Conte Sua História de São Paulo: do “ding-dong” à banda de São Miguel Paulista

Atsushi Asano

Ouvinte da CBN

Foto de Hugo Martínez

Estudei no Colégio Estadual D.Pedro I, em São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo. Não é saudade, são flashes de memórias acesas pelos estímulos do Conte Sua História. 

Eram os anos de 1967 a 1973. Em pleno Governo Militar. O bairro era distante dos movimentos civis e de estudantes em defesa da Democracia. Estudava conforme as regras da época imposta aos estudantes do ginásio. No colégio, de famoso, havia estudado Antonio Marcos, o da Jovem Guarda.

Naqueles anos, do outro lado da Estrada Velha São Paulo-Rio,  em frente a escola, em um terreno vazio, levantava-se o prédio do mercado municipal e uma alta caixa d’água. Lá em cima da torre instalou-se um grande e único relógio com quatro faces.  Seus ponteiros marcavam a hora certa ao som do “ding-dong” que pautava o dia de moradores e estudantes.

Mais um flash se acende. 

Vejo agora a estrada velha, de pista simples, mão-dupla, calçadas por paralelepípedos. Vejo pela janela, na carreira de carteiras da sala de aula. Pela cortina aberta, observava: hora passavam carros, ônibus e caminhões. Hora passavam charretes e carroças. Muitas vezes presenciava as patas dos cavalos escorregarem com suas ferraduras nas pedras do piso liso e desgastado.

As lembranças seguem por aqui.

Todos os anos, lembro-me que eu desfilava pela escola, uniformizado, em marcha, seguindo a banda do colégio, com um sentimento que me faz viajar nas memórias de São Miguel Paulista.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Atsushi Asano é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: um hino à cidade

Vera Mantovani

Ouvinte CBN

Eu e minhas irmãs crescemos ouvindo minha mãe contar que, por ocasião de sua formatura do curso primário, em 1932, num grupo escolar na rua Augusta, ela cantou um hino composto, letra e música, por um maestro. Dona Lydia – Lydia Yolanda Meira – apesar de não lembrar mais o nome do maestro, sabia que ele havia pedido às alunas que não deixarem o hino cair no esquecimento.

Muitos anos passaram e já com idade avançada perseguiu o objetivo de ver o hino em partitura. O único material que tinha era um CD, gravado por um neto, onde cantou a letra  que estava guardada em sua memória.

A busca continuou até que um maestro da Guarda Civil Metropolitana de São Paulo se sensibilizou e presenteou-a com a partitura do Hino a São Paulo que tinha essa letra:

Letra 

I

São Paulo berço formoso                                                          

De nobre gente imortal                                       

É o meu torrão generoso                                     

É a minha terra natal !                                           

II                                                                  

Os meus avós denodados

Vivem gigantes na história                                                      

Com seus nomes honrados                                   

Resplandecentes de glória !                                   

Coro:                                                                         

Glória ao heroi bandeirante                                   

Ao paulista varonil

Pioneiro, vigilante                                                    

Da grandeza do Brasil….

Hei de amar-te ó minha terra

Hei de amar-te até morrer

Quer na paz ou quer na guerra

O teu nome enaltecer !

III

Deus me conserve esta graça

De ser paulista altaneiro

E justo orgulho de raça

E do torrão brasileiro!

IV

Filho de um povo valente

Sou franco, altivo, leal

Sempre serei combatente

Da justiça e do ideal!

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Vera Mantovani e a mãe dela, Lydia Yolanda Meira, são personagens do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também a sua história, escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: as frases do realejo do Parque do Trianon

Tania Plapler Tarandach 

Ouvinte da CBN

Sou a primeira criança brasileira em uma família de judeus fugidos da Polônia por causa do antissemitismo, nascida nesta Pauliceia, chamada “desvairada”. Minha mãe deixou uma pequena cidade, no norte do Paraná, especialmente para dar à luz na Avenida Paulista. Ali, na esquina com a Alameda Rocha Azevedo onde hoje está uma agência da Caixa Econômica e o restaurante Spot, que eu nasci. Um casarão no meio de um jardim, todo verde. Me levaram para o Paraná, porém, São Paulo era o meu lugar.

