Avalanche Tricolor: uma goleada e uma grande ironia

 

Grêmio 4 x 1 Inter
Brasileiro – Arena Grêmio

 

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Com tantos gols assim, confesso, não sei por onde começar. Pelo primeiro, pelo segundo, pelo terceiro ou pelo quarto gol? Talvez pelo fim do jogo? É isso aí, até porque só no último apito do juiz é que percebemos que a vitória não apenas nos colocava no Grupo da Libertadores, mas, também, nos elevava a melhor posição que já ocupamos neste campeonato. E um terceiro lugar conquistado com exagerada dose de ironia. Sim, porque o time dos três volantes, às vezes quatro; do técnico retranqueiro, que tem como único mérito apontado pela crítica tomar poucos gols; de meio campo com futebol limitado e ataque pouco produtivo; destaca-se na tabela de classificação ou porque tem saldo de gol melhor ou porque tem número de vitórias maior.

 

(Gol do Grêmio!)

 

A ironia vai muito além, pois chegamos a esse ponto, a cinco rodadas do fim da competição, graças a uma goleada e no clássico regional. Sim, o time dos três volantes, às vezes quatro; do técnico retranqueiro … (ok, o resto você já sabe); marcou quatro gols em uma só partida, fora o baile. Digo isso sem culpa, pois não nos limitamos a desarmar o time adversário – e o fizemos muito bem, a tal ponto que a turma do lado de lá só apareceu na foto na hora de brigar. Jogamos ofensivamente, trocando bola com rapidez, lançando com velocidade, cruzando e chutando muito mais do que estamos acostumados.

 

(Opa, mais um gol do Grêmio!)

 

Você, caro e raro gremista que lê esta Avalanche, também foi alvo das muitas ironias que marcaram esse Grenal. Ou vai me dizer que nunca reclamou da presença de Ramiro no meio de campo? Tenho um amigo aqui em São Paulo, o Sílvio, gremista como nós, que sempre liga após as partidas. Nos últimos meses tem perguntando insistentemente o que faz de Ramiro titular do Grêmio. Não o culpo. Muitos outros têm a mesma dúvida. As estatísticas explicam parte desta preferência de Luis Felipe Scolari, pois ele é o jogador do Grêmio que mais acerta passes e um dos que mais roubam bola do adversário. Hoje, foi além dos números: fez o seu gol ao aparecer sozinho dentro da área e receber passe preciso de Luan.

 

(Gol do Grêmio de novo!)

 

Fique tranquilo: eu também fui vítima da ironia. Assim como parte dos torcedores, reclamei a bola presa nos pés de Luan quando, aparentemente, podíamos disparar no contra-ataque; esbravejei nos passes sem destino que se transformaram as primeiras jogadas dele; soquei o sofá quando sua lentidão o levava a ser desarmado pelo adversário. E, sem medo da contradição, adorei o gol cala-boca que fez ao chegar com velocidade, antes de todos os outros atacantes, na cara da goleira para receber o passe depois de excelente jogada de Dudu, que não apenas roubou a bola na intermediária como tabelou com Barcos, desconsertou o marcador e ofereceu de presente o gol que abriu a goleada desse domingo.

 

(O quê? Mais um gol do Grêmio!)

 

Irônico ainda foi saber que o jogador que menos jogou foi o que mais fez gols. Alan Ruiz entrou no segundo tempo, ficou apenas 15 minutos em campo e marcou duas vezes: na primeira, empurrou a bola para dentro do gol de cabeça, depois de cobrança de falta de Zé Roberto; na segunda, recebeu o passe de Giuliano e deixou seu marcador sentado no chão antes de chutar. Nos dois comemorou da mesma maneira e do mesmo lado do campo, com sorriso no rosto e mãos em forma de coração voltadas para as arquibancadas – onde, diz, estariam seus parentes. A consagração da goleada, porém, incomodou o adversário que foi reclamar do que entendeu ser uma ironia do nosso argentino.

 

E não é que era mesmo: a nossa vitória foi uma grande ironia; e uma grande goleada, também.

 

(Mais gol? Não, agora é da Chapecoense)

De elevador de serviço, do significado do termo ‘empregada doméstica’, de preconceito e…

 


Por Maria Lucia Solla

 

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A frase que apresenta o texto de hoje é longa, mas o tema não tem começo nem tem fim! Fazer o quê!

 

Começar por onde, para tentar exterminar o preconceito (ou escapar das suas garras) daquele que se considera mais do que outro, numa escala nunca dantes sonhada? O que fazer para fugir das gotas venenosas e manipuladoras diárias, a que somos sujeitos sem trégua? Gotas que tornam escorregadio o caminho do nosso dia, do nosso crescimento, que nos rasgam as ideias, as puxam pelos cabelos, sem dó nem piedade tentando nos fazer engolir, cada um a sua receita redentora, fazendo-nos parecer um bando de Mentecaptus condecorados pela Ordem Maior, cada um do seu lado do rio.

 

E a gente engata, sabe como é, não é? Cada circo que passa nos distrai mais do que o outro. Coisa do Demo, só pode! É mais satisfatório enxugar gelo. Ao menos termina no final.

 

Mas o que tem me incomodado já há tempo! são as regras de uso dos elevadores sociais e os de serviço,mais ou menos, rígidas, dependendo do condomínio onde a gente mora.

 

A Silvana se lembra de quando trabalhava lá em casa. Uma mulher linda, mãe, esposa, inteligente, bom papo, trabalhava dois turnos, um no meu vizinho e outro no meu apartamento. Excelente em tudo o que fazia, e olha que os dotes dela não eram nada comuns, na cozinha e na faxina. No terceiro turno cursava Pedagogia, e acompanhava os estudos das meninas, de madrugada, se fosse preciso.

 

Ela tinha que subir e descer pelo elevador de serviço, mesmo que ele estivesse sendo usado para descer o lixo dos apartamentos de todos os andares, os trecos da reforma de algum apartamento e os cachorros.

 

Eu não conseguia entender a razão! Ela não tinha as solas das botas sujas de cimento, não estava manchada nem escorrendo óleo de caminhão, fazendo mudança para dentro ou para fora, nem carregando uma sacola de peixes. E mesmo que estivesse. Tive um vizinho que tomava banho de perfume, ao menos duas vezes por dia. Como ele morava abaixo do meu apartamento, o cheiro subia ligeirinho, e entrava pela janela da cozinha, onde eu estava cozinhando, e ligeirinho, ligeirinho, atingia a casa toda. Nesse caso eu concordaria com que ele devesse usar o elevador de serviço, como eu também, se carregasse uma sacola de peixes.

 

Alguém me explica, por favor, o que faz o empregado doméstico diferente do empregado não doméstico? Por que empregado doméstico tem que usar o elevador de serviço? Ele faz a tua cama, a comida que você come, lava a louça onde você vai comer, tem acesso a tudo, ou quase tudo, na tua casa, lava a mamadeira do teu filho e tem que usar um elevador que é de serviço? O nome para mim é claro. Leva tijolos, lixo, funcionários e moradores, trabalhadores que são empregados e trabalhadores que empregam, na faixa de salário que for, quando estiverem portando malas, sacolama do super, a bicicleta do filho ou a casinha de boneca da filha. O cachorro-com-coleira-de-rubis e o vira-lata-sem-vergonha.

 

Faltam em nós, consciência, coerência, humanidade e uma pitada de realidade, entre outros ingredientes.

 

Ah, antes que eu me esqueça, os oito ladrões que invadiram meu apartamento, por duas horas e meia, com armas na minha cabeça, roubando tudo, e aterrorizando com facas e todo o horror que estava na minha história, e não na tua, subiram pelo elevador social.

 

Síndicos, uni-vos!
Ou não.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP: As toalhas de dona Maria Elisa

 

Maria Elisa Martins da Costa Câmara nasceu em Açu, no Rio Grande do Norte. Passou a infância na cidade mineira de Nova Era. Foi aluna interna no Rio e voltou para Minas após concluir o curso. Na capital, Belo Horizonte, conheceu o marido com quem veio para São Paulo onde, juntos, montaram uma empresa de alumínio. Daqui e do passado, Dona Maria Elisa tem muitas histórias para contar. No depoimento ao Museu da Pessoa, fala de quando o presidente Getulio Vargas visitou a fazenda do avô, no interior do Rio Grande do Norte. Curiosamente, a primeira lembrança que Maria Elisa tem da cidade de São Paulo é da avenida 9 de Julho, inaugurada em 1941, por Prestes Maia, e assim batizada em homenagem a dada do início da Revolução Constitucionalista, quando milhares de paulistas se rebelaram contra o governo Getulio Vargas, em 1932. Quando ela chegou por aqui, era uma avenida imponente e com vários casarões recém-construído, cercados de belos jardins. Com o marido e mais um casal, foram morar em um apartamento da Barão de Limeira, de onde saia para passear e tomar chá no Mappin:

 

 

Maria Elisa Martins da Costa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio e o depoimento foi registrado pelo Museu da Pessoa. Você também pode contar mais um capítulo da nossa cidade. Marque uma entrevista em vídeo pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Ou mande sua história para mim: milton@cbn.com.br. Se você quiser ouvir outros textos, visite meu blog miltonjung.com.br

Mundo Corporativo: Jaime Szulc, presidente da Goodyear, fala de inovação e gestão de pessoas

 

 

A tendência mundial no mercado de pneus é fabricar produtos com maior durabilidade, que reduzam o impacto no meio ambiente e gerem redução de custos para os clientes, pois estamos diante de consumidores mais conscientes e bem informados. A opinião é do presidente da Googyear para a América Latina, Jaime Szulc, entrevistado do programa Mundo Corporativo, da rádio CBN. Ele explica que atualmente a indústria já é capaz de colocar no mercado um pneu que dure 20% a mais do que há alguns anos, porém o consumidor vai exigir ainda mais. Em conversa com o jornalista Mílton Jung, Szulc comenta sobre o grande desafio da carreira dele que foi assumir o comando de uma empresa centenária e tradicional, como é o caso da Goodyear, e modernizar seus processos desde a fabricação dos produtos até a gestão de pessoas. “A felicidade (do colaborador) é tanto maior quanto mais você trabalha naquilo que tem paixão, esta é a chave na gestão de pessoas”, explica.

 

O Mundo Corporativo vai ao ar às quartas-feiras, 11 horas, no site http://www.cbn.com.br e você participa com perguntas para mundocorporativo@cbn.com.br e pelos Twitters @jornaldacbn e @miltonjung (#MundoCorpCBN). O programa é reproduzido aos sábados no Jornal da CBN e tem a participação do Paulo Rodolfo, do Douglas Mattos e do Ernesto Foschi​

Leis para evitar tragédias têm de ser drásticas e rápidas

 

Por Milton Ferretti Jung

 

O incêndio da Boate Kiss ficou marcado por ter sido a maior tragédia a enlutar uma cidade brasileira,a gaúcha Santa Maria. O fogo,que matou e mutilou inúmeras pessoas,a maioria composta por jovens que imaginavam passar o sábado se divertindo,nunca será esquecido. Mãe e irmã de sócio da boate depuseram,recentemente,durante mais de três horas,a portas fechadas,na 1ª Vara do Júri,no Foro Central de Porto Alegre. O processo está em fase de instrução e tudo indica que ainda ouviremos fala dele por muito tempo. Era de se acreditar que o incêndio da Boate Kiss,entre outras coisas,servisse de dura lição às autoridades de todos os níveis,capazes de produzir leis que evitem a repetição do terrível acidente.

 

Eis,entretanto,que uma notícia divulgada pela mídia,referindo-se ao ocorrido,em Porto Alegre, na Stuttgart Danceteria, de Porto Alegre – suposta briga de gangues com troca de tiros – provocou a morte de um jovem e mais 17 feridos. Este tipo de ocorrência,dependendo da zona da capital e dos hábitos dos frequentadores de casas noturnas,não me causa espécie. Espanta-me,isso sim,que os proprietários da boate ainda não foram ouvidos sobre o tiroteio. Pior ainda,está aberta,desde 2012,graças a uma liminar.Foram várias as tentativas frustradas visando à proibição de sua abertura. A Stuttgart possui um processo numa Vara da Fazenda Pública,contra a prefeitura da Capital gaúcha,exigindo a liberação do local,desde 2010. Ainda não houve sentença nesse processo.A danceteria tem capacidade para 700 pessoas,mas o número de presentes,por sorte, era bem menor na hora da troca de tiros. É inadmissível que as leis que visam evitar tragédias como a da Boate Kiss não sejam mais drásticas e se arrastem durante anos. Repito o que escrevi faz pouco:as autoridades de todas espécies têm de fazer valer as leis em vigor,que pelo jeito não são levadas muito a sério.

 

Bem ao contrário agem as autoridades que cuidam do trânsito. Quem não quiser pagar caro por conduzir o seu veículo fora das leis deve ter ficado arrepiado ao tomar conhecimento de que as multas,agora,ficaram 900% mais caras. Era mesmo imprescindível que esta drástica providência fosse tomada. Basta olhar para o percentual do aumento para que se perceba que os motoristas têm de se dar conta do custo altíssimo das infrações mais graves e tratem de ser comportar corretamente,algo que muitos,principalmente os mais jovens,costumam não levar a sério. É possível que,com o aumento e o peso deste no bolso,os moços corram menos e deixem de representar 25% dos mortos em acidentes no ano de 2014. E prestem atenção,estou me referindo somente aos gaúchos. Conforme Diza Gonzaga,presidente da Fundação Thiago de Moraes Gonzaga,queixa-se,com razão,que campanhas pontuais,como essas que são feitas em vésperas de feriados prolongados. Sempre que falo em trânsito,lembro que é de pequenino que se torce o pepino. O trânsito deve ser matéria obrigatória nos colégios. Eu disse,OBRIGATÓRIA.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, publica seu texto no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Revolução digital vai ocupar espaço dos shopping centers

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

I Love Mall

 

Um endereço eletrônico que poderá ter um milhão de lojas, e outro em 3D a olho nu. A partir deste mês.

 

Não é pouca coisa! E não é mesmo, pois há quinze anos, no auge da primeira bolha da internet, os movimentos comerciais atraídos pela nova tecnologia caminhavam em desconexão. Lojistas acostumados a se instalarem em ruas especializadas ou em shopping centers abriram unidades virtuais solo no mundo virtual. O setor de moda e acessórios, que apresenta grande volume, desacreditava totalmente na compra pela imagem. Enquanto os shoppings, formato físico ideal para replicar no espaço virtual, não deram a mínima para essa possibilidade. E, ainda não dão. Melhor para o “CNDL Shopping” e o “I Love Mall”. Respectivamente, criações da Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas e da PRA Negócios e Participações, de Antonio Mesquita e Ricardo Abdo.

 

A força do “CNDL Shopping” começa no potencial de atração aos lojistas, pois reúne 1,3 milhão de associados, que podem ingressar pagando R$ 3.990,00 pelo ponto e R$189,00 de mensalidade. As compras serão dirigidas às lojas mais próximas ao CDL local, que são 1480 no total. Ou, em qualquer cidade escolhida pelo cliente, que poderá fazer busca pelo tipo de produto, pelo preço, pelo mais vendido, etc. O consumidor pagará uma única conta e depois de receber a mercadoria; enquanto o lojista será creditado automaticamente sem nenhum ônus. A tecnologia é Flexy e a operação comercial financeira é Koin, que se responsabiliza pelos pagamentos.

 

No “I Love Mall” encontraremos inicialmente 400 lojas em 3D, com predominância ao setor de moda e acessórios, mas com novidades como o Dom Mercatto, que é o Mercado Municipal de São Paulo com todos os seus produtos à mão. As compras (parceladas em 12 vezes) serão centralizadas em um único sistema que poderá ser cartão, boleto ou depósito bancário cujo valor será repassado aos lojistas pelo PayPal. O custo de ocupação será definido dentro da possibilidade do segmento e da empresa especifica.

 

Os shopping centers físicos que poderiam ganhar a guerra, agora terão que enfrentar uma revolução.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

No jornalismo, você procura ouvir quem sabe mais do que você, ensina Zuenir Ventura

 

Zuenir Ventura na Bienal

 

A eleição de Zuenir Ventura para a Academia Brasileira de Letras, semana passada, me permitiu duas alegrias. A primeira de ver um dos meus escritores favoritos elevado à condição de imortal. De 1968:o ano que não terminou à Cidade Partida, passando por Sagrada Família e Inveja:Mal Secreto, todos seus livros me conquistaram não apenas pela história contada, mas pela forma como os fatos são descritos, a precisão na informação e a riqueza do texto. Gosto entre tantas outras coisas da definição divertida que tem para jornalista – um cara que não sabe nada do que fala, mas conhece quem sabe. Não é bem esta frase, mas a ideia é a mesma. Se quiser copiá-la ipsis litteris não deixe de ler Inveja:Mal Secreto, livro que integra a coleção sobre os sete pecados capitais. Aproveite e compre Gula:O Clube dos Anjos, de Luis Fernando Veríssimo, que é da mesma série. São deliciosos. Coincidentemente (ou não), ambos são jornalistas.

 

Antes que me perca pelo deslumbramento com o autor, vou logo à segunda alegria: a possibilidade de entrevistá-lo, no quadro Time das Oito – Sexta Especial, do Jornal da CBN. Na véspera, Zuenir havia enfrentado uma maratona de cumprimentos que mexeu com seu coração a ponto de obrigá-lo a fazer exames à noite em um hospital, quando descobriu que estava firme e forte para encarar a imortalidade recebida aos 83 anos. Um susto que acabou em pizza e vinho em um restaurante carioca, segundo nos contou. Na sexta-feira pela manhã, atendeu nossa ligação pouco antes de sair para a caminhada matinal na praia e se prontificou a atrasar sua programação para conversar conosco no ar. Zuenir é daqueles entrevistados que deixa o entrevistador à vontade, apesar de seu alto saber. Quem ouve, pensa que são amigos conversando, quando, na realidade, minha intimidade com ele se dá pelos livros que guardo carinhosamente na biblioteca.

 

Dos muitos assuntos que o pouco tempo me permitia abordar, tive a curiosidade de saber a opinião dele sobre o texto jornalístico, preocupação que tenho especialmente quando se refere ao que escrevemos para ser lido no rádio. Zuenir, claro, se ateve mais ao texto impresso, pois esta é a sua origem, e alertou para o que chama de processo perigoso que estamos enfrentando devido a influência muito grande da narrativa da internet, que muda a forma de as pessoas se expressarem devido a velocidade da escrita, que faz desaparecer vogais e provoca uma redução da linguagem. Apesar do medo de que isso contamine o texto, ressalta que nunca se leu nem se escreveu tanto como agora: “e você só aprende a escrever, escrevendo”.

 

Como todo entrevistado inteligente, não se resume a pergunta do entrevistador, pois sabe conduzir a conversa para os temas que entende ser interessante ao público. Assim, ao terminar de falar da influência da internet no texto jornalístico, fez a ponte para a influência da internet no jornalismo. Para ele, as pessoas hoje registram um fato e o publicam em blogs e redes sociais acreditando que estão, assim, praticando o jornalismo. “Jornalismo é apuração, investigação, é usar o saber do outro (…) no jornalismo você estuda. Quando você faz uma matéria tem uma hierarquia do saber, você se informa sobre a matéria, procura ouvir quem sabe mais do que você”.

 

Poucos sabem tanto sobre jornalismo quanto Zuenir Ventura, o imortal.

 


Ouça a entrevista com Zuenir Ventura, que foi ao ar no Jornal da CBN, no dia 31 de outubro de 2014

 


A foto deste post é do álbum de Julio César Mulatinho, no Flickr

Entre os muros da escola: “todos fomos alunos um dia”

 


Por Biba Mello

 

FILME DA SEMANA:
“Entre os Muros da Escola”
Um filme de Laurent Cantet .
Gênero: Drama.
País:França

 

 

François Marin é um professor de literatura que dá aula em uma escola da periferia para alunos de 13 a 15 anos de diferentes etnias.Os conflitos entre alunos e professores é constante pois existe um abismo cultural entre eles, os alunos possuem uma agressividade e indisciplina por motivos diversos, a escola não ajuda pois tem uma estrutura que não proporciona o desenvolvimento de suas potencialidades, mas este professor vai surpreender.

 

Por que ver: O filme é de um realismo tão absurdo que me fez parar para pesquisar no Google e ver se não se tratava de um reality, apesar das cenas terem evidência de construção cinematográfica, com posicionamento de câmera, distância focal e angulação. A interpretação apresenta uma verdade absoluta com ausência, ou total presença de interpretação, sendo estes atores excelentes e muito bem dirigidos e em nenhum momento perdem o timing e a verdade da cena.

 

Além de tudo isto, ele não é um filme só “cult” ou só de “entretenimento”. É um filme completo, que nos diverte, enquanto nos leva à discussões importantes. O assunto é universal; todos fomos alunos um dia. Algumas discussões serão abertas e dificilmente fechadas…Lições de tolerância e amor aprendidas…
Atenção amantes de “Transformers”: este NÃO é um filme chato!!!

 

Como ver: Acho que a melhor resposta seria, QUANDO ver… Logo que receber o boletim com notas vermelhas de seu filho… Assim, como este professor, você poderia se aceitar como um herói com falhas ao se perguntar: “meu Deus onde eu errei?”.

 

Quando não ver: bom, não existe este “quando não ver”…Veja com seu filho, logo que receber o fatídico boletim, abra a discussão, jogue a bola para ele e tente entender o porquê o amado idolatrado salve salve filho, não estuda, ou não entende a porcaria da matemática, português, geografia…etc…etc…etc…

 

Até semana que vem querido leitor!
Boa Sorte!

 


Biba Mello é diretora de cinema, blogger e apaixonada por assuntos femininos. Aqui no Blog do Mílton Jung, nos ajuda a programar a vida a partir do cinema

Avalanche Tricolor: foi gol de Pará!

 

Grêmio 1 x 0 Vitória
Campeonato Brasileiro – Arena Grêmio

 

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Fiquei tentado a escrever esta Avalanhe após a rodada do fim de semana, a espera do que poderia acontecer conosco na tabela de classificação. Voltei atrás em nome da coerência, pois nada mudaria minha intenção de torcer intensamente por nossas vitórias a despeito de nossas chances na competição. Como bem lembrou Ramiro, ainda suado e ao lado do gramado, ao fim do jogo, ao se ver diante do microfone de um repórter que fez daquelas perguntas que nós jornalistas costumamos disparar apenas com a intenção de ouvir uma resposta qualquer, disputávamos ontem uma das sete últimas decisões que nos faltam e a vencemos. Nos restam seis até o fim da competição e temos de vencê-las, disse nosso volante. Sendo assim, independentemente do que façam nossos adversários nos próximos jogos, nada importa se não cumprirmos o papel que nos é reservado: lutar bravamente contra o inimigo e nossas carências – foi assim em todas nossas conquistas até aqui, não seria diferente nesta temporada.

 

A ansiedade em escrever a você, caro e raro leitor desta Avalanche, não se dá apenas por uma questão de coerência, como explicado no parágrafo acima, mas por satisfação. Queria já ter iniciado este texto aos 44 minutos do primeiro tempo quando Fellipe Bastos (que descubro agora tem dois “Ls”no nome), mais um dos nossos volantes, da intermediária e com visão e lançamento precisos, encontra o obstinado Pará entrando na área pelo lado direito, onde muitas vezes ele aparece sem jamais ser visto por seus companheiros, que, na maioria das vezes, sempre dão preferência aos colegas supostamente mais habilidosos no trato da bola. A bola chegou pelo alto na certeza de que a canela de nosso lateral iria intervir na sua trajetória, talvez escapasse um pouco mais à frente em direção à linha de fundo e ele, como sempre faz, correria acreditando na possibilidade de alcancá-la para colocá-la de volta em jogo e com chances, quem sabe, de um dos seus incrédulos companheiros concluir em direção ao gol. Ledo engano.

 

Pará chegou na passada certa, olhou para a bola e para a área, posicionou o corpo e com rara categoria bateu chapado, com o lado do pé, forte e confiante, a ponto de surpreender seu marcador que, em gesto de desespero, tentou desviar o curso da bola dando-lhe, na verdade, o destino merecido, o gol. Gol de Pará – digam o que disserem os documentos oficiais assinados por esse árbitro de olhar caricato. Ele correu de braços abertos para comemorar a conquista com Luis Felipe Scolari que o sustentou na lateral direita quando a lógica o escalaria do lado equerdo para substituir Zé Roberto, suspenso por ter recebido três cartões amarelos. Pará sorriru abraçado aos seus colegas porque sabe que lutou muito para estar ali naquele momento. Lutou na vida e brigou no treino da semana, porque nada dava certo lá do lado esquerdo. Provou na bola e no temperamento que tinha de estar ali na entrada da área, pelo lado direito, no momento em que o lançamento fosse feito por nosso volante, não porque era a melhor opção, mas porque era a única disponível no momento.

