Morre Oscar Schmidt, um gênio que brilhou muito mais do que o ouro olímpico

Mário Quintana, meu poeta, jamais teve o privilégio de sentar em uma cadeira da Academia Brasileira de Letras. Assim como Zico, um dos maiores jogadores que o futebol já viu, nunca conquistou uma Copa do Mundo. Lembro desses dois craques no ofício a que se dedicaram ao me deparar com a notícia da morte de Oscar Schmidt, aos 68 anos. O ‘Mão Santa’ despediu-se das quadras sem conquistar uma medalha olímpica nem jogar na maior liga de basquete do mundo, a NBA.

Quintana, Zico e Oscar são dessas figuras geniais que conseguem ser grandes por si sós. Não precisaram que seus talentos fossem certificados por uma instituição, um diploma ou uma medalha. No caso de Oscar, bem que ele sonhou com o pódio olímpico e lamentou não ter colocado uma das cobiçadas medalhas no peito. Quanto à NBA, foi escolha própria. Preferiu ficar longe do basquete americano para seguir servindo à seleção brasileira — isso não o impediu de receber inúmeras homenagens da liga de basquete dos Estados Unidos.

Oscar foi superlativo. É o maior cestinha da história do basquete mundial, o maior pontuador da seleção brasileira e detém o recorde absoluto de pontos em Jogos Olímpicos. Era uma máquina de fazer cestas — o que lhe rendeu o apelido ‘Mão Santa’, criado pelo locutor Álvaro José —, ainda que ele preferisse explicar o próprio talento pela intensidade com que treinava: “Não existe mão santa, existe mão treinada”. Meia verdade e muita humildade de um ídolo nacional. Mesmo que alguém treine tanto quanto ele treinava, só os gênios chegam onde ele chegou.

Curioso notar que aquele que lamentava não ter uma medalha olímpica nos entregou outra conquista que ganhou peso semelhante pelo que representou: o ouro do Pan-Americano de 1987. O Brasil venceu a seleção universitária dos Estados Unidos, na casa dos adversários, em Indianápolis. Oscar marcou 46 pontos. Converteu sete bolas de três quando a regra ainda não era explorada como estratégia de jogo.

Aquela vitória obrigou os Estados Unidos a levarem as competições internacionais mais a sério e abriu caminho para o surgimento do ‘Dream Team’. Também clubes e seleções passaram a entender que a linha de três pontos não era um detalhe, mas uma escolha tática.

Oscar, como Quintana, não coube nas molduras oficiais. Não precisou delas. Fez da quadra o seu livro, das cestas os seus versos e da repetição incansável o seu estilo. Se Quintana escreveu poesia sem depender da Academia, Oscar compôs a sua com a bola nas mãos — um poeta das quadras, que dispensou glórias para ser lembrado.

Entre a urgência do rádio e o tempo da ciência

No jornalismo de rádio diário, estamos sempre em busca da notícia mais recente. Aquilo que está acontecendo em tempo real. A operação da polícia, o anúncio do governo e o congestionamento da hora tomam espaço da reportagem produzida com antecedência — para desespero do repórter que investiu seu tempo e talento. Nesta semana, por exemplo, as raquetadas ao vivo de João Fonseca se impuseram ao crime que abalou o ouvinte no dia anterior — que assim seja nesta sexta-feira que está para começar. Em uma competição jamais confessada, o papel do radiojornalismo é deixar o jornal da banca um pouco mais velho. Não me queiram mal, colegas de impresso. Admiro muito o trabalho que vocês fazem — é o que nos sustenta naqueles momentos em que o noticiário de rádio está ‘fraco’.

Na edição desta quinta-feira do Jornal da CBN, os personagens da política de Brasília, da economia da Faria Lima ou dos eventos internacionais foram preteridos por alguns instantes. Convidamos dois pesquisadores brasileiros para conversar simultaneamente: Mariangela Hungria, da Embrapa, e Luciano Moreira, da Fiocruz, que entraram na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo, segundo a revista Time. Que privilégio!

Mariangela pesquisa há mais de quatro décadas o uso de micro-organismos do solo para reduzir a dependência de fertilizantes químicos. Em um país que importa a maior parte desses insumos, o efeito é direto na economia e na produção de alimentos. Em uma única safra, segundo ela, a tecnologia desenvolvida gerou economia de dezenas de bilhões de dólares.

Luciano atua no combate às arboviroses. Lidera um método que utiliza mosquitos com uma bactéria capaz de bloquear a transmissão de doenças como dengue, zika e chikungunya. O projeto já está presente em diversas cidades brasileiras e em outros países.

