Conte Sua História de São Paulo 465 anos: o fotógrafo que prefere falar da cidade através de suas imagens

 

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Os ângulos de São Paulo ficam ainda mais interessantes quando captados pelas lentes do fotógrafo e editor Luiz Cersosimo. Talvez porque ele seja paulistano — e o interesse em revelar a cidade em que nasceu torna seu trabalho ainda mais apaixonante –, mas, certamente, boa parte do resultado das imagens que registra tem a ver com seu olhar que é especial e sensível para as coisas o mundo (e das cidades).

 

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Às vésperas do aniversário de 465 anos da cidade, recebi dois dos livros publicados pelo fotógrafo, São Paulo:Centro e Urbanidade, que me permitiram entender melhor tudo que ele me falou um dia quando nos encontramos, por acaso, em um café de shopping da cidade. Ele referiu-se ao Conte Sua História de São Paulo — já que admirava o programa que tradicionalmente vai ao ar aos sábados e, nesta semana, está em edição especial no Jornal da CBN.

 

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Confesso que esperei receber um texto assinado por ele. Peço perdão por minha expectativa errada. Cersosimo conta a história de São Paulo em imagens, algumas das quais compartilhadas neste post.

 

Lá no site da Editora do Olhar, lançada pelo fotógrafo com a intenção de criar, produzir e distribuir conteúdo visual por meio de publicações impressas e digitais, encontre o texto abaixo, um flash do que ele pensa sobre seu trabalho fotográfico:

 

O olho abraça a beleza do mundo inteiro
O olhar desvela o que observa e constrói mundos e narrativas
A fotografia não é tão somente o espelhamento do real, mas a extensão poética do que nossos olhos enxergam
O que vemos na imagem são as causas e os efeitos dela própria em nosso olhar
O olhar é o mais espiritual de todos os sentidos
Ver é olhar para tomar conhecimento
A única coisa que existe é o que sentimos.

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: muito frio, pouca roupa e uma tremenda vontade de ser alguém na vida

 


Por Edileide Koller
Ouvinte da CBN

 

 

Tenho um orgulho danado de ser umbuzeirense. Nasci em uma casa bem grande, onde da metade para trás pertencia a Pernambuco e da metade para frente, a Paraíba. De Umbuzeiro, minha família e eu, com 4 anos, fomos morar em Orobó, cidade mais próxima e totalmente pernambucana, para que meus irmãos mais velhos pudessem estudar no ginásio. Quando eu tinha 9 anos, fomos morar em Recife — novamente por conta dos estudos dos meus irmãos que deveriam fazer faculdade para “ser alguém na vida”.

 

A partir daí, segue essa história que sempre me faz derramar um líquido salgado pelo rosto. Um típico exemplo de desigualdade no Brasil, pelo tanto de força e determinação que eu tinha para “vencer na vida”. Na época não entendia bem isso. Como é bom às vezes não entender bem o que se passa a nossa volta. Eu só tinha a certeza de que tudo dependia de mim, que se eu me esforçasse bastante, muito mesmo, eu conseguiria. Infelizmente, não é bem assim. Precisamos de oportunidade também. Faltou! Chorei agora. Literalmente chorei muito.

 

Pois bem, foi no Recife que comecei faculdade de Economia na UNICAP – Universidade Católica de Pernambuco e, no 3º ano, decidi morar em São Paulo a convite do meu querido irmão Walmir, que lá morava. Cheguei em 1987, com 22 anos.

 

São Paulo do frio, da garoa, do consolo. Cidade grande, linda, cheia de cinemas, teatros e parques. Cada dia mais a cidade me encantava e me seduzia. São Paulo sempre foi palco de grandes movimentos, sede de multinacionais e renomadas universidades. Me empolguei.

 

Sabe aquela guerreira nordestina, que sabia o que queria? Vencer na vida! Consegui uma transferência da faculdade para a PUC, de manhã. Não tinha como pagar. Consegui uma transferência para a FMU, à noite.

 

Comecei a trabalhar na primeira chance de emprego. Recepção.

 

Mas estava em São Paulo. Quantos queriam estar…

 

Um dia, em plena Avenida Paulista, voltando da faculdade para casa, o termômetro marcava 10 graus. Muito frio, pouca roupa. Muita fome, pouco dinheiro. E eu me perguntei se não era melhor estar no calor da casinha da minha mãe, tomando sopa de feijão e com a barriga cheia, lá no Recife. Realmente um dilema, porque só vivendo isso para saber.

