Miséria gera alta incidência de hepatite no nordeste

A pobreza extrema e a falta de investimento em saneamento levam a população do nordeste a ter alta incidência de hepatite A. Lá, 38% das crianças de 5 a 9 anos, contraíram a doença; entre 10 e 19, o índice passa para 55%.

A hepatite é conhecida por ser a doença silenciosa. Calcula-se que 90% dos brasileiros com mais de 20 anos podem ter sido expostos ao vírus. A maioria convive com a doença sem saber. A pesquisa desenvolvida por faculdades federais quer descobrir quem são estes brasileiros.

Censo da hepatite dá com nariz na porta

O início do “Censo da Hepatite” frustrou os organizadores em São Paulo. A equipe formada por oito profissionais de saúde se deparou no primeiro dia de visita com problemas típicos das grandes cidades: medo da violência e desordem urbana. No bairro de Pinheiros, uma das 60 áreas escolhidas pelos pesquisadores, a primeira casa visitada não abriu a porta. O morador disse que nunca havia ouvido falar do censo e se negou a participar. Na segunda, o que deveria ser uma casa, segundo dados do Censo Demográfico do IBGE, já havia se transformado em loja de equipamento de reabilitação. A partir desta sexta, vão mudar a estratégia para dar continuidade a pesquisa que se iniciou no nordeste e já passou pelo centro-oeste e Distrito Federal.

Pesquisadores da USP vão coletar os dados na capital paulista. Os moradores devem responder a um questionário sobre os hábitos da família, informando, por exemplo, se passaram por transfusão de sangue. Depois, a equipe vai coletar amostras de sangue de todos os integrantes da família e enviar para análise no Instituto Adolpho Lutz. Se der negativo, uma carta será enviada, qualquer problema detectado fará com que a família volte a receber a visita do agente de saúde.

Câmara troca pichação por publicidade

A prefeitura pinta o prédio pichado, o dono do imóvel não paga nada e se obriga a colocar uma placa de patrocínio na fachada. É o que diz a lei antipichação aprovada pela Câmara Municipal que, segundo o líder do Governo, vereador Police Neto (PSDB), “é a segunda fase do Cidade Limpa”.

O “patrocinador” terá direito a colocar o que o vereador Netinho chama de assinatura de 15 centímetros de altura por 30 de largura para expor sua marca. A ação da prefeitura pode ocorrer em imóveis residenciais e comerciais.

Para funcionar, a prefeitura precisa convencer as empresas a investirem no programa em troca de apenas uma assinatura e os moradores de aceitarem manter na fachada da casa a tal assinatura. Sem esquecer, de convencer os pichadores de pararem de atacar e emporcalhar a cidade.

PT quer investigar poupança de Kassab

Vereadores petistas querem que o Ministério Público descubra por que a prefeitura investe pouco na cidade e muito nos bancos. Paulo Fiorilo e Antonio Donato entraram com representação contra o prefeito Gilberto Kassab (DEM/EX-PFL) para que a administração municipal seja investigada por manter cerca de R$ 4,5 bi em aplicações financeiras, enquanto deixa de usar o dinheiro previsto no orçamento para as áreas de educação, transporte e saúde, entre outras.

Segundo os vereadores, a poupança de Kassab é uma contradição se analisadas as carências do município. Fiorilio lembra que “os gastos com material escolar e com uniformes encontram-se em pífios 0,47%” – o que explicaria o fato de os alunos da rede municipal de ensino não terem recebido toda a roupa de verão e não ter prazo para a entrega da roupa de inverno, conforme informação deste blog, postada em 13/06.

Outro problema apontado na representação é a falta de informação sobre o rendimento obtido pela prefeitura ao deixar o dinheiro aplicado no banco em vez de investi-lo na cidade. Fiorilo reclama que “aos contratos celebrados com as instituições financeiras que gerenciam os valores não foi dada qualquer publicidade”.