Não havia um factual, uma ocorrência bombástica ou o escândalo que viraliza. O trabalho dos dois começou há décadas, sem alarde. No laboratório das instituições públicas em que trabalham, feitos com baixo investimento e sob alto ceticismo. Uma trajetória marcada por falhas e frustrações. Que, para muitos dos colegas deles, se encerrará no anonimato e na dúvida se as pesquisas que desenvolveram se tornarão legado nos estudos de seus sucessores.

Apesar da ausência da urgência do noticiário, entrevistá-los foi muito especial para nós, que fazemos o Jornal da CBN. E motivo de satisfação para os ouvintes. Aquele mesmo que nos cobra a informação imediata, a atualização do trânsito, a previsão do tempo, a denúncia contra agentes públicos por atitudes erráticas, a notícia do aqui e agora, dispendeu seu tempo para ouvir o relato de dois cientistas.

Claro que o reconhecimento da Time os fez notícia. Dar tempo para que pesquisadores falem das suas angústias e orgulhos não é comum no cotidiano dos programas radiojornalísticos matinais. Por isso, gostei tanto da conversa com eles. Sem contar que os dois são ótimos entrevistados, com bom domínio da comunicação.

A propósito, foi a dra. Mariangela quem chamou atenção para a importância de se investir em comunicação para o bem da ciência:

“Se eu fosse uma ministra de ciência e tecnologia, para quem eu mais daria dinheiro seria para a área de comunicação, ciência da comunicação, porque vocês precisam ensinar para a gente. Tem que ter alguma coisa disruptiva para eu conseguir entender por que a gente traz uma mensagem correta e tem 5 mil likes, e vem um influenciador que fala tudo diferente e tem 500 mil likes”.

Como fazer com que a informação correta, capaz de ajudar as pessoas, consiga ganhar tração e influenciar a sociedade de forma positiva é apenas mais um dos muitos desafios que os cientistas têm pela frente. Um desafio que nos aproxima, pois, como comunicadores que somos, temos a responsabilidade de ampliar o alcance dessa mensagem.

Pela repercussão da entrevista desta quinta-feira, no Jornal da CBN, encerro o dia com a sensação de que vale a pena abrir espaço para histórias que não cabem na urgência do noticiário. Nem sempre o mais importante chega primeiro. Às vezes, ele precisa apenas de tempo — e de escuta — para ser compreendido.

Confissão de quem recebeu uma medalha

Medalha Alberto André
Foto Juliano Verardi – DICOM/TJRS

Ameaço escrever este texto desde segunda-feira. Algo indefinido me impedia. Talvez indecisão. Talvez pudor.

Fui escolhido para receber a Medalha Alberto André, um reconhecimento a trajetórias relevantes no jornalismo gaúcho, concedida pela Associação Riograndense de Imprensa.

Uma das razões que me tolhiam o desejo de escrever era a frase que ouvi do falecido ministro Raul Jungmann: medalha não se pede, não se nega e não se conta — ensinamento que me acompanhou desde então. Evidentemente que não a pedi — nem mesmo a vaidade de um leonino teria sido capaz de me levar a cometer essa barbaridade. Menos ainda a neguei. Ao contrário. Aceitei-a. Não imediatamente, porque nos primeiros minutos da ligação que recebi do presidente da ARI, José Nunes, pensei que o convite era para apresentar a cerimônia.

Como não contar? Como não dividir com amigos e conhecidos essa conquista? Há momentos que pedem silêncio. Outros, partilha.

Vaidade à parte — e ela sempre está a nos levar ao pecado —, momentos como esses pedem publicidade. Com escrúpulo e comedimento.

Deixei o Rio Grande do Sul há 35 anos. Vivo em São Paulo há mais tempo do que vivi em minha terra natal. Muitas memórias e valores ainda estão presentes. A casa em que morei da infância até o início da vida adulta segue por lá. Foi onde dormi nas duas noites em que estive em Porto Alegre.

Meus irmãos, Christian e Jacqueline, são presença viva da família criada pela Ruth e pelo Milton. A Saldanha Marinho, a Getúlio Vargas, o viaduto Otávio Rocha, os escombros do estádio Olímpico, a sede da RBS: tudo me remete aos tempos em que morei na capital gaúcha. A linha de ônibus que cruza a perimetral, o ponto de táxi na esquina e alguns endereços que só eu sou capaz de entender o significado me fazem relembrar experiências marcantes — nem sempre positivas, mas bastante representativas.

Voltar à terra para ser homenageado pela trajetória no jornalismo é também um reconhecimento a quem se atreveu a seguir a carreira de meu pai e meus tios. Como fiz questão de lembrar na fala em agradecimento à medalha recebida, sou de uma família de jornalistas. Milton Ferretti Jung é o meu maior referencial — por tudo o que herdei como filho e como jornalista. Meus tios Tito Tajes e Aldo Jung também foram relevantes no trabalho que realizaram nas redações e importantes na minha formação. Dar sequência a essa trajetória me impunha uma enorme responsabilidade.

