Fontes para enxergar a pobreza sem preconceito

A mensagem que reproduzo é da colega de redação Camila Campanerut e apresenta links para conteúdo bastante rico sobre a pobreza. Acessá-los talvez ajude muitos de nós a exergar o tema sem o preconceito que embassa a vista:

“Tratar do tema da pobreza, justamente pela complexidade, é muito apaixonante para mim. Em especial, porque trabalhei durante um ano e meio em um programa financiado pela Comunidade Européia de estudo e construção de propostas para combater à pobreza nos centros urbanos na América Latina e na Europa. O projeto tinha duração de três anos (2000-2003) e você acessa o site clicando aqui.

Contém uma série de entrevistas, algumas que fiz com especialistas no assunto, e algumas documentos com propostas e o documento final do projeto que diz a que veio.

Espero que estes textos possam servir de fonte para mais discussões e outras boas propostas.

Um abraço,

Camila Campanerut”

Pobreza e globalização

Por Ricardo Gomez Filho

A globalização econômica é o mais novo fenômeno comum a todos de que se tem notícia. Atinge de uma só tacada as classes abastada, média e a pobre. Antes dela, somente a morte e o respeito ao seres humanos, segundo a Declaração dos Direitos Humanos, cobririam a todos. A Declaração, infelizmente, não comove mais as pessoas e menos ainda os dirigentes mundiais.

A globalização, que é recém-chegada no pedaço, já assimilou que existem diferenças entre pessoas e países. Por isso o fenômeno econômico afeta mais dramaticamente os pobres de países subdesenvolvidos do que aqueles que vivem em países altamente industrializados.

Um exemplo recente da distinção operada pela globalização foi visto durante a corrida pelo desenvolvimento de combustíveis ambientamente sustentáveis, os chamados biocombustíveis. Quando a maior economia do mundo ‘comprou’ a idéia de diversificar sua matriz energética anunciou que iniciaria a produção de etanol a partir do milho. Houve uma disparada da inflação global. Com a possibilidade de obter maior rentabilidade transformando milho em etanol em vez de destinar à alimentação, o produtor não teve dúvida: brecou a ida da mercadoria para os supermercados. O movimento fez os preços subirem e decretou escassez do produto. O milho é largamente utilizado na alimentação de pessoas e um dos seus derivados, a ração, é fonte de alimento para aves e gados. Assim, a redução da oferta do milho resultou em elevação dos preços de diversos produtos.

A inflação, é verdade, atingiu a todos os países do globo. Mas foi mais severa em regiões carentes da América Central, Ásia e principalmente África. Os países industrializados puderam lançar mão de mais recursos para obtenção do produto, enquanto nos países pobres houve aumento das insurgências civis causada pelo desespero de milhares de famintos – atualmente um exército de 850 milhões de pessoas com potencial de chegar a 1,2 bilhão de pessoas. A imprensa registrou fartamente as rebeliões, os saques ao comércio e o aumento da inanição ao redor do mundo. As Nações Unidas convocaram reuniões para discutir o tamanho da ajuda humanitária necessária para debelar a fome. E… parou nisso. Mais tarde, os esforços para discutir a fome foram silenciados por uma nova pauta vinda dos EUA: a crise hipotecária – que se estende e contamina o sistema financeiro. Essa crise não é bem uma novidade, trata-se de uma bomba-relógio acionada no início desta década e que se agravou em 2007.

Enquanto a imprensa se limita a mostrar as perdas porcentuais das bolsas de valores mais badaladas, o estado de miséria é agravado nos países periféricos de forma global, cruel, inexorável. Com a crise, a escassez de alimentos ganhou um triste aliado: o freio na economia. Nos próximos anos testemunharemos o aumento da fome, das doenças e guerras, especialmente nos países do centro e leste africano. O dinheiro usado para salvar bancos poderia debelar a fome global e criar novos centros de consumo e desenvolvimento. Mas a preferência dos bancos centrais é pelo investidor. O pretexto da hora é ‘para não deixar o mundo quebrar’; Mais tarde será porque ‘é preciso expandir os negócios globais’.

Anos atrás, uma campanha publicitária contra a inanição no Brasil trazia o slogan “a fome tem pressa”. E tem mesmo. Mais até do que as ações mercadológicas, porque o bem envolvido é a vida. Ou esse bem se desvalorizou com os papéis da bolsa? Se nos global players a recessão que se anuncia para 2009 será uma “pisada no freio da economia”, nos países carentes a fome terá o impacto de um soco no estômago. Um golpe certeiro e mortal.