Os vereadores petistas não afirmam mas temem, na verdade, que a estratégia financeira do prefeito Gilberto Kassab seja fazer caixa neste primeiro semestre para deixar os investimentos mais próximos do fim do ano quando o debate sobre a campanha eleitoral estará mais vivo.

Outras informações sobre o tema, inclusive com a justificativa do prefeito Gilberto Kassab, você encontra neste blog, nos dias 09/06 e 13/06

Muito projeto, pouca votação, quase nenhuma reunião

Esse é um resumo do balanço sobre as atividades na Assembléia Legislativa de São Paulo realizado pelo Movimento Voto Consciente formado por “guerrilheiros da cidadania” – justiça seja feita, a maioria é “guerrilheira”. Eles fazem aquilo que o cidadão não tem paciência nem tempo: acompanham o trabalho da Assembléia e da Câmara de Vereadores.

Um dos destaques positivos do terceiro mês de atividades da Assembléia foi o início da discussão para mudança no regimento interno que pode tornar a casa mais produtiva. Poderiam arrumar um caminho para ser mais independente, também, já que os deputados estaduais há muitos anos seguem as ordens enviadas pelo Palácio dos Bandeirantes.

Vamos ao relatório dos “guerrilheiros”:

“O Movimento Voto Consciente mantém seu compromisso de acompanhar e divulgar os trabalhos dos 94 deputados estaduais de São Paulo. A 16ª Legislatura da Assembléia Legislativa (ALESP) do estado atingiu seu terceiro mês com os seguintes destaques:

Pedido de Informação aos deputados e a resposta da função fiscalizadora.
Pesquisa realizada entre os dias 20 de março e 30 de maio, entre outras questões, foi perguntado de forma bastante simples: como pretende ser fiscalizador do Executivo? Todos os deputados receberam o questionário, e 68 deles o responderam, o que representa 72% do total.

Aprovação de projetos
Ao longo dos últimos trinta dias, até o início da semana, foi possível notar que a ALESP aprovou cerca de 38 projetos. A despeito desse considerável volume- 2 foram de autoria da mesa e os demais dos deputados, onde 22 foram demonominações e 14 de utilidade pública.

Corregedoria e Comissão de Ética
No dia 06 de junho foram constituídas a Corregedoria da ALESP, que ficará a cargo da deputada Célia Leão (PSDB) e a Comissão de Ética. A aparente relevância desses organismos contrasta com os resultados, na última legislatura foram 6 reuniões nos 4 anos e na anterior (1999 a 2002) foram 19 reuniões. O Movimento Voto Consciente entende que a ética do Legislativo não pode se sobrepor às leis do país e tampouco ao que a sociedade espera de seus representantes.

Excesso de projetos
A Ordem do Dia continua acumulando projetos, ultrapassando quatro centenas (402) em 06 de junho. Ao longo do último mês foram realizadas 21 sessões ordinárias e oito extraordinárias. A falta de acordo e o baixo rendimento dos trabalhos impedem a ALESP de atender às demandas criadas pelos próprios parlamentares e seus projetos, além das questões do Poder Executivo. Interfere no rendimento a criação de inúmeras frentes parlamentares – grupos suprapartidários de deputados que se reúnem em torno de assuntos de interesse comum. Dentre as frentes criadas se destacam: Frente Parlamentar do Idoso, da APAE, da Segurança Alimentar e Nutricional, da Reforma Política com Participação Popular, em Defesa da Represa Billings, da Agenda 21, de Apoio a Micro e Pequena Empresa etc. O Movimento Voto Consciente enxerga a importância dessas frentes, mas tais questões não podem afastar o parlamento de suas atribuições principais. Para efeito de colaboração, a
organização sugere a criação da Frente Parlamentar de Discussão da Ordem do Dia.

Trabalho nas Comissões
Sete comissões da ALESP só elegeram a presidência e sequer se reuniram para iniciar os trabalhos. As demais 11 comissões, de um total de 23, se reuniram entre duas e três vezes. Tal questão fere o princípio fundamental das reuniões semanais, e atestam que a ALESP apresenta um número exagerado de comissões. O Movimento Voto Consciente sugere um realinhamento dos temas e uma diminuição ordenada desse total de grupos, em nome do bom andamento das ações legislativas. Importante iniciativa já está em tramitação na Casa, na sessão ordinária desta terça-feira, 12/6, foi protocolado o projeto de resolução que altera
o regimento interno da Assembléia Legislativa. A proposta é resultado do trabalho de comissão especialmente constituída pelo Ato da Mesa nº 33, de 11/04/07, para atualizar o estatuto legal da Casa, cuja última consolidação data de 2005. O projeto inicia agora sua tramitação e, segundo as normas vigentes, deverá sofrer duas discussões. O principal ponto diz respeito à redução do número de comissões, de 23 para 12.

Rosangela T. Giembinsky – Coordenação das Atividades na ALESP
Humberto Dantas – cientista político e colaborador”

Carta aos Amigos da Quinta

Quinta-feira é o dia do amigo. Ele sempre aparece. No telefone, no e-mail, às vezes na porta de casa. Principalmente se o seu time perdeu na quarta-feira à noite. Nesta quinta, muitos amigos vão aparecer e não me encontrarão. Antes que insinuem a existência de algum habeas corpus preventivo que garantiria minha ausência, ou uma fuga da responsabilidade de receber os amigos em momento tão oportuno (para eles, lógico), esclareço que se não estou diante do microfone da CBN é devido a participação em Seminário Internacional de Jornalismo On Line que se realiza na sede do Itaú Cultural, na avenida Paulista.

Hoje, a partir das 11 e meia da manhã, com transmissão pela Internet (www.terra.com.br), estarei mediando debate sobre os desafios para a mídia tradicional, os valores do jornalismo e as novas tecnologias. Na mesa, Mário Magalhães, ombudsman da Folha, Sidnei Basile, diretor secretário editorial da Editora Abril, e Caio Túlio Costa, diretor presidente de Internet da Brasil Telecom.

Aos amigos, meu convite para que apareçam por lá, ou me aguardem para sexta-feira, quando o CBN São Paulo será apresentado, ao vivo, da Conferência Internacional de Negócios e Responsabilidade Social-2007, no hotel Transamérica.

Como sei, contudo, da ansiedade dos amigos, deixo aqui apenas uma mensagem:

“Uma nova façanha do Imortal Tricolor começou a ser construída no estádio da Bombonera, em Buenos Aires, nesta final de Libertadores”

Saudações a todos os amigos,

Milton Jung

Prefeitura confirma problema no Leve Leite em toda cidade

Após as críticas de que o programa Leve Leite havia deixado de atender os alunos da rede municipal de ensino na zona norte de São Paulo, a prefeitura já admite que o problema se estende as demais regiões da capital. A Tangará havia suspendido o fornecimento, em maio, após não aceitar a negociação de preço proposta pela administração municipal. Agora chegou a vez da Itambé que responde pela entrega nas demais áreas.

As famílias da zona norte estão há três meses sem o litro de leite em pó a que têm direito e, por isso, foram as primeiras a reclamar. Nas demais áreas, as crianças levaram o produto para a casa em maio, mas deixarão de recebê-lo em junho. Sendo assim, a estimativa é que até o fim do mês os cerca de 1,1 milhão de alunos da rede municipal de ensino não serão mais beneficiados pelo programa.

Acompanhe outras notas com informações sobre o tema neste blog, nos dias 11, 12 e 13 de junho.

STF garante direito ao nome, cartórios resistem

O Supremo Tribunal Federal manteve o direito do cidadão a ter um nome de nascimento registrado em cartório. Os “Notários e Registradores” resistem a decisão em vigor desde 1997 criada para acabar com uma vergonha nacional: a enorme quantidade de crianças que nasciam e morriam sem serem registradas devido a falta de dinheiro dos pais.

Nesta quarta-feira, o STF declarou a constitucionalidade dos artigos que dispõem sobre gratuidade do registro civil e da certidão de óbito para cidadãos reconhecidamente pobres, bem como dos atos necessários ao exercício da cidadania. A Associação dos Notários e Registradores do Brasil (Anoreg) argumenta que os cartórios, entes pertencentes à esfera privada, terão que arcar com o ônus da gratuidade, fato que ensejaria o trabalho forçado e a ofensa ao princípio da liberdade profissional.

Saudade do Prestes Maia

Por Carolina Dall’Oli

“Todo dia, quando venho trabalhar, passo em frente ao edifício ocupado pelo MSTC (Movimento dos Sem Teto do Centro), na avenida Prestes Maia. Pra falar a verdade, tem dias que nem me dou conta da presença do prédio. Outras vezes, olho pra ele e me indigno – e, de certa forma, me frustro também, por saber que a realidade mata ao menos uma esperança por dia. Mas tem horas que simplesmente me pego imaginando como estão os moradores, querendo saber se a Dona Inara melhorou, se o bebê da Graça era menino ou menina, se o seu Donato arrumou conseguiu voltar pro Ceará…

Hoje, porém, o Prestes Maia estava diferente. Ao passar por lá, vi os caminhões de mudança estacionados na porta e o povo carregando móveis velhos, trouxas de roupa, brinquedos quebrados, sacos de comida. As 468 famílias que viviam ali estão de saída porque foram incluídas em diferentes programas habitacionais, cada uma de acordo com sua renda. As mais “ricas” ficarão em imóveis da região central. As outras vão pra mais longe. Mas, ao que tudo indica, todas vão deixar de ser chamadas de sem-teto.

A reivindicação inicial do MSTC era de que o edifício fosse desapropriado, reformado e abrigasse ali mesmo as famílias, que já formavam uma comunidade, com regras de organização e laços de amizade. Mas ao perceberem que isso seria esperar demais de um governo PSDB/PFL (ah, esqueci, agora eles são DEMOCRATAS), o movimento concluiu que o atendimento era a melhor saída possível.

Incluir os sem-teto em programas habitacionais foi o jeito que o governo arrumou de fazer a coisa certa pelo motivo errado. Afinal, o atendimento às famílias do MSTC não veio como parte de uma Política Pública de Habitação. Aconteceu simplesmente porque era preciso expulsar os pobres e deixar livre o caminho para o pessoal do mercado imobiliário, que tem olhado cada vez com mais carinho para os imóveis da região. E como a geografia do edifício não permitia que a Polícia invadisse o lugar sem que o despejo acabasse em morte, o governo teve que arrumar uma maneira de fazer os sem-teto saírem de lá “sem conflito”. Enfim… mas quem quer saber?

O fato é que eu não vou mais ver os sem-teto quando for trabalhar. Nem eu nem os milhares de paulistanos que passam diariamente por ali. E, daqui uns anos, quando o prédio der lugar a um edifício classe média ou algo que o valha, ninguém mais vai lembrar que ali, bem no meio da cidade, havia um edifício ocupado por mais de dois mil sem-teto. Talvez nem mesmo os ex-moradores queiram se lembrar. E talvez esqueçam também que o movimento de que fizeram parte lutava por uma Política Pública de Habitação, e não pela casa própria.

Mas isso também não importa. O que importa é ficarmos todos com a sensação de que está tudo bem: temos a Lei Cidade Limpa, podemos freqüentar um Centro “revitalizado”, com prédios bem cuidados, monumentos iluminados, teatro, orquestra, polícia, Virada Cultural. Sem conviver com a sujeira, com a pobreza, com a desigualdade, com a violência, com a fome. E, ao final, por não termos mais essas coisas ao alcance dos nossos olhos, talvez a gente comece a pensar que nada disso existe de verdade.”

Carolina Dall’Oli escreveu com Débora Mismettio o livro-reportagem A Céu Aberto, que fala dos movimentos populares em defesa da moradia tendo como palco principal a ocupação de um dos prédios da Avenida Prestes Maia