A Medalha Alberto André foi, para mim, uma certificação. A demonstração de que fui capaz de levar em frente o legado desta família de jornalistas. A certeza de que a escolha, feita em 1981, quando entrei na faculdade de jornalismo da PUC-RS, apesar de arriscada, foi acertada. Saber que essa mesma medalha esteve no peito de Marques Leonan e Carlos Kober, dois de meus professores na academia, e de Ruy Carlos Ostermann e Lauro Quadros, duas das minhas referências quando eu ainda era apenas um guri de calça curta, foi motivo de orgulho.

Ver naquele mesmo espaço profissionais com a trajetória de Affonso Ritter, que aos 89 anos destacou em suas palavras o papel preponderante do jornalista, a despeito de todo o avanço tecnológico que assistiu ao longo de sua carreira, me fez acreditar na valorização do ser humano.

Abraçar colegas que estiveram ao meu lado no início de minha carreira, como Flávio Dutra e Cláudia Coutinho, e receber a medalha das mãos de Kátia Hoffman, autora do livro Milton Gol-Gol-Gol Jung, que conta a trajetória de meu pai, foi emocionante.

Diante de todos os sentimentos que se expressaram nesses dias em que estive em Porto Alegre, e mesmo com todas as restrições que me imponho, não registrar esse momento de alegria talvez fosse menos humildade e mais egoísmo. E, neste caso, o silêncio não me pareceria virtude, apenas omissão.

Por isso estou aqui, nesta inconfidência, a dividir com você a felicidade e o orgulho de ser jornalista.

Violência sexual contra crianças: a escola como espaço de proteção e a urgência de ouvir as vítimas

“Se a casa é o principal lugar de violação, a escola é o principal lugar de proteção.”

Os dados são duros e ajudam a dimensionar um problema que, muitas vezes, permanece escondido. A Pesquisa Nacional de Saúde Escolar 2024 aponta que 9% dos estudantes de 13 a 17 anos afirmaram já ter sido forçados ou ameaçados a ter relações sexuais, enquanto 18% relatam algum tipo de contato físico sem consentimento. O tema foi tratado em entrevista à CBN pela juíza Vanessa Cavalieri, titular da Vara da Infância e Juventude Infracional do Rio de Janeiro.

Logo no início da conversa, a magistrada deixa claro que o enfrentamento desse tipo de violência exige duas frentes de atuação: “a punição dos agressores e a prevenção”, afirma. Para ela, a resposta do Estado não pode se limitar à responsabilização posterior. O objetivo maior é evitar que o crime aconteça.

A violência que nasce dentro de casa

Um dos pontos mais sensíveis da entrevista é a origem da violência. Segundo a juíza, na maioria dos casos, o agressor não é um desconhecido. Ou são familiares ou são pessoas com quem a vítima tem um relacionamento de afeto.

Esse dado ajuda a entender por que o crime costuma permanecer oculto. O ambiente que deveria proteger é, muitas vezes, o mesmo em que a violência acontece. E isso dificulta a denúncia.

Diante desse cenário, a escola ganha um papel decisivo. Não apenas como espaço de aprendizagem, mas como lugar de escuta. Vanessa Cavalieri cita um exemplo concreto. Durante a pandemia, os registros de abuso sexual infantil diminuíram — não porque os casos tenham reduzido, mas porque as escolas estavam fechadas. “Essas crianças eram violadas e ninguém via, ninguém relatava, ninguém denunciava”, explica.

Para ela, o desafio está em preparar as instituições de ensino. “A escola precisa ter fluxos, precisa ter protocolos e que todos os funcionários saibam o que fazer.” Não apenas professores ou diretores, mas qualquer profissional que possa ser procurado por um aluno.

Escutar sem revitimizar

A entrevista também destaca a importância da escuta protegida, prevista em lei. Trata-se de um método que evita que a criança seja exposta novamente à violência ao relatar o ocorrido: “Existe uma metodologia para ouvir essa criança de forma que ela possa fazer um livre relato, sem ser manipulada e sem ser culpabilizada.” Essa escuta deve acontecer não só no sistema de justiça, mas também em escolas, hospitais e conselhos tutelares.

Outro ponto abordado pela juíza é a educação sexual, frequentemente cercada de desinformação. “Educação sexual não é ensinar prática sexual. É ensinar quais partes do corpo não devem ser tocadas e o que fazer diante de uma situação de abuso.”