Viemos, meus pais e eu, para morar na rua Oriente, no Brás. Minha alegria de menina, quase sete anos, era quando chegava o fim de semana. Ai eu voltava para a Avenida Paulista. Para o Parque Trianon. Lugar todo verde, com as árvores muuuito altas, os bancos de madeira, onde sentávamos para respirar o ar puro do lugar. E tinha um prêmio: antes de ir embora, no portão do parque, lá estava o homem do realejo, girando a manivela sempre com a mesma música. Aquele pássaro que saia da gaiola, olhava pra mim e bicava uma folhinha de papel, escolhida entre tantas dentro da caixinha: umas amarelas, outras verdes, rosas e azuis, todas bem clarinhas. Cada vez ele me entregava uma frase mais linda que a anterior. Era tão bom que faz minha felicidade recordar até hoje, cada vez que vou ao Trianon (e vou bastante, pois moro perto).

Sou uma Paulistana (com P maiúsculo) da Avenida Paulista! Orgulhosa desse título, faço coro com o poeta Guilherme de Almeida, na frase escolhida para o brasão da cidade: ”non ducor, duco”! Não sou conduzido, conduzo!

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Tania Plapler Tarandach é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie agora o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: meu primeiro Salão da Criança foi no Ibirapuera

Luiz Eduardo Pesce de Arruda

Screenshot

Em oito de outubro de 1966 seria aberta a sexta edição do Salão da Criança, no Pavilhão Internacional do Parque do Ibirapuera. O evento, criado em 1961 por Caio de Alcântara Machado, mexia com a imaginação da criançada. Todos nós prometíamos ser os melhores filhos do mundo — quase anjos, de aureola e tudo — nos meses que antecediam a festa. Era essa condição de nossos pais para nos trazerem a São Paulo. 

A TV, na época em preto e branco, dias antes da abertura, reproduzia anúncio e jingle do palhaço Carequinha convocando a molecada a ir ao Ibirapuera, onde haveria “competição, muita criançada e muita diversão”.

Uma semana depois da abertura oficial, no dia 16, um domingo saímos cedo de Araras, interior de São Paulo. Toda a família em um fusca, ainda de madrugada, seguindo pela Rodovia Anhanguera, que ainda era em pista única, ao menos até Campinas. Logo que chegamos ao Parque do Ibirapuera, na esquina da rua Abílio Soares com Pedro Alvares Cabral, ao lado da atual Assembleia Legislativa, meu pai estacionou o fusca. Minha mãe estendeu uma toalha xadrez, branca e vermelha, sobre o gramado. Eram umas nove horas da manhã quando fizemos um piquenique. Minha mãe havia preparado lanche de bife à milanesa, ovo cozido, Coca-Cola e café. 

Depois  de comermos à sombra do que me pareceu um espesso bosque  — hoje percebo que não era tanto assim — fomos, eu, meus pais e irmãos, todos ao Salão da Criança para nos divertir.

Como a vida da gente é engraçada: visitei muitos lugares, fui a tantos eventos, mas aquela manhã de outubro de 1966 nunca se perdeu ma memória.

Talvez, seja a evidência de que um passeio em família, tão simples,  temperado pela comida da mãe e pela presença das pessoas que amamos, escreva realmente a história dos momentos inesquecíveis de nossas vidas.

Veja aqui um dos anúncios de TV do Salão da Criança

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Luiz Eduardo Pesce de Arruda é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também personagem da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: escolas de datilografia e bondes de teto de linóleo, eu vi

Rubens Cano de Medeiros

Ouvinte CBN

Foto: Mílton Jung

Por volta de 1960. Tenho treze anos. Mas não lembro se São Paulo já dispunha de supermercados – ao menos o pioneiro Peg-Pag, na Vila Mariana. Perto do Cine Phenix. Não faltavam mercearias, empórios ou quitandas, onde – tal qual em padarias, bares e botecos – uma plaquinha alertava. “FIADO? Quando o Corinthians for campeão”. Durou até 1977, sabemos. Osvaldo Brandão tirou as plaquinhas, das paredes.

Num incerto dia – quase noitinha, lembro – subi a escada de cimento e granilito do sobradão, ainda hoje em pé. Dobrando a esquina toda, Domingos de Morais com Rodrigues Alves, grandão! À frente do então lindo Largo Dona Ana Rosa, que mantinha resquícios, ainda, de footing… Ali, um entroncamento de trilhos e fios. Dos bondes; uns iam até São Judas; outros, até Santo Amaro. Mais um: Vila Clementino.