 

Já escrevi aqui nesta Avalanche como me sinto em relação ao futebol de Pará e porque o admiro mesmo diante de todas as críticas que possa receber. Foi quando, em agosto do ano passado, Pará fez o único gol de sua vida com a camisa do Grêmio – o segundo de sua carreira -, na cobrança de falta contra o Flamengo, na Arena Mané Garrincha. “Tivesse sido um jogador de futebol, eu teria sido o Pará”, foi assim que abri aquele post que você pode ler, se ainda tiver paciência, clicando neste link. E o teria sido com muito orgulho porque poucos se dedicam tanto a uma causa como ele, o que se revela seja na comemoração com a bola que foi despachada pela lateral e impediu qualquer perigo ao nosso gol seja no gol contra resultado de seu cruzamento, como nesse sábado à noite. Pará, assim como na partida anterior foi responsável pela assistência que nos levou ao gol de empate contra o Coritiba, volta a ser protagonista em campo. E se dependermos dele para chegarmos a Libertadores, tenho certeza de que lá estaremos mesmo que a vaga somente seja conquistada na última rodada (e com um gol meu, ou melhor, um gol de Pará, mais um!)

Carta aberta

 

Por Maria Lucia Solla

 

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Olá, ‘caro e raro’ leitor,

 

não deu para resistir!
E por favor me desculpa (tira de mim a culpa) pela repetição deste texto, postado aqui no blog do Mílton, em 2007. Mas hoje é o dia do aniversário dela!
Aqui vai:

 

Ley, minha prima querida, nem acredito que já tenha passado um ano inteiro desde o teu último aniversário. Você estava viajando, e não nos falamos naquele dia. Não é que agora o tempo voa de verdade? Voar deixou de ser prerrogativa de passarinho, avião e pensamento, e deixou a categoria de licença poética. As distâncias também assumiram velocidade e textura completamente diferentes, só que mesmo sendo capazes de domar e de quase neutralizar tempo e distância com uma tecnologia nova a cada dia, inimaginável há não muito tempo, ainda não encontramos substituto à altura da pele, do beijo, e do abraço. Não têm similar virtual.

 

O dia do aniversário é um dia muito importante, e eu fico pensando nas nossas histórias e no significado e influência que você sempre teve na minha. A gente precisa ter consciência do quanto se imprime e se entrelaça nas histórias de quem faz parte da nossa, porque é desse jeito que se vai tecendo a vida, não é?

 

Na minha, a tua tessitura tem sido linda. Você me levou ao cinema pela primeira vez, no dia do meu aniversário, para ver um desenho de Walt Disney. Da história e do nome do filme eu não me lembro, mas me lembro da alegria, da aventura, de tanta cor e som, e da sensação de liberdade. Lembro de me sentir importante e segura pela tua mão, caminhando pelo centro da cidade. Teu gesto amoroso encontrou terreno fértil; continuo amando o cinema e sentindo a mesma magia da primeira vez. Que presente eu um dia poderia reciprocar, que fizesse você se sentir tão especial como você me fez sentir?

 

Ah, você também me ensinou a dar os primeiros passos na cozinha. Arroz branco e soltinho, com milho, no apartamento da Praça Roosevelt, e as vitaminas de frutas no liquidificador que você lavava batendo água com detergente, e o Lúcio, acostumado com as gostosuras que você fazia, passou pela cozinha e se serviu de um copão. Só não me lembro se você chegou a tempo de impedir o primeiro gole.

 

Você foi a ponte firme entre meu mundo de menina e o mundo dos meus pais, incompreensível e hermético demais para mim, e me levou aonde meus pés não teriam ido sozinhos.

 

Você também foi madrinha no meu casamento, e estava linda. Você, não eu. Olhe as fotos, eu era menina de tudo, despreparada, confusa, mas você já era uma mulher linda, independente, inovadora, culta, exemplo para quem estivesse por perto; e eu estava. Aprendi com você a olhar para frente sem perder a perspectiva do que ficou para trás, e se hoje, mesmo buscando novos caminhos, ainda cultivo os não tão novos, devo muito a você.

 

Espero que todo mundo tenha ao menos uma pessoa especial de quem possa lembrar coisas boas, com carinho e gratidão.

 

Amo você.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung