Dez Por Cento Mais: psiquiatra Wimer Bottura Jr alerta para o excesso de diagnósticos em saúde mental

“O sofrimento precisa gerar mudanças.”

A tristeza profunda, a ansiedade persistente ou o esgotamento emocional fazem parte da vida de muitas pessoas. Nem sempre, porém, esses estados significam doença. A diferença entre um sofrimento natural da existência e um transtorno que exige tratamento pode ser sutil. Compreender esse limite é fundamental para evitar diagnósticos precipitados ou tratamentos inadequados. Esse foi o tema da conversa com o psiquiatra Dr. Wimer Bottura Jr., em entrevista ao programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.

Para começo de conversa, Bottura destacou que o sofrimento psíquico merece atenção, independentemente de sua origem. Segundo ele, muitas vezes experiências difíceis — como frustrações, perdas ou o fim de um relacionamento — provocam dor emocional intensa, mas não configuram necessariamente um quadro clínico. O psiquiatra lembra que ignorar o sofrimento pode trazer consequências. “Se a pessoa leva em conta o sofrimento e busca ajuda no momento do sofrimento, ela evita que a doença se instale”, explicou.

Informação em excesso e diagnósticos apressados

O Dez Por Cente Mais também abordou a transformação na relação entre pacientes e profissionais de saúde mental. O acesso à informação ampliou o conhecimento das pessoas sobre transtornos psicológicos, e trouxe um efeito colateral: a tendência ao autodiagnóstico.

Bottura observa que muitos pacientes chegam ao consultório já convencidos de que possuem determinado transtorno. “Hoje qualquer pessoa faz diagnóstico respondendo algumas perguntas na internet”, disse. Para ele, esse processo pode gerar confusão, porque sintomas isolados não são suficientes para definir um quadro clínico.

O psiquiatra chamou atenção para o crescimento de diagnósticos de transtornos como ansiedade, TDAH e autismo. Parte desse aumento reflete maior acesso à informação e redução do preconceito. Ao mesmo tempo, segundo ele, existe o risco de avaliações superficiais. “Aumentou o número de diagnósticos, aumentou a informação, mas também aumentou a meia informação.”

O risco do excesso de remédios

A discussão sobre o uso de medicamentos ocupou parte importante da conversa. Bottura afirma que os remédios têm papel relevante na psiquiatria, desde que usados com diagnóstico adequado. “Eu sou favorável ao remédio. Eu sou favorável a um diagnóstico preciso”, afirmou.

Segundo ele, há situações em que a medicação é indispensável e outras em que seu uso pode ser excessivo. Um dos riscos, explicou, é medicar pessoas que não têm o transtorno diagnosticado. Nesse caso, o tratamento não produz efeito e pode gerar descrédito:. “O problema é que depois a pessoa diz: ‘O remédio não funciona’. E isso cria resistência em quem realmente precisa do medicamento.”

Outro ponto destacado pelo psiquiatra é que o diagnóstico deve considerar não apenas o transtorno, mas também o contexto de vida da pessoa. Em alguns casos, acrescenta, o sofrimento está ligado às circunstâncias em que a pessoa vive. Medicá-la sem mudar essas condições pode apenas prolongar o problema.

A arte como caminho de compreensão

Ao longo da entrevista, Bottura ampliou a reflexão sobre saúde mental ao falar do papel da arte no desenvolvimento emocional. Para ele, cinema, literatura e música ajudam as pessoas a compreender experiências humanas complexas. “A arte chega ao conhecimento muito antes que a ciência”, afirmou.

O psiquiatra relatou que há quase três décadas conduz um projeto chamado Cine Debate, no qual exibe filmes e promove discussões com o público. A proposta é estimular o aprendizado indireto, ou seja, quando alguém aprende observando a experiência de outras pessoas ou personagens.

“Eu aprendo com a dor do outro”, explicou. “No cinema, no romance, no teatro, eu vejo o sofrimento do personagem, me identifico com ele e me desenvolvo a partir dessa experiência.”

A música também ocupa espaço central na visão de Bottura sobre saúde emocional. Além de psiquiatra, ele compõe canções e estuda os efeitos da música no comportamento humano. Cantar e dançar são atividades que favorecem vínculos afetivos e bem-estar. “Não precisa cantar bem. Precisa cantar”, afirmou. “Cantar aproxima pessoas.”

O médico ressalta que a música pode ajudar a reduzir o estresse, fortalecer relações sociais e estimular a curiosidade, fator que considera essencial para a vitalidade ao longo da vida. “Quando eu não tenho mais curiosidade, eu morro”, disse.

A importância de ser quem se é

Bottura resumiu sua visão sobre saúde mental e desenvolvimento humano. Para ele, a vida emocional não se resolve apenas com diagnósticos ou medicamentos. O processo envolve também autoconhecimento, expressão e relações afetivas. “A coisa mais importante da nossa vida é saber ser a gente mesmo”, afirmou. “As pessoas precisam se permitir expressar seus sentimentos, suas opiniões, o que vem da sua alma.”

Na avaliação do psiquiatra, atitudes simples — como cultivar vínculos, manter curiosidade e abrir espaço para a arte — podem contribuir de forma significativa para o equilíbrio emocional e a qualidade de vida.

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Dez Por Cento Mais: Carol Campos, do Vozes da Educação, fala da culpa que atravessa a maternidade

“Nasce alguém, nasce a culpa.”

A cada geração, a régua da maternidade muda — e quase sempre sobe. Se antes o desafio era garantir a sobrevivência dos filhos, depois veio a exigência de fazê-los trabalhar, formar família ou conquistar independência. Hoje, soma-se a tudo isso a pressão por desempenho profissional, equilíbrio emocional e presença constante. A culpa, diz Carol Campos, acompanha essa trajetória histórica e se instala como parte do modo de existir feminino. O tema foi discutido em entrevista ao programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.

Professora, advogada, mestre em políticas públicas e diretora executiva do Vozes da Educação, Carol analisa como a culpa atravessa a maternidade contemporânea, a escola e o esgotamento feminino.

Culpa que não depende do erro

Para Carol, a culpa não surge apenas quando algo dá errado. Ela aparece, inclusive, quando tudo parece funcionar. “Quando tudo está funcionando, a gente pensa: ‘Nossa, por que que eu não tô fazendo melhor?’ E aí a culpa vem ainda mais forte.”

