‘Roubo de boné’ no US Open transforma inocente em alvo de linchamento virtual

Reprodução de vídeo na internet

Foi um gesto rápido, quase instintivo. No último fim de semana, durante o US Open, o tenista polonês Kamil Majchrzak decidiu coroar uma vitória de virada presenteando um garoto, chamado Brock, que estava na plateia, com o chapéu que usara na partida. O menino, nas primeiras fileiras, esticou a mão, mas um adulto avançou antes dele e pegou o boné.

O vídeo do momento se espalhou como pólvora. O homem foi identificado como Piotr Szczerek, CEO da empresa polonesa Drogbruk. Bastaram alguns segundos de exposição para que ele se tornasse um dos personagens mais criticados da internet.

Pressionado, Szczerek pediu desculpas públicas, admitindo o erro e explicando que acreditava que o boné era para seus filhos. Devolveu o chapéu, enviou presentes para Brock e publicou uma retratação. O caso parecia resolvido — mas estava apenas começando.

A fúria da internet

A viralização do vídeo acendeu uma reação coletiva. Milhares de comentários, mensagens e avaliações negativas tomaram as redes sociais. Porém, num detalhe que passou despercebido, parte dessa fúria foi mal direcionada: os “justiceiros digitais” confundiram a Drogbruk, empresa de Szczerek, com a Drog-Bruk (com hífen) — outra companhia de pavimentação polonesa, sem relação alguma com o episódio.

O dono da Drog-Bruk, Roman Szkaradek, acordou no dia seguinte ao jogo com mensagens de estranhos o chamando de “ladrão de chapéu”. Em poucas horas, seus perfis pessoais e os canais da empresa foram inundados com ataques, xingamentos e até ameaças.

“Sou um empreendedor honesto. Construí minha marca por mais de uma década, e, em dois dias, ela foi destruída”, disse Szkaradek ao New York Times.

O bombardeio de avaliações negativas derrubou a reputação online da Drog-Bruk para 1,2 estrelas. Telefone e redes sociais ficaram incontroláveis. Mesmo explicando que não tinha qualquer ligação com o episódio, Roman viu suas tentativas de defesa apenas multiplicarem as ofensas.

Troca de identidades

O equívoco se deu por um detalhe quase imperceptível: Drogbruk e Drog-Bruk são nomes parecidos, separados apenas por um hífen, mas pertencem a empresas distintas, com sedes a mais de 160 quilômetros de distância uma da outra.

Enquanto Piotr Szczerek tentou contornar o erro e reparar o dano com o garoto, Roman Szkaradek segue tentando salvar sua própria reputação — atingida por algo que não fez.

Um especialista ouvido pelo NYT resume bem o fenômeno:

“A internet adora um pouco de caos. E adora ainda mais punir”, afirma Felipe Thomaz, professor da Universidade de Oxford.

O preço do tribunal digital

O episódio evidencia como a reação coletiva nas redes sociais pode atropelar fatos e transformar inocentes em vilões. Um gesto impensado de um adulto virou um incêndio virtual que consumiu duas reputações: a de quem errou — e se desculpou — e a de quem nunca sequer esteve lá.

O garoto Brock, por sua vez, recebeu o chapéu de volta, presentes do tenista e, provavelmente, um aprendizado precoce sobre a velocidade com que a internet transforma histórias simples em tempestades globais.

Até este momento não se tem registro de que os “justiceiros virtuais” tivessem assumido o erro dos ataques indevidos.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: Ferrari sem ronco é como cerveja sem álcool?

Foto: Ferrari/Divulgação

Imagine acelerar uma Ferrari e não ouvir o famoso ronco do motor. Difícil? Pois é exatamente esse o desafio que a marca italiana terá de enfrentar com o lançamento de seu primeiro modelo elétrico, previsto para 2026. A montadora promete um som “autêntico”, mas admite: não será o mesmo barulho que fez gerações de fãs vibrarem.

No Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN, Jaime Troiano chamou a atenção para o desafio: “Acho que a marca é mais poderosa do que o ronco. As marcas emitem vários sinais: cor, forma, clima, aparência geral”. Para ele, a Ferrari será lembrada não apenas pelo som, mas pelo conjunto de atributos que a transformaram em objeto de desejo.

