A conversa do anjo e do diabo



Por Francisco Solano

Eis o que diz o rapaz que matou a garota atirando em sua cabeça porque não suportou a idéia de estar apartado dela: há diabo e anjo falando comigo. Dois personagens capitais povoando nosso inconsciente e os sonhos que temos dormindo ou acordados, quer queiramos ou não. Shakespeare diz que o pano de que somos feitos sonhos são. Deus se impõe aos homens. O Criador se impõe às criaturas. Se aqueles e estas são providos de lucidez e coragem o sublime preenche nossas existências. Se estas e aqueles são desprovidos de uma e de outra o inferno na Terra é nosso lote. No Drama do Calvário ou mito do Cristo, poema dramático dando fundamento humano ou ético e substrato psicológico ou material ao homem de nossa era, esses símbolos tomam a forma (antropomorfia) de satanás e Jesus Cristo, de Arcanjo Gabriel e Judas, de Maria de Nazaré e Maria de Magdala, e outros mais.

Ainda restam dúvidas de que Lindemberg projetou e vivenciou seus diabos e seus anjos no lugar errado e junto a uma pessoa e não, como deveria, a outro personagem igual a ele? Em vez da cena teatral o apartamento de Eloá. Arrastou-a e à colega ao seu drama íntimo de amor e ódio, de medo e esperança que interpretou o tempo todo inconscientemente, e quanto maior a pressão da polícia e da mídia mais inconsciente ele se tornava aumentando seu pavor e seu pânico de estar apartado daquilo que prezamos acima de tudo e de todos, o sentido primeiro e último de nossas vidas:nossos pais eternos e universais aos quais da boca pra fora denominamos Deus. Graças às igrejas e ao Estado com seus desgovernos, graças aos políticos e ideólogos, graças principalmente às pessoas abstratas e desumanas chamadas povo (todas as classe sociais inclusas). No palco teatral ou realidade tudo poderia ter sido suprema beleza e haver nos resgatado à Vida. No palco fictício tudo foi só horror nos enterrando ainda mais nesse vale de lágrimas produzido pelo civilizado desde que surgiu no planeta, mercê de seu orgulho e de sua cegueira: até então o homem evoluíra organicamente, a partir de então deu uma guinada de 180 graus ao deserto dos insensatos órfãos do sagrado e da poesia, da criação de si mesmo, dos personagens ou símbolos. Dos auto-banidos do drama real e de sua arena. Toda vez em que a civilização e a criação do personagem renascem é porque voltamos ao espaço e ao tempo certos, voltamos à realidade, porém por pouco tempo (assim tem sido). Logo a ficção retoma sua tirania: nascer e morrer sem nada compreender ou saber: produzir, produzir e produzir, consumir, consumir e consumir.

Ainda restam dúvidas de que os pedófilos Brasil afora (seu número cresce sem cessar) projetam e vivenciam seus anjos e seus diabos no lugar errado e junto a pessoas e não personagens que são? Ainda restam dúvidas de que sejam iguais a Lindemberg?

Ainda restam dúvidas de que..chiiii, a fieira não para, mais a gente puxa, mais ela cresce…

Francisco Solano é ator, criador, criatura que me foi apresentada através deste texto pela colega de blog Maria Lucia Solla. Tomara que volte outras vezes.

Manual de explicação do Porto-alegrense



De Fabrício Carpinejar

Reproduzido do Blog Fim da Linha

O porto-alegrense não se aproxima com calma. Cumprimenta alto, gritado, estapafúrdio. Não confunda com assalto: é seu jeito mesmo. Tenta assustar tudo o que pode na primeira vez, para a amizade soar mais tranqüila dali por diante.

É o inverso do baiano, a voz não é mansa para se erguer naturalmente com o avanço da conversa. É tudo ou nada, é agora ou nunca. Um atropelo de vogais. Um ‘eiiii’, um ‘oiiiiii’, um’bah’. Sem chance. Sem recuperação. Um abuso para os mais travados.

A varanda já é sala de estar no rosto do gaúcho. Não há tempo para recuar. O abraço gira em si, como um nó de marinheiro. A Revolução Farroupilha o perturbou. Está sempre desejando o que ainda nem foi apresentado.

Conjuga o tu como se fosse você, para não engolir vento.

Canta o hino rio-grandense de cor e salteado. Canta o hino de seu clube de cor e salteado. Não abandona um argumento mesmo quando percebe que está enganado. É fiel ao erro.

Sabe ser profundo quando distraído. É de uma profundidade inesgotável. Sabe ser solitário quando atento. É de uma solidão ultrajante.

Aceita ser vítima de piada de um familiar. A mesma piada na boca de um estranho é preconceito. Recebe qualquer um de braços abertos para depois investigar. Paranóico, pulou do ventre para não ser chamado de ‘filho da mãe’. Não admite neutralidade e empate, muito menos voto de Minerva. Minerva é somente o nome de um sabão em pó. É preciso escolher, está do lado dele ou contra ele. Cuidado, o silêncio é compreendido como oposição.

Basta elogiar algo de sua cidade que ele vira turista. Repete os programas para ser encontrado. Comparece quatro vezes no mesmo lugar até ser reparado. Continua aparecendo até ser esquecido.

Há poucas bancas nas ruas se comparado a Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Recebe jornal em casa, debaixo da porta como um tapete. Adepto da locução escrita, ler para conversar. Morre bem informado.

Trata os escritores como se fossem músicos. Conversa sobre suas obras no ônibus, na lanchonete, no meio da rua. Seu suspiro é um autógrafo.

Bebe para discutir, não discute para beber. A bebida é anzol do chiste. Abole a frase inicial para ficar com a última. O que valoriza é a reputação. Faz as pazes no dia seguinte quando ama. Quando odeia, bem, dirá que nunca o conheceu.

Seu time é o melhor do mundo, sua cidade é a melhor do mundo, sua carne é a melhor do mundo. Às vezes é. Tão gaúcho que conta que é gaúcho para os próprios gaúchos.

Ele se elogia com receio de não ser lembrado.

Porto Alegre é uma cidade para atravessar a pé. Com o último botão da camisa aberto. Quem toma chimarrão, ronca acordado. É engraçado passear pela Usina do Gasômetro ou Brique da Redenção no domingo. A térmica é um filho aprendendo a caminhar. Balançando de mãos dadas com seus pais. O crepúsculo do Guaíba transforma a orla no teto de uma igreja. Dá vontade de amar alguma santa e pecar bem mais do que se viveu.

Como se escolhe um(a) candidato(a) a prefeito(a)no 2o turno

Como se escolhe um(a) candidato(a) a prefeito(a)no 2o turno

Por Maurício Xixo Piragino

Nestes vinte anos de Constituição cidadã, já aprendemos muito, mas, ainda temos que aprimorar mais a nossa democracia e seus instrumentos. As cidades médias e grandes têm o segundo turno das eleições exatamente para dar oportunidade ao eleitor escolher com mais confiança, além de estabelecer um governo municipal mais respaldado. As campanhas publicitárias na mídia vendem um produto: o(a) prefeito(a). Ficam longe da realidade, maquiam, exageram, falam meias verdades, escondem, criam verdades, esbarram na ética e, por fim, despolitizam o processo.
Então, quais são bons critérios para escolhermos um(a) prefeito(a)?