Segundo ela, mulheres foram socializadas para se cobrar permanentemente. “A gente aprendeu na nossa sociedade que nós nunca somos bons o suficiente.” No ambiente profissional, relata, a exigência é elevada. “Enquanto profissionais, a gente tem que se provar 10 vezes mais do que um homem.” Em casa, a cobrança se amplia: sucesso não é apenas carreira consolidada, mas também família harmoniosa.

Carol observa esse padrão na própria empresa, formada apenas por mulheres. “Não tem uma que fale para mim: Eu acho que eu não fiz bem o suficiente.” Ela compara com experiências anteriores em equipes mistas e afirma que o nível de detalhamento e autocobrança costuma ser maior entre elas. Para a entrevistada, trata-se de um traço aprendido desde a infância.

Escola, mães e a sobrecarga invisível

A escola, na avaliação de Carol, ainda reforça essa sobrecarga. Comunicados, cobranças e convites são, em geral, direcionados às mães. “Mensagem na agenda ou no aplicativo, vai para a mãe.” Ela questiona a ausência paterna nas interações formais: “O grupo de WhatsApp da escola é de mães, é o grupo das mães. Cadê os pais?”

A crítica não ignora a responsabilidade masculina, mas aponta um padrão institucional. Para ela, pequenas mudanças — como incluir pai e mãe igualmente nas comunicações — já alterariam a dinâmica.

Carol também chama atenção para a tendência de famílias buscarem escolas com perfis semelhantes aos seus. “Escola é espaço de diversidade.” Ao restringir a convivência a grupos com valores e condições socioeconômicas parecidos, perde-se a oportunidade de ampliar repertórios. A diversidade, argumenta, faz parte do processo formativo.

Falha ou esgotamento?

Quando se fala em crise da parentalidade, Carol vê dois fatores combinados. De um lado, a comparação constante entre mães. “Existe uma culpa velada.” De outro, o isolamento na criação dos filhos. “A gente entendeu que cada um tinha que criar seu filho.” Para ela, isso contraria a história humana. “Crianças sempre foram criadas no coletivo.”

A ausência de rede de apoio gera esgotamento. Carol defende a construção de comunidade, seja presencial ou à distância. “Se a gente faz tudo sozinha, a gente vai esgotar, não tem jeito.”

Ela também aborda o conceito de “mãe suficientemente boa”. A expressão, conhecida na psicologia, ganha contornos práticos em sua fala. “Eu tive que aprender que tava tudo bem eu ser essa mãe.” Mãe que trabalha, que esquece a cartolina, que compra pão de queijo na padaria para a festa da escola. Para ela, reconhecer limites é parte do processo.

Aprender a mudar

Um episódio pessoal marca essa virada. Ao ajudar o filho a lidar com uma frustração escolar, Carol percebeu, dias depois, que ele reproduziu a mesma estratégia para acalmá-la. “Mãe, vamos tomar uma aguinha, vamos respirar três vezes.” A cena, segundo ela, redefiniu sua forma de maternar.

Carol ressalta que o conhecimento sobre desenvolvimento humano é recente e ainda pouco presente na formação docente. “Criança tem manual de instrução.” Para ela, compreender o funcionamento do cérebro e das emoções transforma a relação entre adultos e crianças.

Vozes da Educação

À frente do Vozes da Educação, Carol atua com redes públicas e privadas em situações de emergência, como violência, bullying e crises climáticas. Também desenvolve projetos para fortalecer o vínculo entre família e escola. O objetivo, afirma, é criar ambientes mais seguros e harmoniosos.

Para encerrar, ela deixa duas recomendações. Às escolas, investir no relacionamento com as famílias. Às famílias, buscar informação qualificada sobre parentalidade. “Tem jeito certo e tem jeito errado de criar filho. E é muito bom quando a gente vai pelo certo.”

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Inscreva-se agora no canal Dez Por Cento Mais no YouTube e receba alertas sempre que um novo episódio estiver no ar. Você pode ouvir, também, em podcast no Spotify. A apresentação é de Abigail Costa e a produção de Amanda Alves Costa.

Dez Por Cento Mais: Leny Kyrillos explica por que você falou, falou e não disse nada

“Comunicação não é o que sai da minha boca. Comunicação é o que chega no seu ouvido.”

Uma conversa pode terminar em cooperação ou em conflito antes mesmo de o assunto ficar claro. O motivo, diz a fonoaudióloga Leny Kyrillos, está menos no conteúdo e mais no impacto que provocamos no outro: “É já nos primeiros segundos de contato que o outro gosta ou desgosta, confia ou desconfia”. O tema foi assunto de entrevista no programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.

Leny contesta um dos mitos mais repetidos sobre o tema. “Existe meio que um mito que comunicação é dom”, afirma. Para ela, essa crença atrapalha porque desestimula treino e desenvolvimento. “Nós todos, sem exceção, temos a oportunidade de desenvolvermos, de apurarmos essa competência.”

Quando a comunicação vira gatilho de conflito

Leny descreve a comunicação como um processo que cria percepção. “Quando nós nos comunicamos, nós construímos percepção.” E essa percepção tem três características que exigem atenção: acontece rápido, é inconsciente e gera reação.

“Assim que eu gero esse impacto, o meu interlocutor reage a mim.” Por isso, ela defende que não dá para terceirizar o efeito. “Nós percebemos que somos nós os responsáveis em gerarmos o impacto que a gente tá buscando.”

A consequência aparece no cotidiano, em cadeia. Leny explica como um estado emocional negativo pode distorcer a entrega e produzir respostas reativas: “Aquilo que eu digo e especialmente a maneira como eu digo, vai gerar um mal-entendido”. O desconforto não para ali. “O pobrezinho que passar perto de você depois desse processo, vai te pegar incomodada, chateada comigo, brava.”

Ela também chama atenção para o que fica preso na garganta. “Eu costumo dizer que a fala é terapêutica.” Segundo Leny, verbalizar ajuda a organizar emoção e regular o ambiente interno: “Na medida em que eu sinto algo e sou capaz de verbalizar aquilo que eu estou sentindo, eu consigo organizar a minha emoção”.

O trio que decide o que o outro entende

A percepção, explica Leny, nasce do encontro entre três grupos de recursos: verbal, não verbal e vocal. “O que constrói essa percepção é o resultado de um trio de recursos.” No verbal, temos palavras e organização da mensagem. No não verbal, postura, gestos, expressão e olhar. No vocal, velocidade, articulação, volume e tom.

Existe um pesquisa clássica que diz que 53% do impacto da comunicação está no não verbal, 38% no verbal e apenas 7% no vocal. Leny alerta sobre a interpretação errada que se costuma fazer diante desses dados publicados pelo doutor Albert Mehabian, da Universidade de Los Angeles. Os dados podem gerar distorção no comportamento do comunicador. Na explicação de Leny, o ponto central é a incoerência entre os sinais emtidios por esses recursos.

Ela dá um exemplo direto, com humor. Se alguém diz estar feliz, mas o rosto desmente, o rosto vence. “Você não vai acreditar, porque o não verbal grita mais alto do que o verbal.” E completa com uma cena comum: “Quantas vezes… a gente segura o palavrão na ponta da boca, mas a cara de brava e o tom agressivo, a gente não consegue disfarçar.”

Voz: identidade, corpo e emoção

Leny entra no território que domina há décadas: a voz. “A nossa voz é tão única quanto a nossa impressão digital.” Para explicar como produzimos nossa voz, a fonoaudióloga leva o ouvinte ao básico, sem perder a precisão: “Nós temos um tubo no pescoço que se chama laringe, dentro desse tubo tem as tais das cordas vocais”.

Ela conta que se decepcionou ao ver a estrutura pela primeira vez. “Eu tinha uma imagem mental… de umas oito cordas vocais… e quando eu fui lá… eu tive uma grande decepção, porque se trata… de uma estrutura extremamente simples.” São duas, em formato de V. O som nasce fraco e é ampliado pelas cavidades de ressonância: garganta, boca e cavidade nasal.

A voz, diz ela, revela três dimensões: física, psicoemocional e sociocultural. “Existem três dimensões que impactam nas nossas escolhas de produção de voz.” Corpo influencia o grave e o agudo. Personalidade colore o tom. Ambiente social marca o jeito de falar. “Quando eu utilizo a minha voz, eu te dou informações muito sólidas sobre essas três dimensões.”

Leny ainda demonstra como pequenos ajustes mudam a impressão de quem escuta — nasalidade, foco na garganta, retirada de ressonância. E mostra que, em certos contextos, a “distância” vocal pode ser uma escolha estratégica. “Às vezes, minha querida, isso é desejável.”

Inteligência artificial imita, mas não copia

O tema da voz leva inevitavelmente à tecnologia. Leny reconhece os avanços e cita aplicações importantes para pessoas que perderam a fala. “Eles conseguiam sintetizar a voz da pessoa… e esse texto seria lido com a voz sintetizada dela.”

Ela também relata um teste pessoal, com uma frase conhecida do rádio. “Eu gravei… eu falando a minha entrada habitual que é: ‘Boa tarde, Sardenberg. Boa tarde, Cássia. Boa tarde a todos’.” A semelhança enganou por alguns segundos, mas não sustentou. “Dá para perceber que não é a mesma coisa… era uma entonação diferente, uma pausa em lugar que habitualmente eu não utilizaria.”

No meio da entrevista, Abigail compartilha uma cena de supermercado: o Gerente fala, fala, e a Caixa resume o problema de forma certeira. “Falou, falou e não comunicou nada.” A conclusão puxa um conceito que Leny endossa: “Comunicação não é o que sai da minha boca.”

Para chegar mais perto do que o outro precisa, Leny coloca a escuta como condição: “Não dá para eu me comunicar bem sem escutar, sem perceber quem é você, quais são os seus anseios, o que você precisa naquela relação de comunicação comigo. Quanto mais eu tiver dados sobre isso, ou seja, quanto mais eu estiver aberta a uma escuta empática, ativa direcionada, mais eu consigo direcionar minha fala para atingir a sua necessidade”.

A conversa que você tem consigo mesmo

Leny amplia o tema para dentro da cabeça. “Eu quero chamar a atenção… para aquilo que a gente chama de autofala.” Ela cita frases comuns e duras que sabotam atitudes: “Ai, que burra… Ai, que droga… Ai, que medo que eu tô sentindo.”

E conecta pensamento, emoção e comportamento: “Cada pensamento que nós temos gera em nós uma emoção e essa emoção gera em nós uma atitude.” Depois, apresenta a “via de mão dupla”: atitude também mexe com emoção e pensamento. “A nossa atitude comunicativa também impacta… na nossa emoção.”

Ela descreve uma cena da TV: o repórter em um dia ruim, mas tendo que entrar ao vivo. Faço o quê? A orientação é prática: postura, voz, articulação, sorriso. O efeito vem na sequência em forma de agradecimento: “Nossa, Leni, você sabe que eu tô me sentindo melhor?” Para Leny, o corpo também informa o cérebro.

Ao fim da conversa, ela deixa um convite. “O convite é para que a gente procure desenvolver uma boa comunicação nas nossas relações.” E amarra com uma frase que aponta responsabilidade: “Uma boa comunicação é o resultado de algo que vem de uma boa pessoa. Então, que a gente se dedique a nos tornarmos seres humanos cada vez melhores, identificando os nossos pontos fortes e colocando-os a serviço das pessoas que estão ao nosso redor, porque o nosso talento tem que ser direcionado e colocado a serviço do outro”.

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Dez Por Cento Mais: psiquiatra Maria Carol Pinheiro pede atenção para o “corpo que para” com a mente em alerta

“Saúde mental não é sobre estar feliz, é sobre estar inteiro.”

Maria Carol Pinheiro, psiquiatra

Janeiro costuma ser vendido como recomeço, lista de metas e agenda em branco. Para muita gente, ele chega com outro pacote: exaustão. O corpo desacelera, o calendário vira a página, e a cabeça continua correndo, como se não tivesse recebido o aviso de que o ano mudou. Esse descompasso — entre o que a gente faz e o que a gente sente — é o centro da conversa com a psiquiatra e psicoterapeuta Maria Carol Pinheiro no programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.

Maria Carol propõe uma pergunta simples, que costuma desorganizar certezas: quando falamos de saúde mental, o que separa “estar saudável” de “estar doente”? Para ela, o ponto de virada não está na ausência de tristeza ou angústia, e sim na liberdade. “Se eu posso escolher, isso é saudável. Agora, se eu estou aprisionado, se eu não consigo escolher, aí seria o adoecimento”, afirma.

A ideia contraria uma fantasia comum: a de que saúde mental seria viver sem oscilações. Na prática clínica, ela diz encontrar o oposto. “Eu já conheci pessoas que não têm angústia, que não encostam na tristeza… Essas pessoas não têm saúde mental.” Na visão dela, a vida psíquica inclui sentir e atravessar emoções — sem paralisar nelas.

Quando a dor faz parte da saúde

A psiquiatra chama atenção para um erro frequente: tratar sofrimento como sinônimo de doença. “Às vezes a gente está passando por períodos de sofrimento que nos tornam mais nós mesmos.” O problema, para ela, é a interrupção do movimento interno: “O adoecimento é a paralisação disso.”

É nesse ponto que Maria Carol critica a pressa em etiquetar sentimentos. Ela defende que o primeiro passo não é colecionar diagnósticos, e sim perceber o básico: “A gente precisa fazer dois diagnósticos: tudo vai bem comigo; algo não vai bem comigo. É isso que importa.” O nome técnico, se for necessário, entra depois — com acompanhamento profissional.

Ao falar do excesso de informação (especialmente nas redes), ela descreve um tempo em que “estamos adoecidos do tempo” e resume a consequência: “A gente tem desaprendido de descansar.” Descansar, para ela, não é só dormir. Existem cansaços diferentes: “cansaço social”, “cansaço sensorial”, “cansaço mental”, “cansaço emocional”, “cansaço criativo” e “cansaço espiritual”. A chave prática, ela diz, é observar funcionalidade e recuperação: “Quando eu descanso, passa? Eu realmente consigo descansar e passar?”

A conversa também toca numa confusão atual: o impulso de anestesiar o que dói — e, com isso, perder algo importante do próprio viver. Maria Carol lembra que “tirar a dor é tirar a vida” e cita uma medida simples para checar exageros: “Fique atento a tudo aquilo que é desproporcional ao tempo presente.” Quando a reação é grande demais para o fato de agora, pode haver “emoção de outro tempo” pedindo investigação.

No fim, ela amarra janeiro a uma metáfora antiga: Janus, o deus romano de duas faces, olhando passado e futuro. A ideia é direta: recomeço sem revisão vira repetição. E a revisão, segundo ela, passa por uma espécie de liderança interna — disciplina sem brutalidade. “Não existe liberdade sem disciplina”, afirma. E cita Kant: “Liberdade é também fazer o que não se quer.”

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Dez Por Cento Mais: psicóloga Beatriz Breves diz que não ter medo de sentir ajuda a chegar ao fim do ano

Detalhe da capa do livro “Falando de Sentimentos”

Dezembro tem um jeito próprio de cobrar a conta do ano. O corpo segue, a agenda insiste, as festas aparecem no calendário, e a cabeça começa a fazer balanços que ninguém pediu. Na conversa com a psicóloga e escritora Beatriz Breves, uma pergunta atravessa o período: como cuidar da saúde mental ao longo dos meses para não chegar ao fim do ano esgotado? O tema foi discutido no programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela psicóloga e jornalista Abigail Costa.

Autora do livro “Falando de Sentimentos” (Mauad X), Betriz propõe um critério direto para perceber quando o desgaste passou do ponto: “Sofrimento. Excesso de sofrimento”. Ela faz uma distinção importante: sofrer faz parte do caminho. O problema começa quando a dor “atrapalha” o cotidiano, o trabalho e os afazeres. Nesse caso, a orientação é clara: buscar ajuda. “A medida é o quanto a pessoa aguenta… quanto você aguenta o peso”, resume.

A conversa também vira o espelho para o outro lado da balança: o que seria um ano emocionalmente bem vivido? Para Beatriz, não é um inventário de metas cumpridas para agradar os outros. É mais íntimo e menos exibível: “um ano que você tá satisfeito com o que você é e fez”. Ela reforça que não existe régua única. “Cada ser humano é único”, diz, ao criticar a mania de enquadrar pessoas em modelos de sucesso e produtividade.

Metas, comparações e o cansaço de viver a vida do outro

Ao falar de metas, Beatriz usa uma imagem simples: saber tudo sobre bicicleta não ensina ninguém a pedalar. “Para realizar, a gente tem que viver”, afirma. A crítica dela mira o excesso de teoria e a promessa repetida, ano após ano, sem experiência concreta no meio do caminho.

A pressão social aparece como motor desse cansaço. “A pessoa às vezes se exige… por uma exigência social”, observa, citando exemplos comuns: corpo, hábitos, fins de semana, padrões de vida. O ponto, segundo ela, não é abandonar a saúde ou desistir de melhorar. É calibrar o que cabe. “A gente tem que viver o que a gente é. Simples assim. A vida é muito simples. A gente é que o complica.”

Essa lógica se conecta a um tema recorrente no fim do ano: a ansiedade. Beatriz define de forma direta: “A ansiedade é você estar perdido em si mesmo”. A saída, para ela, começa num gesto pequeno: parar, reconhecer o tumulto interno e reconstruir um caminho possível. “Calma. Confia”, diz, como quem dá um comando simples para uma mente que está acelerada.

Sentimentos não andam sozinhos

Um dos pontos centrais da conversa é o que Beatriz chama de alfabetização emocional — a capacidade de nomear o que se sente. Ela afirma que muita gente trava quando é convidada a listar emoções: “Me dê 10 sentimentos. As pessoas não conseguem.” A partir daí, ela desmonta uma ideia comum: a de que um sentimento aparece isolado. “A tristeza é uma orquestra”, explica. Por trás do que está em primeiro plano, há outras emoções sustentando a pessoa, mesmo que discretas.

Ela dá outro exemplo, com o amor: “O amor constrói depende com quem ele tá andando.” Se caminha com posse, ciúme e inveja, vira destruição. Se anda com altruísmo e generosidade, pode virar construção. A chave está no conjunto e, principalmente, no que se faz com aquilo que se sente. “O problema não é sentir, o problema é o que você vai fazer com o que está sentindo.”

A inveja, um sentimento que costuma ser escondido, também surge na conversa. Beatriz defende o reconhecimento, não a celebração. “Se eu posso sentir inveja e devo sentir inveja”, diz, explicando que perceber o que está dentro ajuda a ler o que acontece fora. O trabalho, então, passa a ser de contenção da ação e transformação do estado emocional, não por apagamento, mas por mistura, como na metáfora do café com leite: “você pede um café e põe o leite, aí já não é mais café, nem leite”. 

Coragem para escolher o que é coerente

Quando a conversa chega ao tema das prioridades, Beatriz aponta para uma coragem pouco valorizada: escolher diferente da maioria. “É preciso coragem para você tomar uma decisão que a maioria não toma.” Ela conta uma história de início de carreira, em que decidiu seguir a própria intuição na inscrição de um concurso. O desfecho virou argumento: escolhas carregam risco, e a gente só conhece o caminho depois de andar. O termo que ela escolhe para amarrar esse raciocínio é “coerência”: “A gente tem que ser coerente com o que está sentindo, com o que está vivendo e com as nossas escolhas.”

No fim do ano, essa coerência costuma ser testada pela saudade, pela nostalgia e pelo balanço do que mudou. Beatriz descreve o período como uma “salada de frutas” de emoções: lembranças de quem se foi, comparações inevitáveis, uma sensação de que “várias vidas” cabem dentro de uma vida só. O cuidado, segundo ela, não é abafar o passado nem viver preso nele. É reconhecer o sentimento, “convidá-lo” e seguir sem ficar refém.

Ao falar de compaixão e cobrança, ela recorre a uma experiência antiga numa enfermaria com pacientes idosas. O aprendizado, segundo Beatriz, vinha do contraste: quem conseguia olhar para trás com algum grau de satisfação sofria menos. Ela sintetiza a lição num formato que serve para qualquer idade: não dá para fazer tudo, mas é possível buscar uma vida em que “o que eu fiz me satisfez”.

A dica final do episódio, com a marca do Dez Por Cento Mais, vira quase um bilhete de fim de ano sem frase feita: “Não tenha medo de sentir… se permita se conhecer.” Para Beatriz, a dificuldade maior não é a falta de informação. É a falta de contato consigo. “A gente tem um mundo interno tão grande quanto o externo”, diz, lembrando que o autoconhecimento não é luxo; é higiene emocional.

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Dez Por Cento Mais: Cláudia Franco propõe uma revolução da longevidade com propósito

Foto de cottonbro studio

“Eu não preciso ter e nem quero ter a cara de 30, porque eu já tive essa cara. Eu quero ter cara de saúde.

Cláudia Franco, Envelheça com Saúde e Propósito

A sociedade brasileira está envelhecendo em ritmo acelerado, e um fenômeno demográfico notável aponta para a feminilização da velhice: as mulheres representam a maior parte da população idosa, com 72% dos centenários sendo do sexo feminino. A tendência, no entanto, vem acompanhada de desafios como sobrecarga de trabalho, responsabilidade como cuidadora familiar e, muitas vezes, menor renda. Esse panorama do envelhecimento e a importância das escolhas individuais para uma vida longeva com qualidade são o foco da entrevista com Cláudia Franco, criadora de conteúdo digital, atleta, mentora, modelo 60+ e empresária, no programa Dez Por Cento Mais, no YouTube, apresentado pela psicóloga e jornalista Abigail Costa.

O confronto com o “Anti-Envelhecimento”

Cláudia Franco, que começou a compartilhar suas reflexões no Instagram ao se aproximar dos 60 anos, confronta a resistência social em aceitar a velhice, muitas vezes mascarada em elogios como “você não parece a idade que tem”. Para ela, essa mentalidade reflete um preconceito incutido na sociedade:

“Eu nunca vi o envelhecer como algo ruim. É o que eu estou me tornando, eu estou me transformando, o ser humano está em transformação desde quando nasce.”

A especialista defende o movimento pró-envelhecimento (pro-aging), em oposição ao termo anti-aging (anti-envelhecimento) frequentemente usado pela indústria.

“Eu sou avessa a esse termo, porque a gente tem que combater aquilo que é ruim, por exemplo, uma doença. Quando a gente fala anti-aging, a gente está combatendo o nosso envelhecimento, um processo natural do ser humano.”

O objetivo do autocuidado, explica, não deve ser o de esconder ou eliminar as marcas da idade, mas sim de garantir a saúde e a preservação da característica individual. A motivação por trás das escolhas de aparência é o ponto central. Por exemplo, cada um define se quer pintar o cabelo ou não, o importante é o seu propósito: “Essa corrida para permanecer com a cara de jovem, isso me incomoda, porque eu acho que é sofrimento. Não tem pior coisa na vida do que você estar desconfortável dentro da própria pele“, afirma.

A lição de casa da maturidade

A maturidade, segundo Cláudia Franco, traz consigo uma grande liberdade por desvincular o indivíduo da necessidade de se adequar a padrões.

“Eu não preciso estar ali encaixada em nenhum padrão, isso é a maior liberdade que uma mulher pode ter. Sabe, você ser feliz e segura com o que você é.”

No entanto, essa liberdade exige um compromisso ativo com a própria longevidade. A entrevistada destaca a importância de o indivíduo buscar autonomia — física, mental e financeira — para evitar a dependência de terceiros. Esse preparo é fundamental, visto que a fase da velhice pode ser a mais longa da vida.

“Eu posso ser longeva, mas não significa que eu vou ser saudável, eu posso ser longeva e estar na cama. Eu quero viver esses meus 20, 30, quem sabe, 40 anos, mas eu quero viver com saúde.”

Cláudia Franco, ao relatar sua própria mudança de vida de São Paulo para o litoral, exemplifica a “faxina” necessária: simplificar a vida, desapegar-se e se preparar financeiramente. Ela ressalta que a maturidade não é uma fase de descanso, mas sim de troca de demandas, mantendo-se em atividade constante.

“Não é uma fase que a gente vai parar e descansar, a gente vai trocar as demandas. A gente não pode parar, porque eu vejo que tem alguém que fala: ‘ah, se parar enferruja’. E é verdade, se você para seu corpo recente.”

A menção do envelhecimento como tema de redação na mais recente edição do ENEM trouxe a discussão para perto de gerações mais jovens, reforçando a urgência em pensar o futuro. Contudo, Cláudia Franco observa que grande parte dos jovens não está ativamente se preparando para envelhecer, enquanto uma parcela dos 50+ já despertou para a necessidade de manter o “veículo funcionando” por décadas à frente. Ao final, ela deixou uma mensagem sobre empatia e acolhimento:

“Quando a gente acolhe o envelhecimento do outro, consegue entender o nosso próprio. Envelhecer está na moda.”

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Dez Por Cento Mais: Diego Félix Miguel fala sobre os desafios das velhices LGBT+

Foto de cottonbro studio

Não é o outro falar de nós, é nós falarmos sobre a nossa existência

Diego Félix Miguel

Uma geração de lésbicas, gays, bissexuais, pessoas trans, travestis e transgêneros chegou à velhice carregando marcas de rompimentos familiares, da epidemia de HIV/Aids e de um sistema de saúde que muitas vezes as afasta, em vez de acolher. Nesse cruzamento entre idade, gênero, orientação sexual e desigualdade, estão as velhices LGBT+, tema tratado por Diego Félix Miguel, doutorando em saúde pública e presidente do departamento de gerontologia da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, em entrevista à jornalista e psicóloga Abigail Costa, no programa Dez Por Cento Mais.

Velhices plurais, vulnerabilidades acumuladas

Diego propõe que o ponto de partida seja enxergar o envelhecimento como conquista coletiva. “Eu acredito que nós precisamos pensar na longevidade como uma grande conquista”, afirma. O aumento da expectativa de vida está ligado a avanços científicos, tecnológicos e ao acesso à informação. Essa conquista, porém, não é distribuída da mesma forma para todas as pessoas.

Ele lembra que desigualdades atravessam a vida inteira: raça, gênero, identidade de gênero, orientação sexual, classe social. “Quando falamos de velhices, nós estamos falando de pluralidade”, resume. A ideia de “velhices”, no plural, tenta corrigir a imagem homogênea da pessoa idosa e expõe grupos que chegam à longevidade sob maior risco de violência, violação de direitos e isolamento.

Ao tratar especificamente das velhices LGBT+, Diego volta no tempo. Ele lembra que o movimento ganhou mais visibilidade a partir dos anos 1960, quando parte da população LGBT começou a se colocar publicamente. Esse gesto teve custo alto: “Muitas pessoas romperam vínculos familiares, porque, ao invés de receberem conforto e segurança, encontravam violência”, explica.

Longe de suas famílias de origem, essas pessoas formaram redes afetivas também conhecidas por famílias de escolha. O alicerce dessa rede, porém, foi abalado nas décadas de 1980 e 1990, com a epidemia de HIV/Aids. “As pessoas sobreviventes desse episódio são as que chegaram na velhice hoje”, diz Diego. Muitas perderam amigos, companheiras e companheiros, e envelhecem com redes de apoio fragilizadas.

Idadismo, saúde e medo de buscar cuidado

Além da história marcada por perdas e exclusões, essas pessoas enfrentam um obstáculo que atinge toda a população idosa, mas com impacto específico sobre quem é LGBT+: o idadismo, o preconceito baseado na idade. “Um dos aspectos que o idadismo traz é a invisibilidade da sexualidade e do gênero na velhice”, aponta.

Na prática, isso significa ver a pessoa idosa como alguém sem desejo, sem vida sexual, sem identidade de gênero que mereça atenção. Se esse apagamento já pesa sobre idosos em geral, o efeito se agrava quando se trata de uma mulher lésbica, de um homem gay, de uma pessoa trans ou travesti.

Diego cita pesquisas que mostram um padrão preocupante: “Muitas pessoas LGBT deixam de frequentar os serviços de saúde, de fazer exames preventivos ou acompanhamento médico, justamente por medo de sofrerem violência”. Esse medo nasce de experiências anteriores, em que não foram tratadas pelo nome social, tiveram sua identidade de gênero desconsiderada ou ouviram comentários discriminatórios.

Quando finalmente procuram ajuda, costumam esperar até o limite da dor ou da doença. E ainda correm o risco de enfrentar um atendimento violento, explícito ou sutil. Diego descreve situações em instituições de longa permanência para idosos em que o acolhimento é condicionado à ideia de que a pessoa LGBT precisa “se encaixar” em uma norma que nega quem ela é. Em alguns casos, pessoas trans são pressionadas a destransicionar para serem aceitas pela instituição. “Isso é perverso, é violento, é sutil, é silencioso e dói tanto quanto uma violência física”, resume.

Segurança, trabalho e renda: o impacto da exclusão

A discussão sobre saúde se mistura com outra camada de vulnerabilidade: a segurança financeira. Muitos idosos LGBT viveram na informalidade. Diego lembra que a escola, para uma parte das pessoas trans, era um ambiente hostil; o mercado formal de trabalho, pouco acessível; a discriminação, recorrente.

O resultado aparece agora, na velhice, em trajetórias marcadas por baixa renda, aposentadorias insuficientes ou inexistentes e dependência de redes de apoio que nem sempre existem. “São pessoas que sobreviveram a múltiplos processos de violência e demandam um cuidado maior em saúde mental”, explica. Depressão, pensamentos suicidas e isolamento social surgem como sinais de alerta.

Diego reforça que o isolamento é um fator central para a perda de autonomia e independência na velhice, o oposto do que se busca quando se fala em envelhecimento ativo: viver com dignidade, com possibilidade de decisão e com apoio adequado depois da aposentadoria.

Ambientes seguros e o papel dos profissionais

Uma parte importante da conversa passa pela formação de profissionais e pelo modo como eles se apresentam aos pacientes. Do preenchimento de um formulário à maneira de fazer perguntas, detalhes revelam se aquele espaço é acolhedor ou excludente.

Diego destaca um ponto simples, mas decisivo: abandonar perguntas que presumem heterossexualidade, como “qual é o nome do seu marido?” ao atender uma mulher. Para ele, o cuidado começa ao abrir espaço para que a própria pessoa nomeie sua realidade. Quando o serviço se mostra preparado para isso, a percepção muda. “Quando pessoas idosas LGBT chegam em um ambiente e percebem que há profissionais assumidamente LGBT, elas se sentem mais confortáveis e confiantes”, observa.

Em alguns países, profissionais aliados exibem símbolos, como a bandeira do arco-íris, para indicar que aquele consultório é um espaço sem discriminação. O objetivo não é criar um rótulo, mas sinalizar que a conversa sobre gênero e sexualidade pode acontecer sem medo.

Isso, porém, não elimina o risco de reforçar estereótipos. Diego alerta que, na tentativa de “fazer o certo”, serviços podem criar soluções que, na prática, segregam — como reservar um “quartinho” específico para uma idosa trans dentro de uma instituição, em vez de garantir o direito de ela viver no espaço das mulheres, em condições de igualdade.

Representatividade e a recusa da neutralidade

A presença de pesquisadores e profissionais LGBT na produção de conhecimento sobre velhices LGBT é outro eixo que Diego considera decisivo. “Não é o outro falar de nós, é nós falarmos sobre a nossa existência”, afirma.

Ele menciona o movimento de pessoas trans que reivindicam o direito de estudar e pesquisar suas próprias experiências de envelhecimento. A defesa é direta: políticas públicas, práticas de cuidado e pesquisas ganham outra profundidade quando formuladas por quem vive na pele as consequências do preconceito.

Nesse contexto, Diego rejeita a ideia de neutralidade como valor. A referência a Paulo Freire ajuda a organizar o raciocínio. “A neutralidade nada mais é do que a covardia de não se ter um posicionamento”, diz. Silenciar diante da discriminação não elimina o conflito; apenas cede espaço para que a estrutura de poder vigente siga intacta.

Ele lembra que já existem projetos de lei no Congresso voltados à criação de uma política nacional para pessoas idosas LGBT+, com foco na integração entre SUS (Sistema Único de Saúde) e SUAS (Sistema Único de Sistemas Sociais) e na qualificação dos serviços que já atendem a população idosa. A ampliação do acesso à educação, inclusive por meio de cotas, também é citada como caminho para que pessoas LGBT ocupem universidades, campos de pesquisa e espaços de decisão.

A dica Dez Por Cento Mais

Na parte final da entrevista, Diego volta a um ponto que atravessa toda a conversa: a importância de transformar gênero e sexualidade em temas que possam ser tratados em família, sem segredo nem tabu. “Vale muito a pena perguntar sobre a vivência dessas pessoas, escutar mais e supor menos”, recomenda.

Ele relata casos de alunos que, após suas aulas, perceberam que nunca tinham perguntado a um irmão gay como ele se sente nos lugares que frequenta, quais medos carrega, de que mudanças precisa para se sentir seguro. A sugestão de Diego é simples e direta: trazer esse assunto para a mesa, inclusive em um almoço de domingo.

Para as famílias que têm filhos, filhas, netos ou netas LGBT+, o recado é claro: a escuta pode ser ponto de partida para uma velhice com mais dignidade, menos isolamento e menos medo. E, para profissionais de saúde e para a sociedade em geral, a entrevista funciona como um convite à responsabilidade: reconhecer as velhices LGBT+ como parte legítima da população idosa e ajustar práticas, protocolos e políticas a essa realidade.

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Dez Por Cento Mais: projeto propõe psicoterapia “sem fila de espera”

Foto de SHVETS production

“O autocuidado é direito de todos.”
Vanessa Maichin, psicóloga

Em um ano, um projeto de atendimento psicológico formou uma rede com 45 psicólogos e chegou a quase 600 pessoas atendidas, oferecendo psicoterapia sem fila de espera e valores sociais a quem está em vulnerabilidade. Esse foi o ponto de partida da conversa sobre o Psicoterapia para Todos, tema da entrevista no programa Dez Por Cento Mais, apresentado por Abigail Costa, no YouTube, que tamém participa do projeto ao lado da psicóloga Vanessa Maichin e Gislene Gomes Koyama, suas duas entrevistadas.

Como nasceu e para quem é o projeto

Idealizadora do Psicoterapia para Todos, Vanessa relatou a origem da iniciativa: “O projeto nasceu de uma meditação e o que aparece em uma meditação nunca vem do nada.” Ela explicou que a iniciativa reúne dois propósitos: ampliar o acesso de quem não conseguiria pagar por terapia e apoiar o aprimoramento de psicólogos clínicos. Segundo Vanessa, a estrutura inclui requisitos e suporte profissional: “O psicólogo precisa ter CRP ativo, estar em supervisão e em terapia”, além de participar de curso de extensão e de um núcleo de estudos em análise existencial.

A expansão do atendimento, contou Vanessa, aconteceu rapidamente: “Hoje nós estamos com 550 pessoas sendo atendidas no projeto, quase 600 pessoas.” Um diferencial citado por ela é o compromisso de disponibilidade: “A gente entrou também com esse lema no projeto… psicoterapia sem fila de espera.”

Da clínica ao ambiente de trabalho

Gislene Gomes, que é a coordenadora do núcleo corporativo, descreveu a chegada ao projeto a partir de sua trajetória organizacional e de redes de parceria. Para ela, a demanda por cuidado é concreta e cotidiana: “Nós somos seres relacionais, né?” No contato com empresas e instituições, Gislene reforça o foco em prevenção e acolhimento, lembrando que os efeitos da saúde mental atravessam o trabalho e a vida.

Do ponto de vista do acolhimento clínico, Gislene destacou o que o paciente pode esperar: “Nós não estamos aqui para dar conselho ou para dar resposta mágica”, disse. “Não tem solução mágica, não tem receita de bolo… o que tem é você se descobrir, se permitir se conhecer.”

Qualidade e permanência do cuidado

Vanessa ressaltou que valores sociais não significam atendimento “barato” nem precarizado: as sessões seguem o padrão de 50 minutos a 1 hora, e o tempo de permanência na terapia depende da necessidade clínica de cada pessoa. Outro ponto é a orientação pública da iniciativa: quando alguém tem condições de arcar com honorários integrais, há encaminhamento para profissionais da rede fora do braço social — preservando o objetivo central de garantir acesso a quem mais precisa.

Ao definir o que está em jogo na psicoterapia, Vanessa resumiu: “Psicoterapia tem a ver com cuidadoé um espaço para a gente falar do que a gente sente e pensar no sentido de vida … e o que a gente tá propondo para essas pessoas, justamente, é um espaço para elas se cuidarem.”

Você tem mais informações sobre o Psicoterapia para Todos no instagram do projeto.

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Dez Por Cento Mais: novo livro de Mariza Tavares fala de escolhas que moldam a velhice


“Os 60 não são os novos 40; são os novos 60.”

Mariza Tavares, jornalista

Viver mais e viver melhor depende de escolhas que começam cedo e seguem por toda a vida: cuidar do corpo, da cabeça, das relações e do bolso. Essa é a defesa de Mariza Tavares, jornalista e escritora, autora de A Vida Depois dos 60 –  Prepare-se para criar a sua melhor versão (Best Seller), que propõe olhar para a longevidade como projeto contínuo, sem romantização e sem fatalismo. Em conversa com Abigail Costa, jornalista e psicóloga, no programa Dez Por Cento Mais, no YouTube, Mariza lembra que “a longevidade é uma construção da vida inteira.”

A autora propõe que a longevidade seja encarada como a soma de diferentes “reservas” acumuladas ao longo da vida. A financeira, alimentada por pequenos aportes feitos desde cedo, quando “o tempo conspira a nosso favor”. A física, cultivada por meio do movimento contínuo e da manutenção da força muscular. A mental e a social, fortalecidas pelas conexões que sustentam o ânimo e estimulam o autocuidado. Mariza destaca que estudos de décadas apontam a qualidade das relações como fator decisivo para envelhecer melhor e sintetiza a ideia com uma imagem pessoal: “Dentro de mim eu tenho todas as idades.”


O alerta é direto: adiar decisões tem seu custo, mas começar tarde não impede ganhos. “Mesmo pessoas com um estado fragilizado se recuperam em força muscular com o devido treino.” O verdadeiro risco, segundo Mariza, está em se render aos estigmas: “O mais triste é a gente introjetar aquela coisa de que ‘eu tô muito velho para isso’.”

Trabalho, aposentadoria e combate ao etarismo

A transição do trabalho pago para outras formas de atuação pede preparo, não improviso. Mariza critica a pouca atenção das empresas ao tema e defende políticas que retenham e adaptem funções para profissionais mais velhos. “Nós temos que ser militantes da velhice”, diz, ao apontar microagressões e estereótipos que afastam pessoas 60+ de oportunidades — especialmente mulheres, alvo precoce do idadismo.

A aposentadoria sem projeto pessoal tende a abrir espaço para vazio e isolamento. A saída, segundo ela, está em redes de convivência, mentoria intergeracional e flexibilidade: “Eu posso usar o meu repertório para ensinar.”

Afeto, sexualidade e novas combinações de vida

Mariza propõe tratar sexualidade na maturidade sem tabu, inclusive nas consultas médicas. O foco é ampliar repertório e comunicação entre parceiros, não reduzir a vida íntima a desempenho. “Sexualidade nos acompanha até o final da existência.” Também reconhece arranjos de vida em que muitas mulheres 60+ escolhem autonomia, amizade e viagens em grupo, sem abrir mão de bem-estar para “ter alguém” a qualquer custo.

No fechamento, ela oferece um pequeno ajuste de rota: “10% a mais de confiança em si mesmo.” Pode virar bússola prática: “Vou me divertir 10% mais, vou namorar 10% mais, vou celebrar a vida 10% mais.”

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Dez Por Cento Mais: Daniel Soares fala sobre o valor do vínculo humano na prevenção do suicídio

“Ferramentas fazem, humanos curam.”
Daniel Soares, psicólogo

Setembro nos convida a encarar um tema duro sem perder de vista aquilo que sustenta a vida: sentido, diálogo e presença. Em uma conversa que percorre do consultório às relações cotidianas, o psicólogo e professor Daniel Soares defende que a prevenção começa quando alguém é visto, ouvido e acolhido; e não substituído por respostas automáticas. Esse foi o assunto da entrevista no programa Dez Por Cento Mais, apresentado por Abigail Costa, no YouTube, inspirado no Setembro Amarelo, uma campanha brasileira de prevenção ao suicídio, iniciada em 2015.

Vínculo, não algoritmo

Para Daniel, falar de prevenção é, antes de tudo, falar de sentido. Ele recorre à logoterapia para lembrar que é possível “dizer sim à vida, apesar de tudo” e “quem tem um porquê enfrenta quase qualquer como”. Considerando o crescimento de pessoas que têm buscado nos chatbots de Inteligência Artificial ajuda psicológica para soluções de problemas relacionados à saúde mental, ele faz um alerta: “Máquinas não sentem”, e a IApode ajudar com informações, mas não substitui a relação que cura”. O ponto central, resume, está no encontro entre pessoas: “Ferramentas fazem, humanos curam”.

A tecnologia, observa, oferece um “pseudo-relacionamento” que reforça o que o usuário já traz, sem continuidade afetiva: “A IA responde; quem acompanha, se preocupa e permanece é o humano”. Por isso, ele insiste no papel de pais e responsáveis no uso de ferramentas: acompanhamento, limites e, principalmente, conversa.

Como conversar com quem sofre

No dia a dia, o primeiro passo é reconhecer a dor do outro. “Não negue nem minimize o sofrimento”, diz Daniel. Evite atalhos como o “pensa positivo”. Em vez disso, ofereça presença: “Posso te ouvir? Estou aqui com você”. A validação, sem julgamentos, abre espaço para que a pessoa busque ajuda e se reconecte com motivos para viver.

Ele também chama atenção para o envelhecimento e a solidão. Mensagens curtas não substituem um encontro: “Presença, olho no olho, abraço e rotina compartilhada protegem”. Reativar pertencimentos — família, vizinhança, grupos, projetos — ajuda a restituir sentido e continuidade às histórias que cada um carrega.

Ao final, Daniel deixa uma imagem que atravessa a conversa: “A vida é uma viagem, passagem só de ida”. Cabe a cada um, afirma, levar para essa viagem valores, cuidados e gente por perto — e oferecer ao outro a mesma companhia que gostaríamos de receber.

Busque ajuda agora:

Centro de Valorização da Vida – CVV

O CVV – Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, por telefone, e-mail, chat e voip 24 horas todos os dias.

A ligação para o CVV em parceria com o SUS, por meio do número 188, são gratuitas a partir de qualquer linha telefônica fixa ou celular.

Também é possível acessar www.cvv.org.br para chat, Skype, e-mail e mais informações sobre ligação gratuita.

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