Conte Sua História de São Paulo: o curso de inglês e o churros do ambulante, em Santana

Por Miriam Marcolino dos Santos

Ouvinte da CBN

Foto de RDNE Stock project

No Conte Sua História de São Paulo, a ouvinte da CBN Miriam Marcolino dos Santos fala de uma decisão tomada pela mãe que transformou a sua vida:

Minha história na cidade de São Paulo se desenrola em muitas camadas, mas escolhi compartilhar uma experiência que marcou profundamente minha vida, graças a uma decisão tomada por minha mãe. Na época, eu tinha 11 anos e estudava na Escola Estadual Raquel Assis Barreiros, no bairro da Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte.

Certo dia, apareceram na minha sala algumas pessoas anunciando um curso gratuito de inglês. Os pais precisariam apenas arcar com o transporte para que seus filhos tivessem a oportunidade de se formar nos níveis básico e intermediário. Fiquei entusiasmada! Um dos meus três grandes sonhos estava diretamente ligado àquela oportunidade.

Minha mãe, ao perceber minha empolgação, não hesitou: com seu incentivo e esforço, lá fui eu!

O curso era oferecido pela escola de idiomas “Fox Idiomas”, localizada na Rua Alfredo Pujol, no bairro de Santana. Foi lá que, além de aprender inglês, descobri um dos prazeres gastronômicos que me acompanham até hoje: o churros, vendido por um ambulante próximo à igreja e ao metrô — na época, a única linha subterrânea da cidade.

Lembro-me nitidamente da paisagem, dos aromas e do movimento incessante de pessoas naquele lugar. Cada detalhe permanece vívido em minha memória.

A experiência não foi apenas uma aventura em outro bairro, longe de casa; foi também um marco na minha vida. Aqueles dias me ensinaram muito mais do que uma nova língua. Deram-me coragem, ampliaram meus horizontes e me prepararam para outros desafios que viriam.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Miriam Marcolino dos Santos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo, que você encontra lá no Spotify.

(os textos originais, enviados pelos ouvintes, são adaptados para leitura no rádio sem que se perca a essência da história)

Conte Sua História de São Paulo: comecei como office boy e passava pelas lojas da cidade

Por Marcos Antonio Afoloti

Ouvinte da CBN

No Conte Sua História de São Paulo, o ouvinte da CBN Marcos Antonio Afoloti, entre outras lembranças, destaca as lojas inovadoras da cidade: 

Nasci em 5 de setembro de 1952, no bairro Vila Munhoz, Vila Maria. Em 1959, comecei o curso primário nas Escolas Agrupadas de Vista Alegre, pertinho de casa. Ia a pé pelas ruas sem asfalto, mas com muito segura. Após quatro anos, para ingressar no ginasial, precisei fazer o exame de admissão, semelhante ao vestibular. Estudei na Escola Estadual José Maria Reys, referência em ensino público.

Em 1963, acompanhava minha mãe para um tratamento no Hospital Padre Bento, em Guarulhos, viajando no trem da Cantareira, que partia da estação Pauliceia, passando por Jaçanã e Vila Galvão. Entre 1964 e 1965, nas férias de julho, íamos a São Carlos no trem da Companhia Paulista de Estrada de Ferro, saindo da Estação da Luz. As paisagens rurais, com os laranjais de Limeira, são lembranças inesquecíveis.

De 1966 a 1968, nossa diversão era assistir, em casa, com os vizinhos à novela Redenção, da TV Excelsior, em um moderno aparelho Telefunken.

Em 1968, comecei a trabalhar como office boy, com registro em carteira profissional de menor, no edifício Rio Branco, na Barão de Itapetininga. Andava por todos os cantos entregando correspondências. Passava em frente a loja Pitter, a Mesbla e a Clipper, que inventou o Dia dos Namorados.

Já adulto, fui convocado a trabalhar como mesário e cheguei a presidente de mesa nas eleições da década de 70, quando os votos ainda eram em cédulas de papel. No fim do pleito, era minha responsabilidade entregar as urnas no Acre Clube, no Tucuruvi, encerrando mais um marco da cidadania paulistana.

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Marcos Antonio Afoloti é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

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Conte Sua História de São Paulo: … que ergue e destrói coisas belas

Por Sergio Sayeg

Ouvinte da CBN

Photo by C. Cagnin on Pexels.com

No Conte Sua História de São Paulo, o ouvinte da CBN Sérgio Sayeg lembra as transformações urbanas da nossa cidade: 

Minha mudança para o sobrado da Rua Tumiaru aconteceu em um dia inesquecível: 1º de abril de 1964, quando o regime militar foi instaurado no país. Eu tinha 11 anos e, enquanto os hinos marciais tocavam nas rádios, minha preocupação era organizar meus brinquedos na nova casa. A rua Tumiaru, com apenas quatro quadras, ficava entre a sede do Exército, o Ginásio do Ibirapuera e uma Avenida 23 de Maio ainda de terra. 

As transformações na região após a inauguração do corredor Norte-Sul foram impressionantes.

Nos anos 1960, o bairro Paraíso tinha uma paisagem bem diferente. A Rua Curitiba, hoje endereço de apartamentos luxuosos, era mal iluminada e de paralelepípedos. Abrigava campos de futebol varzeano e era refúgio para garotas de programa à noite. O ponto final de uma linha de ônibus da CMTC dividia espaço com terrenos abandonados, onde podiam ser encontradas rochas de todos os tipos que formavam minha coleção de pedras.

A Rua Tutoia era a única que comportava algum movimento com seu comércio prosaico. Nela tinha uma capela, hoje a Igreja do Santíssimo Sacramento, rodeada por plantações de flores que se estendiam até o leito da futura Avenida 23 de Maio. Nem tudo eram flores naquele endereço. A rua também abrigava o DOI-CODI, que trouxe má-fama para a via, especialmente após a morte de Vladimir Herzog. Já na Tomás Carvalhal, o futebol de várzea reunia moradores em manhãs de domingo, num clima de alegria e camaradagem.

Hoje, ao passar por essas ruas que marcaram minha infância, dá um aperto no coração ver como o progresso transformou o Paraíso, confirmando os versos de Caetano: “ergue e destrói coisas belas.”

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Sérgio Sayeg é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: fala mais que o Homem da Cobra

Por Samuel de Leonardo

Ouvinte da CBN

No Conte Sua História de São Paulo, o ouvinte da CBN Samuel de Leonardo destaca uma dessas figuras que fazem parte da cidade empreendedora … mesmo que esse empreendedorismo seja um tanto discutível:

“Fala mais que o homem da cobra.” Certamente você já ouviu essa expressão e, quem sabe, ficou curioso para entender sua origem. No início dos anos 1970, eu trabalhava como office boy e, entre uma tarefa e outra, aproveitava para explorar as atividades exóticas que a metrópole oferecia: de faquires a mulheres andando sobre cacos de vidro. Foi na Praça da Sé que deparei com o personagem dessa história. Vestindo um terno surrado e carregando uma maleta, ele garantia que ali dentro havia uma serpente gigantesca, capaz de engolir uma pessoa. Ao mesmo tempo, tagarelava as virtudes de um milagroso elixir embalado em pequenos frascos envoltos em papel celofane de tom amarelado: “Cura espinhela caída, tosse comprida e bucho virado!”

O discurso carismático encantava, e logo um sujeito alto, de cabelos claros encaracolados, e eufórico comprava cinco frascos. Outros curiosos seguiam seu exemplo, e o estoque desaparecia rapidamente. Depois de horas assistindo ao espetáculo, percebi que a cobra nunca aparecia.

Dois dias depois, voltei à praça, decidido a descobrir se ele realmente revelaria o animal. Cheguei a tempo de ver a jiboia saindo da maleta: três metros de comprimento, com dorso amarelo e manchas avermelhadas. Enquanto todos admiravam o réptil, o mesmo sujeito alto repetia o ritual: comprava mais frascos do elixir e se retirava. Outras pessoas seguiram o entusiasmo do primeiro comprador. E assim o homem da cobra, com sua mistura de marketing e mistério, tornou-se uma lenda paulistana.

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Samuel de Leonardo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog, miltonjung.com.br, e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

((os textos originais, enviados pelos ouvintes, são adaptados para leitura no rádio sem que se perca a essência da história))

Conte Sua História de São Paulo: do futebol de rua às telas do Cine Astral

Por Marcos Antônio Vasquez

Ouvinte da CBN

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No Conte Sua História de São Paulo, o ouvinte da CBN Marco Antônio Vasquez destaca a cidade da cultura, do esporte e das transformações:

Minha história começa em março de 1948, quando nasci. Meus pais haviam se mudado para uma casa na Rua Tobias Barreto, que reformada, ainda está lá. Após um ano na República da Mooca, vivi nos Campos Elíseos, em frente ao Liceu Coração de Jesus, onde cursei o Ginásio e o Científico.

Em 1950, nos mudamos para a Casa Verde, numa vilinha na Rua Zanzibar, que depois virou garagem de ônibus. Na época, minha mãe era atendida pelo Dr. César Castiglioni Júnior, figura proeminente no bairro. Foi fundador da sociedade de moradores e hoje dá nome a uma das ruas da região. 

Em 1952, fomos para a Caiubi, nas Perdizes. As ruas de terra e terrenos baldios eram cenários de jogos épicos, como Campevas “de cima” contra Campevas “de baixo”. Teve um 6 a 5 para a turma de cima com gol da vitória marcado por Camilo, carregado em triunfo pelos colegas, que ainda me emociona.

Nas Perdizes, conheci meu grande amigo Vicente no campo de várzea do Monteiro, onde hoje passa a Avenida Sumaré. Lembro também das tardes no Pacaembu e Morumbi, incluindo a inauguração do estádio ao lado de meu pai e avô.

Fã de cinema, assisti a sessões no Cine Astral, interrompidas pelas algazarras da turma da Padaria Paramount. Também recordo as idas à loja Sears, na Água Branca, com sua lanchonete única. Assim como do aroma inesquecível dos biscoitos da Petybon na Vila Romana, onde vivo desde 2001.

Parafraseando Arnaldo Jabor, que disse que o Brasil nunca mais seria campeão da Copa de 1950, esses momentos não voltarão, mas permanecem vivos em minha memória.

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Marco Antonio Vasquez é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

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Conte Sua História de São Paulo: minha transformação no solo fértil da cidade

Por Claudio Lobo

Ouvinte da CBN

No Conte Sua História de São Paulo, o ouvinte da CBN Claudio Lobo destaca a cidade que inspira a transformação:

O ano era 1980. Eu, engenheiro eletrônico recém-formado, chegava a São Paulo para trabalhar na Telesp, a companhia telefônica da época. Por dois anos, vivi entre o Rio de Janeiro, minha cidade natal, e São Paulo, hospedado no centro, perto do Mappin da Avenida São João. A loja, ficava aberta até a meia-noite. E era lá que eu circulava depois do jantar. Os vendedores, na camaradagem, até reservavam ofertas para mim! Para um carioca, o centro paulistano era uma experiência pitoresca.

Naqueles anos, as transformações tecnológicas eram rápidas, avassaladoras. Eu tinha de estudar constantemente. para me manter atualizado. A cada inovação, um recomeço. Era o início da revolução digital impulsionada por Bill Gates e Steve Jobs. 

Em 1984, já morando definitivamente em São Paulo, entendi que as transformações do país eram enormes e a capital paulista era a caixa de ressonância: a transição política, as esperanças e as decepções, além das constantes mudanças de moeda, que nos obrigavam a nos adaptar rapidamente.

Lembro-me de ter lido uma frase atribuída a Darwin: “Não é o mais forte que sobrevive, mas o que melhor se adapta.” De lá para cá, o mundo deu um cavalo de pau. Vivi essa teoria na prática, desbravando novos conhecimentos e enfrentando desafios. Mais fortes chegamos e sobrevivemos à Covid-19. 

Hoje, dedico-me integralmente à fotografia. Com o salto tecnológico da área, só consegui me reinventar graças à disciplina e à persistência adquiridas desde meus dias como engenheiro. São Paulo, com sua energia e oportunidades, foi o solo fértil onde cresci e me transformei.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Claudio Lobo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

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Conte Sua História de São Paulo: a dedicação de Betão, o bicicleteiro da Vila Cruzeiro

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No Conte Sua História de São Paulo o ouvinte da CBN Mario Curcio destaca um personagem do empreendedorismo que marca a nossa cidade:

Uma das figurinhas carimbadas aqui da Vila Cruzeiro, na zona sul da capital, era o bicicleteiro Betão. Ganho o apelido, certamente, por sua altura: mais de 1 metro e 85. 

Betão era conhecido não apenas pela habilidade, mas também pela dedicação. Sua bicicletaria ficava na Avenida João Carlos da Silva Borges, quase esquina com a Rua Bragança Paulista.

Com ele, não havia tempo ruim. Sábados, domingos ou feriados, lá estava, trocando pneus, ajustando câmbios, soldando quadros. Entre um conserto e outro, gostava de contar histórias. No passado, havia sido negociante de carros usados e representante da MZ, uma marca de motos da antiga Alemanha Oriental, nos anos 1980.

Betão já estava com mais de 70 anos e nos últimos 15 dedicou-se exclusivamente às bicicletas. Guardava relíquias em sua loja: quadros de Caloi 10, Caloi Ceci e até uma rara Peugeot 10, dos anos 1970. O coroa era duro de negociar. Não vendia nada por migalhas: “É sempre muito difícil mexer no estoque. Tem muita coisa empilhada. Tem de ser um bom dinheiro pra valer a pena” — é o que dizia.

Betão não trabalhava sozinho. Dava oportunidade a jovens aprendizes e até a moradores de rua da Vila Cruzeiro. 

Em março de 2023, ao passar na loja, fui surpreendido: Betão havia partido, vítima de um enfarte fulminante. Ficaram as boas lembranças de alguém que, com suas mãos incansáveis, ajudou tantas famílias a pedalarem pelas ciclovias da zona sul, construindo memórias que nunca serão esquecidas.

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Mario Curcio e o bicicleteiro Betão são personagens do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva sua história agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: saudade do parque, dos pássaros e do pastel da minha cidade

Por Silvio Henrique Martins

Ouvinte da CBN

No Conte Sua História de São Paulo, o ouvinte da CBN Silvio Henrique Martins destaca o gigantismo da nossa cidade:

Minha história de São Paulo, em 2025, é feita de boas saudades. Moro desde 2021 em Łódź, uma cidade no centro da Polônia, 10.500 quilômetros distante da querida São Paulo e 222 anos mais velha. Apesar de arborizada, Łódź não tem a marquise ou a fonte do Ibirapuera, nem as ladeiras da Brigadeiro e da Porto Geral.

Aqui, os terminais rodoviários são tranquilos, bem diferentes do movimento vibrante do Jabaquara, Barra Funda ou Tietê. O estádio local é bonito, mas não se compara ao Morumbi, onde vivi momentos inesquecíveis ao lado do meu pai, tricolor como eu. As feiras livres também são diferentes: frutas e flores dependem da estação, mas não há pastel, caldo de cana ou os famosos anúncios hilários das barracas paulistanas.

O trânsito local é leve; um engarrafamento de cinco minutos é considerado um transtorno. Sinto falta das marginais, onde 10 minutos para percorrer 7 quilômetros já era rotina. No inverno, o sol some e, com ele, os pássaros cantores. A saudade do canto do sabiá e do bem-te-vi é enorme, e hoje entendo a Canção do Exílio.

São Paulo me deu oportunidades, família e amigos, e sempre será minha cidade do coração. Mas Łódź me presenteou com uma netinha polaquinha, que embaralha minha geografia e me enche de esperança de que, no futuro, ela também tenha sua própria história para contar sobre São Paulo.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

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Conte Sua História de São Paulo: meu pai construiu um “bangalô” para a família

Por Sandra Regina de Almeida Torres
Ouvinte da CBN

No Conte Sua História de São Paulo, a ouvinte da CBN Sandra Regina Torres fala desta gente que chega, que cresce e constrói a cidade com criatividade e perseverança:

Em 1960, minha mãe e minhas duas irmãs — uma de 8 anos e a outra ainda bebê — embarcaram na cabine de um caminhão Chevrolet. O motorista, sensibilizado, decidiu não deixá-las na carroceria junto aos outros passageiros, que incluíam meu pai e as inúmeras malas e sacos de pano. O destino era a capital de São Paulo. Minha mãe, exausta, cuidava das crianças e trocava as fraldas de pano da bebê.

Meu pai, que me contou essa história, não se queixava das dificuldades do trajeto. Preferia lembrar com orgulho das mudanças que percebia: o tom de verde da vegetação ficava mais viçoso à medida que se aproximavam da capital. Ele, marceneiro quase analfabeto funcional, reconhecia as árvores e madeiras pelos nomes.

O segundo momento que ele contava com orgulho foi ao chegarem ao centro da cidade: minha irmã bebê, até então apática, ficou encantada com os luminosos dos prédios, os semáforos e os faróis dos carros. A família nordestina, formada por um pai branco e uma mãe negra, ficou por um bom tempo admirando aquele cenário deslumbrante.

Trinta anos depois, meu pai construiu sozinho nossa casa própria de 20 m², a que chamava de “bangalô”, entre Vila Sônia e Taboão da Serra, acessado por uma pinguela sobre o rio Pirajussara, sem asfalto e com água de um poço cavado por ele. 

São Paulo, para meu pai, era como uma grande feira livre: “Aqui tem tudo o que você imaginar; é só procurar”.  Ele se encantava com a criatividade e as inovações. Um dia, voltou do centro animado porque os motores dos ônibus haviam sido movidos da frente para a traseira dos veículos, oferecendo mais conforto aos passageiros. Mesmo com um salário mínimo, encontrava soluções engenhosas para economizar — como consertar lâmpadas de filamento ou improvisar papel higiênico com folhas de jornal.

Ele também tinha um olhar artístico. Emoldurava recortes de jornais que recebíamos dos vizinhos: imagens do parque Ibirapuera decoravam a sala, enquanto a catedral da Sé era fixada no quarto.

Nunca se arrependeu de ter migrado. Orgulhava-se da decisão e repetia que faria tudo de novo.  Sensível aos mais carentes, parafraseava com frequência a boa música de Eduardo Gudin e Roberto Riberti que ele nem conhecia:Se eu fosse deus, a vida bem que melhorava, se eu fosse deus, daria aos que não têm nada”

Por fim, encerro esse texto lembrando que São Paulo, uma cidade que acolheu minha família, também acolhe exemplos como o Padre Júlio Lancelotti. Parabéns, São Paulo. Feliz aniversário!

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Sandra Regina de Almeida Torres é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você também o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

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Conte Sua História de São Paulo: os inovadores ‘Gilda’, cidadãos paulistanos dos trilhos

Por Rubens Cano

Ouvinte da CBN

Foto do bonde Gilda reproduzida do site São Paulo Antiga

No Conte Sua História de São Paulo, o ouvinte da CBN Rubens Cano de Medeiros destaca a cidade inovadora desde os tempos dos bondes:

Nenhum bonde, do primeiro a rolar até o último agonizante, foi tão bonito, confortável e moderno quanto os setenta e cinco Huffliner Cars, vindos da Broadway nova-iorquina. em 1947, para uma incipiente CMTC. E que haveriam de tornar-se cidadãos paulistanos dos trilhos por vinte anos de árduo trabalho.

Em nossa pauliceia, havia quem passasse a referi-los como Centex – do inglês Central Exit, pela portal central de saída. Outra alcunha: “Gilda”. Uma homenagem à beleza da personagem de Rita Hayworth, sucesso do cinema da época. Moleque, ouvia chamarem de “GiRda”, com erre. Para mim, era o “bonde Avenida Angélica”, da linha 36. Lembro de seus assentos de elegante palhinha trançada e dispostos como os de ônibus, de dois lugares.

Nos trilhos da internet, remanescem imagens das décadas de 1950 e 1960, nos arredores do Paiçandu, a Broadway paulistana. Largas avenidas, carros em profusão, multidões de pessoas, feérica iluminação e, sobretudo, cinemas.

Diz a lenda que um Gilda estava justamente a passar onde ocorria aquela “cena de sangue num bar d’Avenida São João”. E Paulo Vanzolini, sentado juntinho à janela, teria visto tudo. Tudinho.

Rita Hayworth, a diva que inspirou o apelido do bonde, soube do episódio depois, em meio a jornais paulistanos traduzidos na banca da Ipiranga. E talvez, como dizem, tenha descido do “Gilda” discretamente no cine Metro, para ver a si mesma na tela grande.

“Gilda, a diva… que virou bonde.”

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Rubens Cano de Medeiros é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

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