Cecília Russo trouxe uma comparação provocativa: “Uma legião de pessoas têm tomado cerveja sem álcool da mesma marca que bebiam antes. Mal comparando, o sabor sem álcool seria a Ferrari sem o mesmo ronco?” A imagem é engraçada, mas faz sentido. Afinal, quem diria que consumidores tão fiéis aceitariam abrir mão justamente do que parecia ser a essência do produto — o álcool no caso da cerveja, o açúcar nos refrigerantes, o barulho no carro esportivo?

Ela lembrou também que a Ferrari não faz esse movimento sozinha. Outras montadoras já testaram os limites entre tradição e inovação, acertando em alguns pontos e errando em outros. O que diferencia a marca italiana é o cuidado em observar e aprender com essas experiências, sem abrir mão da aura que a envolve.

Ao final, a discussão toca em algo maior do que motores e combustíveis. Trata-se da capacidade das marcas de se reinventarem em meio a novas tendências de consumo. Produtos sem açúcar, cervejas sem álcool e carros sem combustão revelam que a sobrevivência não está garantida pela força, mas pela adaptação. Como resumiu Jaime: “As espécies que sobrevivem são as mais adaptadas. As marcas que se adaptarem às novas exigências da sociedade e do mercado terão longa vida”.

A marca do Sua Marca

Ferrari sem ronco ou cerveja sem álcool? O que parece uma contradição pode ser, na verdade, a chave da sobrevivência. Marcas que ousam mudar, sem perder a conexão com sua essência, conquistam espaço em um mercado cada vez mais movido por tendências sociais e ambientais.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Avalanche Tricolor: entre o Sobrenatural e Veríssimo

Flamengo 1×1 Grêmio

Brasileiro – Maracanã, RJ/RJ

Volpi comemora gol de empate. Foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

“Joga-se o futebol de rua mais ou menos como o Futebol de Verdade” — escreveu Luis Fernando Veríssimo.

Impossível começar um texto, hoje, que se atreva chamar de crônica, sem buscar referência em Luis Fernando Veríssimo, escritor gaúcho que se despediu de nós, neste fim de semana. Ainda mais em um domingo em que o Grêmio desafiou a lógica e empatou com o Flamengo, no Maracanã. Veríssimo, colorado confesso, talvez não comemorasse o resultado, mas com certeza entenderia o improvável — afinal, quem melhor do que ele para traduzir um jogo em que o “ruim que vai para o gol”, como dizia no texto “Futebol de Rua”, vira o herói da noite?

O dia começou com desconfiança. Confesso que temi um desastre desde o início da semana, ainda mais depois da goleada histórica do nosso adversário na última rodada, no Brasileiro. O Grêmio anda claudicante, sem confiança, e vínhamos de um empate em casa contra um time que estava tão mal classificado quanto nós. Nem a Velhinha de Taubaté, personagem crédula de Veríssimo, acreditaria em outro resultado que não fosse o fracasso.

Enfrentar um gigante, dentro de um estádio gigante, lotado por uma torcida gigante, era tarefa hercúlea. Bastaram 18 segundos para que as piores previsões começassem a se desenhar, com o primeiro chute contra o nosso gol. Mal tocávamos na bola e, quando tocávamos, era só para despachá-la o mais longe possível de nossa área. E comecei a dar razão à estratégia: cada tentativa de passe curto se perdia no meio da pressão adversária.

A defesa, no entanto, se virava como podia. O Flamengo envolvia: toque rápido, dribles pela esquerda e pela direita, cruzamentos que vinham de todos os lados. Nossos marcadores — os onze que estavam em campo — espantavam o perigo do jeito que dava. A despeito da superioridade do oponente, fomos para o intervalo com um honroso zero a zero.

