Conte Sua História de SP: o Amarelinho da CET que ajudou meu filho nascer

 

Por Marcelo Parra Vallone
Ouvinte-internauta da CBN

 

O Amarelinho que nos ajudou no dia do nascimento de meu Filho.

 

Após três anos de casados, eu e minha esposa resolvemos ter um filho. E após nove meses de gestação, no dia 16 de fevereiro de 2001, minha esposa acordou com dores. Ligamos para o médico e ele disse que a hora havia chegado. Fomos às pressas para o hospital. Apressados mas cuidadosos. Morávamos em Mauá. Precavido, eu já havia feito todo o percurso até o hospital, o Santa Joana, na avenida Paulista, algumas vezes. A malinha do bebê já estava pronta a um mês. Acontece que meu filho resolveu dar sinais que ia nascer às sete da manhã de uma sexta-feira: hora do maior trânsito em São Paulo. Na avenida Vergueiro o tráfego parou de vez. Minha esposa sentindo aquela dor que só mulher sabe como é. Os carros não andavam. Eu buzinava com esperança de alguém abrir caminho. Não adiantava. Quando parecia não haver mais horizonte à minha frente, dei uma olhada no retrovisor e avistei um carro amarelinho, aqueles da CET. Não tive dúvidas, esperei a viatura ficar ao meu lado, desci o vidro e pedi ajuda ao senhor que estava na direção. Foi quando ele gritou: “vem atrás de mim, vou te ajudar”. Ligou a sirene, sai atrás dele e o caminho se abriu até o hospital. Coisa de dez minutos já estávamos na porta do Santa Joana. Agradeci ao moço da CET, abri a porta, peguei a malinha, dei entrada com minha esposa na maternidade e … Ufa, que sufoco! … meu filho nasceu lindo como o pai e a mãe e com muita saúde. Obrigado, Amarelinho da CET.

 

 

Marcelo Parra Vallone é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: agende entrevista em áudio e video no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Ou envie seu texto para milton@cbn.com.br. Ouça outras histórias de São Paulo no meu Blog, o Blog do Mílton Jung.

Conte Sua História de SP: A chácara do Seu João das Vacas

 

Por Marcos Falcon
Ouvinte-internauta da CBN

 


 
Se existir o paraíso ali foi o da minha infância.
 

 

Na época, que minha recordação consegue as primeiras lembranças, eu um garoto de apenas cinco anos e aquela chácara um mundaréu de terreno que não tinha mais fim, onde eu, se sozinho, poderia me perder com facilidade e nunca mais ser encontrado. Hoje lá existe uma pequena vila residencial de não mais que um alqueire e a grande maioria de seus moradores nem sabe que ali foi o paraíso.
 

 

Cortada de ponta a ponta por um córrego de águas cristalinas que serpenteava por entre os eucaliptos e as árvores frutíferas e que em determinados pontos ampliava-se formando singelos lagos. Nestes lagos a garotada e principalmente eu e o meu amigo Giba demos os nossos primeiros mergulhos e primeiras braçadas desengonçadas ao que dizíamos estar nadando.
 

 

Bater peneira ou na falta desta bater saco, uma forma de pesca em que dentro do riacho com a peneira ou com o saco de estopa, raspávamos o fundo do rio em direção as bordas e levantávamos nossos instrumentos até a flor d’água por debaixo das ramadas e delirávamos com os guarús, lambaris, pequenos carás e muitos girinos.
 

 

O pé de caqui chocolate, daqueles legítimos, que mesmo verdes por fora eram marrons por dentro. Ali ficava nossa torre de observação, pois do alto de seus galhos podíamos ver a chácara toda, inclusive a casa do Seu João, e ao menor sinal da saída do velho de dentro da casa nós já dávamos o alerta, pois ele andava sempre com uma espingarda velha carregada com sal e prometia atirar na garotada que roubava suas frutas.

 

Um dia ele nos pegou roubando, ou melhor, colhendo suas pêras sem autorização. Não deu tempo de fugir nem mesmo de descer da pereira. Seu João com a espingarda na mão ameaçando a mim e ao Clóvis. Ficamos tão assustados que deixamos cair todas as pêras e prometemos a ele que nunca mias iríamos apanhar suas frutas. Ele falou que contaria até cem para que nós descêssemos da árvore e sumíssemos de sua frente, pois a partir dos cem atiraria na gente. Provavelmente antes de ele contar até vinte já estávamos em casa.
 

