Avalanche Tricolor: sobreviver ao Gre-Nal não é o bastante

Grêmio 1×1 Inter
Gaúcho – Arena Grêmio, Porto Alegre RS

Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Há anos longe de Porto Alegre, assistir ao Gre-Nal à distância me poupa da tensão pré-clássico. Mas só até certo ponto.

Deixo de vivenciar a agitação que toma conta da cidade natal. Chego à padaria — aqui isso é uma instituição — e ninguém está falando do que acontecerá no fim de semana em Porto Alegre. No máximo, Françoise, que me traz o pão na chapa com uma xícara de expresso duplo, pergunta: “Como está o gremista?”, mais para demonstrar intimidade do que por real preocupação com o risco iminente.

Nas ruas de São Paulo, o desfile de camisas de futebol não segue a moda gaúcha, em que a tricolor e a encarnada dividem espaço no ponto de ônibus, na porta da escola ou nos centros comerciais. No escritório — no meu caso, a redação — o Gre-Nal é raramente mencionado entre os colegas. Quando muito, surge em um breve comentário do único conterrâneo que, para meu infortúnio, torce para “eles” — por isso, o evito.

O clássico gaúcho costuma se apresentar para mim durante os bate-papos esportivos no programa que apresento, quase como uma galhofa dos amigos comentaristas. Afinal, eles têm de se preocupar mesmo é com o que vai acontecer no Campeonato Paulista ou no Carioca. Sou alcançado pelos sentimentos que nos movem às vésperas do Gre-Nal principalmente pelas mensagens nas redes sociais ou no grupo de WhatsApp que reúne torcedores e ex-jogadores, do qual faço parte. Esse cenário me deixa imune a boa parte das polêmicas e discussões que inflamam a cidade na semana do clássico.

Mas, à medida que o horário da partida se aproxima, a ansiedade toma conta dos meus pensamentos. O torcedor que vibrou no Olímpico Monumental ressurge, esquecendo a racionalidade e se entregando à adrenalina do clássico. Diante da bola que cruza a área do meu time, estico a perna no sofá para fazer o papel que os zagueiros deixaram de cumprir. A tentativa de cabeceio do meu atacante é acompanhada pelo movimento do meu corpo. E os dedos das mãos deslizam pelos cabelos, percorrendo da testa à nuca, em repetidos gestos que revelam a tensão.

No sábado à noite, tudo isso se manifestava diante da televisão, que exibia um time ainda claudicante: abrindo mão da troca de passes no meio de campo, esticando muitas bolas para o ataque e aproveitando pouco as raras chances de gol. Na defesa, cada chegada do adversário parecia um perigo iminente, apesar de algumas boas intervenções de Gabriel Gandro, goleiro que ainda se esforça para ganhar a confiança do torcedor.

A partida ficou menos tensa depois da parada para que a regra fosse cumprida. E aqui um parêntese: apesar de meus colegas jornalistas — e aparentemente Roger, também — terem tratado com surpresa o regulamento que pune o técnico sempre que alguém da sua comissão é expulso, essa regra já está prevista há alguns anos no futebol gaúcho.

No segundo tempo, as chances apareceram com um pouco mais de insistência, a ponto de termos forçado um pênalti bem marcado pelo VAR — o que fez calar alguns amigos que me escrevem com teorias da conspiração de que toda a decisão dos árbitros é contra o nosso time. Isso também faz parte da tensão do Gre-Nal, eu sei.

O pênalti premiou o melhor jogador do Grêmio na atualidade. Martin Braithwaite marcou seu primeiro gol em um Gre-Nal com uma cobrança segura. Nosso atacante passou o clássico em busca de um companheiro que se aproximasse, tabelasse, surgisse para receber a bola e devolvê-la em condições de chute. Encontrou poucos e teve de se virar por conta própria. Talvez o lance mais interessante, além do gol, tenha sido os dribles na lateral do campo, onde deixou três marcadores para trás — a ponto de gesticular para os adversários, como quem pergunta: “Quem é o próximo?”. Sim, Gre-Nal tem dessas coisas, e a gente gosta.

A lamentar que as previsões de que nossa defesa não resistiria à pressão de um adversário um pouco mais calibrado nos chutes (ou cabeceios) tenham se confirmado. Menos de um minuto depois da euforia do gol e da esperança de que, talvez, desta vez, a eficiência superaria a técnica, fomos castigados por mais uma falha de marcação.