1- ser ético em todas suas ações públicas e particulares;
2- atue acima de tudo por justiça social, isto é, invista com eqüidade no cidadão (agindo mais para quem precisa mais e menos para quem precisa menos) e atue em todas as áreas da cidade sem privilégios aos que já possuem mais;
3- ambientalmente responsável;
4- tenha uma história política coerente e retire seu ego de cena e lembre sempre que ele é um empregado do povo;
5- defenda a coisa pública, isto é, seja republicano;
6- ‘desprivatize’ o Estado e enfrente os interesses particulares nas questões públicas,
7- respeite as leis aprovadas e faça-as cumprir, principalmente a lei orgânica e o plano diretor estratégico e, quando for revisá-lo faça-o de forma transparente e participativa;
8- que se comprometa e trabalhe com metas por distritos em todas as áreas e publique isto no início do governo(lei de metas), isto é, planejamento a curto médio e longo prazo transparente;
9- descentralize o poder, isto é, crie e/ou fortaleça subprefeituras e também descentralize todo o orçamento;
10- discuta os orçamentos (geral e por região) em audiências públicas regionais com a população;
11- na regionalização da cidade faça a população referendar os subprefeitos (e num futuro breve escolher diretamente);
12- crie os conselhos de representantes, cidadãos eleitos para gerir a região junto com o subprefeito;
13- governe com a população, isto é, facilite a participação direta de todos nos distritos e deixe-a decidir diretamente nas questões importantes através de plebiscitos;
14- fortaleça os conselhos municipais e use-os também para co-gestar a cidade;
15- tenha uma boa equipe técnica e política, pois ninguém governa o poder executivo sozinho, além de valorizar o servidor público;
16- estabeleça relação republicana, com os poderes legislativo e judiciário, respeitando a divisão dos poderes e não fazendo intercambio com cargos e interesses;
17- organize espaços (salas do cidadão) em vários locais e órgãos públicos, no qual qualquer pessoa possa ter quaisquer dados do município, com acesso fácil e disponível e gere transparência nas ações;
18- invista no “e-gov”, isto é, no governo eletrônico dando oportunidade para todos cidadãos participarem, resolverem questões, solicitarem serviços, terem informações e levantar dados do município de forma virtual;
19- atender com prioridade as pessoas com deficiência na questão da mobilidade urbana;
20- privilegie o transporte público e a mobilidade urbana geral (pedestres, ciclistas) sobre o transporte particular;
21- seja ideológico, isto é, mostre claramente seus princípios políticos porque eles refletem na forma de olhar e gerir a cidade;
22- facilite e respeite o controle social da sociedade civil organizada;
23- aja contra o nepotismo;
24- tenha a ficha limpa;
25- não deixe as conclusões de obras ou ações gerais para as vésperas da eleição, no caso de prefeitos que tentam a reeleição. Caso tenha sido ou é prefeito, é mais fácil para o eleitor, caso não, devemos observar o programa de governo apresentado na campanha e as ações na vida pública passada.

Critérios ruins: vida pessoal ou sexual do(a) candidato(a), antipatia ou simpatia do(a) candidato(a), interesse de classe e grupos(por exemplo, ‘voto porque protege os taxistas’), interesses locais e manutenção de privilégios (por exemplo,’vai fazer no centro uma obra’,’faz obras para facilitar a vida de quem tem carro particular’) pois, prefeito(a) é clínico geral, isto é, vê os problemas específicos mas jamais pode se esquecer do todo. Estes critérios ruins não ajudam a cidade a ser igualmente justa e ambientalmente desenvolvida. Numa cidade agradável de viver, todos cidadãos sentem-se pertencentes a ela e isto é antagônico à exclusão.

O candidato que atender todos estes critérios será um Estadista de um novo tempo, de um novo Brasil.

Maurício Xixo Piragino é diretor da Escola de Governo de São Paulo e coordenador do grupo de trabalho de Democracia Participativa do Movimento Nossa São Paulo.

Sujeira eleitoral é isso

Muito pior do que qualquer propaganda que tenha sido feita nesta eleição é a forma como alguns grupos políticos tem agido nesta última semana. Depois de receber na porta de casa um panfleto apócrifo contra Marta Suplicy (PT), chegou ao blog por e-mail outro contra Gilberto Kassab (DEM). Este quem me encaminhou foi um ouvinte-internauta incomodado com o nível que a campanha chegou.

Aldo Rebelo não quer voltar para a Câmara



Candidato a vice de Marta no estúdio do CBN São Paulo

O candidato a vice de Marta Suplicy, Aldo Rebelo (PC do B), não comenta sobre a possibilidade de voltar à Câmara Federal após a eleição deste domingo. Não que ele queira abandonar a função de deputado federal. Apenas porque para ele não é concebível pensar agora em derrota de Marta.

O deputado federal e ex-ministro do Governo Lula, Aldo Rebelo, reforçou o discurso dele sobre educação durante a entrevista, ao vivo, no CBN SP. Clique aqui para ouvir a entrevista.

Aldo Rebelo, vice de Marta, no CBN SP

O candidato a vice-prefeito na chapa de Marta Suplicy, do PT, será o entrevistado desta sexta-feira, no CBN SP, a partir de 11 e 10 manhã. Aldo Rebelo é deputado federal e comandou a Câmara, recentemente. Um dos mais fortes nomes do PC do B, partido que na capital paulista teve o segundo vereador eleito mais bem votado, Netinho de Paula.

Você participa desta entrevistas com perguntas ao candidato Aldo Rebelo, da mesma forma que aconteceu ontem com a candidata a vice de Kassab, Alda Marco Antonio (PMDB).