 

Ali montei as minhas primeiras cabanas de índio armadas com varas de cana do reino e trançadas com folhas de taboa e dentro delas muita conversa de moleque e planos para grandes aventuras produzidas por nossa fértil e pura imaginação.

 

Já moleques mais velhos beirando a fase dos doze anos lá era o esconderijo onde amarrávamos os cavalos das olarias que fugiam e apareciam na redondeza e desta forma garantíamos montaria para todos podermos nos aventurar em passeios e explorações mais distantes montados a pêlo.
 

 

Construímos armadilhas para pegar lobisomem, laços para pegar pássaros, caçamos muitos preás com ajuda de nossos fiéis cachorros vira-latas. Brincamos de índio e mocinho, tiramos guerra de estilingues com mamonas até que um dia fomos interrompidos pelo ruidoso barulho de um motor gigante que mais parecia um destes monstros de filmes japoneses. Um monstro devorador de árvores, arbustos, riachos, cabanas e armadilhas.

 

A chácara foi planada, loteada e sem nosso consentimento destruíram o quintal de nossa infância. Tentamos protestar e por algum tempo durante a noite destruíamos as pequenas paredes que começavam a serem erguidas, porem no dia seguinte lá estavam elas novamente brotando do chão regadas pela energia das águas cristalinas de nosso córrego que hoje corre apenas em minhas lembranças.
 

 

A  Chácara ficava em Itaquera muito próximo onde hoje está sendo construído o Itaquerão.
 

 

Marcos Falcon é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: agende entrevista em audio e video no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Ou envie seu texto para milton@cbn.com.br. Ouça outras histórias de São Paulo no meu Blog, o Blog do Mílton Jung.

Conte Sua História de SP: pegar umas minas na Mooca

 

Por Jaime Diniz
Ouvinte-internauta da CBN

 

Nasci em Belo Horizonte, estou com 52 anos e me considero desde sempre “Mooquense”. Cheguei em São Paulo no início da década de 1970. Estava com 11 anos. O bairro escolhido pelo s meus pais não poderia ter sido melhor. Verdade que a primeira impressão não foi das mais animadoras.

 

Os dias em São Paulo pareciam sempre nublados. A garoa insistia em não sair de minha porta. Da fresta de minha janela, num antigo sobrado da rua Borges de Figueiredo, pelejava para ver uma bola rolando entre pés da molecada, mas isso não era comum de se ver nas ruas do bairro. Onde estavam os campos de várzea? Por que meus vizinhos eram apenas galpões e fábricas?

 

Foi aí que meu pai me explicou: “Filho, a Móoca é um bairro único, aqui nós temos muitas fábricas e galpões mas temos também a tradição de um povo acolhedor e trabalhador. Você vai se acostumar”. E não é que meu pai tinha razão? Aos poucos comecei a entender e a me apaixonar pelo bairro. A diversão era sempre garantida. Tínhamos o saudoso “Desafio ao Galo” na Javari. Era o melhor futebol de todos os tempos. 

 

À noite podia-se comer uma bela pizza de balcão da São Pedro. As matinês do cine Ouro Verde e do velho Patriarca eram imperdíveis. o Teatro Arthur Azevedo oferecia peças e shows para todos os gostos. As domingueiras do Juventus eram o melhor lugar para se pegar umas minas. Nas missas de domingo da São Rafael podia-se ouvir sem custo os melhores tenores e sopranos da cidade, oriundos de familias Italianas que aqui residiam.

 

Para se conseguir um emprego bastava visitar às fábricas da Henry Ford. Para os muitos que ainda não conhecem este bairro vai uma dica: a Móoca continua até hoje a mexer com os corações paulistanos!   

 


 

Conte Sua História de SP: a garagem do passado

 


Por Joás Dias de Lima
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

Quando vim morar na Liberdade, no centro de São Paulo, o bairro mais oriental do país, em 1990, aquele casal de idosos, residente num sobrado da Rua Tenente Otávio Gomes, ainda era razoavelmente viçoso. A consorte, uma vez por semana, a despeito do seu pequeno porte e do corpo visivelmente encurvado pelo “bico-de-papagaio”, e fragilizado pelo peso dos anos, abria a “pesada” porta da garagem para lavá-la. Como o escoamento era feito para a calçada, é óbvio, acabava esguichando água com a mangueira até onde pudesse alcançar a pressão dos seus dedos.