Sobre Kichutes e chuteiras

Por Sérgio Vaz

Em outubro é o mês em que se comemora o dia das crianças, depois do natal, esse é o dia mais aguardado para qualquer menino ou menina, pois, teoricamente é um dia para receber presentes.
Pra ser sincero não tenho boas lembranças dessas datas, na minha casa a roupa sempre foi muito mais importante do que brinquedo, por isso, desde cedo aprendi a brincar só com os meus botões. Sem carrinho pra dirigir, cheguei de kichute na adolescência, e com os pés cheios de calos no coração.

Naquela época não era fácil entender que existia um dia só para as crianças, mas ao mesmo tempo, só para algumas crianças. “Quem será que ensinou aos adultos a serem tão cruéis?”. Pois somente um adulto é capaz de ensinar uma criança a ter raiva e inveja ao mesmo tempo.
Raiva porque as ruas nesses dias eram tomadas de cores e luzes da felicidade alheia, e inveja por que essas cores e luzes não brilhavam no meu quintal. De quebra também aprendi a odiar o Playcenter e o Papai Noel. Bom velhinho, sei…

No caso das meninas fico pensando que também não devia ser diferente, não deve ser fácil acalentar a boneca da vizinha e chamá-la de minha filha ao mesmo tempo. Brincar de babá aos seis anos deve doer tanto quanto ser motorista aos sete. Sorrir com a alegria emprestada… é
muito sério ser criança.

Descobri que somos o país do futebol porque uma única bola, não importa de quem seja, é capaz de fazer a alegria de um bairro inteiro, e nessa hora não importa quem ganhou presente ou não. Para quem não sabe o futebol também é um esconderijo de crianças tristes e solitárias. Descalços ou não,uns chutam a bola, outros a vida.

Não estou fazendo propaganda de supermercado e nem sei se as pessoas se tornam melhores porque na infância ganharam brinquedos ou não, só quis lembrar um tempo em que o algodão não era tão doce.

Se vão presentear seus filhos, para que não se tornem poetas tristes como eu, não esqueçam, as crianças gostam que os pais venham como acessórios. Ou quem sabe, o contrário.

Nesses tempos onde as mães jogam os filhos pelas janelas dos apartamentos, haverá um tempo que a gente não lembrará mais a falta dos brinquedos, e sim das crianças.

CBF

Por Suely Aparecida Schraner

Tem o céu como teto. Hotel das estrelas, ele diz. Vagueia sozinho com suas fortunas recolhidas das ruas. Tem a cabeça quase sempre coberta por um boné reciclado. A barba por fazer. É arisco e desconfiado. “Gato no pulo, cão raivoso no ataque”. Come pouco ou quase nada. Marquise é casa. Não mendiga. Afoga o medo e a fome na cachaça. Guardião dos córregos poluídos de esgoto. Se tem “dez conto”, bebe tudinho. Sem dentes, os olhos lacrimejantes. A cara queimada pelo frio, sol e chuva. Não tira o boné nem a calça de sempre. Tem um carrinho de madeira abarrotado de tudo que encontra por aí. Tá cansado das pessoas, das esguichadas d’água fria e dos palpites que lhe dão. Melhor andar sozinho. Ganha comida, às vezes. Senta e abre. Um cachorro aparece. Se reconhecem. Ambos surrados, pele e osso e muita sujeira. Dividem a comida e seguem juntos. Dividindo as sortes e os azares de sempre. Risadinha é o nome do cachorro. Dentes arreganhados ao menor pressentimento de que possam se aproximar pra aporrinhar. Ele e o amigo unha e carne, carne e unha.

Numa noite ruim, um carro funerário atropela . É como é conhecido, esse morador de rua. “Venda casada” falou o delegado, na ocorrência. No hospital, o doutor pergunta: “O senhor bebe?” – Bebo sim e não minto, ele respondeu. “Desse jeito o senhor vai morrer aos poucos”. – Então tá certo, ele disse. Não tenho pressa mesmo…

Tempos depois está de volta às ruas. Procura que procura pelo cachorro. Anda que anda e pergunta que pergunta. Atropelado, sugerem alguns. Continua chamando: “Risadinha, Risadinha! ”.

Ninguém no mundo está tão sozinho como esse velho de setenta anos, rouco de tanto gritar pelas ruas de Veleiros.

Marginal Pinheiros terá ciclovia até 2010

Usar a faixa que existe entre o rio Pinheiros e a marginal é a obsessão de milhares de ciclistas que deixam a zona sul de São Paulo em direção aos bairros mais centrais para trabalhar. A idéia deles foi aceita pelo Governo do Estado que iniciará projeto executivo da obra para a construção de uma ciclovia que irá ligar o autódromo de Interlagos com o Cebolão. O primeiro trecho da obra deverá estar entregue às pedaladas até 2010.