Ela relata que, em visitas a escolas, é comum ouvir histórias de jovens que sofreram violência e não sabiam que aquilo era crime. Muitas meninas dizem que foram estupradas, mas não sabiam, porque não houve penetração: “.… e estupro é qualquer ato sexual sem consentimento.”

A palavra da vítima como prova

A magistrada também combate uma ideia recorrente: a de que só é possível denunciar com provas materiais. “A prova para apurar um abuso sexual é a palavra da vítima.” Ela explica que, por se tratar de um crime cometido sem testemunhas e muitas vezes sem marcas físicas, o relato da vítima tem peso central no processo judicial. “É muito frequente a gente condenar um estuprador só com a palavra da vítima.”

Um problema maior do que os números

Ao analisar os dados da pesquisa, Vanessa Cavalieri faz um alerta: a realidade pode ser ainda mais grave. Ela entende que exista uma subnotificação. Muitas vítimas não denunciam. Outras nem reconhecem o que viveram como violência.

A mensagem que fica após ouvir as palabras da juíza Vanessa Cavalieri é clara: enfrentar esse problema exige ação coordenada, informação e, sobretudo, disposição para ouvir. Porque muitas histórias ainda estão escondidas, esperando alguém disposto a escutar.

O fim de uma rádio quase centenária quando mais precisamos de informação

Edward R. Murrow e William Shirer, no estúdio da CBS Foto: reprodução NYT

Abri o The New York Times neste sábado como faço tantas vezes — quase no gesto automático de quem liga o rádio antes mesmo de pensar no café. Aliás, o rádio também estava sendo ligado naquele instante no meu pedido de voz matinal: “Alexa, toca CBN ao vivo”.  E lá estava — no jornal que corria na tela do meu celular — a reportagem assinada por Michael M. Grynbaum e Benjamin Mullin. Li o título. Segui adiante. E, ainda assim, fui surpreendido por algo que, no fundo, talvez já devesse ter aprendido a aceitar: o encerramento anunciado para maio da CBS News Radio, depois de 99 anos no ar.

Quase um século. Tempo suficiente para narrar guerras, acompanhar presidentes, contar histórias que atravessaram oceanos antes de chegar aos ouvidos de quem mal saía da própria cidade.

O artigo do Times lembrava que aquela rede ajudou a levar aos americanos os relatos da Blitz em Londres e, depois, os horrores dos campos de concentração. Era uma época em que a voz do repórter carregava o peso do mundo. E o ouvinte, sentado na sala de casa, recebia essa notícia como quem recebe visita, com atenção, silêncio e respeito.

Pensei em Edward R. Murrow. Pensei naquele aviso seco antes de descrever o campo de Buchenwald: quem estivesse almoçando, melhor desligar o rádio. Havia ali um pacto. O jornalista avisava. O ouvinte decidia. E, entre um e outro, havia confiança — essa marca inexorável que devemos conservar a despeito de todas as transformações digitais.

A decisão de encerrar a rede, segundo os executivos, atende a mudanças de mercado e dificuldades econômicas. Um roteiro conhecido. O avanço dos podcasts, das plataformas digitais, da multiplicação de vozes. Tudo isso aparece como argumento. E faz sentido, ao menos na planilha.

Ainda assim, algumas vozes se levantam contra esse fim. Uma delas é a de Harvey Nagler, que vê na decisão a perda de mais um espaço para o jornalismo objetivo. Outra é a de Peter Maer, que reconhece a mudança nos hábitos, o gosto especialmente entre os mais jovens de ouvir podcasts e acessar o TikTok e o Instagram, mas lembra de algo simples: no caminho para o trabalho, as pessoas querem começar o dia informadas. Deus te ouça!

Há uma frase na reportagem que chama atenção e sinaliza contradição. O rádio ainda alcança 93% dos adultos americanos. Noventa e três por cento. Não parece um meio em extinção. Parece um meio que continua presente — talvez mais silencioso, menos celebrado, mas ainda necessário E foi nesse ponto que o texto deixou de ser sobre os Estados Unidos e passou a conversar comigo aqui. Porque, no Brasil, também convivemos com essa sensação de que tudo mudou. De que a informação agora corre pelo dedo que desliza na tela. De que basta rolar o feed para estar informado.

A ilusão é confortável. Rápida. Barulhenta. Até que algo acontece. Uma enchente no Rio Grande do Sul, uma crise no Brasil, uma pandemia no mundo que exige mais do que manchetes fragmentadas. Nesses momentos, o comportamento muda. As pessoas voltam a procurar quem organiza a informação, quem separa o fato do ruído, quem assume a responsabilidade pelo que diz. Voltam ao rádio!