 

Depois de secar a garagem – que já não guardava nenhum carro, a não ser quando recebia visitas -, molhava pães “adormecidos” e colocava a massa esbranquiçada na calçada, para os pombos, que, já sabiam a hora do banquete. (Havia quem torcesse o nariz para aquele “mela-mela”, a ponto de, uma vez, quando eu por lá passava, ao ver uma porção generosa de amendoins sendo devorada, pensar: “Devem lhe ter passado um pito…)

 

A garagem, ao ser escancarada, deixava à mostra uma grande estante, de parede a parede, repleta de grossas encadernações de livros, a maioria na cor vermelho-carmim. E eu, vislumbrando-as, invejoso, sem poder lhes ver os títulos, me indagava: “Quem serão seus autores? Serão de direito, artes? Haveria muita coisa rara, como A Divina Comédia, de Dante Alighieri, ilustrado por Gustave Doré, que adquiri de um amigo que ‘gosta de mexer com tranqueiras´, como dizia sua mulher?”

 

Minhas perguntas jamais foram respondidas.

 

Há anos, a bondosa senhora saiu do mundo dos vivos, deixando ao esposo e ao seu fiel escudeiro, o velho amigo cão, a responsabilidade de tomarem conta do patrimônio e de continuarem as tarefas costumeiras, como permanecer regando as folhas das trepadeiras – devidamente acomodadas sobre uma “ponte”, feita pelos seus ramos, que atravessava, pelo alto, o passeio público, partindo de antes do portão da casa e se encontrando com a árvore que ficava a alguns centímetros do meio-fio – e, é claro, de prover (agora, com amendoins) os seus apadrinhados, embora os que torciam o nariz para a massa continuassem não aprovando aquele ato, sequer com o novo alimento, porque “os pombos transmitem doenças”.

 

Quantas vezes, ao sair do meu prédio, vi o ancião, Sr. Rafael, e seu companheiro, na rotineira caminhada rumo ao supermercado “Terra Nova” – que pertencera a japoneses.

 

O cão, a uns três metros adiante, procurava coisas no chão para comer e, vez por outra, cheirava “demarcações” de terrenos feitas por desconhecidos, que, imediatamente, eram sobrepostas, “definitivamente”, por sua urina, em todo o território, enquanto o idoso puxava para a sarjeta, com sua bengala, algumas sujeiras que os transeuntes “esqueciam” nas calçadas.

 

A cena ainda se repete, invariavelmente, na semana (aquelas idas e vindas, imaginava, deviam ser, dentre outras coisas, para comprar os sagrados amendoins!).

 

Aquilo ainda me deixa um misto de alegria e tristeza ao imaginar que um dia eles não mais passarão… E os papéis jogados nas irregulares calçadas da Liberdade deverão permanecer, incólumes, assim como os papéis encadernados voltarão a ser, simplesmente, papéis, encadernando aquela minha curiosidade…

 

Passando, ontem, defronte, vi a garagem, escancarada – molhada, como se estivesse chorando -, mostrando o vazio, como se fossem dentes ausentes e careados! -, sem a poeira do tempo lido, sem traças, sem naftalina… Sem os livros!

 


O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, logo após às 10 e meia da manhã, no programa CBN São Paulo. Você pode participar enviando seu texto para milton@cbn.com.br ou marcando entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa, pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net.

Conte Sua História de SP: minha carta ao Belenzinho

 

O texto que foi ao ar no Conte Sua História de São Paulo foi enviado por Heloísa Valle Fernandes, mas é de autoria da mãe dela, Da. Maria Helena Cavalcante Fernandes, que completou 80 anos, em novembro de 2012. Dona Maria Helena escreveu esta história de próprio punho:

 

 

