Conte Sua História de SP: minha festa de debutante não foi por água abaixo

 

Por Beth Russo
Ouvinte-internauta da CBN

 


 

Minha rua ficava no Bairro do Cambuci. Rua Freire da Silva. Eram os anos 50/60. No começo nem era asfaltada e o esgoto era a céu aberto. Depois veio o asfalto. Foi uma grande melhoria. Só tinha um problema. Eram os dias de chuva. Enchia a qualquer chuvinha. Todas as casas tinham um murinho na porta ou comportas para a água não entrar. Mas não adiantava. A água é poderosa e quando não “pulava” o murinho, vertia pelas paredes. Minha mãe colocava pedaços de jornal nas frestas da porta, mas também não adiantava muito. Para meu irmão e eu era uma festa: fazíamos barquinhos de jornal e ficávamos na janela vendo-os partir. Às vezes passava um caminhão na enchente e formavam grandes ondas e aí entrava nas casas. As mulheres saiam a xingar, mas as crianças adoravam ver aquele mar bem na sua porta.

 

Eu estudava no Colégio Rainha dos Apóstolos (tinha bolsa, porque era ótima aluna). Para ir para escola, os bombeiros levavam os moradores de barco até a parte seca. Era uma festa. Sentia-me em Veneza. Outras vezes tínhamos botas de borracha, cano alto. Sempre que alguém precisava sair, um familiar acompanhava até onde não havia água e trazia as botas de volta. Nunca ficamos doentes. Quando a água baixava era hora da limpeza. Dava um trabalhão. Desinfetar tudo, esperar secar, raspar o chão, escovão, etc.

 

Quando completei 15 anos, era moda fazer uma festa, com 15 pares de amigos, com velas acesas e tudo mais. Era em nossa casa mesmo. Tinha a vitrola, um bolo, pão com patê e cuba libre. Só que no dia caiu a maior chuva e encheu a rua. Não teve festa. Mas no dia seguinte apesar de tudo conseguimos reunir todo mundo e eu tive minha festa de 15 anos. Era tudo tão simples! Contentávamos-nos com tão pouco! E éramos felizes!

 


O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados no CBN SP, logo após às 10 e meia da manhã. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode enviar sua história para milton@cbn.com.br ou agenda entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net

A língua certa para não cair da cadeira

 

A história quem contou foi Gaudêncio Torquato em coluna publicada no Estadão de domingo e tem como protagonistas Jânio Quadros e Delfim Neto, que não carecem de apresentações. Na campanha à prefeitura de São Paulo, em 1985, aquela em que Fernando Henrique caiu da cadeira, o candidato Jânio levou Delfim para um dos poucos comícios na periferia e o ex-ministro tascou do alto do palanque: “A grande causa do processo inflacionário é o déficit orçamentário”. Jânio chamou Delfim no canto e apontou para o público: “Olhe para a cara daquele sujeito ali. O que você acha que ele entendeu de seu discurso? Ele não sabe o que é processo, não sabe o que é inflação, não sabe o que é déficit e não tem a menor ideia do que seja orçamentário. Da próxima vez, diz assim: a causa da carestia é a roubalheira do governo”.

 

Falar a língua do povo é uma das habilidades necessárias para os políticos de plantão, mas serve também para todos que trabalham em comunicação. No jornalismo, há algum tempo os veículos têm adaptado o discurso ao seu consumidor. Um texto de economia do Valor, por exemplo, jamais deve ser reproduzido na programação de rádio. Estaria se cometendo dois erros: primeiro, no jornal escreve-se para quem lê, enquanto no rádio, para quem ouve; segundo, o leitor do Valor tem mais intimidade com os temas relacionados à economia do que o ouvinte do rádio. Isso significa que quem lê o Valor não ouve rádio? Não. Apenas que o rádio fala para um público mais amplo do que o jornal e o esforço é fazer com que todas as pessoas entendam perfeitamente a mensagem transmitida. Se você é um empresário e precisa se comunicar internamente tem de definir se seu público são os acionistas da empresa ou os peões do chão de fábrica. Mantém-se o conteúdo, mas muda-se a forma.

 

Do artigo dominical de Gaudêncio Torquato, no qual compara a fala de políticos do PT e do PSDB, destaco mais algumas colaborações para quem pretende falar a língua das pessoas. “Desconforto hídrico temporário” deve ser substituído por “seca braba”; “redução compulsória do consumo de energia elétrica” é “corte de energia”; “retracionismo na empregabilidade” significa “desemprego” e “compensação pecuniária às distribuidoras pelo déficit que enfrentam devido ao racionamento” nada mais é do que “aumento de tarifas de energia”. Importante, porém, lembrar que toda mudança na linguagem deve ser coerente com nossa personalidade. Quem passou a vida falando de maneira pernóstica e antiquada não vai convencer ninguém apenas porque convida as pessoas para um “papo reto”.

 


LEIA AQUI O ARTIGO “O PETÊ E O TUCANÊS” DE GAUDÊNCIO TORQUATO NO ESTADÃO

Adote um Vereador participa do TEDx, neste sábado

 

 

Escolhido como ação inspiradora e transformadora da cidade, a rede Adote um Vereador foi convidada para participar do TEDxValedoAnhangabau, que se realizará, neste sábado (12/04), no plenário da Câmara Municipal de São Paulo. Serão oito palestras, com no máximo 18 minutos cada uma, que apresentarão diferentes temas como a experiência pedagógica que mudou a forma de os estudantes assistirem às aulas, o desenvolvimento de tecnologias que estimulam a cidadania, além de projetos que atuam nas áreas de saúde, meio ambiente, comunicação, planejamento urbano e no atendimento a presos. De acordo com Gabriela Ferraz, uma das organizadoras do encontro, “são ideias que valem a pena ser espalhadas”.

 

Eu estarei representando o Adote um Vereador com a intenção de mostrar o que nos inspirou a iniciar esta ação, em 2008, e como as pessoas de forma voluntária aderiram a ideia e conseguiram avanços importantes na relação com as câmaras municipais, especialmente em São Paulo. Nosso objetivo é motivar outros cidadãos a acompanharem o trabalho legislativo seja participando do Adote um Vereador seja na criação de novos caminhos. O importante é que cada vez mais encontremos formas de interferir nas decisões tomadas pelos vereadores atendendo aquelas três palavrinhas mágicas que nos moveram desde o início e sempre provocaram incômodo nos parlamentares: monitorar, controlar e fiscalizar. Aliás, inclui mais uma palavra na lista: espalhar – sim, porque depois de levantarmos informações e desenvolvermos pensamento crítico sobre o vereador, o interessante é transferir esse conhecimento à sociedade. É preciso contar para os outros o que fazem ou deixam de fazer na Câmara Municipal e ajudar as pessoas a entenderem melhor o processo legislativo.

 

Além do Adote um Vereador, participarão do TEDxValedoAnhangabu João Whitaker Ferreira, Ana Elisa Siqueira, Pedro Markun, Tatiana Ivanovici, Rogério Santos, Chinaider Pinheiro e Flávio Falcone. Para assistir às palestras se inscreva agora no site do TEDx. Além de nome completo, e-mail e ocupação, tem duas perguntas que precisam ser respondidas obrigatoriamente: “já trabalhou com projetos voluntários?” e “qual a transformação que você quer ver no mundo?”. A inscrição é de graça mas apenas 100 pessoas poderão participar do evento, portanto se você for integrande do Adote um Vereador não deixe de incluir esta informação no formulário. As palestras serão das 10 da manhã às duas da tarde.

 

Com a nossa participação no TEDxValedoAnhangabu, decidimos transferir para a Câmara Municipal de São Paulo o encontro presencial do Adote Um Vereador que costumamos realizar no segundo sábado do mês, no Pateo do Collegio. Portanto, inscreva-se e até sábado.

 

FAÇA SUA INSCRIÇÃO PARA O TEDxVALEDOANHANGABAU AQUI

Partidos partidos

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Tem-se discutido muito, e acaloradamente, sobre partidos e políticos, e sobre o fato de esses trafegarem por aqueles, ao aceno da mínima vantagem. Ser da direita ou da esquerda não é mais uma questão de sentar-se à esquerda ou à direita do plenário, como em idos tempos. Os partidos por sua vez querem que o mandato e o político lhes pertençam para terem munição. A senhora presidente diz ter ‘bala na agulha’. Estamos em guerra, e eu não tinha percebido. De todo modo, fica claro que se foi o tempo de convicções e de construção da democracia. Romântica e femininamente imagino um tempo em que alguns governavam – trabalhavam, administravam – enquanto outros davam duro fiscalizando. De olho; implacáveis. Ao menor deslize a turma no comando pulava miúdo. Mas se houve esse tempo, durou até que alguém percebesse que, por lá, dava para dar menos duro e ganhar mais mole.

