Quanto mais exposição ao mundo, mais dúvidas; quanto mais tempo numa sala climatizada, mais certezas

 

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Texto publicado pelo colega Lourival Sant’Anna

Quanto mais exposição ao mundo, mais dúvidas. Quanto mais tempo numa sala climatizada, mais certezas. Quanto mais estrada, mais humildade e silêncio. Quanto mais ideologia, mais arrogância e estridência. O prazer do repórter está em ser surpreendido todos os dias pela realidade, em ver o mundo desmentir suas pautas, suposições e planos.

 

O jornalismo habita o mundo do ser, não do dever ser. Sem pretensão de objetividade, porque temos uma dimensão simbólica, subjetiva; nem de imparcialidade, porque é impossível ver o todo. Mas tendo a isenção como desejo, tarefa, ideia reguladora, consciente de que não a alcançará. Como escrevi em 2008, no “Destino do Jornal”: quem acredita que alcançou a isenção se torna ingênuo; quem desiste dela se torna cínico.

 

A reportagem é uma estrada. Nela, o percurso importa tanto quanto o destino. O fim, a verdade, inatingível, serve de rumo. Essa analogia entre a reportagem e a vida é parte de seu encanto. Jornalismo e doutrina vivem em campos opostos.

 

Nosso princípio é a honestidade; nosso negócio, a credibilidade. Precisamos mudar o recorte do jornalismo brasileiro. As pessoas não reconhecem a realidade no que consideramos notícia. Ao redor do crime, há também segurança. De trás das declarações absurdas e fantasiosas, há decisões e medidas reais. Fora do extraordinário, há o comum, o cotidiano. É preciso contemplar o entorno, contextualizar. A campanha de descrédito do jornalismo é parte de um plano para proteger os que vivem da mentira, da manipulação. O jornalismo é o seu grande obstáculo, sua permanente frustração. Daí o empenho em destruí-lo ou substituí-lo por “jornalistas” de aluguel.

 

Esse ambiente torna o jornalismo mais importante e mais difícil. É preciso lucidez, humildade e amor à reportagem. Quem tem auto-estima e dignidade não precisa de vaidade e prepotência. #minhaguerracontraomedo

Quando a manchete vira notícia

 

O Guilherme Caetano, repórter de O Globo e revista Época, conversou com seus leitores pelo Twitter sobre a reação do público a uma manchete que ele escreveu em reportagem que tratou das declarações do presidente Jair Bolsonaro idolatrando o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra. Diante das críticas que recebeu, Caetano reavaliou o trabalho que havia feito e refez a manchete para ser mais preciso e justo com os fatos na abordagem.

 

Caetano aproveitou a oportunidade para mostrar como funciona a construção de uma manchete e o risco que corremos sempre que precisamos traduzir uma informação em espaços mais curtos —- especialmente em um cenário no qual a maior parte dos consumidores de informação leem apenas o título ou a chamada, não se aprofundam no caso (e isso sou eu quem estou dizendo, não o Caetano).

 

Reproduzo o texto dele no Twitter por considerar uma boa aula sobre o trabalho que realizamos diariamente, os cuidados que devemos ter e a obrigação de estarmos sempre reavaliando nossas palavras, observações e opiniões — manchetes, também.

 

No passado, havia mais filtros entre a informação apurada e a notícia publicada. No jornal impresso, por exemplo, o texto passava pelas mãos do repórter, do editor e do corretor. A manchete ficava a cargo de uma pessoa que não havia se envolvido diretamente na reportagem — e todos esses olhares sempre ajudavam o repórter que pela proximidade com os fatos relatados talvez não tivesse percebido sutilezas de uma frase, uma expressão ou um título.

 

A humildade em admitir erros é uma marca necessária para quem faz jornalismo profissional — é um dos pontos que nos diferenciam daqueles que investem na criação de “fake news” para manipular a opinião pública.

 

Reproduzo a seguir, o que escreveu Guilherme Caetano:

 

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O gancho da matéria foi a visita da viúva do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-chefe do DOI-Codi, um dos mais conhecidos centros de repressão na ditadura militar, onde houve crimes, violações dos direitos humanos, tortura, ao presidente Jair Bolsonaro.

 

A ideia da pauta era falar com pessoas das Forças Armadas e dos grupos de direita e descobrir o que eles pensam do Ustra, sabendo que o coronel é visto como ídolo pelo presidente. E também responder à dúvida: por que só vemos a esquerda, de uma forma geral, bater no Ustra?

 

Conversei com generais e lideranças da direita. Apuração feita, constatei que muitos segmentos da direita poupam Ustra, que já foi condenado por tortura, de críticas. E aí redigi o título de uma forma muito questionável. Na correria da redação, essas coisas acontecem.

 

Depois de ver que a matéria estava sendo massacrada, fui reler e também reparei no erro. Alterei-o para “Condenado por tortura na ditadura militar, Ustra segue poupado por segmentos da direita”. Conceitualmente mais correta, sem atenuar a gravidade do personagem.

 

Nesta mesma semana, o New York Times foi criticado por uma frase também mal feita. A manchete da terça-feira, após a tragédia no Texas e em Ohio, era “Trump urges unity vs. racism”. E gerou uma repercussão bem negativa.

 

O maior jornal do mundo foi massacrado e mudou a manchete na segunda edição para “Assailing Hate but Not Guns”. O Nelson de Sá escreveu na Folha uma coluna sobre o caso: “NYT alivia para Trump e é forçado a recuar após revolta“.

 

Tom Jones escreveu sobre: É fácil criticar a manchete do Times, mas é preciso parar por um segundo e pensar como é difícil redigir manchetes. Essa história do Trump, por exemplo. Você tem tiroteios que mataram 31 em duas cidades. Então, Trump discursa por 10 minutos sobre (…)

 

(…) uma epidemia que ninguém concorda e ninguém pode resolver. E alguém, em um deadline curto, precisa juntar tudo isso em sete palavras cuja soma precisa ter um número exato de caracteres.

 

Muita gente criticou O Globo pelo meu péssimo título. Queria dizer que muito do que as pessoas acham que é manipulação, mau caratismo e parcialidade da imprensa muitas vezes é só pressa, inexperiência e descuido de um jornalista atarefado. Mas isso não nos exime da culpa.

Palavras do presidente têm efeito mais letal sobre a vida humana do que videogames

 

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Cena de CSGO (gamerview.com.br)

 

Donald Trump adora um videogame. Especialmente se for para transformá-lo em bode expiatório. Sem nunca ter saído do palanque, segue com seu discurso de ódio, ataca minorias e desrespeita o contraditório. Nos atos e nas omissões, incentiva o culto às armas e critica o uso de jogos eletrônicos, como voltou a fazer nesta semana após deparar com mais dois ataques a tiros, que levaram a morte 31 pessoas, no Texas e em Ohio. Para Trump, “os videogames desumanizam as pessoas” e são parte da culpa dos tiroteios em massa.

 

O discurso de Trump está décadas atrasado. Essa discussão já foi superada, ao menos do ponto de vista da ciência. Mas como estamos vivendo uma era de ascensão dos obscurantistas —- o Brasil que o diga —-, a retórica contra os games volta a todo instante. Foi assim em março deste ano quando ficamos chocados com o assassinato de estudantes em uma escola, em Suzano, Grande São Paulo.

 

Pedro Doria, em Vida Digital, no Jornal da CBN, terça-feira, falou do assunto em seu comentário. Lembrou que a relação entre atos de violência e videogame data dos anos de 1990 com o surgimento de jogos do modelo “first-person shooter” ou “tiro em primeira pessoa” —- em que o jogador controla um personagem pelo cenário, carregando armas e lançadores de projéteis. Dois ícones desse tipo de jogo foram o Wolfenstein 3D, criado em 1992, e o Doom, em 1993 .

 

Para entender porque se começou a refletir sobre o risco desses videogames é preciso lembrar que os anos de 1990 terminaram com a primeira grande tragédia em escola. Foi o massacre que matou 12 alunos e um professor na Columbine High School, em Columbine, no estado americano do Colorado, em abril de 1999.

 

 

O debate na época foi importante como outros tantos são essenciais atualmente, afinal ainda precisamos entender muito da relação humana com os avanços tecnológicos. E a cultura do videogame já se estabelecia especialmente entre os mais jovens, no fim do século passado. No entanto, desde lá, inúmeros estudos já derrubaram a tese que se mantém na cabeça ultrapassada de gente como Trump —- e como tem gente que pensa como ele!

 

Em seu comentário, Pedro Doria lembra de dois estudos que mostram, primeiro, que jovens envolvidos em tiroteios em massa costumam estar 20% menos envolvidos com videogames do que a média das pessoas da mesma faixa etária. Ou seja, seus filhos ou suas filhas devem jogar muito mais videogame do que esses assassinos —- nem por isso são agressivos ou revelam desejo de matar o próximo.

 

Em outra pesquisa, identificou-se que os níveis de emoção, adrenalina e agressividade aumentam enquanto a pessoa está jogando —- aspectos que não permanecem por muito tempo após o jogo ser desligado. De outro lado, identificou-se que o foco total na cena durante o jogo reduz as capacidades de planejamento e organização necessárias para a realização de ataques em massa. Ou seja, nem a turma sai da frente do game disposta a matar o primeiro que aparecer nem com disposição para preparar um ataque mais tarde.

 

Pesquisadores da Alemanha, foram além e, em 2017, publicaram a primeira investigação dos efeitos de longo prazo da violência nos videogames sobre a agressividade. Os pesquisados jogaram o GTA, que está na categoria dos violentos, o The Sims 3, considerado não-violento, ou simplesmente não jogaram nada, durante dois meses —- e quem jogou, jogou por muito tempo seguido. As evidências são amplamente contrárias a tese de Donald Trump.

“Em conjunto, os resultados do presente estudo mostram que uma extensa intervenção no jogo ao longo de 2 meses não revelou quaisquer alterações específicas na agressão, empatia, competências interpessoais, impulsividade, depressão, ansiedade ou funções de controle executivo; nem em comparação com um grupo de controle ativo que jogou um videogame não violento nem com um grupo de controle passivo”

Se quiser conferir, o estudo está publicado na revista Nature

 

Trump ajudaria muito o debate contra a violência se começasse a medir o peso de suas palavras, que têm efeito mais letal sobre a vida humana do que videogames.

 

Em maio, após demonizar imigrantes ilegais e chamá-los de “bandidos” e “animais”, perguntou à plateia que o assistia em comício, na Flórida: “Como você para essas pessoas? Você não pode”. Alguém na multidão, gritou: “Atire neles”.  Trump  sorriu enquanto o público aplaudia esse absurdo. Por isso não surpreende que manifestos racistas publicados na internet, como o feito por Patrick Crusius, um dos responsáveis pelo massacre de El Paso, usem retórica semelhante a do presidente.

 

 

Missa de 7º dia pelo falecimento de Milton Ferretti Jung

 

 

Convidamos parentes e amigos para as missas de sétimo dia do seu falecimento que serão realizadas em São Paulo e Porto Alegre.

 

 

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Missa de 7º dia em São Paulo
Sábado, dia 03 de agosto, às 18 horas

 

 

Capela da Imaculada Conceição
Rua Paulo Sérgio de Macedo, 197
Bairro: Vila Sônia

 

 

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Missa de 7º dia em Porto Alegre
Domingo, dia 04 de agosto, às 10 horas

 

 

Paróquia Menino Deus
Praça Menino Deus, 18
Bairro: Menino Deus

 

 

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Meu minuto de silêncio

 

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O minuto de silêncio que antecede o início de partidas de futebol é protocolar. Geralmente pedido pelo clube da casa ou por autoridades com a intenção de homenagear pessoas queridas —- muitas públicas, outras celebridades e algumas conhecidas da comunidade local. Há minutos de silêncio marcantes como o da tristeza pelo acidente aéreo da Chapecoense ou pela morte dos garotos do Flamengo — apenas para citar os mais recentes. Por contraditório que seja, um dos mais bonitos foi o proporcionado pela torcida do Botafogo que cantou um samba por um minuto em homenagem a Beth Carvalho. Nelson Rodrigues dizia que no Maracanã se vaia até minuto de silêncio como forma de descrever a irreverência do torcedor de futebol no Rio de Janeiro. A verdade é que na maior parte dos estádios nem sempre há o respeito devido e o grito de guerra de torcidas organizadas se sobrepõe ao silêncio dos demais.

 

Na segunda-feira à noite, sentei-me à frente da televisão, na casa da Saldanha Marinho, em Porto Alegre, para assistir ao Grêmio no Campeonato Brasileiro. O jogo era em Maceió, Alagoas, e antes de se iniciar o árbitro sinalizou a homenagem tradicional. O repórter de campo informou que o silêncio se fazia para lembrar alguém querido do clube da casa, o CSA.

 

O silêncio se fez dentro de mim.

