oportunidades profissionais que ela oferece.

 


Hoje sigo minha vida ainda pedalando pela cidade, em meio a um trânsito muito pior do que na década de 80, a Galeria do Rock hoje parece ter muito mais jovens fantasiados de roqueiros do que aquela molecada da época com correntes de xaxim das samambaias da mãe penduradas no cós da calça, o centro da cidade me parece mesmo perigoso como os meus pais diziam, para ir aos jogos do Corinthians não preciso mais ir ao Vale do Anhangabaú, apenas caminho até o Itaquerão que fica próximo da minha casa, agora sem a companhia e as conversas com meu pai. Os lanches de Churrasco Grego?

 


Alguns ainda estão pelo centro da cidade, me falta agora coragem para comê-los.

 


Rogério Loro é personagem do Conte Sua Historia de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também a sua história da nossa cidade, escreva para milton@cbn.com.br