Quando fiquei sabendo que o Sesc Belenzinho seria inaugurado no mês de dezembro, fiquei tão feliz que me vieram à memória tantas passagens de minha vida aqui no Belém. Moro aqui há 77 anos e quando tinha oito anos de idade tomava o bonde bem em frente onde hoje é o Sesc, na antiga fábrica de tecidos do Moinho Santista, e ia para a Escola Padre Anchieta, onde fiz o curso primário. Fico encantada com tanto progresso no meu bairro e o Sesc será uma importante referência. Me lembro bem das brincadeiras na rua, pois não eram asfaltadas e a meninada brincava de Mãe da Rua, Lenço Atrás, pulava corda … e quando a prefeitura trouxe as guias para preparar o asfalto, a gente pulava de uma a uma até a Álvaro Ramos. Foi um tempo muito gostoso! Agora, por aqui, já existem prédios luxuosos que foram construídos onde eram as fábricas de tecidos. A outra importante referência do bairro é o Hospital Infantil Cândido Fontoura, na Siqueira Bueno, que foi construído onde era antigamente a ‘Caixa D’Água” que pegava o quarteirão todo.

 

 


O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, logo após às 10 e meia da manhã, no CBN São Paulo. Você pode participar com texto enviado para o e-mail milton@cbn.com.br ou pode agendar uma entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net.

Conte Sua História de SP: o taxista do Belenzinho

 

Por Cesar Cruz
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

 

Céu preto. Fiz sinal pro táxi. Oxalá! Quase eu gritei de alegria quando ele parou, porque eu já estava tomando aqueles pingões grossos na careca. Pulei pra dentro do carro a tempo de vê-los (os pingões) desabarem todos lá do céu, de uma só vez.
 

 

— Segue pra onde? — foi a pergunta do taxista, que eu mais intuí do que propriamente ouvi, por conta do barulhão da chuva na lataria.
 

 

— Metrô Belém! — gritei — É o mais perto, né?
 

 

Ele não respondeu, porque acho que também não ouviu. Se nem eu com 42 anos estava conseguindo ouvir minha própria voz, que dirá ele, que parecia bem velhinho.
 

 

Seguimos pelas ruas do bairro do Belenzinho, já empoçadas àquela altura. Fui observando pela janela os transeuntes com seus guarda-chuvas se aglomerando nas calçadas, duas moças aos gritinhos que, com cadernos na cabeça, buscavam refúgio sob uma marquise, e os camelôs correndo pra desmontar tudo.
 

 

Enquanto meus pensamentos vagavam, pelos meus ouvidos parecia ir entrando uma espécie de reza sonolenta, numa vozinha abafada pelo barulho da chuva; certamente uma missa na rádio do táxi. Espiei no painel e o rádio estava desligado. Não era rádio coisa nenhuma! Era o velhinho taxista, que recitava aquela ladainha e me espiava pelo retrovisor, esperando que eu desse algum tipo de sinal. Apurei os ouvidos para ver se entendia alguma coisa do que ele dizia. 
 

 

Lá fora já não se enxergava um palmo à frente do carro. E os trovões rachando sobre nossas cabeças. Enquanto o táxi avançava passo lento, fui pescando alguns fragmentos das histórias que contava o homem, em seu uníssono monocórdio e de baixo volume. Para fazê-lo feliz, mesmo sem conseguir ouvir quase nada, eu ia vez por outra dizendo “Oh, é verdade!”, ou “Puxa, que coisa, hein?”.

 

Algumas passagens eu conseguia compreender, como a do pai dele, que na época da Segunda Guerra dirigira bondes ali pelo bairro, foi motorneiro; da mãe, que trabalhou a vida toda na extinta firma Moinhos Santista, na Marquês de Abrantes; do irmão, dois anos mais velho que ele, que quando eles eram meninos de calças curtas foi atropelado por um bonde e morreu na sua frente.
 

 

— Não era o bonde do seu pai, né? — perguntei de um súbito, repentinamente chocado.
 

 

— Não, com a graça de Deus… — ele disse.
 

 

E o trânsito ia fechado diante de nós, e o que deveria ser uma corrida de 5 minutos já levava quinze. Não havia o que fazer. Impossível saltar na chuvarada a procurar uma estação que eu nem sabia onde ficava.

 

E na minha distração já ia avançado um relato sobre elevadores, e pelo que consegui escutar, desde mil novecentos e sessenta e alguma coisa ele não entrava em um, porque sei lá quem morreu num “despencamento horroroso” de um elevador no centro da cidade, e do corpo só sobrou a cabeça em cima dos sapatos…
 

 

E tome história!
 