 

Não fazia muito, eu havia participado da cerimônia de encerramento que marcara a despedida de meu pai, Milton Ferretti Jung, de 83 anos, que morreu no domingo pela manhã, em Porto Alegre. Nas últimas 24 horas, a dor da perda se fazia forte no coração. Havia experimentado uma montanha russa de emoções, em que no vale havia uma tristeza profunda por saber que jamais poderia abraçá-lo e beijá-lo novamente. E no cume, o orgulho de ouvir amigos, colegas de trabalho, ouvintes do passado com suas memórias e histórias a revelar a dimensão que o pai teve na vida de muita gente.

 

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Imagem de arquivo de jornal 

 

Estar sentado naquela sala, onde praticamente nasci e vivi minha infância e adolescência, era uma tentativa de resgate dos tempos em que passeava de mãos dadas com o pai, em direção ao estádio Olímpico ou a caminho da rádio Guaíba, onde trabalhou por 56 anos. Naquela sala, assistimos juntos às primeiras imagens a cores da TV que ele comprara. Sentamos no sofá para ouvi-lo contando as aventuras de viagens ao exterior, proporcionadas pelas coberturas esportivas. Nos atirávamos no tapete para acompanhar as sessões de slides que ele reproduzia na parede, um por um, cada qual com sua história —- e histórias que se repetiam sessão por sessão como se fosse a primeira vez que estivesse nos contando.

 

O minuto de silêncio no jogo que deveria ter se iniciado parecia não acabar mais.

 

Lembrei-me de quando estive com o pai na final do Campeonato Gaúcho de 1977, de quando comemoramos o Mundial de 1983 e das várias vezes em que ele me abraçou para sustentar meu choro por uma derrota qualquer. De quando invadiu o campo suplementar do Olímpico para brigar com o árbitro que havia expulsado o filho dele injustamente —- sim, sempre que fui expulso o juiz havia sido injusto comigo. De outras tantas, que ele sofreu sentado na arquibancada das quadras de basquete enquanto torcia por mim.

 

Pensei como ele foi importante para me fazer jornalista.

 

No apoio incondicional a todas as minhas decisões — menos aquela de partir com 20 e poucos anos para trabalhar em Florianópolis (ainda bem que ele não deixou). Mesmo aquelas que me levaram para longe dele como o dia em que decidi morar em São Paulo e ele não tinha mais como me impedir. No  dia em que me permitiu narrar a fuga de presos do Presídio Central de Porto Alegre, apesar de ter de tirar parte do Correspondente Renner do ar e invadir a Hora do Brasil. No gol do Grêmio que compartilhou comigo, na época repórter de campo.

 

 

 

Agradeci no minuto de silêncio, que já se estendia por um jogo inteiro, pela forma como o pai se comportou com os colegas de trabalho, pela retidão na conduta pessoal e profissional e pela maneira humilde com que recebia elogios e reconhecimento. Pelo jeito meio desajeitado de revelar seu amor pelos filhos, mesmo que esses gestos parecessem tão difíceis para quem cresceu sob outra orientação. Por ter aprendido, mesmo que tarde, a dizer: “eu te amo”. Agradeci até pela angústia que o consumia sempre que eu saía para à noite. Porque de sua personalidade e seus valores, aprendi muito para a vida.

 

O silêncio não estava mais dentro de mim, estava por toda parte. Porque nada era mais importante do que a memória que eu estava construindo naquele instante com a ajuda de todas aquelas pessoas que tinham me abraçado horas antes no Crematório Metropolitano São José, me enviado mensagens com lembranças vividas com meu pai, me encaminhado gravações do passado e homenagens feitas no presente —- como a dos locutores esportivos da Rádio Globo que cantaram o gol repetindo o bordão que marcou a carreira do pai.

 

No silêncio, agradeci a Deus por ter me permitido vivenciar tantos momentos incríveis com meu pai e por ter colocado tanta gente boa ao meu lado nesse instante de tristeza. Uma gratidão que, tenho certeza, é também do Christian e da Jacqueline, meus irmãos, tanto quanto da Abigail, minha mulher, do Lorenzo e do Gregório, meus filhos.

 

Por que escolho Miriam Leitão

 

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Na reta final de ‘É proibido calar!’, livro que lancei ano passado, a editora pediu que eu convidasse alguém em quem confiasse e admirasse para escrever o prefácio. O primeiro nome que me veio à cabeça foi o de Miriam Leitão, mas confesso que ao mesmo tempo em que tinha certeza de que ela seria a pessoa ideal para apresentar meu trabalho, morria de medo.

 

O prefaciador pode ser considerado o primeiro leitor do seu livro. É a primeira pessoa de fora do projeto a ter contato com o texto. Antes dele, tem-se o autor que imerso emocionalmente no trabalho tem uma visão parcial. O editor e o corretor também participam dessa etapa inicial do processo e têm envolvimento profissional, enviam algumas recomendações e fazem os ajustes necessários.

 

E para “primeiro leitor” de ‘É proibido calar!’ fui escolher logo a Miriam que tem uma produção literária de altíssima qualidade, é detentora de merecido Prêmio Jabuti e tem olhar tão preciso quanto crítico.

 

Quanto atrevimento de minha parte, logo pensei. Que cara de pau, repetia minha consciência. Quando ela aceitou o convite e me pediu para enviar os originais, as pernas tremeram e o coração bateu mais forte. Uma sensação que se repetiria assim que Mário Sérgio Cortella aceitou escrever a orelha do livro — mas este é um outro capítulo.

 

O tempo entre o envio dos originais e o prefácio chegar foi marcado pela ansiedade, que só foi superada pela alegria de ler as palavras que ela havia dedicado. Emocionei-me também ao conhecer um pouco mais das histórias que Miriam vivenciou em família, a começar pela relação com o pai, tão marcante na construção de sua personalidade:

 

“Meu pai, ao contrário dos pais de várias amigas minhas no interior de Minas Gerais, jamais me disse que o destino da mulher era casar e ter filhos. Pelo contrário, dizia que eu me casaria apenas se quisesse, o importante era fazer um curso superior, ter uma profissão e um sonho” —- escreveu

 

Miriam sonhou alto e para alcançar seus sonhos estudou muito, dedicou-se como poucas pessoas e forjou uma carreira impecável no jornalismo —- ela também casou, e teve filhos, e teve netos. Fez-se mulher independente e corajosa. Enfrentou a estupidez dos ditadores. Superou seus torturadores. Lições que reforçaram seu viés humanista. Acreditou na construção de um Brasil melhor e mais justo.

 

Tenho o prazer de tê-la como parceira no Jornal da CBN, onde ocupa seu espaço dedicado à economia com informação apurada e análise crítica — sempre disposta a levar a conversa para além da fronteira dos números que muitas vezes contaminam o noticiário econômico. Olha o ser humano em suas várias dimensões. Em lugar das estatísticas prefere as pessoas. Em lugar de gráficos, privilegia a vida.

 

Foi essa mulher, jornalista, corajosa, crítica, justa e humana, que vimos ser atacada na semana passada. Ataques que partiram de gente intolerante e de autoridade pouco comprometida com a verdade dos argumentos. Ataques que são corroborados por uma turba indisposta ao contraditório e incapaz de entender o papel de um jornalista diante da verdade dos fatos. Que esqueceu que Miriam, ao longo de toda sua carreira, sempre se comportou assim, firme, forte e independente, a despeito de quem esteja no poder.

 

Por ser quem é e por ter enfrentado o que já enfrentou, Miriam, com certeza seguirá sua trajetória que começou a ser percorrida lá atrás, na pequena Caratinga, em Minas Gerais.

 

E por tudo isso, eu sempre vou escolher Miriam Leitão!

A responsabilidade de ter na mesa um troféu com o nome da Ir. Dorothy Stang

 

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“Quando enterramos o corpo da Irmã Dorothy,
em fevereiro de 2005, repetimos
muitas vezes que ‘não estamos
enterrando Irmã Dorothy,
mas sim, estamos plantando’.
Ela é uma semente que vai dar muitos frutos.
Queremos celebrar estes frutos
e as novas sementes que
estes frutos estão lançando”
Dom Erwim Krautles, Bispo Emérito do Xingu (PA)

 

Sexta-feira passada, em Goiânia, fui um dos homenageados no Prêmio de Comunicação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, com a Menção Honrosa Ir. Dorothy Stang. De acordo com o informe da comissão de comunicação da CNBB, a escolha levou em consideração o trabalho que realizo no rádio:

 

“Sua competência profissional aliada a uma sensibilidade cidadã tem um impacto positivo na audiência e colaborado com a formação de valores humanos, critério definido pelos bispos para a escolha de comunicadores”.

 

Dedico-me ao jornalismo há 35 anos e ter o nome selecionado para esse prêmio me deixa, é claro, lisonjeado, mesmo que nunca consiga enxergar de forma evidente os resultados desse trabalho na transformação da sociedade —- e talvez seja melhor assim, caso contrário corre-se o risco de a soberba se sobrepor a causa.

 

Os outros profissionais que receberam a menção honrosa foram Wagner Moura, ator e diretor de Cinema; Sandra Annenberg, jornalista da TV Globo; Vinicius Sassini, jornalista de O Globo; os digital influencers Iara e Eduardo, “caçadores de bons exemplos” e, em homenagem póstuma, o jornalista Ricardo Boechat.

 

Havia sido informado do prêmio dias antes quando, então, a pedido dos organizadores gravei vídeo para agradecer a escolha do meu nome ao lado de outros colegas da mídia e do cinema —- que foi reproduzido durante a cerimônia.

 

Fiz questão de gravar a saudação no Pateo do Collegio, onde surgiu a cidade de São Paulo, no século 16. Foi lá que os jesuítas iniciaram o povoado que se transformaria nesta megalópole. Sempre considerei simbólico que, ao contrário da maior parte das cidades, São Paulo surgiu no entorno de uma escola e não de uma fortaleza.

 

Escolher como cenário o local da primeira escola de São Paulo foi a forma de expressar minha gratidão por ter em mãos um troféu com o nome da Irmã Dorothy que encontrou na defesa dos homens e das mulheres mais simples deste país a maneira de revelar sua missão cristã. Deu a vida por essa causa.

 

Na sua caminhada, Irmã Dorothy foi uma das fundadoras da primeira escola de formação de professores na Transamazônica, a Brasil Grande —- nome que por si só demonstrava o quanto ela e seus companheiros acreditavam que através da educação poderíamos nos desenvolver como nação.

 

Assim, fui ao Pateo do Collegio para lembrar que todos que trabalhamos com comunicação social não podemos jamais perder a noção de que temos também uma missão educadora quando buscamos a verdade, apuramos os fatos, ouvimos o contraditório e questionamos a autoridade estabelecida.

 

Além de agradecer pela gentileza da CNBB, fiz questão de, em vídeo, registrar minha crença que pela educação e com trabalho podemos ajudar a construir um Brasil mais justo, mais ético e mais generoso. Um Brasil grande, como sonhou Irmã Dorothy Stang.

Três faces de um mesmo Brasil desfilaram domingo no Maracanã

 

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A festa da vitória no Maracanã FOTO: Heuler Andrey/Agência O Globo

 

Havia 70 mil pessoas no Maracanã. Estavam lá para assistir ao futebol brasileiro, famoso pelos craques que exporta ao mundo e pela performance do passado, em que se diferenciava dos demais pela maneira alegre e eficiente com que tocava na bola. Hoje, tudo está mais parecido. Com a compra de nossos talentos, o que era diferencial se espalhou no mundo. Com o agravante que parte desse mundo tem mais dinheiro e capacidade de organização. E isso os faz maiores e melhores.

 

Quis o destino que o Maracanã lotado se encontrasse com o que ainda temos de excelência: o talento individual de alguns dos nossos. Antes de a bola começar a rolar, o estádio ficou em silêncio. Ou quase. Havia apenas um murmurinho entre os torcedores — como se um estivesse cochichando ao outro o motivo da homenagem. O alto-falante anunciou que faríamos um minuto de silêncio a quem soube privilegiá-lo: João Gilberto. O Maracanã parou para lembrar da morte de um dos maiores músicos de nossa história, que com o suspiro de voz e o dedilhar do violão influenciou o mundo da arte.

 

Logo que o árbitro calou o silêncio com o trilhar do apito, o Brasil expressou-se no drible de uns, na eficiência de outros e na perseverança da maioria de nossa seleção. Aqui nessas bandas ainda conseguimos ser superior pelo talento que apresentamos, mesmo que o passe não tenha mais a mesma precisão, o chute costume sair desviado e o gingado do corpo se mostre desengonçado diante do marcador. Há exceções, é claro. E a partir delas alcançamos a vitória.

 

Jogo encerrado, o Maracanã foi palco de mais uma expressão brasileira — mas não apenas nossa: o populismo. Como poucas vezes, assistiu-se o presidente desfilando no gramado, abraçando os campeões, erguendo a taça e posando para fotografias. Da arquibancada soaram aplausos e vaias — um misto do que é o Brasil nestes anos estranhos que vivenciamos.

 

O Maracanã, no domingo que se foi, abrigou três facetas de um mesmo país: a música, o futebol e a política — cada qual com o quem tem de melhor para se apresentar ao mundo. Se é que você me entende.

E foi dada a largada!

 

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A rivalidade entre Rio de Janeiro e São Paulo não é novidade. Do campo político aos gramados de futebol, a turma dos dois estados —- em especial das duas capitais —- nunca deixou barato para o outro lado. Na música, na moda e até nos hábitos entorno da mesa do boteco as diferenças sempre foram motivos de discussão.

 

Como vim do Sul, nunca me meti nessa história — até porque sei de alguns gaúchos (não é mesmo, Getúlio?!?) que mais causaram confusão do que ajudaram a apaziguar os ânimos. Por isso, fiquei com um pé atrás logo cedo quando vi no meu WhatsApp o tema proposto para o bate-papo matinal com meus colegas que apresentam o CBN Primeiras Notícias, diretamente do estúdio do Rio de Janeiro: “vamos falar dessa briga entre RJ x SP?”.

 

Era muito cedo e o olhar ainda estava embasado pelo sono, o que me fez demorar um pouco para entender que a discussão que pretendiam promover tinha como foco a disputa pela sede do Grande Prêmio de Fórmula 1, provocada pelo desejo do presidente Jair Bolsonaro de levar o evento de volta para o Rio, onde já foi disputado nos anos de 1978 e de 1981 a 1989 — ideia rechaçada pelo governador João Doria que empunhou a bandeira da resistência em nome de São Paulo.

 

Essa é uma briga de cachorro grande.

 

Primeiro, pelo fato de contrapor desejos de dois dos maiores e mais importantes estados brasileiros.

 

Segundo, tem como foco um dos principais eventos esportivos anuais do planeta, a Fórmula 1, que só no ano passado rendeu à capital paulista R$ 344 milhões e gerou perto de 10 mil empregos.

 

E para fechar o circo, é protagonizada por duas lideranças políticas do momento.

 

De um lado temos o presidente Jair Bolsonaro que nos últimos dias rasgou a fantasia. Ele que criticava a possibilidade de reeleição durante a campanha, a ponto de considerá-la responsável por parte dos malfeitos da política nacional, não esconde o desejo de concorrer a mais um mandato, mesmo que não tenha completado sequer seis meses do primeiro. Dá a impressão de que o palanque eleitoral é seu palco preferido.

 

De outro lado, temos o governador João Doria que sempre revelou sua ansiedade pelo poder, a ponto de ter interrompido o trabalho na prefeitura para disputar o Governo do Estado, quando até os cupins do Palácio dos Bandeirantes sabiam que o sonho dele era mesmo o Palácio do Planalto.

 

Semana passada, os dois já haviam ensaiado uma disputa constrangedora. Durante visita conjunta ao Centro Paraolímpico Brasileiro, em São Paulo, provocado por Bolsonaro, Doria aceitou o desafio de fazer exercícios de flexão de braços —- sabe aquelas brincadeiras sem graça de adolescentes em busca de afirmação? Pois é, foi isso mesmo que eles fizeram.

 

Agora, resolveram exercitar outra parte do corpo muito apropriada aos políticos: a língua.

 

Bolsonaro falou, ontem, que a F1 tem 99% de chances de ser do Rio e cutucou o governador paulistano afirmando que se ele é pré-candidato à Presidência deve pensar no Brasil em primeiro lugar.

 

Doria não se fez de rogado. Respondeu que não é hora de eleição, mas de gestão. Hoje, voltou ao tema após receber o CEO da F1, Chase Carey — o mesmo que esteve na companhia do presidente um dia antes. Em lugar de apenas defender sua posição, acelerou contra o concorrente ao ironizar o local onde o Rio quer construir o autódromo: em Deodoro só da para chegar de cavalo, disse o governador paulista.

 

Como falei logo cedo e reitero aqui, essa é uma briga de cachorro grande e não vou me meter nela de graça, até porque Bolsonaro e Doria demonstraram que o Grande Prêmio de Fórmula 1 é apenas coadjuvante nessa disputa. Em jogo está o espaço que cada um ocupará no grid de largada das eleições de 2022. Sim, políticos tem sempre o olhar voltado para o futuro. Deles.

O que diz Bocelli, meu especialista, sobre pensão alimentícia para animais

 

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Ana e o marido viveram felizes enquanto foi possível. Não faz muito tempo entenderam que não se amavam o suficiente para continuarem juntos nem se odiavam a ponto de terem uma separação litigiosa. Além dos laços afrouxados que os distanciaram havia os gatos a aproximar o casal —- três gatos para ser mais preciso. E um cachorro, também.

 

Ficou a cargo dela manter os gatos Cristal, Lua, Frajola e o cão Frederico, na casa onde moravam, em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. A cultura brasileira ainda tem dessas coisas. No momento da separação, por mais amigável que seja, os filhos ficam com a mulher, geralmente. O homem — nem todos, é lógico — pega as crianças em dias determinados para passear e se divertir; e terceiriza para a esposa, ou melhor, para a ex-esposa a educação, a disciplina e todas aquelas coisas chatas que precisamos fazer para criamos crianças saudáveis, justas e éticas. Pelo visto, o mesmo ocorre no caso dos filhos de pelo —- como recentemente passaram a chamar gatos e cães de estimação.

 

Sei que separação de casal, guarda compartilhada, divisão de responsabilidade sobre os filhos e até mesmo os pets já ocorreram aos montes e na maioria dos casos não mereceram uma só nota de rodapé no jornal nem uma crônica (?) neste blog. Mas a história do fim do relacionamento da Ana e do marido — que teve seu nome preservado e eu sei lá o motivo disso — ganhou o noticiário por uma curiosidade jurídica. Pela primeira vez, o tribunal determinou o pagamento de pensão alimentícia aos animais de estimação.

 

Segundo reportagem do G1, o acordo estabelecido entre os pais dos animais prevê que a mãe fique com os gatos e o cachorro e o pai pague o valor referente a 10,5% do salário mínimo, o que hoje equivale a R$104,79 por mês. Ele também tem direito a visitas e passeios.

 

A justiça brasileira já havia decretado a guarda compartilhada de animais anteriormente, mas não previa —- até agora —- pensão alimentícia. Ribeirão Preto parece faz história em defesa dos animais.

 

E se não pagar a pensão? Pergunta de gaiato. Acontece isso mesmo que você está pensando: vai para a cadeia. Sabe-se que se tem coisa que se leva a sério no Brasil é esse negócio de pensão. Sem dor nem perdão. Não pagou, prendeu — às vezes até de maneira injusta, como já tratamos neste blog.

 

Em casos como esse —- que me foi apresentado pelo Frederico, não o cachorro do ex-casal, mas o Goulart, âncora do CBN Primeira Notícias — prefiro recorrer a palavra de especialistas. Consultei o Bocelli, meu gato persa. Adianto-lhe que ele é um gato de poucas palavras, mas tive a impressão de que recebeu bem a notícia, pois sabe quanto custa manter um bichano, imagine três — ah, e o cachorro, também.

 

Bocelli ficou em dúvida apenas em relação ao valor. Achou pouco. Sabe que a lei fala apenas em custear comida mas deve ter pensado no preço da ração (especialmente a dele que é de primeira), que se soma ao da areia para a caixinha, às visitas ao veterinário e ao banho mensal —- apesar dele achar que isso tem muito mais a ver com cão do que com gato. De qualquer forma, acredita ser um bom início de conversa.

 

A incomodá-lo apenas a informação passada pela advogada Taís Roxo, responsável pelo caso, de que “tem no Congresso já em trâmite um projeto de lei nesse sentido (em favor da pensão alimentícia para animais)”. Logo lhe veio à mente, os gatos de rua do vizinho que vão começar a coagi-lo a participar de manifestações em favor do projeto de lei, além de os aproveitadores de protesto que envergarão suas faixas contra a reforma da Cãovidência, pelo fim do CCZ ou pela volta da Carrocinha.

 

Para acalmá-lo, sugeri que convidasse seus colegas de raça a se manifestarem através do aplicativo O Poder do Voto, onde podem pressionar deputados e senadores e expressar suas opiniões a favor ou contra os projetos de lei que estão no Congresso. Como Bocelli é gato moderno, adorou a ideia de se transformar em um militante digital.

 

Antes de encerrar nossa conversa, deixei claro que, a persistirem os sintomas, ele jamais precisará se preocupar com essas coisas de separação, guarda compartilhada e pensão alimentícia, ao menos enquanto ficar aqui em casa. Juro que ouvi um miado de satisfação.