O segundo tempo foi estonteante. Vieram os escanteios, um atrás do outro. As defesas impossíveis de Tiago Volpi. A sensação era de que só o Cristo Redentor poderia nos salvar – foi quando lembrei que ele é carioca. Até que, em um raro contra-ataque, em que cheguei a pensar no impossível, mostramos por que estamos tão mal na tabela: o passe errado, a transição lenta e a defesa desorganizada. Para o nosso azar, a bola sobrou para um dos goleadores do campeonato — e o Flamengo abriu o placar. Ali, parecia que restava torcer apenas por uma derrota magra.

Mas o futebol, felizmente, adora contrariar previsões. Foi quando um outro personagem da crônica esportiva brasileira entrou em campo. Claro que não seria obra de Veríssimo — ele jamais evocaria uma de suas criaturas para ajudar o Grêmio. Foi o Sobrenatural de Almeida, de Nelson Rodrigues, um tricolor carioca assumido, que resolveu dar uma força. Entregou a Pavón, que havia errado tudo até então, a chance de se redimir: cavar um pênalti na tentativa de cruzamento.

E, em um time que sofre para chegar ao gol, o Grêmio recorreu ao talento improvável de um goleiro. Negando a escrita — ou o escrito por Veríssimo —, Tiago Volpi bateu o pênalti com a frieza de um centroavante e silenciou o Maracanã.

O empate coloca o Grêmio na terceira partida sem derrota no Brasileiro. Ficamos um pouco mais longe daquela zona — você sabe qual — e, incrédulos e crentes, vimos o time conquistar mais um resultado positivo fora de casa: vitória contra o Atlético Mineiro, empate com o Flamengo.

Por mais problemas que tenha, o Grêmio insiste em me surpreender. E, lá do céu, desconfio que Verissimo está sorrindo. Não pelo empate — colorado que era —, mas porque só ele saberia explicar como o futebol de rua, o da pelada, o do improvável, às vezes se sobrepõe ao tal Futebol de Verdade.

Conte Sua História de São Paulo: encontrei mãe, irmãs e irmão que aqui já estavam

José Geraldo Leite Coura

Ouvinte da CBN

Photo by sergio souza on Pexels.com

Cheguei em 1978. Vim de onde o mar é o céu. Meio dia de viagem, na rodoviária Julio Prestes chegamos. Eu vim acompanhado de dois dos sete, quem nos trouxe foi outro. Atravessei o rio, esse já estava sujo; continua, apesar do já gasto. Chegamos na Freguesia do Ó. De lá corri por dias das férias em campo de cimento, diferentemente dos de terra e mato.


Encontrei mãe, irmãs e irmão que aqui já estavam. Todos agora nos juntamos a ele que veio bem antes para fazer o futuro. Essa chegada me fez vislumbrar uma São Paulo que ao longo do tempo aprendi a admirar e temer. Sempre atravessei a cidade no trem, no ônibus e no metrô.

No início foi na Cidade de Deus onde aprendi minha primeira profissão: mecanógrafo. De lá, técnico eletrônico. E, a partir deste, rodei por agências consertando tudo que mandavam. Nos intervalos, futebol e bailes. Colegas de todos os lugares. As domingueiras eram sempre animadas.

Já se foram 37 anos e hoje ou só hoje consigo parar para contar essa trajetória de luta e sucesso; de alguns tombos que me fizeram o que sou; de amigos que passaram e outros que continuam. Entre minha chegada e minha estada, são dois filhos e uma filha, todos paulistanos. Mas ela que me acompanha, também veio da minha terra natal.

Agora termino para agradecer a cidade que me fez este profissional e o cidadão que sou.  

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

José Geraldo Leite Coura é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para conhecer outras histórias, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Mundo Corporativo: Rita Knop explica como a Neoenergia ajuda empresas a economizar com energia limpa

Reprodução do vídeo do Mundo Corporativo no YouTube

“Você imagina ter um shopping center atendido por combustível fóssil. Quando você moderniza a matriz energética, se beneficia o shopping e todos os empresários que têm lojas ali.”
Rita Knop, Neonergia

Empresários que ainda não migraram para o mercado livre de energia estão perdendo oportunidades reais de economia e eficiência. Essa é a avaliação de Rita Knop, diretora comercial da Neoenergia, ao abordar os impactos da abertura do setor para pequenas e médias empresas em 2024. A executiva alerta que, mesmo dois anos depois da mudança, há negócios que continuam pagando mais do que deveriam pela energia elétrica. A estratégia da companhia, segundo ela, é oferecer consultoria especializada e soluções personalizadas que garantem previsibilidade e reduções de até 35% no custo da energia. Conversamos sobre o assunto no Mundo Corporativo, da CBN.