Durante a pandemia, isso ficou evidente. Mais gente passou a ouvir. Por mais tempo. Não era nostalgia. Era necessidade. O rádio tem essa característica curiosa. Ele não disputa atenção com o olhar. Ele acompanha. Está aí no painel do seu carro, em cima da pia da cozinha, tocando na assistente de voz no escritório. E, quando preciso, se transforma em porto seguro.

A decisão de encerrar a CBS News Radio pode ser explicada por números. Mas não se resume a eles. Há ali também uma escolha de caminho. E talvez um erro de leitura sobre o papel que o rádio ainda desempenha. Porque o rádio não depende da moda. Depende da confiança. E confiança não se constrói com rolagem infinita.

Constrói-se com voz. Com presença. Com consistência.

No Facebook, Dan Rather, ex-âncora do CBS Evening News escreve que o encerramento da rede partiu seu coração. Ele lembra de quando ouvia aquelas transmissões ainda menino, no Texas. E de como aquilo ajudou a definir sua escolha profissional.

Fiquei pensando em quantas histórias como essa existem nos Estados Unidos, aqui, em qualquer lugar onde alguém, um dia, tenha parado para ouvir. O rádio pode até sair do ar em uma frequência, mas continua ecoando em quem aprendeu a confiar nele — especialmente quando a informação precisa ser confiável.

Jornal da CBN: CEO explica renegociação de R$ 4,5 bilhões do Pão de Açúcar e o impacto para clientes e funcionários

Frame de entrevista com CEO do Grupo Pão de Açucar

“Existe um reconhecimento de um desequilíbrio entre o tamanho da dívida e a geração operacional de caixa.”

Uma das redes mais tradicionais do varejo brasileiro iniciou um processo de reorganização financeira ao anunciar a renegociação de cerca de R$ 4,5 bilhões em dívidas por meio de um plano de recuperação extrajudicial. Em entrevista ao Jornal da CBN, Alexandre Santoro, CEO do Grupo Pão de Açucar, explicou o que provocou as dificuldades econômicas, quais são suas expectativas em relação aos credores e como pretende manter as lojas abertas e sem demissões.

A recuperação extrajudicial é um instrumento previsto em lei que permite às empresas renegociar dívidas diretamente com credores, sem recorrer a um processo de recuperação judicial tradicional. Na prática, a companhia busca reorganizar compromissos financeiros enquanto mantém o funcionamento normal das operações.

Segundo Santoro, a medida foi desenhada para tratar exclusivamente das dívidas financeiras da empresa, sem afetar a rotina de funcionamento das lojas.

“Estamos falando de dívidas financeiras não operacionais. Ficam fora desse processo a relação com fornecedores, os funcionários e a operação das lojas”, afirmou.

O Grupo Pão de Açúcar reúne diferentes bandeiras do varejo alimentar no Brasil. Além dos supermercados Pão de Açúcar, fazem parte do portfólio redes como Extra Mercado e Minuto Pão de Açúcar, além de marcas próprias de produtos, como Qualitá e Taeq.

O que levou à renegociação das dívidas

A decisão de recorrer à recuperação extrajudicial está ligada ao vencimento de obrigações financeiras relevantes no curto prazo. De acordo com o CEO, não houve um único fator responsável pela situação, mas uma combinação de elementos acumulados ao longo dos anos.

“O que existe é um desequilíbrio entre o tamanho da dívida e a capacidade de geração de caixa operacional da companhia”, explicou.

Esse tipo de situação não significa necessariamente que a empresa deixou de gerar caixa ou que a operação deixou de ser viável. O problema aparece quando os compromissos financeiros crescem em ritmo maior do que a capacidade da empresa de honrá-los.

Operação segue funcionando normalmente

Um dos pontos que mais geram dúvidas entre consumidores é entender como uma empresa pode renegociar bilhões em dívidas sem fechar lojas, demitir funcionários ou alterar o atendimento ao público. Santoro afirmou que a operação segue funcionando sem mudanças.

“Se você entrar em uma das nossas lojas agora, vai ver tudo funcionando normalmente, clientes chegando, produtos sendo repostos nas gôndolas e caminhões abastecendo as lojas.”

Hoje, o grupo conta com cerca de 37 mil funcionários e atende milhões de clientes em suas lojas físicas e canais digitais. Aproximadamente 10% das vendas já são realizadas por comércio eletrônico.

Negociação com credores já começou

A companhia informou que já tem conversas avançadas com parte dos credores. Para que o plano seja formalizado, é necessária a adesão de mais da metade deles. Segundo o CEO, cerca de 46% dos credores já participam das negociações.

O prazo estimado para conclusão das conversas é de até 90 dias.

“A gente já está bastante engajado nessa mesa de negociação. Existe consciência de que a companhia tem um negócio saudável”, afirmou Santoro.

Juros elevados aumentam a pressão

O ambiente econômico também pesa nas contas de empresas com grande volume de dívida. Santoro destacou que o nível atual das taxas de juros amplia o custo financeiro das companhias.

“Taxas de juros impactam diretamente a despesa financeira.”

Essa realidade afeta especialmente setores de grande escala, como o varejo alimentar, que dependem de capital intensivo para financiar estoques, expansão e operação.

O que esperar agora

Nos próximos meses, o foco da companhia estará na negociação com credores e no ajuste da estrutura financeira.

A estratégia da empresa parte da premissa de que o negócio continua sólido. A aposta é que, com a reorganização das dívidas, a operação consiga seguir crescendo sem a pressão provocada pelos compromissos financeiros de curto prazo.

O desafio, agora, será transformar essa aposta em números que convençam credores e investidores.

O santo lá de casa faz milagre

Christian Müller Jung é mestre de cerimônia Foto: Arquivo Pessoal

Lá em casa éramos três irmãos. Uso o tempo passado porque falo da casa onde morei com meus pais, no bairro Menino Deus, em Porto Alegre. Jacqueline foi a primogênita. Christian, o caçula. Eu fiquei no meio do caminho. Nossa mãe nos ensinou muito. O pai, radialista e jornalista, deixou um legado comum aos três: o uso da voz.

No meu caso, a ligação é direta. Segui a profissão dele e estou nessa caminhada há mais de 40 anos. Minha irmã recorreu à voz diariamente para conduzir alunos nas salas de aula das escolas municipais onde lecionou. Hoje, está aposentada. Já meu irmão utiliza esse mesmo recurso à frente de eventos públicos que conduz.

É do Christian que quero falar. Formou-se em publicidade, trabalhou com artes gráficas e investiu em cursos técnicos de locução comercial. Dos três, é quem tem a voz mais radiofônica e mais próxima da do pai. Esse talento o levou a um convite decisivo: atuar como mestre de cerimônias no Palácio do Governo do Rio Grande do Sul. O que começou como uma experiência fora de seus planos imediatos transformou-se em carreira. Mais do que isso, em propósito.

Christian está há mais de 20 anos nessa função. Trabalhou com sete governadores diferentes. Atua em cerimônias oficiais de diversos órgãos do Estado e participa de eventos públicos e privados, no palco ou na tribuna. Tornou-se referência entre cerimonialistas e profissionais da área. Com frequência, é convidado para congressos, fóruns e mesas de debate, onde compartilha conhecimento e vivência acumulados ao longo do tempo.

Um dos traços mais marcantes de seu trabalho é o rigor na execução, sempre atento aos protocolos exigidos pelos cerimoniais públicos. Ao mesmo tempo, desenvolveu flexibilidade para lidar com contextos variados. Aprendeu a ajustar sua condução ao perfil das autoridades que comandam o governo: há governadores mais formais, outros mais afeitos ao improviso; alguns reservados, outros expansivos. 

Essa capacidade se revela ainda mais valiosa diante de situações inesperadas. Ambientes inadequados, mas inevitáveis. Calor excessivo ou chuva persistente. Palcos de teatro, salões luxuosos, palanques mambembes e carroceria de caminhão. Momentos de tensão política que exigem cuidado, precisão e leitura fina do ambiente.

Ao longo dessas duas décadas, Christian acumulou experiência e construiu reputação sólida. Foi além da prática. Pesquisou, estudou, buscou embasamento teórico em autores da comunicação. Com o tempo, desenvolveu um estilo próprio de apresentação. Compartilhou esse aprendizado por meio de artigos publicados em sites jornalísticos e nas redes sociais, sempre com a disposição de dividir o que aprendeu.

Agora, amplia esse trabalho ao atuar como mentor de quem deseja investir na carreira de apresentador e mestre de cerimônias. São encontros individuais, de uma hora, com troca de informações, análise de casos reais, exercícios práticos e avaliação de desempenho. Um trabalho conduzido por quem vive a atividade, conhece suas exigências e se dispõe a formar novos profissionais.

É verdade: sendo irmão, este texto chega até você com algum viés. Sou irmão, admirador e escuto esse vozeirão desde os tempos em que éramos guris de calça curta correndo pelas calçadas do Menino Deus. Talvez por isso eu saiba que, quando o santo é de casa, o milagre não pode vir do acaso: tem de vir de estudo, prática e respeito ao ofício. Por isso, deixo o convite para que você conheça, por conta própria, o trabalho que ele realiza. Fale diretamente com Christian pelo Instagram @christian.mc.jung ou pela sua página no LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/christian-jung/

O travesseiro que falta no seu checklist

Foto de Jakub Zerdzicki on Pexels.com

Nunca levei um travesseiro em viagem.

Sempre achei curiosa aquela cena de aeroporto: alguém equilibrando a mala, a mochila, o celular… e um travesseiro debaixo do braço. A imagem se repete no avião, no carro, no ônibus. Para mim, adepto confesso das bagagens enxutas — e motivo recorrente de aflição para minha esposa —, aquilo sempre pareceu um exagero. Um carinho supérfluo consigo mesmo. Um capricho portátil.

Demorei a entender que talvez eu estivesse enganado.

A ficha começou a cair depois da leitura de um texto de Armando Oliveira, publicado no LinkedIn, no qual ele compartilha uma conversa com Amyr Klink. Ali, o navegador fala de travessias longas, dessas que exigem mais do corpo do que estamos acostumados a admitir. E fala do conforto não como luxo, mas como estratégia. Um detalhe que sustenta o todo.

Armando relata que Amyr, mestre do planejamento e dos checklists, já se viu no meio de uma travessia sem um item básico por uma simples distração: o travesseiro. Tudo calculado. Rotas, mantimentos, combustível. Faltava justamente aquilo que garantiria uma noite melhor, um corpo menos castigado, uma cabeça mais lúcida no dia seguinte.

Foi ali que o travesseiro deixou de ser objeto e virou metáfora.

Passamos a vida fazendo planos grandiosos. Projetos bem desenhados, cronogramas ambiciosos, metas robustas. No meio disso, esquecemos do básico. Do conforto possível. Do cuidado mínimo que sustenta a travessia. Apostamos que o esforço dá conta de tudo. Nem sempre dá.

O planejamento reduz incertezas, mas não elimina a nossa condição humana. Corpo cansa. Atenção falha. Disciplina não substitui descanso. E método nenhum sobrevive por muito tempo quando ignora o essencial.

Talvez aquelas pessoas que eu via circulando com travesseiros pelos corredores dos aeroportos soubessem disso antes de mim. Talvez estivessem apenas cuidando do que importa para seguir adiante — inteiras.

Na próxima viagem já programada, começo a considerar levar um travesseiro. Não por moda. Nem por conforto ostentatório. Por aprendizado tardio.

Em tempo. Amyr Klink foi uma das entrevistas mais marcantes que fiz no início da minha carreira, ainda na Rádio Guaíba, em Porto Alegre. Anos depois, o projeto de Armando Oliveira em parceria com o navegador me proporcionou um reencontro com Amyr, agora no programa Mundo Corporativo. Algumas conversas atravessam o tempo. Outras atravessam oceanos. As melhores fazem as duas coisas.

E quase sempre deixam uma pergunta no ar: qual é o travesseiro que está faltando no nosso checklist hoje?

A sociedade do celular

Photo by Nur Andi Ravsanjani Gusma on Pexels.com

O celular deixou de ser um meio. Tornou-se o ambiente.

O show já nasce pensado para a tela do celular. O enquadramento importa tanto quanto a música. O refrão precisa caber em quinze segundos. O aplauso virou registro. O espetáculo só se completa quando alguém levanta o braço, grava e publica. Não basta assistir. É preciso provar que esteve lá.

O mesmo acontece com filmes, séries e novelas. A imagem agora precisa funcionar no ônibus, na fila do banco, na pausa do almoço. O roteiro acelera, o plano encurta, o silêncio incomoda. Tudo para caber no bolso — e na atenção cada vez mais disputada.

A comida segue o mesmo caminho. Antes de ser comida, precisa ser fotografada. A exposição virou “instagramável”. A experiência só existe quando é compartilhada. O prato esfria enquanto o celular trabalha. E segue sobre a mesa, ocupando o espaço do diálogo.

Esse é o lado mais ruidoso da história. Há outro, bem mais duro.

O poder público também aprendeu a olhar pelo celular. Em São Paulo, o Smart Sampa cruza rostos, identifica suspeitos, localiza procurados. Nas estradas, câmeras com inteligência artificial verificam se o motorista usa cinto ou segura o celular enquanto dirige. O olho eletrônico se espalha no espaço público. Vigia. Registra. Arquiva.

Ao mesmo tempo, cresce a disputa sobre quem controla esse olhar. A exigência de câmeras corporais em policiais e agentes de segurança virou batalha ideológica. Para uns, transparência. Para outros, ameaça. O debate não é técnico. É político. E, sobretudo, simbólico.

É nesse ponto que o texto de Julia Angwin, publicado no The New York Times, nesta segunda-feira, acende um alerta.

Ela descreve o celular não como distração, mas como arma cívica. Uma ferramenta de proteção do cidadão diante da violência do Estado. Nos Estados Unidos, pessoas foram intimidadas, agredidas e até mortas enquanto filmavam ações de agentes federais. Em alguns casos, o simples ato de gravar passou a ser tratado como violência. Alex Pretti foi executado por membros do ICE, em Minneapolis, portando como arma um celular.

O que está em jogo não é apenas o direito de filmar. É o direito de testemunhar.

O celular guarda algo precioso: a possibilidade de responsabilização futura. Mesmo que quem filma seja silenciado, a imagem permanece. Ela pode desmentir versões oficiais, expor abusos, recontar a história. Não por acaso, regimes autoritários costumam começar cortando a internet. Sem imagem, não há prova. Sem prova, sobra a narrativa de quem manda.

Há quase três décadas, o escritor David Brin antecipou esse dilema ao perguntar: quem controla as câmeras? Quando só o Estado vê, temos vigilância. Quando todos podem ver, temos fiscalização recíproca. A diferença entre opressão e liberdade passa pelo controle do olhar.

Vivemos, portanto, um paradoxo. O mesmo celular que nos distrai também nos defende. O mesmo aparelho que nos expõe pode nos proteger. Ele banaliza a vida e, ao mesmo tempo, preserva a verdade.

Talvez por isso incomode tanto quando alguém manda “guardar o celular”. Especialmente quando quem faz o pedido é pago com dinheiro público.

Na sociedade do celular, o risco não está no aparelho. Está em desistir de olhar — ou em aceitar que apenas alguns tenham o direito de fazê-lo.

O celular não é neutro. Ele revela quem somos, o que consumimos, como nos exibimos. E, quando necessário, mostra aquilo que alguém preferiria esconder. Nesse sentido, ele não é só um objeto do nosso tempo. É um termômetro da nossa democracia.

Porque onde ninguém pode filmar, quase sempre há algo errado acontecendo.

Que o último orelhão não silencie as lições do jornalismo de rádio

Orelhão depredado
Foto: CBNSP/Flickr

A notícia da retirada definitiva dos orelhões das ruas me alcançou num daqueles momentos em que o passado resolve puxar uma cadeira e se sentar ao meu lado. Não foi a Anatel quem provocou essa viagem, e sim Edgar Lisboa, que transformou a extinção dos telefones públicos em narrativa. No texto publicado no Portal Repórter Brasília, ele recuperou episódios da vida de repórter nos tempos da rádio Guaíba, de Porto Alegre, citou o Correspondente Renner, lembrou do meu pai — Milton Ferretti Jung — e, com um detalhe que me fez sorrir, mencionou aquele adolescente de bermuda que circulava curioso pela redação: eu.

A leitura me tocou porque Edgar não apenas trouxe meu pai de volta à cena; ele resgatou um modo de fazer rádio que me formou antes mesmo de eu ter carteira de trabalho. A Guaíba, como ele escreveu, era uma escola. E foi ali que aprendi a caminhar entre pautas, microfones e silêncios. A voz firme do Renner no ar, sempre no horário, era lição diária de responsabilidade. E, antes de virar apresentador, eu era o menino que observava tudo — tentando entender como fatos viravam notícia e notícia virava confiança do ouvinte.

Edgar descreveu essa rotina com a precisão de quem esteve no front. Para quem viveu a época, o orelhão era mais que telefone: era redação improvisada. Na rua, toda entrada ao vivo começava pela busca do aparelho mais próximo. Ficha no bolso, papel na mão, o texto organizado na cabeça. Não existia botão de enviar nem de corrigir. A urgência dependia da paciência que a tecnologia impunha. Era fazer jornalismo no limite do que estava disponível.

A lembrança do Correspondente Renner reforça a dimensão desse compromisso. O programa era um marco de pontualidade e rigor. Se algo relevante acontecia no meio da edição, a última notícia entrava no ar com meu pai lendo o texto recém-redigido. Não havia atalhos. Havia trabalho sério, construído sem internet, sem redes sociais e sem a avalanche de ruídos que hoje tentam se passar por informação.

A tecnologia avançou, os orelhões desapareceram e isso é natural. O que não se perde — e Edgar captou bem — é o valor simbólico de uma época em que a rua era extensão da redação. O telefone público era o fio que ligava o repórter ao ouvinte e, muitas vezes, ao próprio entendimento da notícia.

Termino com a sensação familiar que me acompanhava quando descia do carro para procurar um orelhão: certas histórias precisam ser contadas do jeito certo. Edgar contou a dele e, no meio dela, revivi meu pai, o Renner e aquele guri de bermudas que começava a aprender o ofício observando quem sabia fazer.

E, claro, também vivi a experiência de correr para o orelhão, fichas na mão, texto na cabeça e a redação esperando do outro lado da linha. Era o que tínhamos. Era tudo de que precisávamos.

Leia “A importância dos orelhões no jornalismo”, de Edgar Lisboa, no Portal Repórter Brasília