O empate final me deu a sensação de que apenas sobrevivemos ao Gre-Nal, e isso não me agrada. Imagino que também não tenha atendido às expectativas de Gustavo Quinteros. O novo técnico ainda tem muito trabalho pela frente e já percebeu que o Grêmio precisa melhorar consideravelmente se pretende conquistar, ao menos, o Octacampeonato nesta temporada.

Conte Sua História de São Paulo: comecei como office boy e passava pelas lojas da cidade

Por Marcos Antonio Afoloti

Ouvinte da CBN

No Conte Sua História de São Paulo, o ouvinte da CBN Marcos Antonio Afoloti, entre outras lembranças, destaca as lojas inovadoras da cidade: 

Nasci em 5 de setembro de 1952, no bairro Vila Munhoz, Vila Maria. Em 1959, comecei o curso primário nas Escolas Agrupadas de Vista Alegre, pertinho de casa. Ia a pé pelas ruas sem asfalto, mas com muito segura. Após quatro anos, para ingressar no ginasial, precisei fazer o exame de admissão, semelhante ao vestibular. Estudei na Escola Estadual José Maria Reys, referência em ensino público.

Em 1963, acompanhava minha mãe para um tratamento no Hospital Padre Bento, em Guarulhos, viajando no trem da Cantareira, que partia da estação Pauliceia, passando por Jaçanã e Vila Galvão. Entre 1964 e 1965, nas férias de julho, íamos a São Carlos no trem da Companhia Paulista de Estrada de Ferro, saindo da Estação da Luz. As paisagens rurais, com os laranjais de Limeira, são lembranças inesquecíveis.

De 1966 a 1968, nossa diversão era assistir, em casa, com os vizinhos à novela Redenção, da TV Excelsior, em um moderno aparelho Telefunken.

Em 1968, comecei a trabalhar como office boy, com registro em carteira profissional de menor, no edifício Rio Branco, na Barão de Itapetininga. Andava por todos os cantos entregando correspondências. Passava em frente a loja Pitter, a Mesbla e a Clipper, que inventou o Dia dos Namorados.

Já adulto, fui convocado a trabalhar como mesário e cheguei a presidente de mesa nas eleições da década de 70, quando os votos ainda eram em cédulas de papel. No fim do pleito, era minha responsabilidade entregar as urnas no Acre Clube, no Tucuruvi, encerrando mais um marco da cidadania paulistana.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Marcos Antonio Afoloti é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

(os textos originais, enviados pelos ouvintes, são adaptados para leitura no rádio sem que se perca a essência da história)

Mundo Corporativo: Marcelo Godoy, da Volvo, prevê que o carro do futuro será um celular com rodas

Registro da gravação no YouTube do Mundo Corporativo com Marcelo Godoy

“Hoje o tempo de decisão tem que ser muito mais rápido. O tempo de decisão, de implementação e de execução. Essa agilidade é o grande diferencial.” – Marcelo Godoy

Marcelo Godoy, Volvo Car Brasil

A transformação da indústria automobilística nunca foi tão acelerada. Com mudanças tecnológicas constantes, exigências ambientais crescentes e um consumidor cada vez mais conectado, as montadoras precisam reinventar seus processos, produtos e estratégias. No Brasil, esse cenário exige não apenas inovação, mas uma nova forma de liderar. Esse foi o tema da conversa com Marcelo Godoy, presidente da Volvo Car Brasil e da Associação Brasileira de Empresas Importadoras e Fabricantes de Veículos Automotores (Abeifa), no programa Mundo Corporativo.

A nova dinâmica da indústria automobilística

A digitalização e a eletrificação dos veículos não apenas alteram os produtos, mas também o perfil dos profissionais que atuam no setor. “Se antes era preciso ter uma formação técnica muito específica, hoje você precisa entender de todos os processos e tomar decisões rapidamente”, afirma Godoy. Ele destaca que os ciclos de desenvolvimento de veículos, que antes levavam até seis anos, hoje precisam ser concluídos em menos da metade desse tempo.

Esse ritmo acelerado também impõe novos desafios para as montadoras. “O carro do futuro será um celular sobre rodas”, diz Godoy, ressaltando a crescente integração entre tecnologia e automóveis. Para ele, essa revolução não se limita apenas ao produto final, mas também às expectativas dos consumidores, que já estão habituados a dispositivos tecnológicos cada vez mais intuitivos e conectados.

A liderança no novo cenário

Para liderar nesse ambiente de constantes transformações, Marcelo Godoy defende uma gestão baseada na diversidade de opiniões e na tomada de decisões ágeis. “Indiferentemente do cargo, todo mundo tem a sua opinião. Algumas coisas vão ser aceitas, outras não. Mas se, de cada dez casos, um input de uma pessoa mais nova fizer a diferença, isso já vale muito”, explica.

Godoy enfatiza que sua estratégia de gestão envolve a formação de equipes multidisciplinares, onde a hierarquia cede espaço para a troca de ideias. “Quando tenho um assunto crítico, monto um time de trabalho que pode incluir diretores, gerentes e até estagiários. Essa mistura de experiências gera soluções mais inovadoras.”

Ele também ressalta que um dos grandes desafios da indústria automobilística é garantir que os times estejam alinhados ao propósito da empresa, especialmente em meio a transformações tão rápidas. “Se você acredita na sua estratégia, pode passar um mês sem resultado, o segundo mês sem resultado, mas uma hora ele virá. Porque as decisões certas levam tempo para se refletirem nos números.”

O impacto da eletrificação

A Volvo tem apostado fortemente na eletrificação de sua frota e na criação de uma infraestrutura de carregamento para popularizar os veículos elétricos. A empresa já investiu R$ 70 milhões na instalação de carregadores rápidos em diversos pontos do país. “Quando decidimos instalar mil carregadores, optamos por disponibilizá-los para todos os carros elétricos, não apenas para os da Volvo. Queremos educar e criar esse mercado”, afirma Godoy.

Essa estratégia também envolveu a adoção de uma nova política de cobrança pelo uso dos carregadores por veículos de outras marcas. “No dia em que anunciamos a cobrança para clientes não-Volvo, nossas redes sociais foram invadidas de mensagens de apoio. Os clientes entenderam que estamos investindo na infraestrutura para beneficiar quem confia na nossa marca.”

Para além da eletrificação, a Volvo tem adotado outras iniciativas de sustentabilidade, como a redução da pegada de carbono e a implementação de materiais recicláveis em seus veículos. “O EX30, nosso mais recente lançamento, tem a menor pegada de carbono da história da Volvo, com diversos itens reciclados e recicláveis.”

Ouça o Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast e no Spotify.

Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves, Malu Mões e Letícia Valente.

Valeu, Cortella: uma noite de aprendizados sobre fazer o melhor

Diante da plateia do Teatro da FAAP, sob os refletores que iluminavam a cena, eu me vi mais uma vez ao aldo de um grande mestre e amigo: Mário Sérgio Cortella. Um filósofo que não apenas pensa, mas ensina com a força de quem coloca a alma em cada palavra. Estávamos ali para falar sobre Faça o Teu Melhor, seu mais novo livro, publicado pela editora Planeta. Como sempre acontece quando se está ao lado de Cortella, falávamos, na verdade, sobre a vida.

A felicidade daquele momento veio acompanhada de um senso de responsabilidade: estar à altura do conhecimento que Cortella compartilha é um desafio. É preciso estar atento, conectado, disposto a mergulhar nas ideias e, claro, fazer o meu melhor para acompanhar a profundidade dos seus pensamentos. E ali, no palco, cercado pelo olhar atento do público, percebi que essa era exatamente a essência do que discutíamos. Fazer o nosso melhor não significa superar o outro, mas sim superar a nós mesmos, a cada dia, na condição que temos, enquanto não temos condições melhores para fazer ainda melhor.

O livro de Cortella nasce dessa provocação. Inspirado na citação de Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa, ele nos convida a colocar quanto somos no mínimo que fazemos. Não é sobre grandeza medida por status ou reconhecimento externo, mas sobre excelência como um compromisso pessoal. Um antídoto contra a mediocridade, essa doença silenciosa que se esconde no vou fazer o possível quando, na verdade, deveríamos dizer vou fazer o meu melhor.

No palco, entre reflexões e risadas, Cortella lembrou de sua infância em Londrina e da decisão que tomou aos 12 anos de idade: fosse qual fosse sua profissão, ele se recusaria a ser medíocre. E essa recusa não era uma obsessão pela perfeição, mas um compromisso com a entrega. “Não quero ser o melhor professor do mundo, quero ser o melhor professor que eu posso ser”, disse ele, com aquela clareza desconcertante que nos obriga a olhar para dentro.

Fazer o nosso melhor, explicou Cortella, não significa apenas aperfeiçoar uma técnica ou adquirir mais conhecimento. Envolve um compromisso ético e estético: fazer bem o que precisa ser feito e, ao mesmo tempo, fazer de forma bela, digna, significativa. Como um cozinheiro que não apenas prepara um prato, mas coloca ali seu esmero. Como um jornalista que não se contenta com uma pauta mediana, mas busca um ângulo mais profundo. Como um médico que não apenas prescreve, mas se importa. Como um professor que não apenas transmite, mas transforma.

Esmero foi a palavra que ganhou lugar privilegiado no palco e, ao fim da noite, no autógrafo grafado nos exemplares dos livros levados carinhosamente pelos leitores presentes. Cortella a descobriu em Os Maias, de Eça de Queirós, na cena em que Baptista recebe Carlos e “preparava com esmero um grogue quente”. Para ele, esmero vai além do cuidado: é o refinamento que dá polimento ao que fazemos, elevando cada ação ao seu melhor acabamento possível.

Conversamos também sobre a síndrome do possível, essa armadilha do conformismo em que nos contentamos com o mínimo necessário para seguir adiante. Quantas vezes ouvimos (ou dizemos) eu fiz o possível quando poderíamos ter nos esforçado mais? E o quanto essa mentalidade, tão enraizada, nos afasta da excelência? No palco, rimos da lembrança de um boletim escolar cheio de notas medianas e da justificativa clássica: pai, deu para passar. Passar não é suficiente. Viver no rascunho não basta.

Entre tantas reflexões, ficou um ensinamento precioso: a excelência não é um ponto de chegada, mas um horizonte. Não é um troféu para ser ostentado, mas um compromisso diário. Não exige perfeição, mas exige que estejamos em movimento. Fazer o nosso melhor, na condição que temos, enquanto não temos condições melhores para fazer ainda melhor.

E quando o talk show chegou ao fim, depois de um mergulho profundo nessas ideias, deixei o palco com a certeza de que aquele encontro não terminava ali. As palavras de Cortella ecoariam nos pensamentos do público, assim como ressoavam em mim. Enquanto nos despedíamos, troquei com ele um sorriso e disse, com a simplicidade que o momento pedia:

— Valeu, Cortella.

E valeu mesmo. Porque foi um daqueles encontros que fazem valer a pena.

Ouça a entrevista completa com Mário Sérgio Cortella

Avalanche Tricolor: choque de realidade na hora certa

Juventude 2×0 Grêmio

Gaúcho – Alfredo Jaconi, Caxias do Sul RS

Arezo em tentativa de ataque é destaque em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Jogar às dez da noite pelo Campeonato Gaúcho é proibitivo. Protesto feito, vamos ao que interessa: a desinteressante performance gremista contra o primeiro time da Série A que enfrentou na temporada.

Chegamos à partida na Serra Gaúcha após uma sequência de vitórias, goleadas e novidades na forma do time se movimentar em campo. Havia entusiasmo nas arquibancadas, especialmente pelas mudanças de comportamento de alguns jogadores sob novo comando.

Na última edição desta Avalanche, alertei o caro e cada vez mais raro leitor, citando minha mãe, Dona Ruth: “Devagar com o andor que o santo é de barro”. A temporada estava apenas no início, e os adversários eram, em sua maioria, de divisões inferiores – constatação feita sem desrespeito, apenas baseada na posição deles no ranking nacional. A superioridade gremista era evidente e justificável.

Diante disso, o confronto desta quarta-feira trouxe um choque de realidade. Mesmo sem o time titular, o Grêmio enfrentou uma equipe mais bem organizada, que marcou a saída de bola, jogou com velocidade e mostrou talento. O resultado? O time tricolor foi inferior e incapaz de resistir à pressão, apesar de ter desperdiçado algumas boas oportunidades no primeiro tempo. Sofreu seus dois primeiros gols na competição, fruto de falhas na marcação que passaram despercebidas nos jogos anteriores muito mais pela fragilidade dos adversários do que por méritos defensivos do Grêmio.

Essa foi uma dura realidade para o Grêmio – e não deve ser ignorada. A boa notícia é que veio na hora certa. Quinteros, diante do que assistiu, poderá ajustar a equipe para o Gre-Nal, que, afinal, é o que realmente importa.

O que a IA não sabe sobre a linguagem humana

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A linguagem é a morada do ser”, escreveu o filósofo Martin Heidegger, e poucos conceitos me parecem tão essenciais quanto este. Nossa relação com as palavras define o mundo que habitamos. Elas moldam nosso pensamento, aproximam ou afastam, constroem e destroem. São, ao mesmo tempo, ferramenta e espelho de quem somos. Talvez por isso eu tenha ficado tão surpreso ao ler uma reportagem do jornal La Nación, publicada em janeiro, sobre uma análise de inteligência artificial que classificou ‘basicamente’, ‘óbvio’ e ‘simplesmente’ como três das seis palavras usadas por pessoas com menor capacidade intelectual.

Basicamente, fiquei perplexo.

Óbvio que fui conferir se havia algum fundamento na pesquisa.

Simplesmente, não encontrei.

A reportagem afirma que essas palavras são usadas por pessoas ‘menos inteligentes’ ou que tendem a fazer generalizações constantes sobre tópicos que não conhecem.

Fiquei imaginando um escritor, um professor ou até um grande cientista sendo julgado por um algoritmo por ousar resumir uma ideia com um ‘basicamente’. Será que Stephen Hawking jamais teria usado um ‘simplesmente’ para tornar uma explicação mais acessível? Ou será que Einstein, entre suas reflexões sobre espaço e tempo, nunca disse que algo era ‘óbvio’?

Intrigado, e nada convencido, busquei nos textos de meu poeta preferido argumentos para derrubar essa “tese artificial”.  Abri o arquivo com as poesias completas de Mário Quintana, um mestre das palavras simples e profundas. Passei os olhos pelas páginas (de verdade, usei o recurso de busca de meu computador) e lá estava ela: ‘simplesmente’. Não uma, nem duas, mas 59 vezes. E em um de seus versos, a palavra surge duas vezes, com uma força que só a poesia é capaz de dar:

A arte de viver
É simplesmente a arte de conviver…
Simplesmente, disse eu?
Mas como é difícil! …

Se ‘simplesmente’ fosse um indicador de menor capacidade cognitiva, teríamos que reavaliar a genialidade de Quintana. Mas a verdade é que vivemos uma época em que dados são tratados como verdades absolutas e, pior, quando esses dados vêm de uma inteligência artificial, a tendência é aceitar sem questionar. Se a IA afirma, deve ser real. Se uma análise estatística sugere um padrão, deve haver um significado profundo. Mas, na pressa de transformar palavras em evidências de QI, esquecemos que a linguagem não é uma equação. Ela é viva, mutável, cheia de nuances que nenhum algoritmo consegue capturar por completo.

E, por favor, não me entendam mal. O avanço da inteligência artificial é fascinante. Mas precisamos lembrar que, no fim das contas, a máquina só reflete aquilo que ensinamos a ela. Se dermos a ela um dicionário reduzido, ela nos devolverá uma visão limitada. Se programarmos para que encontre padrões onde eles não existem, ela os criará.

As palavras, todas elas, são bem-vindas. Desde que usadas apropriadamente, não há expressão inútil, insignificante ou indigna. O segredo não está em proibi-las, mas em saber quando e como utilizá-las. Porque o que define nossa inteligência não é a palavra que escolhemos, mas o pensamento que conseguimos expressar com ela. 

O poder da comunicação verbal

Na certificação internacional de comunicação estratégica, que apresento em parceria com a WCES, a importância da palavra bem dita é um dos destaques quando falamos dos três recursos da comunicação: o verbal, o não verbal e o vocal. 

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O impacto da IA na comunicação

Na edição revista e ampliada de “Escute, expresse e fale – domine a comunicação e seja um líder poderoso”, analisamos o impacto que a IA tem na comunicação e na forma como os líderes fazem a gestão de suas equipes nas empresas. A nova versão do livro escrito por mim, António Sacavém, Leny Kyrillos e Thomas Brieu está disponível no site da editora Rocco.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: o crescimento das marcas próprias no Brasil

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As marcas próprias das redes varejistas estão se consolidando como estratégias de negócio cada vez mais relevantes no Brasil. Criadas e comercializadas por supermercados, farmácias e lojas de diversos segmentos, essas marcas oferecem alternativas de custo-benefício e fidelizam consumidores. Esse é o tema do comentário de Jaime Troiano e Cecília Russo no quadro Sua Marca Vai Ser Um Sucesso.

“O que se busca com essas iniciativas é trazer um custo-benefício ao consumidor, oferecendo uma proposta de valor diferenciada das opções tradicionais”, explica Cecília Russo. Em alguns casos, a marca própria leva o nome da rede varejista; em outros, é criada uma identidade independente, com logotipo e visual descolados da empresa-mãe. No exterior, essa prática é ainda mais desenvolvida: “Redes na Europa chegam a faturar mais de 60% do total das vendas com produtos de suas próprias marcas”, destaca Cecília.

O mercado brasileiro, ainda em estágio de maturidade inferior ao de Estados Unidos e Europa, tem expandido a adoção dessas estratégias por três principais motivos: “Elas são uma arma de negociação contra marcas mais fortes, ampliam a lucratividade e fortalecem a fidelização dos clientes”, diz Cecília. “Se a marca própria é boa, o consumidor volta para comprá-la e acaba adquirindo outros produtos na mesma loja.”

Jaime Troiano complementa com exemplos concretos. “O Grupo Koch, maior rede de supermercados de Santa Catarina e décima maior do Brasil, tem a marca BonTraz, que abrange diversas categorias de produtos, de pão de queijo a papel toalha”, afirma. Ele também cita experiências passadas: “Trabalhamos com Taeq, do Pão de Açúcar, e criamos as marcas Go New e All 4 One para a Netshoes”. Nos Estados Unidos, o exemplo mais expressivo é o atacadista Costco, cuja marca própria faturou 56 bilhões de dólares em 2023, superando marcas globais como Nike e Coca-Cola.

A marca do Sua Marca

A expansão das marcas próprias é uma oportunidade para varejistas, mas também um desafio. “Qualidade deve ser sempre uma condição essencial. Afinal, é a própria marca do varejo que está em jogo”, alerta Cecília. Criar uma marca própria exige uma mentalidade diferente da simples comercialização de produtos de terceiros. “Aquilo que pode ser vantajoso também pode se tornar uma armadilha”, conclui.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após as 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo

Avalanche Tricolor: entusiasmado mas sem jamais esquecer a recomendação da Dona Ruth

Grêmio 5×0 São Luis
Gaúcho – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Braithwaite marcou o quinto gol. Foto: Lucas Uebel/GremioFBPA

Devagar com o andor que o santo é de barro. Era o que ouvia da Dona Ruth sempre que eu me empolgava demais na adolescência — fosse por uma paixão arrebatadora ou por uma performance de excelência nas primeiras notas do boletim escolar. Na juventude, é comum exagerarmos nos sentimentos e palavras. O recém-conhecido vira amigo para a vida toda, a música da banda preferida é a melhor de todos os tempos, e ninguém neste planeta será capaz de superar meu time do coração.

Muitos gremistas estão vivendo esse momento de empolgação, após apenas quatro rodadas do Campeonato Gaúcho sob o comando de Gustavo Quinteros. Depois daquela estreia pouco inspirada, engatamos três vitórias seguidas, aplicamos duas goleadas e não sofremos um só gol. Marcamos 12.

Além disso, a mudança de atitude de alguns jogadores tornou o time mais forte no ataque e mais sólido na defesa.

De Villasanti não precisamos falar: o capitão e volante mantém um equilíbrio impressionante entre defesa e ataque. Braithwaite não só faz gols e dá assistências, mas também ajuda o jogo a fluir com uma dedicação que contagia os companheiros. Cristaldo tem aparecido mais na área e foi avassalador nesta tarde de sábado — quase fez um hat-trick no primeiro tempo. Na direita, Pavon se destaca na movimentação e nos cruzamentos. Na esquerda, o jovem Aravena arrisca dribles sem exagero e distribui assistências precisas. Para completar, ainda balançou as redes.

Os que vieram do banco também fazem a diferença: Monsalve é preciso no passe e ainda marca gols, e Edenilson parece outro jogador, irreconhecível em relação ao de 2024. Há também Gabriel Mec, o guri de 16 anos que todos querem ver deslanchar com seu talento.

Com um time desses, a empolgação é inevitável. Mas como diria a Dona Ruth, é melhor irmos devagar com o andor… até porque os adversários de verdade só enfrentaremos nas duas próximas rodadas.

Conte Sua História de São Paulo: … que ergue e destrói coisas belas

Por Sergio Sayeg

Ouvinte da CBN

Photo by C. Cagnin on Pexels.com

No Conte Sua História de São Paulo, o ouvinte da CBN Sérgio Sayeg lembra as transformações urbanas da nossa cidade: 

Minha mudança para o sobrado da Rua Tumiaru aconteceu em um dia inesquecível: 1º de abril de 1964, quando o regime militar foi instaurado no país. Eu tinha 11 anos e, enquanto os hinos marciais tocavam nas rádios, minha preocupação era organizar meus brinquedos na nova casa. A rua Tumiaru, com apenas quatro quadras, ficava entre a sede do Exército, o Ginásio do Ibirapuera e uma Avenida 23 de Maio ainda de terra. 

As transformações na região após a inauguração do corredor Norte-Sul foram impressionantes.

Nos anos 1960, o bairro Paraíso tinha uma paisagem bem diferente. A Rua Curitiba, hoje endereço de apartamentos luxuosos, era mal iluminada e de paralelepípedos. Abrigava campos de futebol varzeano e era refúgio para garotas de programa à noite. O ponto final de uma linha de ônibus da CMTC dividia espaço com terrenos abandonados, onde podiam ser encontradas rochas de todos os tipos que formavam minha coleção de pedras.

A Rua Tutoia era a única que comportava algum movimento com seu comércio prosaico. Nela tinha uma capela, hoje a Igreja do Santíssimo Sacramento, rodeada por plantações de flores que se estendiam até o leito da futura Avenida 23 de Maio. Nem tudo eram flores naquele endereço. A rua também abrigava o DOI-CODI, que trouxe má-fama para a via, especialmente após a morte de Vladimir Herzog. Já na Tomás Carvalhal, o futebol de várzea reunia moradores em manhãs de domingo, num clima de alegria e camaradagem.

Hoje, ao passar por essas ruas que marcaram minha infância, dá um aperto no coração ver como o progresso transformou o Paraíso, confirmando os versos de Caetano: “ergue e destrói coisas belas.”

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Sérgio Sayeg é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Mundo Corporativo: Carlos Humberto, da Diaspora.Black, discute afroturismo e inclusão

“Quando você vai a um lugar, come uma determinada comida, esse sabor jamais sai da sua memória. Esse lugar jamais sai de dentro de você.” 

Carlos Humberto, Diaspora.Black

O turismo é mais do que uma viagem de lazer. É uma ferramenta pedagógica capaz de transformar percepções, enriquecer repertórios culturais e romper barreiras sociais. Foi a partir dessa ideia que Carlos Humberto, CEO da Diaspora.Black, decidiu criar uma startup de impacto social que conecta a história e a memória da população negra ao desenvolvimento de negócios. O tema foi discutido na entrevista concedida ao programa Mundo Corporativo, apresentado por Mílton Jung.

Uma jornada que começa na infância

Carlos Humberto compartilhou que sua primeira experiência empreendedora ocorreu aos 11 anos, organizando excursões para a praia na Baixada Fluminense. “Eu fui um dos organizadores do movimento dos farofeiros, mesmo sem perceber que isso já era empreender”, afirmou. Décadas depois, a vivência se conectaria a uma nova oportunidade: transformar episódios de racismo enfrentados em viagens e na própria casa em um modelo de negócios voltado ao afroturismo.

A Diaspora.Black promove experiências que vão desde caminhadas em comunidades quilombolas até pacotes turísticos em capitais africanas e brasileiras, como Salvador. “A falta de representação da história e cultura negra no mercado de turismo é um vazio que decidimos preencher”, explicou. A iniciativa também abrange treinamentos corporativos para fomentar diversidade e inclusão. Segundo Carlos, “não basta ter uma ideia ou conhecimento de negócios, é preciso saber exatamente o que se quer trabalhar”.

Educação como ponte para a inclusão

Além do turismo, a Diaspora.Black desenvolve certificações corporativas que utilizam ferramentas tecnológicas, como gamificação, para promover aprendizado. A metodologia é composta por vídeo-aulas curtas, quizzes e certificações que ajudam a medir mudanças no comportamento dos participantes. “É possível mensurar como as pessoas mudam sua visão, atitude e comportamento a partir do aprendizado adquirido”, ressaltou.

Carlos também destacou que preconceitos muitas vezes são fruto da falta de informação. “A sociedade bugou nos anos 2000, mas as novas gerações já trazem um repertório mais diverso e exigem que as empresas atualizem seu software”, disse, ao enfatizar a necessidade de combater preconceitos por meio de conhecimento e educação.

Assista ao Mundo Corporativo

Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast.

Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Letícia Valente.