Segundo Rita, o papel da Neoenergia vai além da comercialização: “A gente atua como um assessor energético. Assim como existe o assessor financeiro, nós ajudamos o cliente a entender e otimizar sua operação energética”. Essa atuação inclui diagnóstico, elaboração de soluções e até o financiamento da modernização da infraestrutura, por meio de um modelo em que a empresa paga uma mensalidade em vez de arcar com investimentos iniciais. “Ele não precisa se descapitalizar para renovar todo o seu parque de infraestrutura de energia. A Neoenergia faz esse investimento e presta o serviço ao longo do tempo”, explicou.

Da consultoria à transformação da cadeia produtiva

A adoção do mercado livre de energia, na visão da executiva, tem exigido uma mudança de mentalidade dos empresários. Muitos ainda têm dúvidas e medo da instabilidade dos preços, mas a proposta da Neoenergia é justamente oferecer segurança. “Você tem previsibilidade do que vai pagar ao longo dos meses e pode negociar contratos de até 20 anos”, afirmou.

Além disso, Rita destaca que a empresa avalia não apenas o consumo da organização, mas também o impacto da cadeia produtiva: “Junto com esses grandes clientes, a gente monta um plano de assessoria para a cadeia de fornecedores. Se ela não estiver descarbonizada, o cliente não consegue atingir suas metas ambientais, especialmente no escopo 3”.

A executiva também ressaltou a vantagem de a Neoenergia operar em toda a cadeia: geração, distribuição e comercialização de energia. “A gente tem uma energia 100% certificada desde a sua origem até o atendimento ao cliente”, garantiu.

Com experiência anterior no setor de telecomunicações, Rita afirma que vive no setor elétrico uma transformação semelhante à que testemunhou décadas atrás: “A gente dormiu regulado e acordou no mercado livre”, disse, comparando os desafios enfrentados na liberalização dos serviços.

Liderança e diversidade no setor elétrico

Rita Knop também falou sobre sua trajetória e os desafios de ser mulher em um setor historicamente masculino. “Quando me formei em engenharia elétrica, era quase uma agulha no palheiro”, lembrou. Ela afirma que só conseguiu avançar porque encontrou líderes dispostos a apostar em seu trabalho. Hoje, reconhece na Neoenergia um ambiente de estímulo à diversidade: “Não adianta você falar em diversidade, trazer uma mulher e não dar um ambiente, uma condição para que ela atue. Isso eu encontrei aqui”.

Ela cita, ainda, um programa da empresa reconhecido pela ONU, que já formou mais de mil mulheres eletricistas: “É com muito orgulho e satisfação de saber que eu tô num ambiente que eu posso ser uma líder mulher, sem ter que parecer homem”.

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furujem, Débora Gonçalves e Letícia Valente.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: o que acontece quando o dono vai embora da empresa?

Foto de MART PRODUCTION

A longevidade das empresas traz consigo um desafio inevitável: como garantir que a marca mantenha sua essência após a saída de um líder que a personificava. Esse foi o tema de Jaime Troiano e Cecília Russo no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN.

Cecília destacou que a sucessão envolve mais do que a troca de comando. “Se esse líder manteve toda essa energia apenas para si e não conseguiu ‘contaminar’ outros níveis da empresa com essa mesma energia da marca, quando ele sai fica um grande vácuo, uma crise de identidade. A empresa sem esse líder não sabe mais quem ela é.” Para ela, quando o trabalho de disseminar a razão de ser da organização é feito de forma planejada e constante, a marca consegue se perpetuar além dos produtos e serviços.