 

Mas estava em São Paulo. Quantos queriam…

 

Somente em São Paulo, percebi o quanto era limitada, o quanto não sabia das coisas, o quanto tinha que correr contra o tempo para conquistar meus objetivos. O quanto tinha que ler, estudar, acordar cedo, dormir tarde e me privar de fazer lanches no meio da manhã e no meio da tarde. Mas as oportunidades eram maiores. Mesmo relativizando porque os salários em São Paulo são maiores, mas o custo de vida também. Tem mais empregos, mas a demanda por emprego é maior.

 

E eis que, no meio disso tudo conheci Celso. 1989.

 

Ufa!!! Um namorado. Pelas nossas diferenças, não sei como ficamos juntos. Devo ter conquistado aquele coração alemão pelo tanto de amor que tinha para dar e faltava a quem. E enchi o homem de amor. Até hoje, quase 30 anos.

 

E em São Paulo posso dizer que vivi os melhores momentos da minha vida. Me formei, trabalhei, casei, construí uma família linda, ganhei minhas duas meninas, Beatriz e Letícia. Conquistei coisas importantes da vida.

 

Pois bem, essa é a resumidíssima história sobre minha chegada a São Paulo. O tempo muda nossas perspectivas, nossos pensamentos e hoje não somos o que éramos há um ano, quanto mais há 30 anos. Mas mantive um pensamento que tenho desde pequena, desde sempre. O conhecimento é a principal riqueza. Através dele você faz conquistas e as mantêm. Durante todo esse percurso que acabei de contar, tentei aprender o máximo que pude, dentro das minhas possibilidades. E aprendi que nunca é tarde para isso. Eu não paro.

 

Ah, São Paulo! Quantos queriam…

 

Edileide Koeller é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série especial de aniversário: envie seu texto agora par contesuahistoria@cbn.com.br

Avalanche Tricolor: o torcedor é tratado como se fosse um mero detalhe

 

Aimoré 1×1 Grêmio
Gaúcho – Cristo Rei/São Leopoldo-RS

 

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Juninho Capixaba comemora o 2º gol dele no Gaúcho, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Os campeonatos estaduais têm perdido prestígio ao longo dos últimos anos, apesar de algumas rivalidades permanecerem muito fortes, como é o caso do Rio Grande do Sul. Mesmo assim, tirar as pessoas de casa para ocupar as arquibancadas é tarefa das mais complicadas.

 

No ano passado, a média de público pagante foi de 4.262 pessoas. O Grêmio, campeão de 2018, também liderou essa estatística: 16.233 pessoas por jogo — nada muito entusiasmante se levarmos em consideração que isso não chega a um terço da ocupação dos estádios em que disputou suas partidas.

 

Diante do fiasco de público, é de se esperar que as federações e os demais protagonistas do futebol adotem medidas que motivem os torcedores. De olho no noticiário, porém, percebe-se que essa não é a lógica que impera no futebol brasileiro.

 

Hoje à noite, pouco antes de se iniciar a segunda partida do Grêmio no Gaúcho, leio que a Brigada Militar estava impedindo a entrada de torcedores com a camisa do clube, no estádio Cristo Rei. Resultado de interpretação de punição imposta pelo STJD – Superior Tribunal de Justiça Desportiva à dupla Gre-Nal por briga de torcedores que aconteceu no ano passado durante um dos clássicos.

 

Ou seja, porque grupos de insanos resolveram se engalfinhar ano passado, a solução encontrada pelos tribunais foi impedir a participação do senhor, da senhora, do seu filho, do sobrinho, da dona de casa, do cidadão comum, de bem com a vida, que simplesmente curte ver a bola rolando e quer ter o prazer de vestir a camisa do seu clube de coração — talvez em uma rara oportunidade de assistir ao time jogando na cidade em que mora.

 

Para moralizar o futebol pune-se os que gostam de futebol. Afasta-se a família, tira-se o prazer do guri, corta-se o barato de nos sentirmos integrantes de um grupo, aborta-se o orgulho de usar o mesmo uniforme que nossos ídolos que estão em campo.

 

A medida adotada no Rio Grande do Sul soma-se a outros fatos desses últimos dias, como a ameaça de termos torcida única na final da Copa São Paulo de Futebol Júnior — que só não se concretizou graças a combinação de times que se classificaram para a decisão —- e o ingresso único de R$ 100,00 imposto pela diretora da claudicante Portuguesa, na segunda divisão do Campeonato Paulista.

 

Menos mal que quando a bola começou a rolar no estádio Cristo Rei, em São Leopoldo, nesta quarta-feira, pude perceber pelas imagens da televisão que havia nas arquibancadas torcedores gremistas com suas camisetas tricolores ou azuis. Não sei como entraram. Se os policias fizeram vistas grossas ou simplesmente eles esconderam suas camisetas até a partida se iniciar.

 

Independentemente do “drible” que deram na punição imposta pela Justiça, tanto no Rio Grande do Sul quanto em São Paulo, o que vemos é uma série de ações que dá a entender que o torcedor é um mero detalhe no futebol.

Depois da NRF 2019, saiba quais são os temas que vão transformar o varejo

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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Loja automatizada do reabastecimento à finalização da compra é apresentada na NRF 2019

 

Eugenio Foganholo, da MIXXER Desenvolvimento Empresarial, no seu 23º ano seguido de NRF, atendendo nossa solicitação, apresentou os pontos mais presentes e significativos do National Retail Federation Big Show 2019, maior evento mundial de varejo, realizado em Nova York:

 

– Omnichannel com destaque para o click&collect, compra on line e retirada na loja física;
– Big data e Inteligência artificial para identificar clientes e seu estilo& desejos.

Ao mesmo tempo, Foganholo identificou a irrelevância dos temas inerentes ao Governo. Nenhuma abordagem nele, o que o leva a concluir que não se perde tempo em temas nos quais não se possa influenciar.

 

Marcos Gouvêa de Souza da MS&Malls na sua 35ª NRF destacou:

 

– Os Estados Unido começam a perceber a disrupção que vem da China;
– A tecnologia para servir e diferenciar e até para controlar e processar;
– O PDV Ponto de Venda dá lugar ao PDX Ponto de Tudo;
– Inovação, Velocidade e Gente, sempre;
– Além da transformação do Varejo. Realidade Virtual, Realidade Aumentada, Reconhecimento Facial e Íris, Inteligência Artificial e a Voz reconfigurarão o Mercado;
– A visão macro do mercado. De exuberante à preocupante, na dose certa;
– A voz é o próximo movimento a falar mais alto;
– Causa e Propósito continuadamente redefinidos e valorizados.

 

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“Quando você coloca mulheres em qualquer equação, há um retorno sobre a igualdade”

 

 

Dentre a grande quantidade de notícias disponíveis na mídia sobre a NRF deste ano, destacamos também alguns pontos.

 

Pela primeira vez se abriu um espaço exclusivo para as mulheres, The Girl’s Lounge — sede de discussões sobre tópicos na intersecção de varejo, gênero e tecnologia.

 

A Forrester Research através de Sucharita Kodali apresentou o “Estado de Inovação do Varejo 2019” e expôs as áreas que deverão receber os maiores investimentos:

 

– Personalização da compra e a privacidade dos dados;
– Celular é ferramenta para aprimorar a experiência de compra;
– Não ignore a inovação omnichannel;

 

Jeremy King da Walmart, expôs os avanços daquela que é a terceira empresa do mundo em investimento na área de tecnologia e a primeira do varejo dentre as dez primeiras:

 

“O cliente pode receber em casa tudo o que compra no Walmart, retirar em qualquer loja as compras feitas online e, em um futuro próximo, será possível ter uma geladeira que avisa à rede quando um produto acabou e, com a sua autorização, um funcionário entra na casa e coloca o item na geladeira”.

 

O futuro chegará com releitura do passado.

 

Carlos Magno Gibrail, Consultor e autor do livro “Arquitetura do Varejo”, é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: a catarina que adora ser paulistana

 

Por Brigitte Ramos
Ouvinte da CBN

 

 

Taió, Santa Catarina, 29 de janeiro de 1957. Nasce a filha do padeiro da cidade, e recebe o nome de Brigitte, mesmo nome da filha do pastor recém-chegado da Alemanha. Naquela época muitos pais escolhiam esse nome devido à Brigitte Bardot. Essa pequena, típica alemãzinha, sempre de tranças, contra a vontade, lógico, desde que se conhece por gente adorava cidade grande, praças, igrejas, muitas ruas iluminadas e andar em ruas de paralelepípedo. A maior cidade que tinha acesso até os sete anos era Rio do Sul.

 

Alguns anos depois, mudamos para Blumenau, e de lá um dia na minha adolescência tive a oportunidade de vir para São Paulo, com minha mãe, de ônibus, para o casamento de um tio. Foi apaixonante conhecer a cidade. Disseram que era terra da garoa e era, não tivemos nenhum dia de sol. Me levaram ao Museu do Ipiranga. O casamento foi numa igreja na Avenida Rio Branco, no centro da cidade, e a festa num grande buffet.

 

Até a sinalização das obras com luzes dentro de baldes vermelhos e a iluminação dos carros parados no trânsito eram belas. Pequenos detalhes me deixavam muito felizes, como andar de elevador e admirar a Avenida Paulista do oitavo andar de um prédio, próximo ao MASP. Lá morava uma tia e de lá eu podia ver pessoas trabalhando nos outros prédios e ficava imaginando, como seria bom trabalhar num lugar destes. Nessa viagem plantei uma semente de esperança para realizar meu sonho.

 

Quando tinha entre 18 e 19 anos, o sonho se realizou. No inicio morei com meus tios, aqueles para cujo casamento eu vim na adolescência. Era no Itaim. Mas eu  queria independência e fui morar numa casa em que se alugavam quartos, na Rua Conselheiro Ramalho. A dona da pensão sempre pedia para o filho me acompanhar de manhã quando saía para o trabalho e à noite quando eu voltava da escola de ônibus. Eram só três quarteirões da Brigadeiro Luis Antonio. Só mais tarde fiquei sabendo o quanto não era seguro morar ali, próximo a uma tal de Madame Satã.

 

Por pressão de meus parentes fui morar num apartamento com outras moças do interior de São Paulo e uma de Minas, um pouco mais próximo da Avenida Paulista, saindo assim da zona de perigo. Foi em uma discoteca na Faria Lima, a Papagaios, que conheci meu marido. Era a balada da época com luz negra e um decoração bem diferente dos bailinhos da minha cidade.

 

Conheci a cidade andando de ônibus e, às vezes, até de trem, atrás de um emprego, escolhido em algum anúncio de jornal ou por indicação de uma agência da Rua Barão de Itapetininga, próximo ao Mappin —- que era a loja de departamentos onde todo paulista fazia compras. Trabalhei em algumas empresas alemãs. Atualmente trabalho numa em São Bernardo do Campo.

 

Uma sensação gostosa é pousar em Congonhas, ver a cidade lá de cima  e saber que tem um cantinho lá em baixo que é meu. Outro prazer é fazer ginástica e caminhadas no Parque do Povo — sinto-me no Central Park de Nova York. No entorno do sossego do parque, aviões no céu de minuto em minuto, luzes na Marginal, bicicletas nas ciclovias, pessoas caminhando, trens passando ao lado do Rio Pinheiros e os arranha-céus antigos e novos, cercando o parque, iluminados. De vez em quando você pode até acompanhar o pouso de um helicóptero no topo de um deles.

 

Apesar de ser uma grande cidade estamos muito próximos uns dos outros graças aos avanços da tecnologia e da comunicação. Lá nos meus sonhos de criança e adolescência, nunca pensei que um dia estaria ao volante de um carro indo trabalhar e ouvindo uma amiga de colégio da minha filha narrando o trânsito da cidade de São Paulo do alto de um helicóptero.

 

Brigitte Ramos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br.

Adote um Vereador: uma homenagem na faixa ou uma auto-homenagem com dinheiro público?

 

 

Fui testemunha de uma cena comovente, no domingo pela manhã, em uma das principais avenidas do bairro em que moro, na zona Oeste da capital. Havia um sol escaldante e termômetros de rua registrando mais de 30 graus. Coisa de louco. As ruas estavam quase vazias. Qualquer um de nós desejaríamos estar à sombra. Quem sabe na piscina do vizinho para refrescar. Eu — sem nenhum vizinho que me convidasse para o banho — só havia me arriscado sair de casa porque fui buscar um pote de sorvete na padaria mais próxima.

 

O desconforto e os riscos à saúde provocados por este verão de 2019 não foram suficientes para impedir que dois cidadãos paulistanos levantassem uma escada de alumínio, tão alta quanto o poste que eles almejavam alcançar, e deixassem registrada uma mensagem de gratidão a dois políticos da cidade de São Paulo. A homenagem estava em forma de faixa. Tinha o fundo amarelo para que as letras em azul, vermelho e roxo se destacassem — afinal, o que mais interessava naquele gesto cidadão era enaltecer o nome dos representantes do povo.

 

Como minha caminhada se estendeu por mais alguns quarteirões, logo percebi que o trabalho daqueles dois cidadãos era muito maior do que eu imaginava. Eles haviam repetido a cena em ao menos mais três pontos da avenida —- onde encontrei a faixa com o mesmo padrão pendurada entre postes.

 

Fiquei imaginando, o tamanho da gratidão deles. Deixaram suas famílias em um domingo pela manhã, quando poderiam muito bem estar brincando com as crianças ou quem sabe iniciando os preparativos para o churrasco servido com cerveja bem gelada. Não se fizeram de rogados diante dos riscos impostos pelo calor. Levantaram a escada não apenas uma, mas duas, três, quatro, oito vezes —- sim, porque para cada homenagem pública eram necessárias duas “trepadas” de escada.

 

Não faria isso nem que me pagassem, pensei comigo mesmo —- e fiquei um pouco constrangido com os meus pensamentos, que se pareceram mesquinhos diante daquela atitude voluntária dos dois cidadãos. Logo eu que me dedico a convencer as pessoas da importância de acompanhar o trabalho do homem público, fiscalizar a ação dos nossos representantes na Câmara Municipal e ficar atentos a forma como gastam o nosso dinheiro. Deveria ter parado diante deles, aplaudido em pé e parabenizado a dupla pela atitude adotada. Mas não. Apenas olhei e segui em frente. Minto, também registrei o feito em foto para quem sabe incentivar outros cidadãos.

 

Já sem o efeito do calor, mais relaxado em casa e pote de sorvete desbravado, fui rever as imagens que estavam em meu celular. Incrédulo que sou, cheguei a pensar na possibilidade de aqueles dois rapazes serem apenas funcionários de alguma empresa que confecciona faixas na cidade. Talvez eles tivessem sido pagos por alguém para fazer a homenagem. Um outro cidadão? Não sei.

 

Foi, então, que chafurdei no pior que tem de meus pensamentos. Teria sido um dos citados na faixa o autor da homenagem? E sendo um dos citados vereador, ele teria feito a auto-homenagem com a verba indenizatória que custeia os serviços contratados pelos legisladores?

 

Que vergonha, Mílton! Pensar uma coisa dessas.

 

Perdoe-me caro e raro leitor deste blog. Só pode ser efeito do forte calor. Vereador nenhum desse país usaria dinheiro público para fazer auto-homenagem e ter algum ganho político com obra que é obrigação do município — não é mesmo? Além disso, todos sabemos, graças a Camões, que elogio em boca própria é vitupério.

 

Apesar de considerar singela a atitude dos dois cidadãos que estenderam seus agradecimentos pelo recapeamento da avenida Guilherme Dumont Vilares, gostaria de alertar que é proibido pendurar faixas na cidade, sem autorização da prefeitura. O que, certamente, é de conhecimento do vereador Isac Felix do PR que já foi chefe de gabinete na subprefeitura do Campo Limpo e tem seu nome estampado na auto-homenagem. Ops, na homenagem cidadã!

 

PS: Além de desrespeitar a lei municipal, a faixa também comete erro de português. Agradecer é verbo transitivo indireto quando se refere a pessoa. Portanto a regência correta é “agradecer ao prefeito” —- como está escrito ao lado do nome de Bruno Covas — e não “agradecer o vereador” —- como está logo abaixo.

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: lembranças de uma cidade que o Alzheimer insiste em tirar de mim

 

Por Mário Curcio
Ouvinte da CBN

 

 

No Conte Sua História de São Paulo as lembranças de Sidnea Rodrigues Curcio, escritas por Mário Curcio:

 

Já contei minha história antes, mas como tenho o Mal de Alzheimer, dei-me o direito de esquecer para poder contar outra vez, agora sob o ponto de vista de quem convive comigo no dia a dia.

 

Cheguei a São Paulo na metade dos anos 1950, recém-casada, para trabalhar numa escola aqui na zona sul. Logo surgiu a possibilidade de pegar uma classe e comecei a trabalhar. Pouco depois disso apareceu uma oportunidade no ensino municipal. Fui das primeiras professoras da rede municipal.

 

Sempre morei aqui em Santo Amaro, na zona siul. Não só andei de bonde, mas também fiz a última viagem de bonde da cidade, ao lado do então prefeito Faria Lima. Também acompanhei, aqui em Santo Amaro, a grande migração dos nordestinos. Num primeiro momento, eles se concentravam numa travessa da Avenida João Dias, perto da atual Catedral da Fé, aquela grande igreja Universal, próximo da da ponte João Dias. Eles eram determinados a trabalhar e ajudaram a erguer nossa cidade.

 

Já contei aqui também que vi o artista Julio Guerra erguendo a estátua do Borba Gato no quintal de sua casa, pertinho da 11ª Delegacia de Polícia, que continua ali na rua Anchieta. Hoje passo pela estátua mas minha doença não me deixa reconhecer o Bandeirante — virou apenas um homenzarrão de botinas e com uma baita espingarda na mão.  O Teatro Paulo Eiró também não diz muita coisa para mim.

 

O mais triste dessa doença é quando olho para a escola municipal Linneu Prestes. Ali eu dei aula por mais de 10 anos e por tantos outros fui assistente da diretora Dorothi, já falecida. Foram tantos alunos, tantas colegas de ensino, mas mal consigo recordar o nome da escola. Atualmente, eu caminho ali dentro em dia de eleição, mas não reconheço mais o corredor onde ficava minha sala, a horta, a secretaria, apesar de tudo estar muito parecido como era 35 anos atrás.

 

Para entender o que acontece com quem tem essa doença, imagine que seu cérebro é uma memória de computador cheia de pastas, cada uma com recordações de diferentes épocas de sua vida, mas todas interconectadas. E de uma hora para outra essas conexões entre uma e outra começam a falhar e, pior que isso, as pastas começam a se apagar também. É isso o que acontece com a gente.

 

Vim de Rio Claro, no interior, há muito tempo, mas vivi a maior parte de minha vida em São Paulo, sempre ao lado de meu marido, o João. Moramos aqui no Jardim Hípico, um pequeno condomínio ao lado da Granja Julieta. Vi vários vizinhos partindo daqui para sempre. Eu continuo aqui, já não tão firme. Duro mesmo é ter vivido tanta coisa boa e não ter mais esses fatos vivos na memória para poder contar. 

 

Sidnea Rodrigues Curcio é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha participar desta série em homenagem aos 465 anos da nossa cidade: escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: na minha loja de R$ 1,99

 


Por Carlos Assis
Ouvinte da CBN

 

 

Avenida Inajar de Sousa, zona norte. Todo mundo passa correndo, todo mundo com pressa. Carros, caminhões, motos, ônibus articulados. Eu atravesso no farol, cautelosamente. Sete horas da manhã vou comprar pão na Sabor de Mel — gosto de acordar cedo e andar um pouco.

 

Tenho uma lojinha de 1,99, bem pequena, comércio de bairro. Que se mantém mais por teimosia dos donos que por lucro, as vendas foram muito fracas o ano todo. Abro às nove horas, na rua Reverendo José Carlos Nogueira. Pego uma cadeira de plástico e sento na porta da loja. As pessoas passam para ir a o trabalho, ao banco ou quaisquer outros afazeres. Dizem bom dia … o movimento está fraco estes dias. Mas eu e minha mulher não temos outro negócio, precisamos ganhar dinheiro. Temos de manter o negócio aberto .

 

Do outro lado da rua tem uma mecânica. Zezinho, filho e genro. Vivem empurrando carros velhos que os clientes largam na oficina, porque não têm dinheiro para pagar pelo serviço. Então tem sempre carro parado na minha porta. Mas não reclamo, o pessoal é boa gente.

 

Bom dia, vai com Deus! — fala a dona Dora, minha vizinha. Essa senhora e o cachorro ficam o dia inteiro no portão. Horas e mais horas de pé, cumprimentando todos que passam na calçada. Sempre alguém para e conversam, as mesmas pessoas todo dia.

 

De repente, entra uma cliente, compra um pano de chão e prendedor de roupa. Paga oito reais, rezo para que dê o dinheiro trocado. Ela paga e vai embora. Assim de grão em grão, faço algumas vendas, nada que me anime. Alguns clientes entram, olham os produtos, perguntam o preço e não compram nada. Digo até logo.

 

O rádio FM toca música sertaneja o dia inteiro, eu gosto de ouvir notícias na CBN, mas minha mulher colocou um aviso que é proibido mudar de estação. Cansei de brigar por isto. Vem algum conhecido, conversamos sobre política, falamos mal do governo. Nenhum governo é bom o suficiente para os mais necessitados. Reclamamos de tudo: dos buracos no asfalto, dos preços dos alimentos no supermercado, da falta de remédios no posto de saúde aqui do bairro. E só concordamos que a roubalheira é geral: — culpa do PT, eles dizem. Nem tento disfarçar o meu descontentamento com tamanha insensatez, afinal quem manda em São Paulo é o PSDB há muitos longos e penosos anos.

 

Espero o Metrô da Freguesia do Ó há mais de trinta anos e agora as obras estão paradas, caminham no tempo do SUS, vagarosamente como uma tartaruga ou um caramujo na grama. Como dizia o grande Adoniran Barbosa : – Paciência!

 

As pessoas começam a voltar para os seus lares, começa a escurecer — os dias são mais longos neste horário de verão . O bar da Teka na esquina já abriu, e o pessoal da mecânica e de uma serralheria aqui perto vai tomar uma cerveja. Ponho as coisas para dentro e baixo a porta de aço. Estou cansado, vou para casa. Outro dia se foi na minha folhinha do calendário.

 

Carlos Assis é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta séria em homenagem aos 465 anos da nossa cidade: escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos de São Paulo visite o meu blog miltonjung.com.br

 

Acabou a mamata!

 

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Acompanhei o noticiário de revesgueio nestes últimos 20 e poucos dias em que estive de férias. Olhando meio de lado, enviesado, sem me aprofundar muito, tendo a atenção chamada apenas para uma coisa aqui e outra acolá. Era de descanso que eu precisava, depois de um ano intenso como foi 2018.

 

Descansei da maneira que mais gosto: conhecendo lugares e ao lado da família. Desta vez, fomos longe para fazer amigos. Conhecemos o Japão, um sonho de criança —- no caso das crianças aqui de casa, que, aliás, de criança não têm mais nada.

 

Descansei cansando-me de andar. Está registrado no aplicativo do celular que foram 191.552 passos e mais de 133 quilômetros percorridos a pé, em 14 dias. São estatísticas suficientes para deixar o Márcio Atalla sorrindo de satisfação. Bem verdade que esse é um cansaço diferente, sem a pressão do relógio, sem o estresse da meta a ser alcançada e sem a necessidade de provar nada para ninguém — essas coisas que o mundo corporativo (e comunicativo) nos cobra diariamente.

 

Fui para o Japão sob a recomendação de que deveria ter muito cuidado com a gentileza que os japoneses dedicam aos visitantes. É coisa de nos deixar chocado, disseram alguns amigos com quem conversei antes da partida. Envergonhado, falaram outros. O professor Clóvis Barros Filho chama de shinsetsu e escreveu livro recente no qual fala de o poder da gentileza —- foi um dos livros que li nessas férias, outra coisa que gosto de fazer. Diante da falta de amabilidade no nosso cotidiano, em que a regra que vale é “farinha pouca, meu pirão primeiro”, assistir ao comportamento oriental nem chocou nem envergonhou, me ensinou. E ensinou muito.

 

Já fazia referência a forma de os japoneses se portarem, em minhas palestras sobre o livro “É proibido calar! Precisamos falar de ética e cidadania com nossos filhos”, desde o ano passado. O exemplo que uso é o do hábito deles limparem o espaço público que ocupam. Assistimos a isso na Copa do Mundo, em 2014, e na Olimpíada do Rio, em 2016. Lembro que a cena de turistas japoneses com sacos de plástico em mãos e recolhendo o lixo que deixaram cair no chão sempre provoca por aqui uma onda de elogios. Em seguida, criticamos nosso comportamento, a falta de educação e os políticos que não se dão respeito. Em lugar de iniciarmos a mudança individualmente, em casa ou na família, repetindo o gesto no nosso cotidiano, damos continuidade a prática do descaso e do desrespeito, porque o Brasil não tem jeito —- é a nossa desculpa. Se o Brasil não tem jeito que os brasileiros deem um jeito no Brasil. Aprendamos com os japoneses.

 

Uma das mensagens mais impactantes que encontrei nas muitas caminhadas estava em placa ao pé de um dos monumentos, no Parque do Memorial da Paz, em Hiroshima — cidade que em seis de agosto de 1945 foi palco da maior tragédia atômica que o homem poderia ter construído: “Superando o ódio, perseguindo a harmonia e a prosperidade e desejando ardentemente uma longa e genuína paz no mundo”. Pense nos resultados que poderíamos alcançar se aplicarmos essa ideia na nossa vida. Comprometo-me a tentar. E você?

 

Tudo posto e com o sabor do melhor tempura que já comi na minha vida ainda na boca— encontrado em um pequeno restaurante, o Tendon Makino, em Quioto —, confesso que foi difícil de acreditar que havia acabado a mamata. Por favor, entenda bem o contexto em que a expressão está sendo usada. Nada a ver com arranjos, marmeladas e achegos ou ganho desonesto, vantagens indevidas e propina, como aparecem nos dicionários oficiais. Digo mamata no sentido figurado, de dias livres, de diversão e de relaxamento.

 

Nesta segunda-feira, depois de duas xícaras de café preto para acordar e um omelete para manter a energia, a realidade se impôs: tive de colocar o crachá no pescoço e me apresentar na firma. Gosto — e muito — do trabalho que realizo. Tenho prazer em levantar da cama para apresentar o Jornal da CBN. Mesmo que ainda seja madrugada, cumprimento o guarda da rua, saúdo o porteiro do prédio da empresa, gesticulo a cabeça para as poucas pessoas que esperam o elevador e converso com os ouvintes com um sorriso no rosto —- ao menos quando o clima permite. Desta vez, porém, voltar ao trabalho foi um pouco mais difícil, porque ainda estou na ressaca das férias, devido ao fuso horário e, principalmente, a tudo que vivenciei.

 

Ao mesmo tempo, 35 anos de trabalho me ensinaram que a máquina não para de girar — especialmente se estivermos falando em jornalismo, que tem como matéria-prima a notícia. O ouvinte não quer saber se você ainda está sob o ritmo das férias ou se naquele dia alguma coisa o tirou do sério. Assim que o microfone abre, tudo tem de voltar a ser como antes. Apuração dos fatos, precisão no relato, equilíbrio na abordagem, justiça na análise, cuidado para não errar e humildade para admitir o erro.

 

Não tem jeito. Às cinco para às seis da manhã, o luminoso com a expressão “No ar” acendeu dentro do estúdio e a mensagem que li foi muito clara: acabou a mamata. Ao menos a minha, porque, conforme as notícias que li na seqüência, já soube que a mamata continua pra muita gente importante que anda solta por aí — e aqui, mamata, sim, naquele sentido mais conhecido da palavra.

Avalanche Tricolor: de volta!

 

Novo Hamburgo 0x4 Grêmio
Gaúcho – Estádio do Vale/Novo Hamburgo-RS

 

 

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Pepê comemora seu gol em foto de LUCAS UEBEL/GREMIOFBPA

 

 

O Grêmio sempre teve espaço privilegiado neste blog, por motivos que o caro e raro leitor sabe bem — e se por acaso você acessou este post por engano, certamente entenderá até o fim deste texto. Em 2008, um ano depois de ter começado a escrever por aqui, criei a coluna Avalanche Tricolor, publicada sempre ao fim de cada partida disputada pelo meu time. No post de fundação, escrito em 19 de janeiro daquele ano — sim, ontem fizemos aniversário de 11 anos — já deixava evidente minhas (más) intenções: “a coluna ‘Avalanche Tricolor’ ganha espaço neste blog com o objetivo de ser o post esportivo menos imparcial possível”.

 

 

O nome da coluna era referência a maneira que nossa torcida costumava comemorar os gols nas arquibancadas de cimento do Olímpico Monumental —- o que se tornou impossível na Arena, infelizmente. Se no novo estádio, não existe mais Avalanche, a coluna seguiu firme, forte, entusiasmada e parcial aqui no blog, ao menos até a metade do ano passado. Em julho, uma série de compromissos com o lançamento do livro “É proibido calar! Precisamos falar de ética e cidadania com nossos filhos” me impediu de frequentar com assiduidade o blog e menos ainda dedicar algum tempo para escrever textos que estivessem à altura da minha paixão pelo Grêmio.

 

 

Sem clamor popular e nenhuma reclamação dos caros e raros leitores deste blog, interrompi a Avalanche — mas não deixei de acompanhar meu Grêmio, é lógico. Torci, sofri, esbravejei e comemorei cada resultado alcançado até o último jogo de 2018 e, na maioria das vezes, senti falta desta coluna, pois é aqui que jorro minhas emoções, revelo meus sentimentos, algumas vezes torno públicos momentos que vivi em família, já que o Grêmio foi muito importante na minha formação em Porto Alegre, e tento explicar as coisas do futebol, de vez em quando.

 

 

Durante as férias, que se encerram hoje, pensei duas, três vezes se reassumiria o compromisso de escrever a Avalanche. Até a bola começar a rolar neste domingo, em Novo Hamburgo, quando o Grêmio fez sua estreia no Campeonato Gaúcho, tinha dúvidas se seria capaz de acompanhar todos os nossos jogos e depois ainda escrever algo que valesse a pena ler.

 

 

O primeiro tempo já sinalizava que haveria bons motivos para uma Avalanche, mesmo que o time que entrara em campo fosse alternativo, como anunciavam os locutores da TV. No decorrer da partida, encontrei não apenas um, mas quatro bons motivos — o primeiro gol de Juninho Capixaba, que gera boa expectativa na lateral esquerda, os gols marcados pelos jovens Pepê e Matheus Henrique, que são o futuro se revelando em campo, tanto quanto o gol de Marinho, que torço para que deixe de ser apenas um jogador folclórico.

 

 

Não resisti. Voltei. A Avalanche voltou. E termino esta Avalanche da retomada com o título da última coluna escrita, em 30 de julho do ano passado: “Renato sabe o que faz”.