Ouça a entrevista com o secretário-adjunto de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo, Ricardo Toledo:

Pobreza de alma



Por Carolina Fontes

A pior pobreza não é a material: é a pobreza de alma, a pobreza espiritual…

Se a pobreza espiritual não existisse, cada pessoa saberia dividir o seu pão com o próximo, acabando assim com todas as formas de pobreza! As pessoas dizem que querem ajudar, mas não sabem como começar. É só prestar atenção, pois oportunidades não faltam! No nosso caminho aparecem, o tempo todo, aqueles que precisam de nossa ajuda, comece a reparar: até dentro de casa, com nossos familiares, com aquele auxiliar doméstico, até com o seu bichinho de estimação.

Outra faceta desse tipo de pobreza é a cegueira espiritual, é aquele que vê com os olhos da carne mas não consegue enxergar com o olho do espírito – chamado de “terceiro olho” pelos orientais, e que fica no meio da testa entre os olhos. A localização mostra bem que a visão verdadeira não depende dos olhos, mas sim da sensibilidade. Você anda chorando muito? Sensível demais? Não pode ver uma pessoa no rua, um cão abandonado, uma propaganda triste? Então fique feliz, você está começando a enxergar com seu terceiro olho. E você está contribuindo para acabar com a pobreza. Todas elas.

Encontro

Por Dalva Soares Bolognini

Foi na quinta-feira. Véspera de feriado, final da tarde, sensação gostosa de trabalho realizado. Apanho um ônibus pertinho de casa para ir ao centro me reunir com amigos, comemorar o fim da semana e desejar felicidade pela Páscoa. Dentro do coletivo, mãe e três filhos ocupam dois bancos e a mulher se desloca para junto de duas crianças para que eu me sente junto a uma delas, a maiorzinha, que se encontra no assento junto da janela. Observo como é bonitinha, de feições delicadas, com cabelos divididos ao meio e amarrados no estilo maria chiquinha. Veste calça combinando com blusa curta e tênis com cara de bicho, tudo modinha evidentemente de pequeno preço. Várias caixas se encontram ao seu lado e sobre suas pernas.

Animada, inicio uma conversa:

– Quantos pacotes! Presentes de Páscoa? Bonitos, não?
– Este de cima é da minha irmãzinha – diz, levantando a caixa para que eu veja o conjunto de pratos, talheres e panelinhas verdes. – O meu é este de baixo, cor de rosa. E o outro é da minha mãe, e o jogo é do meu irmão.
– Muito legal, bacanas esses pratos e talheres. Dá para brincar muito. Eu também tive quando era pequena, mas não de plástico, que não existia.
– Nós fomos ganhar debaixo do viaduto.
– E ganharam também bolo, chocolate, ovo de Páscoa?
– Não, só isto.

Meu pensamento caminhou rápido pela aparência daquela jovem mulher negra de tipo miúdo viajando não sei de onde para aonde em São Paulo com três filhos pequenos e bonitos. Tentei adivinhar e voar até os baixos de um dos muitos viadutos da cidade onde presentes de Páscoa haviam sido distribuídos. Meu pensamento parou na seleção dos presentes: como, no século 21, ainda se estimula, com brinquedos, a definição dos papéis sociais de homens e mulheres? Meninos ganham jogos de piões ou xadrez e meninas ganham panelas, pratos e talheres? E como se organiza uma festa sem comida, especialmente na época do tradicional ovo de chocolate?

Ao mesmo tempo notei que a mãe estava curiosa para saber da minha conversa com a menina e querendo ser simpática com ela expliquei:

– Estou dizendo a ela que estes conjuntos de pratos e panelinhas são muito bonitos e que vai dar para brincarem bastante no fim da semana. Dá para fazer muitas “comidinhas” de Páscoa!
– É, dá, quando tem comida para pôr dentro…

Fiquei arrasada. Minha primeira reação foi calcular quanto oferecer àquela mulher para fazer um almoço de Páscoa para os filhos, sentindo-me culpada por estar indo a um happy hour no Café Girondino. Mas a família já se preparava para descer, por gentileza do motorista pela porta da frente e fora do ponto, o mais perto possível do outro ônibus que teriam de apanhar na Praça da Sé. Só deu tempo de ajudar a menina com os vários pacotes, a sair do banco onde estávamos e dar um chauzinho de despedida.

Seu nome é Ana Lívia e ela tem sete anos. Quantas existirão em São Paulo?

Pobres maranhenses


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Essa imagem faz parte de um estudo fotográfico realizado por Durval de Lara Neto em São José dos Basílios, interior do Maranhão. Lá a renda das famílias é gerada pelas quebradeiras de coco babaçu. Durval este nas terras de Sarney para realizar trabalho voluntário de orientação para geração de renda sustentável