Quanta coisa a gente faz de errado

Desde a extração até a venda, use e descarte, todas as coisas em nossas vidas afetam as comunidades locais e internacionais, mesmo que na maioria das vezes não sejamos capazes de enxergar esta realidade. A “História da Coisa” – originalmente batizada “The Story of Stuff” – apresenta a conexão que existe entre problemas sociais e ambientais enfrentados pela sociedade moderna. São 20 e poucos minutos de filme que nos convocam a criar um mundo mais justo e sustentável. A iniciativa é de Annie Leonard, ambientalista e coordenadora do Funders Workgroup for Sustainable Production and Consumption

Você tem duas formas de assistir ao vídeo. Clique na imagem acima e reserve alguns minutos a mais para refletir sobre o tema. Ou vá até o site oficial de “História da Coisa” e tenha a oportunidade de interagir na discussão.

Audácia de Maluf tem limite

O livro-palanque com a trajetória política de Paulo Maluf, lançado semana passada, não foi a primeira tentativa de se escrever a biografia do atual deputado federal. Ainda antes de se eleger para a Câmara dos Deputados, Maluf se submeteu a uma série de entrevistas feitas por famoso jornalista paulistano. Ao aceitar o convite, Maluf assumiu o compromisso de permitir a publicação de todas as declarações que estavam sendo gravadas. O caldo entornou quando o jornalista falou sobre a relação dele com o Regime Militar: “O senhor sabia que os militares torturavam e matavam os presos políticos ?”. Um sonoro e impublicável palavrão foi disparado pelo parlamentar na época não-deputado. Em seguida, levantou-se e saiu da sala. Ao retornar foi informado que a reação agressiva seria publicada. Desistiu do projeto.

Fretados debatem trânsito congestionado de São Paulo


Caminhão comete irregularidade e prejudica ainda mais o trânsito

São Paulo está congestionada de eventos que discutem a mobilidade urbana, reflexo de um cenário que prejudica a qualidade de vida do cidadão e barra o desenvolvimento da cidade. Os engarrafamentos que transbordam os tradicionais horários de pico são resultado de políticas públicas fracassadas que deram prioridade ao transporte individual, e tornaram o carro extensão da casa de mais de 1/3 dos paulistanos. Hoje, será a vez do sindicato que reúne empresas do setor de frete que debaterá o tema com personalidades que estudam este quadro.

Uma pesquisa que mostrará quantos carros deixariam de circular com a ampliação do sistema de fretamento oferecerá aos empresários base para documento que será apresentado ao fim do encontro. Será interessante, por exemplo, comparar o efeito desta medida com outra muito mais polêmica: o pedágio urbano. Apesar de o programa do 1o. Fórum de Debates sobre Trânsito e Transporte não falar explicitamente no tema, um dos mais ferrenhos defensores da cobrança, o arquiteto Cândido Malta, está entre os convidados do painel “São Paulo está parando”.

Os empresários do transporte de carga que têm criticado a prefeitura de São Paulo pela restrição parcial na circulação de caminhões também falarão ao público e, ao lado, dos representantes dos setores de transporte de passageiros formarão o painel “São Paulo não pode parar”

A este que lhe escreve, caberá o sempre antipático papel de mediar o debate “São Paulo não vai parar”. Antipático, pois a função exige o controle do tempo ocupado pelos debatedores (e sempre alguém vai além da conta) e a seleção das perguntas do público o que acaba deixando muita gente de lado. Nos dois casos, todos olham para você com cara feia.

Como feia mesmo é a situação do transporte na cidade, será interessante ouvir do presidente da Associação Nacional do Transporte Público Ailton Brasiliense o que São Paulo pode fazer. Em seguida, CET, EMTU, e as secretarias de transporte do Município e do Estado comentarão as sugestões apresentadas para que se possa entender as diferenças que existem e as convergências possíveis.

O evento será no Centro de Convenções do Novotel Jaraguá São Paulo Conventions (r. Martins Fontes 71 – Centro – São Paulo -SP), das 8 às 18 horas.

Canto da Cátia: Cadê a faixa que estava aqui ?

?

A falta de sinalização horizontal na pista gera insegurança aos motoristas, principalmente nas vias de maior velocidade como esta na Marginal Tietê. A justificativa, já sabemos: é preciso esperar a fiscalização avaliar o trabalho de recapeamento e autorizar a pintura. O problema é a demora para que estas ações sejam adotadas. A Cátia Toffoletto, nossa “Paparazzo do Cidadão”, registrou esta imagem na faixa em direção a rodovia Ayrton Senna, no trecho da Ponte da Casa Verde e o estádio da Portuguesa.

Tempo quente no inverno gaúcho



Painel de Aldo Locatelli se destaca na sala na qual a governadora anuncia medidas para o Detran

Sem a mesma maestria para manipular os deputados estaduais que alguns colegas seus, a governadora Yeda Crusius (PSDB), do Rio Grande do Sul, tem enfrentado forte oposição na Assembléia Legislativa. Nessa segunda, antecipou-se a conclusão da CPI do Detran e anunciou medidas para mudar a cara do órgão, alvo de denúncias de ineficiência e desvio de verbas públicas.

O local escolhido para o lançamento do plano de recuperação do Detran foi o Salão Alberto Pasqualini, do Palácio do Governo. Lotado de jornalistas, gente interessada e uma turma de interesseiros, Yeda falou ao microfone na tentativa de provar aos gaúchos que os tempos são outros, a partir de agora. Tem muito o que falar ainda para convencê-los desta verdade, pois os problemas no governo dela não se resumem ao departamento de trânsito.

Assisti apenas à parte do pronunciamento, estava mais interessado na decoração do palácio e nas pessoas que frequentavam o local. Muitos, atentos as medidas, nem ouviram a explosão de um carro do lado de fora. Não era um carro-bomba, menos mal. Era apenas uma bomba de um carro.

Clique na foto acima para visitar a página do Blog do Milton Jung no Flickr

Nosso blog é 100 mil

Levei dois dias, vai ver pela emoção do momento, para registrar que o blog superou, no fim de semana, a marca dos 100 mil cliques. Poderia falar em 100 mil acessos, mas preferi os 100 mil cliques pois soa mais próximo da realidade. Deve ter muita gente que apenas clicou e quando viu a cara feia deste jornalista já desistiu de seguir em frente, ou seguir rolando barra abaixo para ler os posts. Não posso esquecer a quantidade de vezes que este mesmo autor acessou o blog para verificar se algum ouvinte-internauta deixou seu precioso comentário. Cada sem-número de vezes que fiz a verificação, o reloginho de clicadas mudou, também. Deve-se levar em consideração, ainda, que a contagem não se iniciou com o blog em 1o. de junho do ano passado. A “tecnologia” foi introduzida nos últimos meses de 2007. Por isso, posso garantir-lhe que estamos com bem mais de 100 mil acessos.

A caminhos dos 200 mil !

Ambiente Urbano: Tóquio, lixo e transporte



Por Osvaldo Stella
Direto de Tóquio

“Estando em Tóquio para acompanhar encontros técnicos sobre a inclusão das florestas em pé no Protocolo de Quioto, aproveito para fazer um paralelo entre a cidade japonesa e São Paulo, a partir de temas relacionados ao transporte coletivo e ao lixo (finalmente achei uma maneira de utilizar o gerúndio).

Podemos dizer que Tóquio é a maior cidade do primeiro mundo, seguida de perto por Nova Iorque. A cidade de Tóquio tem uma população de mais de 8 milhões de habitantes, porém se considerarmos a região metropolitana, com suas 23 municipalidades, este número chega a 12 milhões. A densidade populacional da capital japonesa é o dobro que a da cidade de São Paulo. Logo é de se esperar que existam problemas semelhantes. Mas embora os problemas sejam semelhantes, as soluções são diferentes.

Em relação ao lixo na cidade de Tóquio existe um forte programa de redução na produção de resíduos e de reciclagem, o lixo que não é reciclado é incinerado. A opção pela incineração se deve principalmente ao fato da indisponibilidade de áreas para aterro. Neste sistema apenas 20% de todo lixo coletado vai para o aterro. Existem 21 estações de incineração em Tóquio, inclusive uma a 500m aqui do hotel. Esta solução não seria a mais indicada para o Brasil. Apenas os ganhos com programas eficientes de reciclagem já seriam suficientes em São Paulo. Em Tóquio, considerando a incineração, o índice de reciclagem é de quase 80%. Na
construção civil, 90% dos resíduos são reciclados.

Em relação ao transporte, Tóquio é conhecida por ter a maior rede de transporte coletivo do mundo, interligando trens de superfície com metrôs e linhas de ônibus. O metrô de Tóquio foi inaugurado em 1927 e, hoje, conta com 290 km e 240 estações. É comum em Tóquio encontrar estações de metrô a alguns quarteirões uma da outra. Quando saí da minha casa na Vila Leopoldina, sexta feira, levei, de táxi quase duas horas para chegar no aeroporto. Curiosamnente, naquele momento, Dan Stulbach e sua turma conversavam com o professor Jaime Weissmam sobre a questão do trânsito em São Paulo, no Fim de Expediente. A viagem até o aeroporto me custou R$ 130 e duas horas. Chegando aqui, demorei metade do tempo para percorrer o dobro da distância a um custo de R$ 50, de trem. O táxi aqui custaria R$ 400. Parados nos congestionamentos a cidade vai consumindo nosso tempo e nosso dinheiro.”

Ouvinte-internauta: Vamos invadir o Ibirapuera

Por Sandro Tubertini

Vivo em Londres há três anos onde trabalho como arquiteto para uma consultoria especializada em projetos sustentáveis. Escuto seu programa sempre que posso via internet e pude seguir todas as discussões a respeito das mudanças no zoneamento vigente na região do Parque do Ibirapuera, mais precisamente sobre a construção ou não de novos edifícios no entorno do parque. Corrija-me se estiver enganado, mas entendo que a região tem um zoneamento que permite uso e ocupação maiores dos hoje existentes, entretanto uma resolução do Conpresp limita, desde de 1997, as construções a um gabarito máximo de 10 metros.

Trago esse assunto novamente a tona pois fui convidado pela A.A. (Architectural Association), uma das mais antigas e respeitadas escolas de arquitetura da Inglaterra, para fazer parte de uma banca de examinadores. O tema de trabalho sugerido aos alunos do último ano do curso de arquitetura era uma intervenção no edifício do Detran, em São Paulo, para transformá-lo em uma nova sede para o Museu de Arte Contemporânea (MAC). Quase todos tiveram a oportunidade de visitar o parque e constatar como este é usado durante o fim de semana e durante os dias úteis,bem como as condições da estrutura de apoio disponível ao público. Eu, como o representante paulistano na banca, tinha previsto o papel de avaliar a adequação dos projetos ao clima local bem como o produto final dos trabalhos. Entretanto, perdi mais tempo explicando as duas constatações mais gritantes de quase todos os alunos. Primeiro, a diferença do uso do parque durante os dias de semana e fins de semana; e segundo, a dificuldade de acessar o edifício do Detran, tanto a partir do Parque do Ibirapuera quanto a partir dos meios de transporte, mesmo que individual. Essa segunda característica foi também constatada pelos alunos quanto à acessibilidade ao Parque do Ibirapuera.

A questão de acessibilidade é importante, porque não faz sentido promover um museu em um local onde são constatados sérios problemas de acessibilidade. A discussão sobre esse tema se estendeu para entender por que o Parque do Ibirapuera não tem sua marquise cheia durante a semana da mesma forma que aos fins de semana. Ou mesmo porque a marquise é o espaço mais utilizado do parque. O clima ameno de São Paulo, onde sombra e áreas verdes como a do parque criam um ambiente extremamente agradável, pode responder parte dessa questão, mas ficava faltando responder ao pouco uso durante a semana.

Comparando o Ibirapuera com os parques urbanos europeus e mesmo com o Central Park de Nova Iorque fica evidente a diferença que há no envoltório desses locais. Áreas lindeiras a parques são privilegiadas e por isso são mais valorizadas. Sendo o parque público o ideal é ampliar ao máximo o uso desses espaços lindeiros, permitindo que mais gente trabalhe, estude e more próximo a ele. Afinal quem mantém o parque são os impostos pagos por toda a população de São Paulo.

Contrapondo esse argumento ao dos contrários a densificação da porção sul do parque fica claro que a atitude de manter o entorno congelado vai na direção contraria ao interesse do cidadão paulistano. A baixa densidade do parque o torna um bem cada vez mais caro para o contribuinte, e proibir investimentos na região que poderiam gerar mais recursos para a preservação do mesmo (mais área construída gera maior arrecadação de impostos).

Do ponto de vista ambiental a construção na vizinhança não prejudica de forma alguma o parque. Na verdade, a proximidade com o parque é benéfica para os que estão ao seu entorno. Sendo esse mais um motivo para que se permita que todos usufruam desse bem público.”

Sandro Tubertini é ouvinte-internauta do CBN São Paulo, arquiteto, e imagina um dia ver o Parque do Ibirapuera cheio de paulistanos durante a semana.

De vida e de morte

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Domingo, onze da manhã, em frente ao prédio da tia Inês. Vamos visitar a minha mãe no Recanto onde mora com outros senhorzinhos e senhorinhas que precisam de cuidados especiais. Ela precisa; sofre do Mal de Alzheimer. Na estrada, colocamos a conversa em dia. Falo muito. Da minha recuperação, do novo tipo de alegria que faz parte da minha vida, e de quanto gosto dela. Da alegria e da vida. Falo de novos projetos, e de como mudo a cada dia. Tenho tido surtos de idéias, e minha tia me empresta ouvidos pacientes e generosos. Sei que não vou levar nada comigo quando tirar mais uma das minhas cascas e mudar de estado vibratório, mas gosto do ato de criar. Preciso dele para existir.

Segunda-feira, cinco da tarde, ala de observação de um hospital de São Paulo. Sala comprida, dividida em pequenos espaços por cortinas verdes até o chão, a fim de dar certa privacidade ao paciente e seu acompanhante. Enfermeiros e médicos vão e vem. Quando você precisa deles eles vão, quando quer um pouco de calma e silêncio, eles vêm. Procurar uma veia melhor nas mãos e braços de idosos é tarefa árdua. A veia estourou. Ai, ai, ai! É o que mais se ouve. Tenta na mão. As veias dela enganam. Você olha e pensa que é uma veia boa e ela já está pronta para estourar. Dona Clélia, está tudo bem, a gente só vai dar uma picadinha. Ela quer acreditar. Acredita e depois percebe que acreditou errado. É novamente uma criança, mas a pele das mãos é dura, devido ao trabalho. Não falo de louça lavada nem de queimaduras no fogão. Não falo de vassoura, pano de chão lavado no tanque com água sanitária. Falo do trabalho que fica impregnado na alma, no corpo. Do trabalho que se confessa através dos nossos gestos, da constituição de nossa pele. Mas voltando à sala de recuperação, a troca de médicos é constante e a gente sofre a inconstância de suas presenças. A cada troca de pessoal, informações preciosas se perdem. Principalmente as que não são registradas na planilha de controle. Pressão arterial e temperatura do corpo são medidas por sofisticados aparelhos, mas a identidade da dor não se revela facilmente. É preciso saber ler os símbolos dela, para poder avaliar sua intensidade, formato, origem, e os porquês de sua manifestação.

Quarta-feira, onze da manhã. Espero a vinda do médico para dizer se vamos ou se ficamos. Olho minha mãe e vejo, através do seu corpo, uma história de vida atirada na cama, para quem quisesse ler. Tudo ali. Nada dos móveis bonitos, nada de tevês, discos ou livros. Fogões, panelas, jóias, vestidos, e tudo que lhe passou pelas mãos, reteve um pouco dela. Isso sim, mas ela mesma ficou assim, de mãos vazias e pés nus. O coração, que tanto bateu nos mais diversos ritmos e que por vezes quase parou, vai levar com ele também, um pouco dela.

Será que não existe meio-termo entre vida e morte?

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.