Jaime reforçou que o primeiro passo é a clareza do propósito. “O propósito vem de uma escavação, de explorar como os talentos daquela empresa se conectam com aquilo que a sociedade precisa. É nessa intersecção que o propósito se revela.” Ele lembrou que esse compromisso precisa ser vivido no dia a dia: na forma de contratar pessoas alinhadas, desenvolver produtos coerentes e até abrir mão de iniciativas que não reforcem a identidade da marca.

Para ilustrar, Jaime citou a brasileira Dengo, que nasceu valorizando o cacau nacional e os produtores da Bahia, e a americana Patagônia, fundada por Yvon Chouinard, que traduz no próprio negócio seu engajamento ambiental — a ponto de fechar lojas e site na Black Friday como forma de incentivar o consumo consciente.

A marca do Sua Marca

Planejar a sucessão de liderança é essencial para preservar a alma da empresa. Quando o propósito é disseminado e compartilhado por todos, a passagem de bastão ocorre de forma mais suave, garantindo que a marca mantenha sua identidade, independentemente de quem esteja no comando.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Avalanche Tricolor: a ilusão interrompida

Grêmio 0x0 Ceará
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Alysson parte para o ataque. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

A única coisa que buscava na noite deste sábado era a ilusão de emendar uma segunda vitória seguida no Campeonato Brasileiro. Depois dos três pontos fora de casa, da maneira como foram conquistados semana passada, a expectativa de mais três era até natural. O adversário estava no meio da tabela e o jogo era na Arena, diante da torcida. A vitória, mesmo com sabor de “me engana que eu gosto”, saciaria meus desejos.

O Grêmio atual, porém, não me deixa iludir. A todo instante faz questão de mostrar a que veio nesta temporada. Joga na cara o que não queremos acreditar. Na troca de passes sem convicção, na transição claudicante para o ataque, nos cruzamentos sem destino e nos raros chutes a gol, expõe suas fragilidades.

Nesta fase, o reforço que chega com cara de solução sofre lesão — vide o ocorrido com Balbuena. Os jovens que se anunciam com talento não conseguem ir além de alguns momentos de lucidez — como no futebol esforçado de Alysson e Riquelme. A bola que se apresenta para o gol é desperdiçada, como aquela que André Henrique perdeu quase dentro da pequena área. Somos uma sucessão de lances fortuitos e bolas sem rumo.

Como me disse um amigo confidente — gremista, gaúcho e jornalista como eu, parceiro de tantas pitangas tricolores —, o Grêmio apenas resgatou o seu “verdadeiro futebol”.

Conte Sua História de São Paulo: meu pai trabalhava na Light

Nancy Alcantara

Ouvinte da CBN

Viaduto do Chá

Era dezembro de algum ano da minha infância, pegamos o ônibus na Vila Mariana e fomos para a cidade — como chamávamos o centro de São Paulo, antigamente. Minha mãe, meu irmão e eu, marcamos um encontro com meu pai no Viaduto do Chá. Meu pai trabalhava na Light and Power Company, uma empresa canadense — nesse prédio, na Xavier de Toledo, com toldos vermelhos e aparência atual um pouco desconfigurada da original.

Meu pai tirou do bolso um pacote de dinheiro. Era comum naquele tempo carregar dinheiro vivo — não existiam cartão de débito e de crédito. Mostrou o maço para a minha mãe que respondeu com um sorriso largo. Entregou tudo para ela e fomos ao Mappin — loja de departamento muito famosa, em São Paulo. 

Localizado na praça Ramos de Azevedo, bem em frente ao Theatro Municipal, ao lado do prédio da Ligth, no coração da maior cidade da América do Sul, o Mappin teve seis décadas de glória, imperando na venda de eletrodomésticos, roupas, utensílios para casa e brinquedos. Tudo que você pudesse imaginar tinha no Mappin. Quatro andares de pura diversão, especialmente para quem acabar de receber um “saco de dinheiro”.

Meu pai havia ganhado um bônus da empresa e resolveu fazer a felicidade da família. Ele retornou ao trabalho e nós entramos na loja de mais ou menos 15 mil metros quadrados de área construída, de puro consumo. Imagine a nossa felicidade até então acostumados a passar o ano todo contando o dinheirinho para comprar um sapato novo ou uma roupa melhorzinha.

Meu pai, além de trabalhar, cursava a faculdade de engenharia elétrica, depois de completar o curso técnico de eletrotécnica, estimulado pela minha mãe. Sempre ela!

Percorremos os departamentos da loja a escolha de pequenos prazeres que o dinheiro pudesse comprar. Nem eram tantas coisas ou produtos de grande valor, mas só de poder olhar, pegar e comprar, gerava um prazer que ficou na minha memória como sendo um dos melhores natais que já passei com minha família.

Depois das compras, nos encontramos novamente com meu pai e fomos os quatro almoçar no Café Girondino, um restaurante, embora com nome de café. Um luxo para nós. Vida de rico! Quando penso que hoje, almoçar em um restaurante é algo rotineiro, tenho a certeza que tudo começou lá atrás no desejo dos meus pais de crescer. Eles se dedicaram, se desenvolveram para dar o melhor para sua família.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Nancy Alcântara é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Mundo Corporativo: Paulo Henrique Andrade, da IturanMob, mostra como dados e mobilidade podem gerar crédito de carbono

Gravação do Mundo Corporativo com PH, da IturanMob Foto: Priscila Gubiotti

“Vamos conectar as coisas para você ter um perfil de uso de acordo com a sua necessidade. Esse é o negócio.”
Paulo Henrique Andrade, IturanMob

A mobilidade elétrica vai além do carro que não emite poluentes. Ela está diretamente conectada à forma como consumimos energia, usamos dados em tempo real e estruturamos serviços urbanos. Para Paulo Henrique Andrade, o PH, CEO da IturanMob, a transformação não acontece apenas no veículo, mas na lógica que organiza toda a jornada de deslocamento, planejamento energético e gestão de recursos. Ele é o entrevistado do Mundo Corporativo , que teve como tema central a integração entre mobilidade inteligente, planejamento estratégico e mercado livre de energia.

O carro que economiza e calcula seu impacto

PH destacou que, embora o carro elétrico elimine a emissão direta de poluentes, o verdadeiro ganho só acontece quando o carregamento também é feito com energia limpa — e essa escolha depende de acesso ao mercado livre de energia. “Você pode estar carregando o seu carro à noite com energia que vem de uma termoelétrica. O carro em si não polui, mas a fonte pode ser carvão”, alertou.

Segundo ele, empresas com frotas elétricas precisam entender seu perfil de consumo para negociar pacotes mais eficientes com fornecedores: “Você precisa saber quanto vai rodar, quais horários são mais críticos para o carregamento, se vai usar carregador rápido ou convencional.”

Esse planejamento estratégico também passa por soluções digitais criadas pela empresa, como o Make My Day, uma ferramenta que calcula trajetos, consumo de bateria e pontos ideais de recarga. “A gente já tem isso funcionando no Brasil, com parceiros que permitem agendar o carregamento e garantir que o posto esteja disponível para o usuário.”

Dados, carbono e segurança no mesmo sistema

Com mais de 400 mil equipamentos conectados, a IturanMob coleta e processa dados em tempo real para diversos fins — desde alertar motoristas sobre zonas de risco até calcular com precisão a quantidade de carbono evitado por veículos elétricos. “Criamos um algoritmo que compara o desempenho de um carro elétrico com um modelo similar a combustão e transforma essa economia em crédito de carbono. Esses créditos podem ser vendidos por meio de uma plataforma conectada a brokers.”

Além disso, o sistema pode ser usado para alertar motoristas sobre revisões, zonas de roubo e até organizar test drives estendidos para quem quer experimentar um carro elétrico por um fim de semana. “A gente está transformando um mercado que era reativo. Agora, o sistema avisa que sua moto precisa de manutenção antes do problema aparecer.”

Mobilidade inteligente e o novo comportamento urbano

A mobilidade inteligente, segundo Andrade, precisa ser multimodal, acessível e orientada por dados. “Não adianta pensar só em carro. Tem que conectar bicicleta, metrô, moto e saber o que é mais adequado ao seu deslocamento.” Essa lógica também muda a forma como as empresas pensam seus negócios. “Já tem motorista que deixou de gastar R$ 3.000 por mês com combustível e investiu esse valor na faculdade do filho. Isso tem impacto social real.”

O CEO da IturanMob reforça que a chave da inovação está na escuta ativa. “Você venderia o produto de hoje para as pessoas daqui a três ou quatro anos? Talvez não. É por isso que a gente tem que ouvir o cliente, entender o que ele quer e entregar uma jornada simples, funcional e relevante.”

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Letícia Valente.

Dez Por Cento Mais: Ilvio Amaral e Maurício Canguçu refletem sobre a vida diante do Alzheimer

Imagem da peça Maio, antes que você me esqueça

“Não adianta pesar o que já é pesado.”
Maurício Canguçu, ator

A perda da memória, provocada pelo Alzheimer, não atinge apenas quem recebe o diagnóstico. Ela se espalha pela rotina da família, redefine papéis e exige novas formas de afeto. Foi dessa experiência pessoal que nasceu Maio, antes que você me esqueça, peça protagonizada pelos atores Ilvio Amaral e Maurício Canguçu, em cartaz há quase quatro anos. O tema foi assunto da entrevista no programa Dez Por Cento Mais, apresentado por Abigail Costa, no YouTube.

Do luto à cena

A ideia de montar a peça surgiu após momentos difíceis vividos pelos dois atores: Ilvio perdeu o pai em consequência do Parkinson, enquanto a mãe de Maurício foi diagnosticada com Alzheimer. “Nós começamos a conversar sobre isso e falamos: vamos pedir para o Jair escrever uma peça para nós dois fazermos”, contou Ilvio, lembrando da parceria com o dramaturgo e neurocirurgião Jair Raso.

Mesmo com o texto pronto em meados dos anos 2000, os atores adiaram a montagem. “Eu disse: ‘não tenho estrutura para fazer essa peça agora’”, recorda Ilvio. Só durante a pandemia, diante das leituras feitas em casa, perceberam que era o momento de encarar o palco. A montagem estreou em formato reduzido, em uma live para a UFRJ, e rapidamente ganhou corpo e público.

O peso da doença e a leveza do afeto

No espetáculo, Ilvio interpreta um pai de 85 anos com Alzheimer, enquanto Maurício faz o papel do filho. A relação conflituosa entre eles se mistura à fragilidade trazida pela doença. “O Alzheimer não é uma doença só do paciente. Ele afeta muito mais quem está em volta, a família que convive todos os dias”, disse Ilvio.

A peça mescla humor e drama. Os atores lembram que, durante o espetáculo, as pessoas riem muito da inocência do personagem com Alzheimer e, em seguida, são levadas a refletir sobre perdão e reconciliação. De acordo com Maurício, o humor não vem de um esforço cômico, mas da própria realidade: “A gente não faz nada para ser engraçado ou emocionante. Nós apenas contamos a história. O público é quem encontra as emoções.”

Entre memória e esquecimento

As histórias de bastidores também revelam a força do tema. Ambos os atores passaram por episódios de amnésia global transitória, uma súbita perda temporária de memória. Para eles, a experiência pessoal reforçou ainda mais o vínculo com o espetáculo.

No palco ou fora dele, a peça desperta identificação imediata. “Tem gente que sai chorando e diz: ‘eu achei que só eu sentia isso em relação à minha mãe’. A peça mostra que não estamos sozinhos nessa experiência”, contou Maurício.

No fim, a reflexão que fica é sobre a permanência do afeto. “Se não há amor e respeito, não tem como ser feliz”, resumiu Ilvio.

Vá ao teatro

Maio, antes que você me esqueça

Teatro Estúdio

R. Conselheiro Nébias,891, São Paulo – São Paulo

Até 14 de Setembro

Sexta e Sábado às 20h30, Domingo às 18h00

Compre seu ingresso aqui

Assista ao Dez Por Cento Mais

Toda quarta-feira, ao meio-dia, tem um novo episódio no canal Dez Por Cento Mais, no YouTube. Você pode ouvir as entrevistas, também, no Spotify.