Então, eis-me no amplo salão de grandes janelas, onde ouvíamos o “tec-tetec”, típico, dos teclados da Escola de Datilografia Rodrigues Alves. Quando, inédita vez, meus olhos e minhas mãos acercaram-se pertinho de uma máquina de escrever – se lembro, hein! Uma Olivetti, meio esverdeada.

Aluno do curso, eu me sentava rente à janela. Donde podia ver – não antes visto – os bondes, de cima, que passavam. Algo me intrigava. Do chão, mal se notava. Era um revestimento escuro que recobria o bonde, exteriormente; todo o “teto” que suportava a alavanca de contato. Que seria “aquilo”? Perguntava-me, a mim. Alguém explicou. Era linóleo. Imensa lona que impermeabilizava o teto de madeira, do bonde, ante a intempérie. Igual aos tetos dos carros de passageiros da Santos-a-Jundiaí. Que podíamos ver na Luz, das passarelas sobre as plataformas. Jornais antigos mostram que ônibus paulistanos, de até os anos 40, também traziam revestimento de linóleo – um charme que carrocerias metálicas dispensaram, obviamente.

Todos sabem. A datilografia, a das máquinas, morreu, não? De atestado emitido – ironicamente – pela própria causa-mortis: e-mail! Digitar, no computador, eu? Não morro de amores. Sempre adorei da-ti-lo…grafar! Tanto que – inviável, descabido e anacrônico, sei bem, mas…

Deparasse eu, num jornal, com um fantasmagórico anúncio… Exatamente assim: “PRECISA-SE DE DATILÓGRAFO”, ah… Precisa-se, é? Algum rascunho de escritorinho, de fundo de corredor? Uma portinha só, uma tosca escrivaninha – puxa vida! – com uma autêntica Remington-Rand? Caramba!

Ei! Eô, eô: me chama, que eu “vô”!

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Rubens Cano de Medeiros é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: o rádio “penhorado” do Sílvio Santos

Nilson Bonadeu

Ouvinte da CBN

Photo by Brett Sayles on Pexels.com

Morava em Curitiba e vim trabalhar na prefeitura de São Paulo, em 1992. No Edifício Martinelli, no centro. Prédio histórico, belíssimo! Me hospedei em uma pensão, na Duque de Caxias, perto do trabalho: a Pensão Maria Teresa. Era um casarão antigo, histórico, muito charmoso, pé direito alto, portas bipartidas nos quartos, assoalho de madeira nobre. 

No corredor do andar de cima, onde ficava meu quarto, tinha uma prateleira com um rádio antigo de madeira, bem grande. Me chamava atenção porque meu avô tinha um igual. Um dia tomei coragem e perguntei ao dono da pensão se ele me vendia aquele rádio. Disse que jamais venderia. Segundo ele, o avô que era o dono original da pensão, havia pegado o rádio como garantia porque o Peru não pagava as mensalidades. 

–   Peru? Que Peru? 

– Você não sabe quem é o Peru! 

– Não, não sei. 

– Peru é o Silvio Santos! 

    Lembrei dessa história, verídica, ao menos na parte que me toca, agora, no dia 17 de agosto quando Sílvio partiu. Tem-se notícia que Senor Abravanel morou naquela pensão logo que chegou do Rio de Janeiro. Salvo engano, na história dele, fala-se apenas de outra pensão no Bixiga, a Pensão da Dona Gina, onde morou para ficar perto de sua namorada, que veio a ser sua primeira esposa, a Cidinha, filha da proprietária. 

    Seja como for, com tristeza e nostalgia, lembrei-me também de uma das célebres frases do Sílvio que ouvimos em uma de suas músicas: “Do mundo não se leva nada, vamos sorrir e cantar”. 

    De volta à pensão: posso dizer que não mais existe, porém, o prédio segue. Agora, está restaurado com novos donos. E o rádio? Ah! O rádio que era bonito, mas não funcionava, não sei o que aconteceu com ele.  Seja lá o que tenha lhe acontecido, o certo é que o Senor não o levou deste mundo, se é que aqule rádio ainda exista de alguma forma; se é que aquele rádio pertenceu mesmo a esse Abravanel notável. 

    Ouça o Conte Sua História de São Paulo

    Nilson Bonadeu é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também mais um personagem da nossa cidade: escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

    Conte Sua História de São Paulo: o dia em que a freira e o Zorro foram detidos no aeroporto

    Celia Corbett

    Ouvinte da CBN

    Foto de Nesrin Öztürk

    Eram 1970. Tempos tumultuados. A ditadura tinha atingido seu auge. Qualquer manifestação de opinião contrária ao sistema era proibida. Nós éramos jovens estudantes, filhos respeitosos, gostávamos de Rita Lee, Chico Buarque, Beatles e assim seguíamos.

    Estudantes mackenzistas com muito orgulho, estávamos entre o ensino médio e a faculdade. Eu cursava o último ano do Técnico de Administração e meu irmão, o Carlos, a faculdade de Engenharia. Todos nós éramos amigos dos amigos e formávamos um grupo muito legal. 

    Fim de semana com festa era o máximo. Com festa a fantasia, era genial  Seria na casa da namorada do Andrade. Muita atrasada fui a loja de fantasia na Bela Vista e quase fiquei na mão. Tinha sim uma roupa que me servia. Mas será? De Freira? E assim foi. 

    O quanto eu ouvi antes de sair de casa foi para a vida toda. Lá estava eu vestida com um hábito de freira perfeito, preto e branco, como manda o figurino. Mas qual a jovem de 16 anos não faria uma maquiagem a altura de uma festa de arromba. Festa, aliás, que estava fantástica com direito a odaliscas e piratas. Sensacional estava o Castro de zorro com capa e espada. Foi ele que me convidou para  acompanhá-lo e levar uma amiga lá pelos lados do Aeroporto de Congonhas. 

    Nada era comparável ao café no aeroporto nos fins de noites daqueles ditos Anos Dourados. Aquele saguão chiquérrimo com seu piso quadriculado era muito badalado. O Castro tirou os adereços da fantasia e estava de calça e camisa pretas . Eu fiquei apenas com o hábito de freira e a maquiagem. E isso se transformou em um pesadelo.

    Quando estávamos curtindo o saboroso cafezinho no balcão do salão fomos abordados por um policial que nos intimou a acompanhá-lo a delegacia do aeroporto. Por quê?

    – Vocês estão detidos, disse o policial.

    – Documentos na mesa, deu a ordem.   

      Logo nos apressamos a entregar a carteira de identidade e de estudante. Sim, de estudante porque mostrávamos que éramos pessoas de bem. Mas 1968 ainda estava na cabeça de todos assim como a Batalha da Maria Antonia, que fez com que nosso policial  nos condenasse antecipadamente.

      – Ah, estudantes do Mackenzie. Isso explica porque estão vestidos assim.

      Da festa de Ali Baba nos tornamos estudantes subversivos. Ficamos aterrorizados com a repressão do policial. Mesmo sem sofrer nenhuma agressão física, foi um pesadelo que só terminou quando o delegado de plantão chegou. Fez algumas perguntas: onde morávamos, oi que estávamos fazendo com as roupas estranhas. Todas devidamente respondidas. 

      Assim que fomos liberados pelo delegado, voamos para o carro que estava no estacionamento e de lá direto para casa. Além de um susto enorme, isso rendeu muita conversa pelos corredores do Mackenzie.

      Ouça o Conte Sua História de São Paulo

      Celia Corbett é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

      Nos 70 anos do Ibirapuera, uma lembrança do Ouvinte da CBN

      (Texto publicado originalmente no dia 1 de dezembro de 2023)

      Por José Carlos Vertematti

      Ouvinte da CBN

      Imagem de arquivo da “Aspiral”, de Oscar Niemeyer

      Eram 21 de Agosto de 1954. Eu tinha apenas cinco anos de idade mas me lembro muito bem deste dia maravilhoso! Meus pais, José e Vicentina, levaram minha irmã Rosinha e eu a uma grande festa: a inauguração do Parque do Ibirapuera, em comemoração ao IV Centenário da cidade de São Paulo.

      Uma área verde imensa, gramada, arborizada, com lagos, aves, chafarizes e vários prédios culturais que, para um garotinho como eu, parecia ser o mundo todo!

      Passeamos muito a pé e o que mais me intrigou foi o sistema de som do parque: podia-se ouvir claramente as mensagens e as músicas, em qualquer lugar e com o mesmo volume. Eu, ainda pequenino, não entendia como isso era possível, mas hoje imagino a complexidade de se instalar um sistema de alto-falantes em árvores e prédios, ao longo de todo o parque, e garantir um som perfeito e equilibrado, naquela época!

      Durante o passeio vimos um monumento lindo que tinha uns 17 metros de altura e que é difícil de descrever: algo como uma espiral com as extremidades unidas entre si por uma reta, fundeado no chão com uma inclinação de cerca de 60 graus.

      Soubemos que era uma obra de arte criada pelo magnífico arquiteto Oscar Niemeyer. a “Aspiral” ou “Voluta Ascendente” era um desenho que representava o crescimento e o progresso paulista. Estava instalada próxima à entrada principal do parque. Era para ser a imagem da cidade de São Paulo, assim como o Cristo Redentor é do Rio de Janeiro.

      Infelizmente, por motivos estruturais, este monumento não resistiu às forças da natureza e, em pouco tempo, veio abaixo e foi destruído! Hoje, só o vemos impresso na embalagem dos Dadinhos, aqueles chocolates com sabor de amendoim, que existem desde 1954. Aparece também na fachada de algumas casas que resistiram ao tempo. 

      Outra atração marcante foi a intensa chuva de prata, feita através de triângulos de papel metalizado que refletiam a luz criando um clima mágico. Após uma longa caminhada, maravilhados com a imensidão e beleza do novo parque, descansamos e fizemos um merecido piquenique no Ibirapuera.

      Conheça aqui a história da Aspiral, a estátua que desabou no parque

      Ouça o Conte Sua História de São Paulo

      José Carlos Vertematti é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Seja você também uma personagem da nossa cidade. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite o meu blog miltonjung.com.br ou ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

      Conte Sua História de São Paulo: vistas e memórias do Minhocão

      Profª.Dra. Deborah Hornblas

      Vista do Minhocão, em São Paulo Foto: Luis F. Gallo, ouvinte-internauta da CBN

      O longo viaduto se democratizou, mudou de nome, já não homenageia o Costa e Silva, agora é Presidente João Goulart. Eu, particularmente achei bom, mas paulistano só conhece o elevado de mais de dois quilômetros de cumprimento por apelido: Minhocão.

      O trambolho é feio. Passa de maneira acintosa pelos prédios que o circundam; não tem vergonha de invadir os lares, a vida das pessoas. É cinza, é duro. Embaixo de suas pilastras produz uma noite eterna e é o abrigo de quem não tem para onde ir. Ele é odiado e parece eterno.

      Minha vida quase inteira passei por ali. Durante os dias da semana, só se passa de carro, e veloz espio as janelas e os terraços. Quase posso ver, dentro das casas. 

      Vai aqui uma lista do tudo que vi e vejo no meu caminho:

      Edifício Altino Arantes, lá no fundo, icônico, simbolizando São Paulo. O Copan com suas milhares de janelas, meio que escondidas por traz de curvas de concreto. Prédios grudados uns nos outros parecendo se apoiar para não tombar. O redondo Hilton. Prédios com janelas da décadas de 1920, 30, 40, 50 e 60. 

      O castelinho da Rua Apa, local onde se deu um dos crimes mais terríveis da cidade. Dizem que é mal assombrado Um terraço com imensos vasos de estilo africano, embelezando a fachada sombria de um edifício antigo.

      A pintura de uma mulher com véu na empena cega, de olhos densos, que fica logo adiante de um outro retrato, esse colorido com tons africanos: é Mandela com um guepardo; o homem sorri para mim.

      Jardins verticais feios e mau cuidados

      Nas alças de acesso vejo craqueiros tristes e calmamente sentados: homens, mulheres, jovens tão jovens que são quase crianças ficam ali esperando a hora do fechamento do viaduto para continuar sua triste jornada zumbi

      Bicicletas, crianças e cães nos fins de semana. É quando o caminho se humaniza. Uma placa luminosa em uma janela oferecendo aulas de dança de salão, uma outra, serviços contábeis.

      Um bêbado, um louco, um drogado se equilibrando no meio das pistas, caminhando tropegamente na hora do rush. Ambulâncias com sirenes enlouquecidas. Motoqueiros buzinando e pedindo passagem no meio dos carros. Carros quebrados incomodando os que andam velozmente.

      O vendedor de amendoim que aproveita quando o trânsito emperra para oferecer sua mercadoria. Um pôr do sol vermelho e laranja. A pista inundada depois de uma chuva torrencial. Plantas insistentemente brotando das fissuras do concreto. Um, dois, três gatos na janela. Rede de proteção para eles e às crianças.

      O mergulho em um túnel escuro ao chegar a ligação Leste-Oeste. A visão da igreja de São Geraldo, no largo Péricles, e a lembrança de que estou pertinho do Ponto Chique e quase sinto o gosto do seu famoso bauru.

      Uma cruz enfeitada no meio do caminho: marcará a morte de alguém?

      O Minhocão vai ser demolido, mais dia, menos dia.

      Ouça o Conte Sua História de São Paulo

      Deborah Hornblas é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

      Conte Sua História de São Paulo: a memória das minhas escolas tatuou meu coração

      Por Márcia Aparecida Lourenço da Silva 

      Ouvinte da CBN

      Photo by Pixabay on Pexels.com

      Trago no coração, entre tantas boas experiências em São Paulo, a lembrança das escolas em que passei. O primário, estudei no Centro Educacional  Sesi. Era na avenida Gustavo Adolfo, na Vila Medeiros, uma importante avenida que liga o bairro do Tucuruvi ao de Vila Sabrina — esse, já bem próximo da  Rodovia Presidente Dutra. Hoje, a escola não existe mais, foi demolida há muitos anos, dando lugar a um condomínio residencial.

      Parte dela era de madeira, com  várias salas de aula dos dois lados do corredor e, no fim dele, a tão temida diretoria. O piso era  com  assoalhos de madeira, que rangiam a mais suave pisada. Quando o sino tocava, o velho assoalho tremia com a correria da garotada e o som mais parecia de um grande terremoto.

      Minha primeira professora foi Dona Elci, uma referência de professora que guardo em destaque no coração. Amável e muito doce, tirava assim todo medo e ansiedade  da nova  situação de estar na escola e não ter minha mãe por perto.

      Também, conheci minha primeira amiga de escola, Regina Helena, que tive o  prazer de rever depois de quase 50 anos. O tempo não lhe tirou  a simpatia, a bondade e o belo sorriso. Ficávamos felizes quando a professora nos colocava sentadas na mesma carteira. Carteiras essas cujos assentos eram duplos e o encosto, numa só peça, servia de escrivaninha para os dois alunos de trás. Ali, trocávamos lápis de cor, borracha e rápidos cochichos, além do lanche, no recreio.

      Quarto ano concluído, hora de mudar de escola. Para isso um temido exame de admissão deveria ser feito para entrar no concorrido Colégio Estadual Dr Miguel Vieira Ferreira, também na Vila Medeiros. A entrada principal era na rua Eurico Sodré. Anos depois, cedeu parte do seu terreno ao posto de saúde  que vem servindo desde então a comunidade da região.

      Na época, o terreno era nossa quadra. Toda de terra e com direito a torcida no barranco. Para o terror das mães, o conga branco voltava para casa imundo.  A quadra oficial da escola era outra, aliás, meu paraíso. Foi onde aprendi a jogar vôlei e me encantei com esse esporte pelos quatro anos seguintes.

      Passei da infância para a adolescência de forma  encantadora e rápida, ao mesmo tempo intensa, a ponto de, depois de tantos anos, conseguir expressar em poema o tesouro que guardei tatuado em meu coração e ofereço com carinho aos ouvintes da CBN:

      Corações tatuados 💖

      Doces anos que passamos,

      sem o  passado presente,

      e o futuro parecia

      Distante…longe da gente.

      Época de nossas vidas 

      que nos desperta saudade.

      Um desabrochar de tudo,

      encantamentos da idade.

      Crises até enfrentamos, 

      mas isso não  impedia

      de, misturados, sentirmos

      o clima que nos unia.

      Provas, trabalhos, lições,

      aquela chamada oral

      que, por vezes, fomos salvos 

      pelo “bendito” sinal.

      No pátio, de braços dados,

      as meninas circulavam.

      Assuntos, risadas, segredos…

      Quase  nunca se esgotavam.

      Momentos compartilhados

      sem os recursos de agora.

      Estarmos juntos, bastava,

      nosso mundo, nossa escola.

      Tempos  muito preciosos,

      Hoje, na  história fincados.

      Tesouros que ninguém  rouba, nos corações tatuados.

      Ouça a poesia Corações Tatuados

      Ouça o Conte Sua História de São Paulo

      Márcia Lourenço é personagem do Conte Sua História de São Paulo. O poema “Corações Tatuados” que a Márcia nos oferece está em texto e áudio publicados no meu blog: miltonjung.com.br. A sonorização é do Cláudio Antonio. Lá no blog e no podcast do Conte Sua História de São Paulo, você encontra outros capítulos da nossa cidade.

            –