 

Na calçada uma confusão enorme causada pela tempestade que arrastou tudo, e dentro do táxi uma profusão de causos que se sucediam loucamente. Agora ele contava o drama de um câncer que tinha vencido “com a força do trabalho”, porque o homem não pode ficar ocioso nem na hora da doença e…
 

 

Trovão! Cabrum!
 

 

— Porque a minha senhora, que…
 

 

Catabrum! Chuaaaá!
 

 

O final dessa frase se misturou a todos aqueles barulhos, e me sucedeu uma aflição, porque desconfiei que houvesse acontecido alguma coisa com a senhora dele.
 

 

— O quê? — perguntei; mas ele não parava nem por Deus de recitar suas histórias; nem pra ouvir os outros, nem pra esfregar a flanela no para-brisa que ia espalhando o embaçado do vidro. Por fim eu fiquei sem saber se o complemento da frase seria:
 

 

“Porque a minha senhora, que hoje é acamada,…”; ou:
“Porque a minha senhora, que não gosta que eu conte histórias,…”; talvez: “Porque a minha senhora, que acha essas chuvas um perigo,…”;
 

 

Ou um terrível:
 

 

“Porque a minha senhora, que Deus a tenha,…”.
 

 

Sei que àquela altura o táxi já estava encostado no meio fio. Paguei a corrida e chapinhei na enxurrada até a segurança da cobertura da estação, mas ainda a tempo de ouvi-lo enfim se apresentar:
 

 

— Luiz Fernando, seu criado!

 

Conte Sua História de SP: diversão no cinema do bairro

 

Carlos Antonio Nóia de Sousa, nascido em 1960, na capital paulista, é o personagem do Conte Sua História de São Paulo. Filho de alagoanos, foi criado no bairro da Penha, na zona leste, e em depoimento ao Museu da Pessoa, lembra que na São Paulo dos anos 1970 o cinema de bairro era a principal atração para as crianças e adolescentes:

 

 
Ouça o depoimento dele ao Museu da Pessoa, sonorizado pelo Cláudio Antonio.

 

Conte você também mais um capitulo da nossa cidade. Agende um entrevista em audio e video no site do Museu da Pessoa ou mande seu texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: minha cidade caleidoscópica

 

Por Carolina de Medeiros Cecatto

 

A São Paulo em que nasci é a cidade onde vou trabalhar desde os meus vinte anos. Não que eu tenha longeva idade, mas desde pequena já dava meus passinhos por ela. Aos 7, fazia exames na Vila Mariana, bairro em que nasci por sinal, porque logo precisei usar óculos e tampão. E minha nossa! Ia com minha mãe de metrô, e como eu adorava aquilo! Nunca achei em minha vida que entenderia os entremeios das linhas daquela lombriga de ferro – assim como nunca imaginei que essas linhas cresceriam tanto como agora, tanto como eu cresci.

 

Hoje, domino e escolho as plataformas, guiada às vezes pelo instinto das grandes massas, costurando entre elas, vislumbrando pessoas, paisagens e concretos: são os violinistas das estações de metrô, é aquela avenida de uma vida inteira chamada Paulista, são os adolescentes de cabelos coloridos e fãs de mangá nas escadarias da Liberdade, é o verde imperial do Parque da Independência, é o corre-corre, o compra-compra da 25 de Março, é a miscelânea abençoada de coisas que vejo e reparo e que me fazem sentir mais deslumbrada.

 

O lugar mais cosmopolita, de gente mais desconfiada, é a cidade mais acolhedora, acredite! Nos dias de chuva fica mais poética, mais indiferente e triste, mas é esse o seu charme. É de se ver o colorido da noite nas baladas, corpos e sinestesia e fluidos, é nelas que vinga um pouco de Sampa. Bate também o coração dessa cidade com o tráfego diário de carros, buzinas e xingamentos, e aquela palavrinha que todo paulistano detesta já é praxe: congestionamento.

 

Vibra a cidade com seus vários times valentes e pioneiros, além de tudo tradicionais, que jogam bola e dão brilho e paixão nos olhos da gente. Permeiam seus muros os grafites psicodélicos, sem contar as calçadas e as ruas com várias pernas malabares sobre seus skates e patins, a correria para pegar o ônibus – o lindo caos diário que tudo isso encerra!

 

É a cidade cheia de registros, de mistura fina, de seriedade, de inegável disposição, de comércio, da pizza mais gostosa, dos edifícios mais audazes e cinzas, da gente mais diversa e colorida. É a cidade que não desliga, nem pisca. É a minha São Paulo caleidoscópica.

 

Conte Sua História de SP: a casa da Avenida Brasil

 

No Conte Sua História de São Paulo, o depoimento de Ana Maria Mato Nardelli, gravado pelo Museu da Pessoa. Ana Maria chegou da Itália com 17 anos, ao lado da irmão e da mãe. O pai, comerciante bem sucedido, viaja muito ao Brasil, para fazer negócios. Lá no início da década de 1950, mandou buscar a família. Havia decidido morar de vez por aqui. Foram todos para uma casa alugada na Avenida Brasil com a Rebouças. Ana Maria conta que naquela época, as avenidas eram largas; as distâncias, enormes; e, apesar dos edifícios do Centro e a arquitetura francesa, boa parte da cidade ainda parecia selvagem. O clima de São Paulo também era bem diferente dos tempos atuais: mais úmido e frio, o que a fazia lembrar da Itália.

 

Ouça a história de Ana Nardelli, que foi ao ar na rádio CBN, sonorizada pelo Cláudio Antonio:

 

 

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Conte Sua História de SP: quantas vezes engraxei aqueles sapatos

 

Por Clarindo Oliveira

 

Sou paulistano da “gema”. Nasci no antigo Hospital Leão XIII ali do lado do Museu do Ipiranga. Mesmo não morando mais em São Paulo (hoje minha casa é em Embu das Artes), sempre soube que minha vida estaria aqui. Não me importo com o trânsito da Raposo, nem com os congestionamentos que enfrento todos os dias para chegar ao meu trabalho na Alameda Santos.

 

Amo esta cidade e não me vejo longe dela. É dela que extraio o meu sustento e da minha família. Sei que ela não é perfeita, mas não admito que ninguém de fora a critique. Você deixa alguém falar mal do seu pai, do seu irmão ou de qualquer outra pessoa da sua família? Não, né? Mas não estou aqui para falar de mim.

 

Quero contar uma das muitas histórias do meu pai, o Sr. José Américo de Oliveira, falecido há pouco mais de 3 anos. Como tantos outros, saiu do interior de Minas na década de 1950 e veio tentar a sorte na “cidade grande”. Depois dele, veio uma infinidade de irmãos, primos e tios. Famílias grandes…  Houve até uma época que eu acreditava que mais da metade das pessoas da Vila Joaniza (periferia da Zona Sul) fossem parentes meus!

 

Voltando ao meu pai…

 

Foi trabalhar na construção civil. Servente, pedreiro, mestre de obra… Participou da construção desta cidade, em fábricas e casas em Santo Amaro, Socorro e Brás. Seu primeiro serviço foi no Aeroporto de Congonhas e é daí que vem a história que vou contar.

 

Ele comentava que “Terra da Garoa” era o apelido perfeito para São Paulo porque aqui chovia ou garoava de oito a nove meses por ano. Trabalhava “no tempo”, molhado.  Mas no fim do dia, tirava a roupa da “lida” e botava o único terno azul marinho. Sim, os homens só usavam terno azul marinho naquela época! Barba sempre feita, bigodinho perfeito de meio centímetro de espessura e sapatos Vulcabrás impecavelmente engraxados. Ah! Quantas vezes engraxei aqueles sapatos…

 

Ele morava na favela ‘Buraco do Sapo” próximo ao aeroporto e às margens do Córrego da Água Espraiada.  Hoje passa por lá a Avenida Roberto Marinho, tem o piscinão e o Viaduto Luís Eduardo Magalhães. Com tanta umidade (lembra da “Terra da Garoa”?), havia um lamaçal naquela baixada e era muito comum os poucos carros que passavam por ali atolarem. Nessas horas, meu pai e seus amigos entravam em cena e davam aquela forcinha empurrando os carros dos figurões. Lógico que sempre pintava um “agrado”, uma gorjeta para os solícitos rapazes.

 

Nos poucos meses de seca, eles tinham uma tática: iam até o córrego, enchiam latas e latas de água e espalhavam pela rua. Assim, mantinham o lamaçal, o “negócio” estava sempre em pé e a graninha extra era garantida o ano inteiro!

 

Ouça aqui o texto que foi ao ar na CBN sonorizado pelo Cláudio Antonio: