O Código Florestal é urbano, também

 

Uma pequena porção de árvores se mantém diante da janela de minha casa, na zona sul de São Paulo. É o que restou de uma rua de terra com muito verde que conheci quando cheguei aqui há 15 anos. Mesmo assim considero-me privilegiado, pois, no quarteirão de trás, a praça bem arborizada promete resistir ao avanço de prédios e casas.

É pouco, sem dúvida. Basta conferir as imagens aéreas feitas em 1958 pelo Departamento de Defesa e sobrepostas as captadas pelo Google, em projeto da empresa Geoportal, para percebermos a quantidade de mata e bosques derrubados nos últimos 50 anos na capital paulista (confira aqui).

A comparação ajuda a entender o que pretendo conversar com você neste artigo: a importância do Código Florestal para o ambiente urbano.

Erroneamente, muitas pessoas – autoridades e formadores de opinião, inclusive – ainda relacionam o texto apenas com a situação da Amazônia, Caatinga ou Pantanal, por exemplo. Há quem desdenhe do debate por imaginar que falamos somente da preservação de florestas – como se isto por si só fosse pouca coisa.

O Código, apesar de batizado Florestal, é, também, Urbano e, desde que surgiu em 1934, impõe regras à ocupação das cidades, pois seu objetivo era controlar o uso dos recursos naturais. Em 1965, o texto modificado definiu as áreas de preservação permanente e assim como oferecia garantias no campo também o fazia no meio urbano.

A lei em vigor prevê que são os Planos Diretores que põem ordem nos municípios, porém estes têm de respeitar os princípios do Código Florestal, conforme destacou o geógrafo Márcio Ackermann, do Instituto de Pesquisas Tecnológicas, em conversa que tivemos nesta semana, no programa CBN SP.

O respeito às áreas de encosta e as várzeas de rios está previsto no Código e fosse levado ao pé da letra talvez não assistíssemos às tragédias de Blumenau, em 1983 e 2008, da Favela da Nova República-SP, em 1989, ou da Região Serrana do RJ, em 2011 – apenas para lembrar algumas das mais chocantes.

Aqueles são terrenos sensíveis à erosão, desabamento e alagamento e precisam ser preservados. Viver neles impõe risco às populações. Somente na cidade de São Paulo existem 407 áreas com estas características de onde parte das famílias terá de ser removida se quisermos impedir novos dramas.

O secretário do Verde e Meio Ambiente do município, Eduardo Jorge, disse ser prioridade a retirada dessas pessoas e a criação de sistemas de segurança e alerta. A preocupação dele de não permitir que a vida do cidadão seja exposta às áreas de risco, porém, aumentou desde que teve acesso ao texto da reforma do Código Florestal que está no Congresso Nacional: “Decidi que ao invés de flexibilizar, vou fiscalizar ainda mais” – falou em debate promovido no CBN SP.

A intervenção do município pode ir além com a adaptação das áreas de preservação ambiental que foram indevidamente ocupadas ao longo da história, como as margens dos rios Pinheiro e Tietê e a Paulista. Sim, a avenida que orgulha paulistanos se enquadra no conceito de APP, é topo de morro.

Lá em cima a água caía e parte dela se infiltrava no solo, ajudando na reposição do aquífero e contendo o volume que iria chegar aos pontos mais baixos da cidade. Coberto de cimento e asfalto, a APP da Paulista perdeu função, a chuva que chega corre pela superfície e desce em alta velocidade sem dar tempo para absorção pelos córregos e rios, facilitando a ocorrência de enchentes.

Colocar abaixo os prédios não é mais solução neste caso. Em lugar de remover, reabilitar as funções, explica Márcio Ackermann. Nas edificações já construídas, exigir caixas de retenção para águas que podem ser liberadas fora do pico da chuva ou reutilizadas seria uma opção. Novas construções na capital paulista já são projetadas para oferecer esta compensação.

Conhecimento e tecnologia não faltam, é preciso lei ou políticas públicas que incentivem esta mudança. Ackermann lembra que as prefeituras oferecem isenção de IPTU para quem tem imóveis prejudicados por enchentes, deveriam conceder benefícios fiscais a quem se compromete a oferecer contrapartida ambiental.

Em Extrema-MG, é o que ocorre com os produtores de leite que estão em nascentes de rio. Se não usarem estas APPs como pasto e conservarem estas áreas, importantes produtoras de água, serão premiados pelos serviços ambientais.

O Código Florestal tem de pautar estas ações, deve impulsionar a construção de uma consciência cidadã e impedir que o avanço sobre as áreas de preservação se acelere, no campo e na cidade. Transformá-lo em uma peça frágil na defesa do meio ambiente é um crime contra a humanidade.

Cidadão com medo é vida longa para vigia de rua

 

Zé da Rua trabalhava com um apito e montado em uma bicicleta. Sempre preferiu à noite para exercer sua atividade até que um pessoal de moto se aproximou e sugeriu que ele desse expediente de dia, pois eles iriam tomar conta da segurança noturna. Valorizando a própria vida, logo convenceu os moradores do quarteirão de que seria muito mais útil controlar as casas quando os donos estivessem fora, trabalhando ou na escola. Hoje, abandonou o apito e trocou a bicicleta pela moto que conseguiu comprar com o dinheiro que arrecada de 20 moradores, a maioria velhos conhecidos do Zé. Dois dos quais foram inclusive trancados com ele em uma mesma sala durante assalto com refém.

Grande parte das ruas de São Paulo e cidades de médio porte contam com a presença destes guardinhas, um serviço na maioria das vezes informal e vulnerável. Em alguns casos explorado por policiais ou grupos que mais se parecem com milícias que coagem os moradores a pagar pela suposta segurança.

Os vigilantes de rua ganharam destaque nesta semana após o delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo impor a eles a responsabilidade pela falha no sistema de segurança que permitiu o assalto a casa do secretário de Transportes Saulo de Castro, que na gestão anterior de Geraldo Alckmin era o responsável por combater a violência, no Estado.

O delegado Marcos Carneiro Lima disse que “somente a polícia não consegue resolver problema desta envergadura” e propôs que todos vigilantes fossem cadastrados e fiscalizados. Sugeriu que passem a atuar como olheiros da polícia.

“O delegado falou o que não devia”, criticou o pesquisador dedicado à segurança pública Guaracy Mingardi.

A ideia o fez lembrar do inspetor de quarteirão, figura que existiu em diferentes épocas no País com funções bastante distintas nem sempre nobres. A última referência foi na década de 1980 quando os homens que atuavam na função, escolhidos pelo delegado, ganhavam carteirinha e passavam a abusar de seus poderes: “alguns brincavam de ser polícia e davam tiros”.

O governador Geraldo Alckmin e o secretário de Segurança Antonio Ferreira Pinto também consideraram a ideia desproposital, apenas fizeram isso de forma polida e tentaram defender o colega de governo com o velho jargão: “foi mal interpretado”.

Ambos aproveitaram a oportunidade para lembrar a derrubada nos índices de violência no Estado, noticiada com destaque nos últimos dias. Números oficiais mostram que temos 10,48 homicídios para cada grupo de 100 mil habitantes, próximo do que a Organização Mundial de Saúde considera razoável.

Há um dado, porém, que intriga.

Calcula-se que há cerca de 1,8 milhão vigias de rua, 400 mil no Estado de São Paulo. Todos irregulares, pois a Constituição prevê que esta é área exclusiva das polícias Civil e Militar, explica Carlos Roberto Silveira, do Sindicato dos Vigilantes e Segurança de São Paulo

Se o avanço no combate à violência foi tão significativo quanto mostram as estatísticas fica difícil entender porque a população se submete a contratar de forma precária vigilantes que oferecem serviço de qualidade duvidosa. Sem falar na quantidade de equipamentos disponíveis em torno da casa: muros altos, cerca elétrica, alarme e câmeras.

É esta a resposta que o cidadão busca pois está cansado de ter de pagar dobrado para um mínimo de tranquilidade. Sai dinheiro de impostos para financiar a segurança pública e do salário para a privada. E o medo permanece, conforme levantamento ‘Características da Vitimização e do Acesso à Justiça’, do IBGE: a sensação de insegurança afeta 47,2% dos brasileiros, 21% dos quais dentro de casa

Walter Maierovitch, do Instituto Brasileiro Giovanni Falconi, por telefone repetiu o que havia escrito recentemente em sua coluna semanal na revista Carta Capital: “o medo de se tornar vítima de crime virou um problema social e não só no Brasil. É causa da desconfiança, afastamento da vida comunitária, paranoia, autodefesa, enclausuramento etc”.

Meu ex-colega de CBN, sempre por mim consultado quando a coisa está complicada para o lado do cidadão, conta conversa que teve com Gianni de Genaro, que foi chefe da polícia italiana, na qual este sustentou que não adiantava apenas ter um número suficiente de homens em patrulhamento ostensivo ou em ações preventivas. Os policiais tinham de ter capacidade de dialogar com as pessoas e compreender suas reais necessidades, em cada comunidade.

Em cidades e países ricos, a exposição de tecnologia para vigilância também colaboram no combate ao crime, desde que usada inteligência de prevenção, como ocorreu em Nova York no governo Rudolph Giuliani.

Para Maierovitch é preciso reduzir a sensação de insegurança e restaurar a confiança no policial que deve estar próximo da população – o que não se faz pela força: “É sabido que a baixa dos índices de violência, por si só, não reduz o medo”.

Enquanto houver medo, Zé da Rua terá vida longa no emprego.

E a chuva é que leva a culpa

 

“Chuva mata um sem-número de pessoas”.

A manchete se repete a cada noticiário. Está no rádio, na TV, na primeira página dos jornais e em toda rede. Está errada na análise, apesar de certa na síntese jornalística. Editamos o cotidiano e neste exercício corremos o risco da injustiça e imprecisão, como neste caso em que a causa natural não tem culpa do que fazemos na natureza.

A chuva não matou, nós estamos cometendo suicídio.

Morreram às centenas neste verão porque ao tomarmos o rumo das cidades, há 50 anos, não preparamos o ambiente urbano para esta invasão. A cidade de São Paulo tinha 3,8 milhões de pessoas na década de 60 e, atualmente, conta (se é que dá pra contar) com mais de 11 milhões. Ganhamos uma cidade de Londres inteirinha, sem planejamento nem pensamento.

Esta população se espraiou desenhando uma mancha urbana por onde ainda não havia cidade – em alguns lugares é de se duvidar que já tenha. Sem encanamento jogou o esgoto no córrego, sem coleta despejou lá também o lixo produzido. Sem lei nem autoridade, ocupou terrenos, tomou a várzea do rio, escalou morros, e se amontoou nas favelas. Cada um se virou como pode.

Hoje, 20% dos que vivem em São Paulo estão no entorno das represas de Guarapiranga e Billings, que deveriam apenas nos servir a água já escassa na região metropolitana.

Os prédios cobrem suas áreas de lazer; as casas põem o cimento sobre a terra; os grandes pátios são pintados de asfalto; ruas e avenidas passam por cima do córrego; bairros são fundados abaixo do rio.

Gastamos – ou gastaram por nós – mais de R$ 1,3 bilhão para tirar área verde e construir novas faixas na Marginal e esquecemos de aumentar investimento para rebaixar a calha do Tietê.

Tiramos – ou tiraram de nós – R$ 12,8 milhões que deveriam ser colocados em obras antienchente na zona leste para terminar uma ponte estaiada no Tatuapé.

Não surpreende que em sete anos, a cidade de São Paulo que tinha 315 áreas de risco passou para 400. Surgiram mais de 12 por ano, apenas na capital.

Os gastos da prefeitura em publicidade subiram para R$ 126 milhões nem por isso se pensou em campanha permanente e medida educativa para mudar o comportamento do cidadão que joga lixo na rua.

Desperdiçamos mais de R$ 1 bilhão por ano enterrando lixo e não botamos um tostão na ampliação de centrais de reciclagem.

E a chuva é que leva a culpa?

Somos todos responsáveis pelo que assistimos no noticiário. Seja porque não cuidamos do nosso entorno, seja porque não cobramos de quem tem nas mãos dinheiro – o dinheiro dos nossos impostos -, equipamento e poder.

Se a chuva é natural, a tragédia é humana. E o que se fez no ambiente urbano, desumano.

Há 20 anos, vivendo em São Paulo

 

Acabo de gravar entrevista para Rádio Guaiba de Porto Alegre. Foi lá que comecei minha carreira jornalística, em 1984. Bem antes disso, foi no mesmo prédio na rua Caldas Junior que tive meu primeiro contato com o jornalismo quando ainda era guri de calça curta e corria pelo corredor ao lado do estúdio, chutando bola feita de lauda de papel.

Na conversa com o repórter João Batista, a intenção era falar sobre as expectativas para o Grêmio, em 2011. Mas foi a oportunidade de lembrar algo que me emocionou. Há 20 anos, nas primeiras horas do primeiro dia do mês de janeiro, eu desembacara de um avião da Varig, com mala e sem cuia nas mãos, na cidade de São Paulo para dar um salto em minha vida profissional e pessoal.

Retornava à capital paulista uma semana depois de ter estado por aqui para a festa de casamento de um amigo. Sem querer, descobri um teste para repórter da TV Globo. A pauta parecia simples: incêndio em casa antiga na Mooca. Transformei-a em discussão sobre o patrimônio histórico da cidade. Fui convidado para trabalhar de madrugada.

Da Globo, para a TV Cultura, de repórter de rua para âncora. Nesta caminhada, ainda passei pela Rede TV! e Portal Terra, época em que já estava de volta ao rádio por convite e obra de meu colega Heródoto Barbeiro. São mais de 10 anos na mesma emissora e na construção de projetos profissionais variados.

Mais importante, porém, foram as oportunidades que esta viagem me proporcionou de conhecer pessoas especiais e compartilhar, antes com minha mulher e, em seguida, com os dois filhos, a formação de uma família. Aqui, estruturei meu caráter, desenvolvi habilidades e, evidentemente, revelei carências para as quais estou sempre em busca de solução.

Se fim de ano é momento de reflexão e balanços (estão por todos os cantos da programação e das páginas de jornais), completar 20 anos em São Paulo, como acontecerá nesse 1º de janeiro de 2011, é motivo de muita satisfação.

Descobri-me maduro para profissão tão importante quanto o jornalismo; descobri-me cidadão para pautar minhas atitudes na cidade e na sociedade; e me descobri pai e marido, papéis que exerço com orgulho, mesmo com todas as falhas que me incomodam.

A viagem que começou em 1991 com medo e incerteza ainda não se encerrou, mas as conquistas alcançadas até aqui me fortalecem para mais esta etapa que se inicia em 2011.

Um ano de boas notícias para todos nós !

Minhas férias (lá se foram)

 

Volta às aulas era sempre assim. A professora pedia uma redação na qual teríamos de contar como foram as férias escolares. Nem sempre tínhamos coisas interessantes para escrever, mas o número de linhas era pré-estabelecido. Aí, era aquele enorme esforço para preenchê-las com algo legal e sem muitos erros de gramática. Lembrei disso ao pensar neste post que marca meu retorno ao trabalho depois de 15 dias de férias e uma semana inteira de folga devido ao Natal. Vamos à lição de casa:

 

Dique em Porto Madero

Buenos Aires, na Argentina, e Colonia del Sacramento, no Uruguai, foram meus portos seguros nestas férias de dezembro. As duas cidades que estão em margens opostas e próximas do Rio da Prata se completam. Um barco, cerca de R$ 150, alguma burocracia de fronteira e uma hora separam a capital argentina fundada em 1536 da mais antiga cidade uruguaia, que surgiu no século seguinte, em 1679.

A primeira, uma metrópole caótica com comércio de qualidade e tradição preservada em alguns de seus bairros. A segunda se contrapõe oferecendo tranquilidade excessiva e ruas e prédios históricos a vista de todos. Interessante casar o passeio pela riqueza de elementos e preços bastante atrativos, seja para comprar, se alimentar ou se hospedar. Cruzar o extenso Rio da Prata deveria ser programa obrigatório para quem vai a Buenos Aires, tanto quanto visitar a Ricoleta, o Boca e o Porto Madero.

Os portugueses, sob o comando de Manuel Lobo, tinham mesmo a pretensão de criar no pedaço de terra mais próximo da Argentina uma base que lhes permitissem chegar ao território dominado pelos espanhóis. Estes logo entenderam as más intenções lusitanas e botaram seus navios do outro lado, expulsaram os recém-chegados e tomaram o território, só o devolvendo muitos tratados depois.

Centro de Colonia del Sacramento

Aliás, esta mistura portuguesa e espanhola é possível de se perceber em Colonia del Sacramento com casas de tijolo e pedra que se avizinham, todas ao longo de ruas calçadas como antigamente, sem um só pingo de asfalto. Por ali passam poucos carros e a preferência é para lambretas e carrinhos de golfe, alugados com facilidade para quem não quer caminhar.

A cidade não tem mais de 21 mil moradores, dos quais apenas dois são brasileiros – outro contraste com Buenos Aires que, sozinha, tem quase a mesma população que o Uruguai inteiro. Há quem a compare com Parati, no litoral fluminense. A mim lembrou Embu das Artes, na região metropolitana de São Paulo (sem o rio, é lógico).

Não vá até lá esperando luxo e requinte nem mesmo uma farmácia com produtos básicos para a higiene pessoal. Nas lojas, a aposta é pelo artesanato. Esteja preparado para a conversão, pois eles aceitam dinheiro de qualquer nacionalidade e origem – não deve ser uma coincidência que o Uruguai é visto como uma espécie de paraíso fiscal sulamericano.

Carros da metade do século passado desfilam pelas ruas mais “modernas” ou fazem pose estacionados no centro antigo. Novos apenas os da frota de táxi que ajuda no deslocamento dos hotéis para os pontos turísticos.

Aproveite para relaxar, refletir e fotografar.

Patins em Buenos Aires

Se em Colonia há poucos brasileiros, em Buenos Aires nós estamos saindo pelo ladrão (sem trocadilho, por favor). As lojas estão tomadas pelos conterrâneos com carteira recheada de real forte. Os restaurantes, também. Em ambos, produtos de qualidade enchem os olhos e o estômago. Tive de me conter em um caso e em outro, pois vinha de um dieta programada para o fim do ano.

Confesso que sinto inveja do que os argentinos foram capazes de fazer em Porto Madero, principalmente após ter visitado, logo no início das férias, o cais de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul – grande desperdício. Fiquei hospedado ali perto e da sacada do apartamento enxerguei coisas muito agradáveis. Saudáveis, em especial.

Ciclofaixas se estendiam por boa parte do trajeto que fiz em Buenos Aires e muita gente de patins brincava em grupo. Passear na cidade me faz pensar como seria agradável São Paulo com este espaço para pedalar e patinar.

O que não dá saudade é o trânsito, mesmo porque estamos falando da segunda maior área metropolitana depois de São Paulo. Principalmente durante a semana, dirigir por lá me pareceu uma ação tresloucada.

Na região próxima do Aeroparque (o Congonhas portenho), os carros se misturam aos enormes caminhões que transportam carga no porto e ônibus coloridos que levam passageiros para os bairros da cidade. Os “marronzinhos” que vestem jalecos amarelos dão a impressão de que são apenas figuras decorativas tamanho o desrespeito às leis.

Ainda bem que bares, restaurantes e boas vistas não faltam para amenizar este estresse que, diga-se, é dos motoristas, apenas, não deste turista. Afinal, férias é para se divertir, conhecer e viver. E isto fiz muito durante estes dias todos.


Veja mais imagens de Buenos Aires e Colonia del Sacramento feitas por este fotógrafo amador

Os presentes de Natal

 

Paz e reflexão : )

O relógio não havia chegado às quatro da tarde e todos estávamos de cabelo lambido e roupa impecavelmente nova. A casa cheirava à colonia que completava o banho dos três irmãos ansiosos pelo passeio prometido. Na véspera de Natal, sair com o pai até o Morro da TV era a senha para o Papai Noel chegar e deixar os presentes embaixo da árvore. Mal aproveitávamos a bela vista de Porto Alegre que aquela altura toda nos proporcionava, queríamos mesmo é ver o tempo passar rápido, voltar e nos deliciar com os brinquedos e roupas comprados por minha mãe.

Hoje, a árvore está vazia, não há presentes nem passeio ao Morro. E não pense que o trânsito complicado, o shopping lotado e o tempo sempre escasso justificam a ausência das caixas coloridas que costumam decorar a sala. Deixamos pra lá as roupas dos filhos, a bolsa da mãe, a traquitana eletrônica que sempre agrada o pai, os DVDs, livros e lembrancinhas que satisfazem as visitas e parentes. Estas ausências não serão sentidas por ninguém.

Nossos presentes, este ano, não cabiam lá na árvore. Nossas conquistas não estavam ao alcance do cartão de crédito O bem estar que domina nosso espírito tinha preço incalculável, impossível de parcelar, o queremos sempre à vista.

Quando a noite chegar, vamos celebrar a consciência tranquila de quem buscou fazer o melhor, mesmo nas muitas vezes em que este não se realizou. Comemoraremos o equilíbrio sentimental buscado por um, o emprego merecido do outro, a força encontrada pelos que viam dificuldades, o ano saudável que se seguiu após a doença, os filhos que surpreenderam pelo carinho e amadurecimento, o resgate à vida de um ente que não era mais tão querido mas sempre foi amado – ser que descompassado faz uma caminhada que me leva a analogias com o renascimento de Jesus, personagem maior desta festa.

Vamos agradecer à Deus, não mais ao Papai Noel, por ter nos permitido preservar a nossa família e tê-la tornado mais rica de sentimentos. E por todas as demais que cresceram a nossa volta, seja com as trapalhadas típicas de quem está vivo seja com as gargalhadas que proporcionaram.

A árvore está vazia, sim. Nossa festa, porém, está completa. A mesa é farta de bons motivos. E os presentes atenderam todos os pedidos que fizemos neste ano, ao menos os que realmente importam para a vida.

São Paulo fica distante dos irmãos e do pai que permanecem no Sul – minha mãe morreu há muito anos, infelizmente. Claro que tenho saudade daqueles Natais em que subíamos o Morro a espera de presentes, mas sou muito feliz pelos que tenho recebido nestes anos todos. E por todos aqueles que os proporcionaram.

Feliz Natal !

Casamento de celebridades

 

Adriane Galisteu casou com o filho no colo, leio em um portal de notícias e entretenimento. Não fiz questão de acessar a notícia. Nada contra a moça que leva a vida do jeito dela e feliz. Menos ainda contra o casamento, estou em um desses há 17 anos (e que muitos mais tenhamos pela frente). Mas é das notícias que não me chamam atenção, raras vezes me levam para dentro de um página ou me desviam do que procuro neste emaranhado que está a rede.

Apesar de que hoje ficaria muito feliz em saber notícias de um casamento em especial. Simone e Marcos não estão na lista dos casais VIPs, aqueles que são caçados pelos fotógrafos e procurados pelos patrocinadores, mas fazem parte de uma restrita lista que mantenho em minha caderneta de anotações (meu ‘contacts’ pra ser mais preciso). Eles não são, necessariamente, amigos de receber em casa ou trocar confidencias, mas são daquelas pessoas pelas quais estarei sempre na torcida pelo sucesso.

Conheci os dois por causa do Marcos quando ainda ele era estudante de jornalismo. Me levou a São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo, pra conversar com algumas dezenas de alunos. A Simone estava ao lado, era namorada ainda. Os dois se tratavam com um carinho contagiante e se dirigiam a mim com uma reverência que não merecia. Logo vi que ali estava um casal pronto para viver em harmonia, capaz de entender que a relação deles está acima de qualquer desafio que, certamente, surgirá.

Ele se formou e segue trabalhando em meio a jornais e revistas, na banca que foi do pai, em frente a FGV, na Nove de Julho. Tem tino jornalístico, identifica os fatos que são notícia com facilidade, não se cansa de me sugerir reportagens, está sempre de olho nas cenas que valem a pena ser registradas e tem uma capacidade singular para transformá-las em fotografias – muitas estão lá no álbum digital do CBNSP, no Flickr.

Hoje à tarde, Simone e Marcos casaram em Atibaia, interior de São Paulo, em um sítio, acompanhados de pessoas que são importantes na construção da vida que eles imaginaram levar em frente. Seu Joaquim, pai do Marcos, não estava presente, pois decidiu-se pelo descanso eterno, há pouco tempo, provavelmente após ter tido a consciência de que o menino dele estava pronto para seguir sua caminhada. Seu espírito e o caráter que transmistiu aos filhos, tenho certeza, estavam lá.

Particularidades de família me deixaram distante desta celebração à felicidade. Fisicamente distante, apenas. Fiquei o sábado imaginando como estaria sendo este momento singular. Da alegria sincera e humilde do Marcos ao beijo apaixonado da noiva. Do olhar entusiasmado dos parentes à satisfação dos amigos próximos. Dona Maria, Seu José e Dona Genésia, pais e mães dos noivos, orgulhosos dos filhos que criaram. Não tenho dúvida, para todos eles testemunhar a vitória de gente bacana neste mundo contaminado do qual fazemos parte foi um momento especial.

Simone e Marcos foram hoje celebridades. E a eles transmito meu desejo de que a mesma magia que os uniu siga interferindo nas suas escolhas.

(e que o Marcos Paulo Dias não esqueça de seguir fornecendo informações e fotos para este blog)

Educação e meio ambiente, a hora é agora

 

Votar é um ato simples, a complexidade está na escolha. Em poucos minutos, entrei e sai da seção eleitoral sem pressa nem congestionamento, fatores comuns para quem vive em São Paulo. Milhares de brasileiros repetiram este gesto no domingo, talvez nem todos com a mesma tranquilidade que encontrei em meu caminho, mas tomando a mesma decisão pelo que entendiam ser melhor para o Brasil. Nem sempre meu pensamento vai no mesmo sentido que o seu, mas todos tem de estar voltado para a mesma direção: o bem do país em que vivemos.

Houve os que abriram mão da escolha, se ausentaram – a abstenção chegou a 21% -, mas nem por isso deixaram de ter uma atitude política.

Se mais não foram as urnas, mesmo que o voto seja obrigação, cabe aos partidos e políticos compreenderem o recado enviado. Talvez não tenham sido suficientemente convincentes em suas ideias. E convenhamos, o que temos assistido anos a fio na política brasileira não é mesmo de transmitir muita confiança.

Sem contar que a própria campanha eleitoral pecou ao não tocar em pontos fundamentais para o desenvolvimento do País. Mesmo pautado pelas pesquisas de opinião, os candidatos preferiram tratar de maneira rasa temas como educação que aparecia no topo da preferência do eleitor. As questões ambientais, com toda a influência da candidatura de Marina Silva, também se restringiram a comentários simplistas. Trocaram-se propostas por máximas imprecisas como “valorizar o professor” e “acabar com o desmatamento”.

Na cobertura da eleição deste domingo, na CBN, tive oportunidade de conversar com dois especialistas, um em educação, outro em meio ambiente. Interessante notar que os assuntos estão interligados. Sem conhecimento não se tem uma economia sustentável, capaz de atender as demandas do país e, ao mesmo tempo, preservar seus recursos naturais, por exemplo.

O oceanógrafo David Zee lembrou que foi com pesquisa (e pesquisadores, claro) que o setor agropecuário aumentou sua produtividade sem ter de derrubar mata. Sim, isto é possível, apesar de setores da economia rural não entenderem desta maneira e seguirem pressionando o parlamento a permitir a aprovação de um Código Florestal que pode se transformar em enorme risco à nossa sobrevivência.

O educador Mozart Neves Ramos, do Movimento Todos Pela Educação, entende que a qualidade do ensino somente terá avanços consideráveis se houver mais investimento e uma gestão profissionalizada nas escolas, além de faculdades de pedagogia capacitadas a qualificar o professor. Nem todos os temas são de responsabilidade direta do Governo Federal, mas o tem como indutor das políticas que permitam estes avanços.

Ambos concordam que as medidas para uma mudança qualificada do País na educação e meio ambiente não podem esperar. E este será dos grandes desafios da nova presidente Dilma Roussef, assim que assumir a função, em 1º de janeiro. Melhor ainda, assim que se iniciarem os trabalhos de composição do seu Governo, pois terá de encontrar pessoas comprometidas com estas ideias e não apenas com as cores partidárias.

Dilma poderia ler a edição da Revista Época deste fim de semana, na qual está pesquisa que trata dos valores mais apreciados pelos brasileiros. Fica evidente que o cidadão deseja viver em um Brasil no qual sejam satisfeitas as suas necessidades físicas e financeiras, mas também que existam condições que garantam a paz, justiça e qualidade de vida. Para tanto é preciso encarar os problemas estruturais e combater a corrupção, um dos aspectos mais citado pelos entrevistados.

E nada disso se constrói sem investimento na educação. Quando isto ocorrer, provavelmente os candidatos não terão mais de se preocupar com o índice de abstenção do eleitor. Por outro lado, terão de se esforçar para mostrar na campanha mais do que simples jargões e ideias vazias.

Quem roubou o palmito ?

 

Bons dias aqueles em que a Copa do Mundo tomava conta das manchetes. Na capa dos portais eram as falas de Maradona, as broncas do Dunga e os tropeços dos craques que apareciam em destaque. Fotos de torcedoras bonitas e torcedores loucos chamavam a atenção dos internautas que corriam a clicar no link para saber/ver do que se tratava. Estive fora do Brasil durante toda a Copa, mas os telejornais não devem ter agido de maneira diferente. E muita gente, é provável, reclamou “por que só falam disso ?”

Nem bem a Copa havia se encerrado, cheguei ao apartamento de uma brasileira em Roma e, como gesto de carinho, ela ligou o canal internacional de uma das emissoras do País. Com cinco minutos de jogo, carinhosamente, perguntei se era possível desligar a televisão. O noticiário me embrulhava o estômago.

O jogador de futebol acusado de trucidar com a namorada; o advogado suspeito de matar a ex-dele; o marido que bateu na mulher por nove horas; e o grupo de jovens que teria participando de estupros. Foi esta a seleção de notícias elencada pelo editor do telejornal, com direito a arte, reconstituição, entrevista ‘bombástica’ e suíte, para os telespectadores que vivem longe do País.

Cheguei a imaginar que seria uma estratégia para que os brasileiros que estão no exterior não se lamentassem por viverem tão distante. Bastou desembarcar no Brasil, porém, para ver que aquele era apenas um resumo do noticiário que dominava a programação na TV – portais, jornais e rádios também não escapam, mas impactam menos. Da sequência de manchete ao conteúdo jornalístico, a violência dramatizada é dominante.

A enorme diversidade de fontes de informação derrubou audiências cristalizadas pelo tempo. Todos os veículos tradicionais de comunicação perderam espaço que não será mais recuperado. Não convencidos de que os índices do passado não voltam mais – quem os teve, não os terá; quem nunca teve, continuará não tendo -, popularizou-se o noticiário contaminado pela ideia de que o povo gosta de sangue.

O caso envolvendo o goleiro Bruno, claro, seria destaque no Brasil e em qualquer outro lugar do mundo. É ex-capitão e jogador de futebol do time de maior torcida do País suspeito de participar de um crime bárbaro.

Assim como, não se deve eliminar a cobertura jornalística dos casos de violência – o tema é extremamente preocupante e importante. Estaríamos sendo coniventes e ausentes se deixássemos de lado o assunto.

No entanto, o excesso banaliza. Perde-se a dimensão de cada caso.

Qualquer briga de bar pode virar pauta na redação. Um confronto entre bêbados na madrugada que resultou em assassinato é suficiente para mobilizar uma equipe completa de TV que se transformará, talvez, no único ponto de luz daquele bar decrépito localizado em um bairro mal-conservado. Assim que os ‘escutas’ ficam sabendo, surge a ordem para que o repórter de rádio tire os pés da mesa e saia correndo a cobrir o fato. O fotógrafo do jornal chega junto com ele na tentativa de registrar o “nada”. E um delegado de polícia está de plantão para dar sua entrevista consagradora.

Mudar esta rotina é tarefa de coragem, pois seguir a cartilha nos exime da crítica, na maioria das vezes. Se “todos fazem assim”, por que não farei também? Para que inventar? Repetir é bom e conserva o emprego, pensam alguns.

Procurar a cobertura mais inteligente e criativa é coisa rara. Seja por covardia, seja por desconhecimento. Afinal – é impossível não constatar -, o que vemos na tela (no noticiário em geral) é reflexo da falta de preparo e educação. Jornalistas e jornalismo são frutos desta sociedade em que vivemos.

Tenho tido dificuldade de assistir aos telejornais da noite – tradicional fonte de informação do brasileiro – dado o destaque que se oferece à desgraça. Imagino crianças e jovens em busca de notícia, já que os pais e professores insistem que eles têm de estar por dentro de tudo o que acontece no mundo. Meus filhos têm preferido selecionar os temas diante do computador.

Com tudo isso, não me surpreendeu história contada por um colega jornalista. O filho, com apenas 3 anos de idade, ao saber que o pai estava de malas prontas para uma reportagem sobre palmito, logo quis saber: “Mas quem roubou o palmito?”

Fim de férias

 

16 de julho, sexta-feira. Está lá na agenda. Dia de voltar ao trabalho.

Tive ‘meias’ férias este ano. Mas com cara de férias inteiras. Ao lado da família, reforcei laços, confirmei prazeres e, imagino, consegui transmitir a esta a necessidade que tenho de sempre estar ao lado dela.

Um dos momentos mágicos destes dias de descanso era o início de noite com o olhar voltado para o Mediterrâneo. Compartilho com você, caro e raro leitor deste blog, um desses instantes que encontrei na visita a Toscana.

Do lado de cá, Orbetello, que faz parte de um conjunto de pequenas cidades, desenhadas pelo mar, na região de Argentario. Do lado de lá, o sol.

Retomo nossa conversa nesta sexta-feira, no CBN SP e aqui no Blog. Até lá.