Conte Sua História de SP: os valores de meu pai

 


Por Luciano Ribeiro
Ouvinte-internauta da Rádio CBN

 

 

Em 1986, éramos sócios do Clube Juventus, no Bairro da Mooca, zona leste, mas morávamos no Cangaíba, distrito da Penha, bem longe dali. Eu, no auge dos meus 14 anos, me sentia muito orgulhoso em poder ir desde a minha casa até ao clube sozinho. Pegava um ônibus na Avenida Cangaíba, descia na Penha, embarcava no Vila Limoeiro, próximo ao Cemitério. Ali seguia em uma longa viagem de quase hora e meia até descer na portaria do clube, e aproveitar o dia quente de férias nas piscinas.

 

Certo dia, ao sair do Clube, deparei-me com a seguinte situação: tinha uma nota de Cz$ 5.000,00 (na época a moeda era o cruzado) e o valor da passagem era de Cz$ 120,00. No ônibus havia uma placa que dizia: troco máximo Cz$ 1.000,00 (posso estar equivocado com os valores exatos). Bem, fui até uma Padaria na redondeza e comprei um “Freshen up”, um chiclete que tinha um recheio líquido refrescante. Cz$ 180,00. Ao fazer o troco, a mocinha do caixa cometeu um equívoco, em vez do troco de Cr$ 4.820,00, ela me entregou Cz$ 5.320,00, e pior, a minha nota de Cz$ 5.000,00 veio junto embaixo de todas. Mais que depressa dobrei aquela pequena fortuna, a coloquei no bolso e segui para minha casa.

 

No ônibus, fazia planos … estava praticamente rico, quantas fichas de fliperama eu iria comprar. Ah! Aquele tênis que eu pedi para a minha mãe, se eu quiser comprar vou poder também! Nossa! Eu estava extasiado. O fim de semana estava garantido: shopping, cinema, sanduíche naquela famosa lanchonete do M amarelo… Uau!! Ao chegar em casa, cometi o “pior erro da minha vida” (ao menos eu enxerguei assim por alguns bons anos). Coloquei a mão no bolso, saquei aquele monte de dinheiro e mostrei, orgulhosamente, ao meu pai: – “Pai, olha o que eu consegui. Estou rico!”. Meu pai, com o semblante sempre sereno fechou a cara, e um pesar imenso tomou conta do rosto dele. O tom grave da voz dizia tudo: – “Onde você conseguiu este dinheiro?”. Expliquei, já não tão orgulho assim, a minha epopeia. Meu braço franzino sentiu a enorme pressão das mãos dele me levando até o carro. Já começava a anoitecer, deviam ser próximo das 7 da noite, estava calor, e nosso carro não tinha ar condicionado. Levamos cerca de uma hora e meia até chegar a padaria. Meu Pai fazia o costumeiro sermão (ele costumava gastar horas em uma conversa, que era pior que vinte surras). Durante todo o caminho, eu o ouvi dizer sobre o que era pegar uma coisa que não era minha, que ele nunca tinha me ensinado que isto era motivo de glória, que… ahhh… Porque eu não fiquei quieto??? Por que tive que mostrar a ele? Como fui burro…

 

Ao chegar a padaria encontramos um Sr. Grande, de cabelos brancos (ele era bem maior que meu pai). O homem apontava e falava alto para a moça, com olhos vermelhos de tanto chorar… Ela tinha uma barriga enorme, estava grávida… Meu pai interrompeu a conversa e ainda com aquela pressão no meu braço, disse que eu tinha algo para dizer… Entreguei a nota de Cz$ 5.000,00, e a de Cz$ 500,00. Com a voz embargada, pedi desculpas, e meu Pai emendou: – “O pior, é que ele percebeu o engano, pegou o dinheiro, e foi embora. Eu não ensinei isto a ele. Por isso está aqui, devolvendo.” A moça não agradeceu, não olhou na minha cara. O homem grande, agradeceu ao meu Pai, e lhe apertou a mão, que então lhe pediu que não punisse a funcionário pelo engano.

 

Demorou algum tempo para eu compreender perfeitamente aquilo tudo, e hoje devo meu caráter à forma como fui criado e educado por minha família. Com uma filha de sete anos, entendo de forma tão clara qual o legado desta, e de várias outras situações, em que meu pai me passou ao longo da minha infância e adolescência.

 

Valores… Não cabem nos bolsos.

 

Luciano Ribeiro (e o pai dele) foram personagens do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode contar outros capítulos da nossa cidade aqui na CBN: envie seu texto para milton@cbn.com.br. Ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Você vai lá, grava o depoimento e ainda ganha um DVD com suas memórias registradas. Se quiser outras histórias de São Paulo visite o meu blog, o Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP: as férias na Vila Prudente

 

Por Martha Catalunha

 

 

Por aqueles idos de 70, eu, uma criança que vivia em cidade pequena movimentada pela velocidade e ruído dos Gordinis e DKVs e passava as férias escolares na casa de tia Francisca e tio Germinal, na esplendorosa metrópole Paulistana. Ali, na Vila Prudente, lembro-me bem, meus olhinhos infantis dançavam e se iluminavam com os out-doors, as letras garrafais em lâmpadas piscando pela cidade, viadutos e semáforos lotados de carros, automóveis, caminhões, ônibus e Fuscas “envenenados”, ah! e a louca e tresloucada velocidade das pessoas caminhando pelas ruas, alamedas e avenidas.

 

Da casa de tia Francisca, subindo no telhado da cozinha, podia ver a estação de trem da Vila Prudente e a fábrica da Ford. Como era gostoso meu Deus, passava horas ali admirando a velocidade de São Paulo… e que velocidade…!

 

Sonhava morar nesta cidade, tomar o trem todos os dias quando entrasse no mercado de trabalho e passar por aquela roleta gradeada e muito grande (para o meu tamanho de menina), a qual eu observava tanto…

 

Muitas vezes, à meia-noite, antes que caíssemos nos braços de Morfeu, eu e meu primo pulávamos da cama para comer aqueles gostosos sanduíches enormes recheados com hambúrguer, salada, tomate, ovo e muita maionese que nosso primo Rude nos trazia de onde trabalhava. Guloseima que eu conhecia somente na cidade grande.

 

Foi também nos rodopios da “Paulicéia” de Mário de Andrade que dei meus primeiros passos numa lenta dança a dois, ao som de Elton John com sua “Goodbye Yellow Brick Road”, puxada pelo meu primo Gérson tão menino quanto eu.

 

Aos finais de semana sempre vinham nos visitar meus queridíssimos e modernos (para a época) primos Adhemar e Helena com sua filhinha Gisele. Ríamos muito, muito e muito, o Adhemar – com suas costeletas à Émerson Fittipaldi – só contava piada, e desopilávamos o fígado como num verdadeiro campeonato de gargalhadas.

 

Uma parte de meus sonhos infantis tornou-se realidade: foi aqui mesmo que principiei minha vida profissional, mas já a Vila Prudente não era a mesma, o viaduto, o que aconteceu mesmo com ele? Ih, o trem perdeu a graça e a estação foi desativada, a velocidade das pessoas misturou-se à minha e os sonhos coloridos da infância repousam inocentemente numa romagem de saudade…

 

Martha Catalunha é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade: envie seu texto para milton@cbn.com.br ou agente entrevista, em áudio e vídeo, no Museu da Pessoa pela e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net.

Conte Sua História de SP: eu, meu irmão e minhas amigas na cidade

 

Por Eloisa Pasquini
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

Nasci em São Paulo, em 1953, quando meus pais moravam à Rua Borges Lagoa no bairro de Vila Clementino. Naquela época, a cidade era bem diferente. Meu irmão e eu brincávamos na rua sem nenhum perigo. Havia pouquíssimo movimento de carros e nenhum problema de segurança. Pulávamos corda e amarelinha, jogávamos bola, e a vida era muito boa. Nos dias chuvosos, quando não podíamos sair de casa, meu irmão e eu ficávamos sentados de frente para a janela da sala e a brincadeira era contar os carros que passavam na rua…com certeza havia muito poucos carros nessa época. Lembro-me dos grandes táxis pretos. Todos carros importados, pois a única fábrica nacional era a da Volkswagen.

 

Quando tinha oito anos e meu irmão dez, mudamos para a Rua Manoel da Nóbrega a 400 metros da Avenida Paulista, e paralela a Av. Brigadeiro Luiz Antonio. Nessa época, a Paulista tinha casas residenciais enormes e muito bonitas com lindos jardins. Me lembro de passear na Paulista com meus pais. Era um passeio bonito onde admirávamos as casas, as árvores, as belezas da avenida. Nessa época a região ainda era considerada bairro residencial e o centro da cidade é o que hoje chamamos de centro velho. Na Paulista e na Brigadeiro passava bonde. Lembro-me muito bem como era bom andar de bonde. A região era tão calma que ainda podíamos brincar na rua sem nenhum problema. Meu irmão tinha uma turminha de amigos e eles desciam o ladeirão da Manoel da Nóbrega de carrinho de rolemã. Lá embaixo eles viravam na rua Tutóia, paravam, subiam à pé e desciam tudo de novo. E era pura diversão.

 

Eu também tinha minhas amiguinhas, mas como sempre fui muito moleca, um dia, pedi para andar de rolemã. Não me emprestaram de muito bom grado, mas lá fui eu. Como não tinha experiência, desci a ladeira à toda e quando cheguei na Tutóia não consegui virar, continuei em frente e só parei em frente ao quartel que tinha lá embaixo, bem longe, onde a rua já era de duas pistas. Claro que quando voltei ouvi de tudo … mas não me intimidei e continuei me divertindo. Meus pais só ficaram sabendo que eu andava de carrinho de rolemã quando eu já era adulta.

 

Acompanhei toda a mudança da Av. Paulista. Casas lindas sendo demolidas e prédios enormes construidos. Um vai e vem de caminhões entrando e saindo dos terrenos e de repente um lindo prédio surgia. Me lembro também quando a corrida de São Silvestre era à noite! Sempre na Paulista. Algumas vezes a assistimos ali mesmo, era uma enorme emoção.

 

Apesar de ser uma região residencial já havia alguns cinemas e outros foram surgindo com o tempo. Os cinemas eram na rua e não em shoppings como hoje. Nossa turminha de adolescentes se reunia e seguia a pé para os cinemas. Na volta, mesmo que fosse escuro, não havia perigo e andávamos sem medo de assaltos. Que tempo bom era esse!?

 

Me lembro também do primeiro shopping inaugurado em São Paulo. O Iguatemi na Av. Faria Lima. Se não me engano em 1966. Era uma grande novidade. Nessa época o chique era fazer compras na Rua Augusta.

 

Morei em São Paulo até 2003, quando mudei para Atibaia onde estou até hoje. Na época não foi fácil me acostumar numa cidade pequena, mas hoje gosto muito daqui. À vezes quando estou ouvindo a CBN e ouço a respeito dos congestionamentos de trânsito fico ainda feliz. Aliás, gosto de ouvir vocês e ficar por dentro de tudo que acontece nessa querida cidade onde passei 50 anos da minha vida.

 


Eloisa Pasquini é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode contar outros capítulos da nossa cidade aqui na CBN. Mande seu texto para milton@cbn.com.br. Ou melhor ainda: agende uma entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa: contesuahistoria@cbn.com.br. Você vai lá, grava seu depoimento e ainda recebe um DVD com suas memórias.

Conte Sua História de SP: O dia em que o Corinthians foi campeão

 

Por Suely A. Schraner
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Vai corinthians!

 

Era 1977 e o clima, uma ansiedade cinzenta. A alegria em preto e branco. A realidade em tecnicolor.

 

Luis Pinguinha, faltou ao trabalho para ficar picando papel. O Dario fez um balão enorme em preto e branco. O Muniz saiu pra comprar ingressos pra todos.

 

Não entendia nada do que via. Medo da massa. Virgem de estádio. De concreto o filhinho de seis anos, louquinho pelo Corinthians. Ingresso na numerada, que seguro morreu de velho. As colegas de escritório quiseram ir. As comadres com seus pimpolhos corintianos, também.

 

Entrar no Estádio do Morumbi até que foi fácil. Coração disparado. Como sair daqui no final? Em volta só emoção. Multidão cadenciada entoava: filhos da puta, filhos da puta. Eram guardas que entravam com seus cães policiais. Alinhavam-se em campo para dar mais segurança. Segurança? Engrossar esse coral. Catarse popular. Desabafos anônimos em resquícios de ditadura.

 

Os olhos dos circundantes a brilhar. Ovação ao plantel corintiano. A boca a salivar. Coração a saltitar. Entra a Ponte (Preta) pra enriquecer o repertório de nomes feios.

 

Começa o jogo. A Jurema gritava:Geraldão, minha paixão, Geraldão, minha paixão! Virou bordão.

 

Bem depois e era já, aos 36 minutos, Zé Maria bate uma falta pela direita. A bola percorre toda a pequena área e vai parar no pé de Vaguinho. De bico, ele chuta a bola no travessão do goleiro Carlos. Na volta ela quica no chão e sobe para Wladimir cabecear. Em cima da linha, Oscar também de cabeça, salva. No rebote, a bola sobra pro pé direito de Basílio. Ele faz o gol. Quebrou o jejum de 23 anos! Festa no Morumbi. No cordão de isolamento até os guardas chorando.A torcida invade. Faz mal não.

 

Esperar a vida toda pra sair do estádio. Ainda assim, massa comprimida. A numerada é pra poucos. A rampa de saída, pra todos. Neguinho segurava a bandeira no ombro.Enorme. No mastro de bambu, a cachaça já secara. Com a mão livre, batucava levemente nos traseiros de quem vinha à frente. A Jurema perdeu o radinho de pilha. Roubaram o guarda-chuva da Neuza.

 

Na rua lateral , o ônibus da torcida Ponte Preta. Se puseram a cantar: Joga pedra na Geni, joga bosta na Geni. O filho falou, vamos correr mãe? Melhor não, ela respondeu. Então vou tirar a camisa.Não demonstre medo, que é pior, filho. Uma pedra acertou o braço, outra maior nas costas. Lapidação bem agora? Uma viatura chegando. Ufa!
O resto foi o que vocês ouviram no rádio.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, logo após às 10 e meia da manhã, no CBN SP. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net.

Conte Sua História de SP: Itaquera, a capital do mundo

 

Por Daniel Sena Serafim
Ouvinte da rádio CBN

 

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Lembro-me como se fosse hoje, eu e minha família residíamos no bairro de Artur Alvim, em 1989 ainda criança por volta dos 7 anos caminhava de mãos dadas com minha mãe à beira da Av. Radial Leste próximo ao metrô Corinthians – Itaquera. Ela fanática por futebol, apontou para uma planície cheia de morros e mata irregular dizendo: “Olha filho, aqui um dia será construído o estádio do Corinthians, imagine como ficará grande e bonito”.
Ainda criança, tentava imaginar como seria este lugar, quando o estádio fosse construído, pequeno, porém com a imaginação fértil de uma criança imaginava um castelo, grande e bonito onde os jogos seriam realizados. Mas como a infância em uma periferia reserva particularidades adversas e estatísticas, logo tive que abandonar a imaginação e interagir com a realidade. Aos 13 anos já começaria a trabalhar e a estudar, mas o gosto pelo esporte e o afeto pelo local onde morava continuaram, como também uma espécie de lenda urbana, ouvida e reproduzida pelos populares que insistiam em dizer: “É lá em Itaquera, do lado do metrô que vai ser construído o estádio”.

 

A mídia especulava e alimentava este imaginário ao passar das décadas, eu continuava a me lembrar do que minha mãe havia dito a mim quando criança. Entre tantos encontros e desencontros da realidade de uma periferia, um belo dia, leio no jornal sobre a candidatura do Brasil para sede da Copa do Mundo de Futebol da FIFA de 2014 e a possibilidade da construção de um estádio em Itaquera para o Sport Clube Corinthians Paulista, sendo o palco do jogo de abertura da Copa do Mundo e me pergunto com um sorriso travado no canto na boca: “Será?”.

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Conte Sua História de SP: levei meu pai pela primeira vez ao estádio

 

Por Clarindo Oliveira

 

 

Ouça aqui a história do ouvinte Clarindo Oliveira que foi ao ar no Conte Sua História de São Paulo

 

Como tantos outros meninos, lá pelos meus 7 ou 8 anos, escolhi o time que iria torcer pelo resto da minha vida. Por influência do meu pai e do meu irmão, decidi ser palmeirense. Decisão fácil. No começo dos anos 70, o time era fantástico! Era a famosa Academia. O Verdão ganhava tudo: Campeonato Paulista, Brasileiro, torneios internacionais. Enquanto isso, o nosso rival amargava quase 20 anos sem nenhum título.

 

Minha estreia como torcedor num estádio foi em 1977 no Morumbi. Era um torneio chamado Taça Governador de São Paulo. Foram dois jogos numa noite só: “Ex-Time da Marginal sem número” versus “Time da Vila” e Palmeiras versus Atlético de Madrid. Nosso time tinha Leão, Jorge Mendonça, Edu. E Ademir da Guia, é claro. Muitos diziam que ele era lento, ultrapassado. Pura dor de cotovelo. Ele estava sempre onde precisava estar. Seus passes eram precisos. Dava ritmo ao time. Um verdadeiro maestro! Do time espanhol, eu só conhecia um “tal” de Luís Pereira. O placar foi 1 x 1 e depois perdemos nos pênaltis. Na rodada seguinte, os espanhóis se sagraram campeões.

 

Além de admirar o Divino, muita coisa me encantava. A começar pelo fato de que 3 grandes torcidas dividiam pacificamente o mesmo espaço num Morumbi lotado. Todos sentados lado a lado. Diziam que havia mais de 100.000 pessoas naquela noite. Num dado momento, começou um coro lá do outro lado do estádio e eu aderi na hora: “Ôôôôôôô, Ôôôôôôô”. Dizem que a torcida “daquele time” trouxe um leitão pintado de verde e o lançou arquibancada abaixo. Isso eu não vi mas, na verdade, o coro era “Porcoooo, Porcoooo”!

 

Mal sabia que eu e toda a nação alviverde seríamos atormentados por aquele apelido por muitos anos… Até que, num lance de mestre, a nossa torcida decidiu adotar o simpático animal como um de seus mascotes.

 

Passemos a Janeiro de 2007. Meu pai, já com mais de 80 anos, passou o fim de semana comigo. Ao levá-lo para casa, ele me disse que não estava reconhecendo o caminho de volta. Foi quando parei na Avenida Sumaré e peguei sua camisa do Palmeiras e disse: “Pai, estamos indo ao Parque Antarctica para ver um jogo”.

 

Ele, que nunca havia entrado um estádio, balbuciou umas poucas palavras, dizendo que já estava velho e que o joelho não aguentaria subir as arquibancadas. Que nada! Ele cantou, xingou e vibrou muito quando o Verdão de Marcos, Edmundo e Valdivia marcou o único gol da partida contra o Santo André.

 

Guardo aquele domingo com muito carinho no coração. Pelos poucos anos que ainda esteve conosco, meu pai sempre falava com muito orgulho que seu filho o levou para assistir uma partida de futebol. Eu via em seus olhos a alegria de um sonho realizado. Tenho certeza que ele via nos meus o sentimento de missão cumprida.

 

Clarindo Oliveira foi o personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Participe deste programa enviando textos para mundocorporativo@cbn.com.br ou agende entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.com.

Conte Sua História de SP: assustada com o barulho dos aviões, em Congonhas

 

Por Maxionilda Schiavinatto Gubolin
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Com muita alegria escrevo essas linhas pra contar um pouco da minha história, da minha vida na grande cidade de São Paulo. Eu era menina, tinha 11 anos de idade. Era de Jales no interior, e vim para São Paulo trabalhar como babá na casa da Dona Ivone e do Dr. Amaury, olhando o pequeno Fernando, na época com oito meses. Morávamos em uma casa com sua irmã Zoraide e seu esposo Dr Velozo, diretor do Hospital Osvaldo Cruz, e os filhos deles, Maria Angélica e José Roberto. Essa casa era próxima ao aeroporto de Congonhas em frente a um quarteirão da Aeronáutica, onde, lembro bem, nós pegávamos água. A Aeronáutica continua lá, mas em frente ao Shopping Ibirapuera. Nas férias, os filhos desses doutores iam para nossa casa no interior para brincar, mesmo sendo uma casa de pau à pique era muito divertido. Aqueles senhores gostavam muito de nós e sempre pediam aos meus pais que deixassem eu morar na capital para estudar, mas retornei para Jales.

 

Outra coisa que ficou marcada em mim foi o 25 de janeiro de 1954. São Paulo fazia 400 anos. A Dona Ivone sentou ao meu lado e disse: “Maxionilda, hoje São Paulo faz 400 anos estamos todos aqui, mas quando fizer 450 anos posso não estar mais, mas você estará para lembrar esse dia”. Lembro-me de ir à igreja de Moema, ao circo Arrelia, de ver a Angela Maria cantando na televisão que tinha acabado de ser lançada, das idas ao parque do Ibirapuera e de andar de bonde. Foi uma época maravilhosa o tempo da garoa. Lembro-me de ter visto o sol raras vezes em três meses que fiquei aqui. Ah! Lembro também de acordar assustada com o barulho, mas logo eles me acudiam dizendo que era o avião decolando ou pousando. A iluminação das ruas era com lampião de gás.

 

Há algum tempo voltei àquele lugar e procurei notícias sobre Dona Ivone e o Dr. Amaury, mas os vizinhos me disseram que tinham mudado para o Brooklin. Gostaria muito de revê-los. Enquanto não consigo, aproveito para deixar um abraço para eles. Hoje, tenho 71 anos, três filhos e três netos, moro em Ferraz de Vasconcelos, na Grande São Paulo. Sempre conto aos meus netos essas gostosas aventuras, pois sou muito honrada por ter vivido histórias tão lindas na capital.

 

Maxionilda Schiavinatto Gubolin é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade, mande seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net.

Conte Sua História de SP: quando era um bosque o meu bairro

 

Por Silvio dos Santos
Ouvinte da rádio CBN

 

Imagem aérea da época em que o Bosque da Saúde era um bosque

 

Sou paulistano do Bosque da Saúde, bairro criado com a construção da linha de bonde nº30, no início do século 20. O bairro era realmente um bosque de araucárias que resistiram até a década de 1950. O Bosque, como era conhecido, começava na atual Praça da Árvore (estação da linha Norte-Sul do metrô), antiga primeira secção da linha de bonde Jabaquara. Descia pela Av. Bosque da Saúde, ruas Ibirarema e Guararema até o ponto final na Tiquatira. O Grupo Escola Princesa Isabel, imponente construção em tom rosa, da década de 1940, foi o berço do conhecimento de muitas gerações, posteriormente complementada pelo Instituto de Educação Conde José Vicente de Azevedo, conhecido apenas como Conde. Cortado pelo histórico  Riacho do Ipiranga  era reduto de numerosos campos de futebol de várzea, entre eles o Corintinhas do Bosque, o Cometa e o Granadeiros. Enfim, era um reduto aprazível dentro do mosaico dos bairros paulistanos.

 

Sílvio dos Santos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você também pode contar mais um capítulo da nossa cidade. Mande seu texto para milton@cbn.com.br ou marque entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistória@museudapessoa.net.

Conte Sua História de SP: nada como a Holanda para enfrentar ETs

 

 

Por Álvaro Donizeti de Carvalho
Ouvinte da rádio CBN

 

Acompanhe o texto completo enviado pelo ouvinte; e no arquivo a seguir, ouça o programa que foi ao ar no CBN São Paulo, sonorizado pelo Cláudio Antonio

 

 

Bairro da Penha, verão de 1976. Tempos áureos do Mercado Municipal que resistiu bravamente a um incêndio na década passada, da belíssima Basílica de Nossa Senhora da Penha, da Loja Eletroradiobraz que virou Extra, da papelaria “A Estudantil” na rua Dr. João Ribeiro, e da charmosa “Loja das Bagunças” na Av. Penha de França, atrás da Igrejinha do Largo do Rosário que, assim como a Estudantil, permanece imponente no endereço original.

 

Na “Loja das Bagunças”, meus pais compraram meu primeiro carrinho de brinquedo: o famoso Pé na tábua, um carrinho de fórmula 1 feito de plástico movido pelo impulso de ar que recebia de um tipo de fole que se encaixava na parte de trás do brinquedo. Bastava pisar no fole e o bicho saia em disparada. Na papelaria “A Estudantil” comprávamos o material escolar que não encontrávamos no bazarzinho da simpática dona Herminda que funcionava bem ao lado da escola: o Grupo Escolar Esther Frankel Sampaio onde eu estudava.

 

Os alunos das escolas públicas estaduais usavam avental branco com um mapa vermelho do estado de São Paulo estampado em um bolso gigante no lado esquerdo do peito. Naqueles tempos, a escola pública era de respeito e nós, alunos, ficávamos em pé quando os professores ou o diretor entravam na sala de aula.

 

Eu, na época com 11 anos, levava a típica vidinha de moleque dos anos 1970: futebol no campinho de terra batida, na travessinha da Rua Barra do Rio Grande; pião, bola de gude, taco, pipa nas férias de janeiro e julho, pega-pega e até queima (quando as meninas nos desafiavam). Depois do futebol, a gente corria para a vendinha do Seu João, palmeirense roxo, que ficava lá na Rua Goiapi para encher a pança de doce e refrigerante. Na vendinha o cliente comprava fiado e deixava marcado numa caderneta que o dono preenchia à mão mesmo. Nossos pais, lógico, só ficavam sabendo daquele montão de doces no fim do mês quando acertavam as contas com o Seu João. Era bronca para todo lado.

 

Vou narrar um caso que me lembra o Hospital da Penha, que durante décadas, foi a opção de tratamento mais tradicional da região. No início, apesar de particular, o hospital possuía convênio para atendimento público (anos 1970 e 1980). Durante os anos 1990 passou a atender exclusivamente como hospital particular. Fechou no início dos anos 2000 e reabriu administrado pelo Sociedade Beneficência Portuguesa. Eu e todos os meus irmãos nascemos lá. O prédio na rua Santo Afonso (ao lado da Igreja Velha da Penha) que durante tempos foi usado como consultório, não foi reaproveitado e hoje está para alugar. Pena, pois pela beleza arquitetônica deveria ser tombado. O outro prédio, na rua Arnaldo Vallardi Portilho ainda não foi totalmente reativado, mas conserva incrivelmente o mesmo aspecto de décadas atrás.

 

Eu preferia brincar na rua como a maioria dos moleques, mas também assistia à TV quando, nos horários em que minha mãe ia trabalhar, ficava encarregado, com o meu irmão, de tomar conta da casa e de nossa irmãzinha chorona e babona de apenas 3 anos de idade. Bem, garoto que se prezava não gostava de assistir à novela. Preferia Ultraman, Vingador do Espaço, Fantomas ou qualquer outra atração grotesca que tivesse monstros no enredo.

 

Foi naquele verão que, apesar do ótimo desempenho escolar, bom relacionamento com vizinhos, amigos e até de tocar na banda da escola (que a gente chamava carinhosamente de fanfarra), o garoto que vos escreve passou a ter certos “pesadelos noturnos” nos quais a Terra era invadida por seres extraterrestres os quais controlavam monstros gigantes que destruíam tudo que encontravam em seu caminho. Durante à noite, eu levantava e corria pela casa dormindo, gritando e acordando todo mundo para que fugissem dos tais alienígenas.

 

Depois de cortar sem resultados a TV, meus pais, já preocupados com a situação, resolveram procurar um médico. O bom doutor me examinou, fez um montão de perguntas para ver se eu regulava bem das ideias e, depois de muito coçar a cabeça, resolveu me encaminhar para um exame neurológico, que consistia na extração, por meio de seringa com agulha, de líquido da medula espinhal (dói só de lembrar isso!!!).

 

Naturalmente, meus pais tentaram me tranquilizar dizendo que era só uma “picadinha”. Eu, malandramente, logo quis aproveitar a oportunidade para fazer uma chantagenzinha: concordei em fazer o exame desde que eles me comprassem o jogo de futebol de botão da seleção da Holanda.

 

Lembro-me que o exame estava marcado para a manhã de um sábado e lá fomos nós para o hospital. No caminho, fiz minha mãe parar no pequeno bazar da japonesa que ficava no finzinho da Rua Penha de França ao lado do mercado da Saúde (início da Avenida Cangaíba) para mostrar o jogo de futebol de botão que eu queria ganhar.

 

Chegamos adiantados ao hospital e lá conhecemos uma jovem e simpática senhora que também aguardava o exame. Ela era loira, bonita, aparentava ter por volta de 40 anos e era muito comunicativa. Conversa vai, conversa vem e ninguém falava em outra coisa além do “bendito exame.”

 

Ela entraria antes de mim e havia outros pacientes que fariam o exame depois. Eu tinha saído de casa tranquilo mas aos poucos fui ficando desesperado com tanto burburinho:  “fulano não sentiu nada, mas ciclana quase morreu”,  “ouvi falar que a agulha é pequena!” ” Não, a agulha parece carga de caneta bic!”. Percebendo que eu estava de olhos arregalados e apavorado com os comentários dos outros pacientes, a jovem senhora e a minha mãe tentaram desconversar. “É muito tranquilo. Meu sobrinho que é pequenininho já fez e nem chorou” – disse a mulher com um sorriso nada convincente. A enfermeira então apareceu na sala e chamou a jovem senhora. Acompanhada pela irmã e pela enfermeira, ela rumou para o fim do corredor meio escuro onde ficava a salinha do médico.

 


Minha mãe então recomendou: – fica quietinho que vai acabar logo e a gente vai pra casa. No entanto, a mulher não saía mais da sala do médico e eu ali paralisado não conseguia tirar os olhos daquele corredor escuro. Depois de um tempão, vi que três vultos vinham caminhando. Era a jovem senhora, escorada de um lado pela irmã e do outro pela enfermeira. Ela que tinha pele clarinha estava vermelha como um pimentão maduro. Ao chegar perto de mim, fitou-me com os olhos ainda cheios de lágrimas e balbuciou, com a voz toda trêmula: – Não dói nada, não… O quê? Não tive dúvidas, aos berros fui me afastando e gritei para a o bairro inteiro da Penha ouvir: – Não quero, não vou fazer, eu vou embora! Naquele momento, minha mãe toda envergonhada, a enfermeira e outros pacientes tentavam me agarrar e me arrastar para a sala do médico, que, ao ouvir a gritaria saiu até o corredor para saber que “barraco” era aquele. Não teve jeito, Nem médico, nem enfermeira, nem os outros pacientes conseguiram me segurar. Como um foguete eu ganhei a rua e ainda ouvi o médico gritar algum tipo de elogio que eu não entendi, mas também não fiz a menor questão de saber o que era.

 


No caminho de volta, sozinho e ainda assustado, passei em frente ao pequeno bazar da japonesa para dar “adeus” ao presente que eu certamente não iria mais ganhar. Morávamos em um sobrado e eu, com medo de levar umas belas palmadas, tratei logo de subir no telhado e puxar a escada para não ser alcançado. Assim foi o sábado inteiro, sem café nem almoço, até que, à noite, meus pais finalmente me convenceram a descer prometendo que eu não seria punido. Tive apenas que escutar um longo sermão durante o jantar. Eles decidiriam, depois, se remarcariam, ou não, o exame médico. Nem foi preciso. Eu nunca mais tive pesadelos. O medo da tal agulha gigante que parecia “carga de caneta bic” espantou, para sempre, os seres espaciais.

 


Bem, a vida segue. Hoje, adulto, acho graça quando vejo as crianças assistindo aos seriados bobos de monstros na TV e sempre que passo pela Penha, lembro, com saudades, daquela travessura de meus tempos de moleque.

 

Conte Sua História de SP: o homem que me salvou no futebol

 


Por Marcelo Locci
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

O ano era 1973. Eu tinha dez anos. Meu pai, palmeirense de quatro costados, me levou ao meu primeiro clássico no antigo Parque Antarctica: Palmeiras versus Corinthians. No timaço do Palmeiras (a segunda Academia) jogavam Ademir da Guia, Dudu, Leivinha, Luis Pereira, Leão, Cesar Maluco, enfim uma verdadeira seleção. Conosco, foram primos de meu pai, corintianos. Minha mãe me fez uma bandeira enorme, verde e branca, e estava com uma camisa do Palmeiras, com o número oito às costas, número do Leivinha, meu ídolo maior. O Palmeiras terminou o primeiro tempo perdendo de 1 a 0. Durante o intervalo, recebi algumas bolinhas de papel, alguns copos e outros objetos, pois apesar de ser palmeirense, estava mais ou menos próximo da torcida do Corinthians. Nada de muito relevante.

 

Na volta do intervalo, o técnico do Palmeiras tirou o Cesar Maluco e colocou em campo o reserva, com uma estrela formidável, o finado Fedatto. Assim, logo o Palmeiras empatou o jogo, para nossa alegria e felicidade. Eis que, de repente, algum louco tirou um revólver no meio da torcida, e começou um corre-corre infernal. Meu pai, tentando me proteger, me levou até o beiral da arquibancada. O Parque Antarctica era conhecido como Jardim Suspenso, pois o campo ficava acima do nível do chão. Meu pai, apavorado com a situação, olhou para baixo e viu um homem enorme vestido com a camisa do Corinthians. Ele gritou para que o sujeito me segurasse e me jogou para baixo. Nessa hora eu imaginei que estava frito, pois eu com a camisa do Palmeiras nunca seria seguro por aquele homem com a camisa do Corinthians. Para minha surpresa, não só ele me segurou, como me colocou atrás dele, nitidamente me protegendo da bagunça. Quando olhei para os lados, vi ainda que ele estava protegendo mais umas três crianças do meu tamanho. Meu pai deve ter demorado ainda uns 20 minutos para chegar até onde estava, mas o sujeito corintiano me protegeu até meu pai conseguir chegar. Assim que ele chegou, agradeceu ao sujeito, e tentou dar uma gratificação a ele. Para minha surpresa maior ainda, ele recusou, dizendo que estava fazendo o trabalho de Deus. Depois disso, ainda tivemos que pular as grades da piscina, e sair pelo outro lado do estádio. Terminou tudo bem, mas eu nunca mais me esqueci daquele homem que salvou, literalmente, a minha vida.

 

Eu espero que ele esteja vivo, e que tenha curtido as conquistas de seu time. Ele merece.

 

Marcelo Locci é o personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode contar outros capítulos da nossa cidade aqui na CBN: envie seu texto para milton@cbn.com.br. Ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Você vai lá, grava o depoimento e ainda ganha um DVD com suas memórias registradas.