Pot-pourri II: da pena de morte aos carros em alta velocidade

 

Por Mílton Ferretti Jung

 

Volto a cumprir o meu compromisso das quintas-feiras com o Mílton usando expediente que utilizei não faz muito:o pot-pourri. Ocorre que três notícias presentes na mídia nos últimos dias prenderam,especialmente,minha atenção.

 

O assassinato do menino Bernardo

 

Confesso que não sabia o que pensar da pena de morte para punir quem comete crimes hediondos. Trata-se de uma questão que divide as opiniões do povo brasileiro. A gota de água que me fez descer do muro foi o assassinato de Bernardo Boldrini,um menino de 11 anos,que morava em Três Passos-RS. Jamais imaginei que pessoas de classe alta,supostamente por ganância – pai cirurgião e dono de um mini-hospital,madrasta enfermeira,mancomunada com uma assistente social – tenham cometido crime tão torpe e cruel quanto esse. Espero que a polícia faça a sua parte,mas o jornal Zero Hora publicou nessa terça-feira,dia em que entrego o meu texto, que o exame da substância capaz de produzir a morte do garoto ou facilitar a decomposição do seu corpo,estava parado. Seja lá como for,passei a ser defensor da pena de morte,pelo menos, quando a vítima for menor de idade e fique comprovado, sem sombra de dúvida,a torpeza e crueldade do crime. Não acredito,entretanto,que esse tipo de penalização venha a ser adotado no Brasil.

 

Os malefícios da Copa do Mundo

 

Li com algum espanto que,aqui no Rio Grande do Sul,dois mil PMs (ou brigadianos,como são chamados em meu estado natal),vindos do Interior,vão reforçar a segurança,em Porto Alegre,durante a realização da Copa. A Famurs – Federação das Associações de Municípios – convocou reunião para esta quarta-feira (não sei o que ficou decidido porque entrego na terça-feira o meu texto para o blog). Não faz muito tempo,pequenos e até médios municípios gaúchos,viviam sendo assaltados por ladrões de bancos. Muitas dessas cidades se ressentiam da falta de policiamento capaz de impedir os constantes roubos. As cidadezinha nem sequer contam com guarda municipal. A diminuição da segurança é notada inclusive quando PMs trabalham como salva-vidas,na chamada Operação Golfinho,que dura o verão inteiro.A Famurs tem razão para reclamar. Afinal,estão despindo um santo para vestir outro. Ah,esta Copa do Mundo!

 

O trânsito e os seus crimes

 

Não tinha previsto escrever novamente sobre trânsito. Aliás,o que costuma acontecer nas rodovias que cortam o Rio Grande nos feriados prolongados,como o da Páscoa,por exemplo,lamentavelmente,é coisa que se repete. Refiro-me aos acidentes fatais. Na quinta-feira passada,escrevi sobre um sujeito que,pela terceira vez,foi flagrado dirigindo contramão na Freeway,sendo que na última que cometeu a irregularidade colidiu com outro veículo. Passou-se uma semana desse evento e já se tem notícia do carro de um deputado que,dirigido pelo próprio ou por um subalterno,corria a 164 km/h na BR-386,velocidade registrada pelo radar,cuja foto está na Zero Hora.A caminhonete,uma Ranger,tem quatro multas,todas por excesso de velocidade. Edson Brum,esse o nome do deputado,diz que o veículo possui multas,mas é um carro do seu gabinete e que pode ser dirigido por um motorista. Pois, que seja.O interessante é que a PRF,no caso desse feriado,não teve como saber quem era o condutor da Ranger porque o movimento na rodovia era intenso e questões de segurança precisavam ser respeitadas. E não seria desrespeito à segurança dos outros veículos correr a 164km/h?

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Cuidado:motorista flagrado três vezes bêbado está livre

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Já faz algum tempo que não escrevo neste blog sobre um assunto que abordei inúmeras vezes neste espaço,ou seja,trânsito. Há 60 anos possuo carteira nacional de habilitação,já dirigi automóveis no exterior,jamais tive o documento habilitador apreendido,raríssimas vez fui multado e há muito,sempre que chega a hora de pagar o IPVA,ganho o desconto de bom motorista. Sou fanático por direção defensiva,algo cada vez mais fundamental se levarmos em conta que o número de veículos que circulam, tanto nas cidades quanto nas rodovias, é cada vez maior,isso graças aos financiamentos tentadores oferecidos pelas revendas. Lembro-me com saudade dos tempos em que eu me sentia feliz conduzindo um automóvel em Porto Alegre,minha cidade e,também,viajando pelo interior do Rio Grande do Sul e até por outros estados do Brasil a serviço da rádio em que então trabalhava cobrindo futebol. Hoje,confesso lisamente,tenho um certo medo de dirigir aqui ou ir,pela freeway, além de Tramandaí, balneário gaúcho onde temos casa de veraneio. Aliás,é a propósito do que ocorreu nessa rodovia que vou manifestar a minha opinião e a minha revolta.

 

“Motorista é preso ao dirigir bêbado e pela contramão”

 

A manchete é do jornal Zero Hora. Ao me deparar com ela na 27ª página do periódico,imaginei que não havia razão para sequer divulgar informação do tipo dessa,eis que motoristas dirigindo sob efeitos de álcool não têm nada de incomum. Bem pelo contrário:trata-se,hoje em dia, de fato corriqueiro. Ah,mas Zero Hora tinha sobradas razões para dar destaque à notícia. Se já se tornou um tanto comum para as polícias rodoviárias estaduais e federais pegar em flagrante caras que dirigem embriagados,prender o mesmo sujeito,na mesma rodovia – a freeway – conduzindo,etilizado, o seu automóvel,na contramão, no mínimo,chega a espantar. Lucio Mario Borba – relata a repórter Letícia Costa – foi flagrado pela terceira vez,na freeway, com “sinais de embriaguês ao volante. Antes disso,na mesma rodovia,Borba,agora com 41 anos,havia sido flagrado,em condições semelhantes. Os episódios etílicos de Borba aconteceram em 2012,2013 e culminaram com o do dia 13 de abril de 2014. Neste,dirigindo um Ônix por cerca de seis quilômetros,acabou colidindo com um Gol,que capotou.

 

Perguntem-me agora o que aconteceu com este contumaz infrator? Ah,já esteve no Presídio Central de Porto Alegre. E daí?O sujeito segue soltinho da silva.Não duvidem que voltará não apenas a dirigir,mas novamente na contramão e pondo em perigo a vida de motoristas bem comportados que se arriscam a vê-lo guiando impunemente,quando deveria ter a carteira de habilitação rasgada em pedacinhos. Justiça leniente não é justiça,mas quase perdão. Esta é a minha opinião.

 


Milton Ferretti Jung é radialista, jornalista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Pot-pourri de assuntos (a pedido do autor)

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Acostumei-me a escrever às quintas-feiras no blog do Mílton. Ao contrário do que ocorre comumente na vida das pessoas,o espaço que ocupo não passou de pai para filho,mas de filho para pai. O papel do meu rebento – era como a mãe de um atleta da Sogipa,equipe rival do Grêmio nos campeonatos de basquete,costumava chamar o meu filho pensando em provocá-lo – é,neste blog,criar título para as minhas colunas.Hoje,no entanto,vou pedir que ele me dê licença de intitular, nada mais,nada menos,do que um pot-pourri de assuntos. Trata-se de uma experiência.Quando comecei a atuar na radiofonia gaúcha,pot-pourri era uma palavra corriqueira na profissão. De vez em quando anunciávamos que os caros ouvintes acompanhariam uma seleta coletânea de músicas brasileiras ou estrangeiras. Isso agradava a quem estava na escuta porque as “páginas musicais” não eram interrompidas a todo instante por spots ou jingles. Desta vez,agora que os meus compromissos radiofônicos já deixaram de existir,aí vai um rápido pot-pourri de textos:

 

Porto Alegre declara guerras à sujeira

 

O Rio de Janeiro – não sei se São Paulo também – já conseguiu reduzir o lixo em 60 por cento – nas ruas da cidade. Com certeza, pensando,provavelmente,nos turistas que nos visitarão durante a Copa do Mundo,a Prefeitura de Porto Alegre, divulgou na última segunda-feira, o novo Código Municipal de Limpeza Urbana. O jornal Zero Hora postou,em manchete,que “Começa a caça a sujões”. Será? Os argentinos,quando tratam de normas legais,usam esta frase ”Hecha la ley,hecha la trampa”. Se no futebol as autoridades não conseguem reprimir da forma pretendida aqueles que são responsáveis por todos os tipos de desordens,proibindo-os de assistirem a jogos e obrigando-os a se apresentar em delegacias em dias de partidas,imaginem como não parece nada fácil punir os que sujam as ruas. A Prefeitura,o que vejo como boa ideia,pensa em fazer convênio com a Brigada Militar (a Polícia Militar dos gaúchos)para que os seus elementos acompanhem a fiscalização,eis que esses têm condições de tomar medidas oficiais penalizar os infratores.

 

Entendo,particularmente,que são necessárias campanhas na mídia a fim de conscientizar os barbados e,como não,as crianças,porque,desculpem-me pelo adágio comum,é de pequenino que se torce o pepino. A propósito, quero deixar os meus cumprimentos ao DMLU porto-alegrense pela rapidez com que providenciou a retirada de um colchão de casado que algum papeleiro sujão deixou cair de sua carroça na frente da minha casa. É necessário,no entanto,que os vizinhos não fiquem na moita quando se trata de telefonar para o numero 156,do Fala Porto Alegre,sempre que,em frentes às suas casas,existam galhos de árvores e capim impedindo a circulação pelas calçadas.

 

Anseios da juventude

 

David Coimbra,que escreve na Zero Hora texto de quase uma página sob o título de Código de David,intitulou o de domingo,6 de abril,de “Um tempo sem kiwi e sem heróis”. Jamais provei kiwi. Na minha infância – a infância vem antes da juventude – tinha,sim,alguns heróis. Afinal,eu lia – trepado na garagem da casa paterna,junto com o meu amigo Bruno – exemplares do Gibi e do Almanaque Globo-Juvenil, sempre recheados de personagens que me deslumbravam com as suas aventura. Dê-lhe Super-Homem,dê-lhe o Homem Aranha,dê-lhe Fantasma,dê-lhe Capitão Marvel e tantos outros. Enquanto,líamos às escondidas, aproveitávamos para aliviar as peras do vizinho.O David nasceu muito depois de mim. Percebi,ao ler sua página,que ele bem que gostaria de ganhar de Natal um autorama. Este só se tornou realidade para mim quando o Mílton nasceu – a Jacque,pouco mais velha,brincava com as suas bonecas – e eu dividia com ele os carrinhos velozes.Bicicleta,já contei isso,ganhei apenas ao passar em segunda época em matemática. Antes,só pedalava em bicicletas emprestadas (odeio os novos nomes que deram a esse simpático veículo. No meu tempo,a bola da zona tinha um dono.E não era eu. Jogávamos até a mãe dele chamar para a janta. Vejo,hoje,os meus netos brincam em computadores e lidarem com celulares como gente grande. Perdão,nós é que ficamos pequenos perto deles quando se trata desses dispositivos. Ah,eles já possuem coisa mais moderna que simples celulares. Sim,os andróides.

 

E o pot-pourri onde ficou?

 

Descobri que o pot-pourri de textos é bem diferente daquele da minha então incipiente carreira no rádio. Afinal,ele ficou somente nos dois títulos que,sem bancar o pessimista,talvez nem tenham sido lidos. Seja lá como for,meu propósito não é produzir textos do tamanho dos do David Coimbra nem os da mina sobrinha Cláudia Tajes,colunista do Caderno Donna. Ela escreveu na edição desse domingo e falou,meio braba,sobre a porcentagem de pessoas que acham mulher com pouca roupa merecer ataques sexuais. Não sei se a Claudinha ficou menos insatisfeita ao saber que não são 65%,mas 26% os maus-caracteres. Até o Ipea se engana.

 


Milton Ferretti Jung é radialista, jornalista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Gremista, radialista e demitido

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Minha semana não foi das mais tranquilas,tipo,por exemplo,das que passei usufruindo,na cidade balnearia de Tramandaí, merecidas férias(jamais ouvi alguém confessar não ter merecido os tradicionais trinta dias de descanso). Já desconfiava,porém,que seriam as minhas últimas férias como profissional de rádio, carreira que durou sessenta anos e durante a qual trabalhei somente em duas emissoras: Canoas – que deveria ter sido instalada na cidade da Grande Porto Alegre com este nome – e Guaíba. Fiquei quatro anos na primeira e cinquenta e seis na segunda. Atuei ao mesmo tempo em três agências de propaganda:a Standard-Ogilvy & Mather,levado pelo saudoso Pedro Carneiro Pereira,um dos melhores narradores de futebol que conheci; na Publivar e na Idéia (então com acento no é,uma das tantas estúpidas mudanças feitas em nossa língua – portuguesa do Brasil – com a intenção de padronizá-la com a falada em Portugal e em suas ex-colônias,algo puramente utópico). Além disso, tive durante bom tempo colunas tratando de futebol no Correio do Povo dominical,em que escrevia sobre o Grêmio e o Ibsen Pinheiro,ao meu lado,fazia o contraponto com o Inter. Também ocupei um espaço na Folha da Tarde sobre o mesmo tema:futebol. Se ainda tenho alguém me acompanhando nesta reminiscências,como vou recuar ainda mais nos anos logo a seguir,deixem-me contar para quem não acompanhou nas redes sociais como terminou a minha carreira no rádio:fui demitido. Aqui em casa já está uma placa,em que,abaixo do meu nome se lê:”Nosso reconhecimento aos relevantes serviços prestados à Rádio Guaíba. A emissora,que nasceu sob o signo de uma tradição,será sempre uma voz a serviço do Rio Grande”

 

O Mílton, que dispensa apresentações, tanto dos ouvintes do Jornal da CBN quanto dos leitores deste e de outros blogs,surpreendeu-me perguntando em um e-mail,como eu me tornei gremista. Em Porto Alegre, torcemos pelo Grêmio ou pelo Inter. Os pais,normalmente,tentam, desde cedo, influir os seus filhos(as) a torcer por um deles. Acho que ainda nenhum instituto fez pesquisa para se saber quantas crianças, às vezes por obra de parentes,padrinhos ou por birra, quando não querem ser forçados a torcer pelo time do pai,acabam adotando o rival. Na minha casa que,segundo o Mílton, tinha no Olímpico a extensão do nosso pátio,todos se tornaram gremistas por influência paterna. Hoje,os meus netos,embora dois morem em São Paulo – o Greg e o Lorenzo – mais o Fernando e a Vivi,ambos de Porto Alegre,são gremistões. Até aqui não respondi à pergunta do Mílton. Faço-o agora. Meu pai,na juventude,jogou num time da drogaria da qual era gerente. Ainda vou recuperar o álbum em que há uma foto dele ao lado dos companheiros da equipe. Não lembro dele,porém,como torcedor gremista ou colorado. Recordo que,um dia,me levou ao Estádio do Passo da Areia,para ver o São José jogar.Quando se é criança ou até algo mais do que isso,sempre temos amigos mais chegados,com os quais nos entendemos melhor. Eu tive dois desse tipo: o Valmor e o Vilmar. Quase todas as tardes brincávamos de fazer guerra com soldadinhos de chumbo. Em uma área na frente da casa dele dos meus dois amigos do peito,escondíamos esses soldadinhos atrás de barreiras montadas com toquinhos quadrados e,usando bolinha de gude,”bombardeávamos” mutuamente as nossas fileiras:bolinhas pra cá,bolinhas pra lá (quem imaginaria que os nossos filhos e netos jogariam vídeo game em computadores de última geração). Quebrei um pouco a minha velha cabeça,entretanto,para responder à pergunta do Mílton. Foi o Vilmar,mais perto da minha idade (10 anos,acho),quem me fez gremista.Nunca me arrependi da escolha. Quando o meu pai me internou no Colégio São Jacó,em Farroupilha,ouvi em um radiozinho de algum colega,que o Grêmio aposentara Júlio Petersen,seu goleiro titular,subsituindo-o por Sérgio Moacir Torres Nunes. Fiquei preocupado:era fã do veterano Júlio e não sabia ainda se “Sérgio daria no couro”. No internato,vivia correndo atrás de quem tivesse rádio de pilha para não perder a narração dos jogos do Grêmio.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Minha Copa do Mundo era disputada na pracinha da Zamenhoff

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Zero Hora,nesse domingo,23 de março,dedicou cinco páginas,com textos e fotos em preto e branco,à Copa do Mundo, disputada em 1950,aqui em um Brasil do qual lembro com saudade. Se isso me transforma em saudosista de carteirinha,não me importa. Eu gostava de futebol,desde que fosse o disputado pela gurizada da minha rua nos terrenos baldios que somente aos poucos foram sendo preenchidos por casas de alvenaria,a maioria de dois pisos. A casa paterna ficava bem na frente de um arremedo de pracinha,situada na confluência da Ruas 16 de Julho e Zamenhoff. Essa – a pracinha – jamais foi ocupada por um jardim,como queria a prefeitura,porque nela,embora fosse triangular e em ligeiro declive, jogávamos futebol,vôlei,basquete e até partidas de tênis,por incrível que pareça. É verdade que nossas atividades lúdicas começaram muito antes do ano da Copa do Mundo.

 

Eu não costumava assistir aos jogos dos times de Porto Alegre:Grêmio,Inter,São José,Cruzeiro,Renner e Nacional. Em compensação,já trabalhando em rádio,na Clube Metrópole,tive de narrar uma partida entre Cruzeiro e Renner. No ano do Mundial,porém,minhas incursões radiofônicas restringiam-se aos alto-falantes do Colégio Nossa Senhora do Rosário e,em festas da paróquia do Sagrada Coração de Jesus,naquela que apelidamos de Voz Alegre da Colina,porque ficava no alto de um morro. Na parte baixa desse, havia o campo de futebol do amadoríssimo, União do Buraco. Os jogos eram sempre aos domingos e,volta e meia, dava uma pauleira danada (já naquele tempo)e os torcedores corriam Zamenhoff abaixo para fugir da bronca.

 

A turma da zona continuou,eu inclusive,a bater bola na pracinha mesmo quando já estávamos bem mais velhos. Assistir aos jogos dos profissionais,porém,no meu caso,ainda no ano do Mundial,era coisa raríssima. Eu sequer ouvia as transmissões das partidas pela Farroupilha,Gaúcha e Difusora (hoje Bandeirantes).Talvez,se a televisão já cobrisse futebol,eu teria me interessado bem mais por este esporte. Não passou pela minha cabeça assistir aos jogos de Porto Alegre,no Estádio dos Eucaliptos.Mexicanos,iugoslavos e Suíço não chamavam um mínimo de atenção da minha parte. E a esperada final chegou. Nem essa me prendeu em casa. Fui ver um filme no Cine Eldorado,um dos que costumava frequentar,além do Rosário,Orfeu e Colombo. Não recordo a que filme assistia quando a película foi interrompida:a notícia dada pelos alto-falantes do El Dorado não poderia ser pior: a Seleção Brasileira havia perdido para Uruguai. Saí do cinema e vi muita gente com lágrimas nos olhos, mas confesso lisamente,os meus permaneceram secos.

 

Agora,diante de nova Copa do Mundo em nosso país,não consigo a aceitar sem inúmeras restrições. Temo que,caso o Brasil conquiste o título mundial,o fato seja aproveitado politicamente na próxima campanha eleitoral,como ocorreu no tempo do governo militar que se aproveitou das vitórias da Seleção para se promover. Não posso dizer que Copa no Brasil me agrada. Bem pelo contrário,tenho certeza de que o seu custo para o nosso país será altíssimo. Seria muito melhor se o dinheiro que está sendo gasto fosse utilizado para amenizar ou mesmo corrigir problemas de todas espécies que afetam o nosso povo. São tantos que não me atrevo a os enumerar.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Assédio escolar ou intimilhação

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Escrevi na semana passada sobre o “bullying”. Essa palavra da língua inglesa não encontrou tradução no português. Podem dizer que,se fico brabo ao ouvi-la,é problema meu. Perguntava-me se seria apenas eu que não consigo aceitar pacificamente o fato de o termo estrangeiro haver invadido o nosso idioma sem dó nem piedade e ser aceito,em especial,pela mídia,que o vem espalhando impunemente pelo Brasil. Já incorporamos várias palavras. Creio que “bullying” seja uma das mais recentes. Lembro-me de outra que não procede do inglês,mas do alemão. Trata-se de “blitz. Essa chega ao cúmulo de ser usada também no plural e obedecendo fielmente à regra da língua estrangeiros enfiados como espantalhos no português.

 

Volto,porém,ao “bullying”. Encontrei no Google,mais exatamente, no Ciberdúvidas da Língua Portuguesa,uma proposta de tradução do termo que contesto,mas não simpatizei com ela:intimilhação.É a soma de intimidar e humilhar,que permitiria que se usasse as palavras correlatas,isto é,intimilhado, intimilhar e intimilhante. Os franceses,no entanto,têm uma tradução da qual gosto mais,embora necessite de duas palavras:”harcèlement scolaire”,ou seja,”assédio escolar”. Não seria uma saída mais digna para a tradução de “bullying”,ao invés de permanecermos com o termo inglês”?

 

Seja lá como for agora,no meu tempo de colégio – e foram muitos os educandários que frequentei – não me recordo de sofrer assédio escolar ou de ver colegas sendo humilhados. No máximo ocorriam discussões e briguinhas sem maiores consequências. Hoje em dia,lamentavelmente,por mais que se combata o assédio escolar, esse se faz presente. A propósito,a prefeita de São José,cidade catarinense,tema do texto que postei na semana passada,continuará ainda disposta a pagar cirurgias corretivas de crianças da escola municipal,nascidas com orelhas de abano,visando a evitar que sofram assédio escolar? Espero que não tenha se deixado influenciar pelas psicólogas de plantão.

Prefeitura quer combater bullying pagando cirurgia para orelha de abano

 

Por Milton Ferretti Jung

 

O jornal Zero Hora,em reportagem divulgada no dia 13 de março,refere-se a uma controvérsia provocada por decisão da prefeitura de São José,cidade catarinense:a de custear operações plásticas em crianças que sofrem deboche porque possuem o que,popularmente,é chamado de orelhas de abano. Adeliana Dal Pont,prefeita do município e autora da ideia,afirma que a ortoplastia – esse é o nome da cirurgia destinada a corrigir o que não chega a ser um defeito congênito,mas talvez crie problemas para o desenvolvimento escolar de crianças sensíveis aos debochadores existentes,especialmente,em colégios que não lidem com o necessário rigor visando a evitar tal tipo de abusos.A opinião contrária à da prefeita Adeliana,ouvida pelo jornal gaúcho,psicóloga Carolina Lisboa,professora da PUC,especialista no tema,do alto de sua sabedoria,afirma que a cirurgia não acaba com o “bulling” . Escrevo essa palavra inglesa,me desculpem,com reservas,talvez porque, no meu tempo, os termos estrangeiros eram grafados com aspas e,hoje,inúmeros deles são tratados como coisa nossa. Aliás,fico mais danado com a maneira híbrida adotada pela maioria da mídia para postar o nome de uma das principais cidades dos Estados Unidos: “Nova York”. Por que não Nova Iorque ou New York. Mas o meu assunto neste texto é o que prefiro chamar de deboche.

 

Retorno a ele por achar necessário opinar sobre a controvérsia causada pela prefeita de São José. Tenho lá minhas dúvidas a respeito,também,do que pensa outra especialista na questão.Débora Dalbosco Dell´Aglio,professora do Instituto de Psicologia da UFRGS,entende que o procedimento não combate de maneira efetiva a agressão e,pelo contrário,chama muita atenção para essa espécie de situação.

 

Acho que é bem mais fácil pagar a cirurgia de crianças com orelhas de abano,que sofram nas mãos dos debochados,do que os dicionaristas brasileiros descobrirem um substituto para “bulling”(do inglês Bulli + valentão). Essa,vá lá,refere-se a todas as formas de atitudes agressivas,verbais ou físicas,intencionais ou repetitivas,que ocorrem sem motivação evidente e são exercidas por um ou mais indivíduos,causando dor e angústias,com o objetivo de intimidar ou agredir outra pessoas incapazes de se defender. Eu cheguei a imaginar que “bulling” viesse de “Bull” (touro,em inglês),eis que,em geral,os seus contumazes praticantes são mais fortes do que as suas vítimas.

 

Mensalidades das escolas particulares estão assustadoras

 

Por Mílton Ferretti Jung

 

Esta manchete do jornal gaúcho Zero Hora é assustadora:

 

“Mensalidade escolar aumenta até 12%, o dobro da inflação”.

 

É claro que o título se refere a colégios particulares,mas nem todos os pais, cujos filhos estudam nos educandários citados na reportagem de Zero Hora,devem ter-se dado conta de que estão pagando preço tão acima da inflação. Muitos deles,sem dúvida,fazem das tripas coração para quitar,em dia, a importância contida nos boletos bancários mensais. Convém prestar atenção para o que se lê em ZH logo abaixo da manchete:

 

“Levantamento de Zero Hora em 10 colégios particulares aponta elevação média de 8,73%,enquanto em 10 universidades gaúchas reajuste ficou em 6,69%,diante da inflação de 5,91% em 2013”.

 

Uma das explicações – eu prefiro dizer desculpas – para “justificar” a alta,por mim classificada no início do texto como assustadora,foi dada por Osvino Toillier,vice-presidente do Sinepe – Sindicato das Escolas Privadas – segundo o qual essas são surpreendidas por gastos imprevistos,”assim como as pessoas”.

 

Na minha adolescência, estudei em dois colégios que estão entre os 10 privados do Rio Grande do Sul com maior número de alunos: o Anchieta,que na época tinha sua sede na Rua Duque de Caxias,e o Colégio Marista Nossa Senhora do Rosário. O meu pai podia se queixar do meu aproveitamento escolar,mas jamais ouvi dele uma palavra sequer sobre o quanto lhe custava me manter nessas duas instituições de ensino. Talvez,ele pagasse mensalidades bem menos altas do que as atuais. Para não dizer que jamais fui matriculado em colégio público,lembro-me que fiquei uma semana no Souza Lobo,mas voltei logo para o Sagrada Família,sãs freiras franciscanas. Estive internado por um ano e meio no São Tiago,escola marista,em Farroupilha-RS. Apelidaram-me nessa de fugitivo,tantas vezes tentei escapar do educandário. Só fiz essa digressão,porque os meus netos,todos em colégios particulares,não se espelharam no avô e,provavalmente,não leem os meus textos neste blog,ancorado pelo pai do Gregório e do Lorenzo.

 

Os meus três filhos também estudaram somente em escolas particulares. Aliás, os três – a Jacque,o Mílton e o Christian -concluíram sua escolaridade no Rosário,no qual,agora, está o Fernando,filho do Christian. Pego o fio da meada,quase perdido,para lembrar que enfrentei época de vacas magérrimas na Rádio Guaíba e nunca atrasei o pagamento das mensalidades escolares. Gostaria de ter cabeça tão boa que me permitisse recordar quanto custava,por mês,manter três filhos no Colégio Marista Nossa Senhora do Rosário. Seja lá como for,só posso imaginar que não tivesse de pagar mensalidades muito acima da inflação. Tenho muita pena dos pais menos abonados que se matam trabalhando para conseguir segurar os seus filhos em colégios particulares.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

As consequências do calor de Porto Alegre

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Porto Alegre,neste verão,está rivalizando com as cidades mais quentes do mundo. Equipara-se,no mínimo,com algumas da Austrália,Namíbia e outras caniculares. Não lembro de ser obrigado a enfrentar aqui os dias – e as noites,como não – sequer parecidas com a deste mês de janeiro. E olhem que moro em POA faz 78 anos,isto é,a vida inteira,tirante apenas a primeira semana depois do meu nascimento, que ocorreu em Caxias do Sul. Quem tem condições, não deixa de ligar o ar-condicionado,mesmo que o aparelho nem sempre vença a exagerada temperatura que precisa combater.

 

Na última terça-feira, não consegui digitar o texto postado pelo Mílton neste blog.A CEEE,sei lá se por ter acontecido excesso de condicionadores e outros que tais, ligados ao mesmo tempo, na capital gaúcha,deixou a rua na qual moro com meia fase de energia por longo período. E o computador,sem contar com o wi-fi,não serve para nada. O meu filho,então,que me desculpe pelo atraso na entrega do texto que marca o meu retorno das férias, que gozei enquanto ele viajava para os Estados Unidos. A propósito,não deixem de ler as histórias contadas pelo “âncora”do blog. Apreciei-as todinhas. E não se trata de corujice.

 

Está ficando difícil de se entender o que provoca os exageros climático que estão acontecendo no mundo. Normalmente,Porto Alegre é uma cidade quente no verão,mas,repito,acho que nunca com temperaturas tão altas como agora. Enquanto isso,nos Estados Unidos,o frio e tempestades de neve açoitam várias regiões. Três mil voos,repetindo o que já havia se verificado, não puderam decolar na quarta-feira. Aliás,o avião que levaria meu filho e sua família a Vermont,uma estação de esqui,esteve entre os que não decolaram,há duas semanas, por força do péssimo tempo. Compreendo a frustração deles. É bom lembrar,porém,que mais tem Deus para dar do que o diabo para tirar.

 

Em fevereiro,entro em férias na Guaíba e vou com Maria Helena para Tramandaí, litoral gaúcho. Espero que o vento, que costuma soprar no próximo mês,não nos maltrate à beira do mar. Outro problema, que afeta os veranistas das nossas praias, é música,geralmente em altíssimo volume,tanto a rodada por automóveis estacionados nas ruas próximas do oceano quanto a que parte de vizinhos importunos. E não adianta apelar para a Brigada Militar. Ao mesmo tempo,as operadoras de telefonia,entra veraneio,sai veraneio,e a conexão 3G,no litoral,fica cada vez pior.Também não dá para entender por que a ANATEL não as obriga a investir nos principais balneários gaúchos.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Do tico-tico à bicicleta de Natal

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Costumo escrever o texto para o blog do Mílton Jung nas terças-feiras. Sempre fico preocupado,entretanto,apesar de ser macaco velho neste tipo de função,com a escolha do assunto a ser abordado,apesar de todas as redações que produzi em minha longa carreira na Rádio Guaíba. São de minha lavra os textos de vários discos narrando feitos notáveis da dupla Gre-Nal e da Seleção Brasileira. Seja lá como for,obrigo-me, também, a guardar os jornais da semana,eis que esses talvez sirvam ao meu propósito.

 

Estou,porém,redigindo, na terça-feira, o que será postado na quinta com um assunto que,pela sua data,23 de dezembro,é véspera de Natal. Natal me traz lembranças de todas espécies.Em sua maioria são boas. Claro,as primeiras veem da minha infância. Quando eu era um meninozinho o meu avô por parte de pai,que morava conosco,construiu,com a sua habilidade de marceneiro,embora fosse vidreiro de profissão,um tico-tico bem mais forte do que os vendidos no comércio;um caminhão poderoso,com o qual eu podia brincar de bater nos dos meus amiguinhos,sem que sofresse dano algum,e outros brinquedos capazes de fazer a minha alegria a cada novo Natal.

 

Adolescente,o presente que vivia esperando dos meus pais era uma bicicleta. O Natal chegava. E o cobiçado presente não. E vinha um novo Natal. E nada de encontrar embaixo da árvore natalina a sonhada bicicleta. Foi,todavia,em um desses Natais que a minha irmã ganhou a bicicleta dela,enquanto eu fiquei,novamente, a ver navios. Acho que nunca fui capaz de pedir ao meu pai – era ele quem resolvia quem deveria ser mais bem presenteado – por que nunca fazia por merecer uma bicicleta. Os pais da minha época não eram tão comunicativos como fui com os meus filhos. Não faziam isso por mal ou porquanto gostassem menos dos seus rebentos do que os mais modernos.

 

Já tive a oportunidade de escrever, no espaço que estou usando no blog do Mílton,como acabei ganhando o presente natalino que me era negado. Quem, por acaso,leu a história do dia em que deixei de pedir emprestada a bicicleta de um amigo para que eu desse “uma voltinha”,faça de conta que não a viu. Eu sempre fui um péssimo aluno em matemática.Não apreciava as ciências exatas. Gostava,isto sim, de português,história e geografia. Como de hábito,fiquei em segunda época na danada que detestava. Estudei com um professor particular pouco antes do exame e captei o suficiente para não perder o ano. Sabem com que prêmio o meu pai afirmo que me daria se passasse? Uma bicicleta.

 

Bem no início da rua em que eu morava,na Zona Norte de Porto Alegre,havia uma loja que comercializava máquinas de escrever. Essa,resolveu por à venda uma…bicicleta. Era uma Sueca Centrum,com guardalamas e aros de alumínio,além de outros acessórios. Tratava-se de um bicicleta luxuosa e,evidentemente,a mais cara dentre as concorrentes. Aproveitei-a ao máximo,pedalando na minha zona,chegando ao centro e a locais mais distantes para passear com os amigos. O sonhado presente de Natal se tornou o mimo conquistado em um bem sucedido exame de segunda época

 

Como pai,vivi vários natais no período em que os meus filhos moravam comigo e com Rute,a mãe deles,que faleceu logo após a minha volta,em 86,da Copa do Mundo. Na véspera do Natal,em cuja noite os presentes eram distribuídos,seguíamos um programa imutável anos a fio. Eu levava os meus três filhos de carro até o topo do morro no qual se concentravam três emissoras de televisão e de onde se tinha uma vista magnífica de Porto Alegre. A mãe das crianças ficava em casa dando os últimos retoques na tradicional e espinhosa árvore de Natal e colocando aos pés dela – árvore,claro – os presentes da família. Agora,com 78 anos,sou mais do que pai,virei avô de quatro netos:dois nascidos e moradores da minha cidade – os do Christian e da Lúcia,Vivi e Fernando – que posso visitar no Natal. Já com o Gregório e o Lorenzo,filhos do Mílton e da Abigail,que nasceram e moram em São Paulo,geralmente fico apenas,por telefone, lhes desejando Feliz Natal.

 


Milton Ferretti Jung é jornalsita, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)