 

E foi como água mole em pedra dura que a idéia fixa dessa meta se infiltrou e se alastrou feito praga, por todos os lados. A gente então começou a vender os próprios pensamentos, a entregar as paixões, crenças e a própria identidade, em troca de não viver, já que isso dá um trabalho danado. Ficou anestesiada de tanto fingir que estava tudo bem, para não sair do conforto da poltrona. E a coisa foi crescendo tanto e tão velozmente, que se romperam os diques, e a lama transbordou, nos cobrindo e sufocou. E a gente? Acostumou.

 

Pense comigo, nosso país é de terceiro mundo, somos pobres, não temos água, luz, estradas, transporte, saúde pública, educação, e nem comida para todos. E o que fazemos? Mantemos aparência esfarrapada com uma criadagem política despreparada, sem experiência, sem cultura nem educação, que oferece, em bandejas de plástico, migalhas a nós, seus patrões; e nós os tratamos a pão-de-ló, com água mineral e bebida importada, servidas por copeiros em bandeja de prata, mesa farta, carros de luxo, um batalhão cada vez maior de subalternos, e avião importado.

 

Minha sogra abomina quem come mortadela e arrota peru. Pois é, dona Ruth, parece que nossa nação não anda bem de digestão.

 

Enquanto isso, nos países de primeiro mundo, com população mais rica, com pleno acesso a educação e saúde, e onde nem se imagina o que seja a dor da fome, os gestores das nações têm muito menos criadagem e mordomia do que os nossos.

 

Voltando aos partidos, é triste lembrar que eles também geram aberração e mensalão. É o tal do cada um por si, do salve-se quem puder, coisa de republiqueta de quinta.

 

No entanto, enquanto nós, viventes do mesmo chão, continuarmos a contratar a corja, ela continuará oferecendo privilégios e benesses aos que estão abaixo, acima, à direita e à esquerda, para eternizarem a farsa e o assalto miúdo às nossas carteiras e à nossa dignidade, que temos entregado de bandeja, como se nada valessem. Não é para isso que supostamente evoluímos como seres humanos, e que somos considerados cidadãos.

 

Ou é?

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Mundo Corporativo: Regina Assumpção fala de choque cultural

 

 

Sabe aquela sensação de peixe fora d’água? É como muitos brasileiros se sentem quando vão trabalhar no exterior ou quando os estrangeiros se mudam para o Brasil. Há enormes diferenças culturais que prejudicam este processo de adaptação e precisam ser trabalhadas para evitar prejuízos na produtividade e na saúde do funcionário. De acordo com a consultora Regina Assumpção, da Shagal – consultoria em comunicação e diversidade cultural -, pesquisas internacionais mostram que os três maiores desafios para trabalhadores que enfrentam essa situação são clima, comida e idioma. Nesta entrevista ao jornalista Mílton Jung, no Mundo Corporativo da rádio CBN, Regina conta casos reais de estrangeiros que vieram para o Brasil e brasileiros que tiveram de encarar novos hábitos lá fora. E apresenta caminhos para que estas mudanças sejam bem assimiladas pelo empresa e pelo empregado.

 

O Mundo Corporativo vai ao ar às quartas-feiras, 11 horas, só no site da rádio CBN, com participação dos ouvintes-internautas pelo e-mail mundocorporativo@cbn.com.br e pelo Twitter @jornaldacbn e @miltonjung (#MundoCorpCBN). O programa é reproduzido aos sábados, no Jornal da CBN.

La Perla abre loja conceito para explorar intimidade das chinesas

 

Por Ricardo Ojeda Marins

 

 

A grife italiana de moda íntima La Perla abriu há apenas alguns dias a sua quinta loja na China. Localizada no Shinkong Place Mall, em Beijing, a nova flagship da marca reúne itens de moda íntima, moda praia e ready-to-wear em seus 180 metros quadrados de puro luxo. O Shinkong Place Mall foi estrategicamente escolhido para a nova unidade por ser um dos principais pontos de varejo de luxo local, reunindo lojas de marcas prestigiosas de diversos segmentos como Rosenthal, Acqua di Parma, Tag Heuer, Fendi, Ferragamo e outras.

 

A marca vem investindo na Ásia, apostando no aumento da demanda dos consumidores chineses para moda íntima de luxo. Em 2013, o mercado de luxo chinês cresceu 2%, bem abaixo dos 7% do ano anterior, de acordo com a consultoria Bain & Company. Os chineses ainda são os maiores compradores de luxo, representando 29% do consumo mundial no setor.

 

Fundada em 1954, La Perla oferece luxo moda íntima, moda praia e ready-to-wear através de uma rede internacional de lojas estrategicamente bem distribuídas ao redor do mundo, como o Shopping Cidade Jardim, em São Paulo, além de lojas de departamento, de prestígio e virtuais conceituadas em diversos países.

 

Ricardo Ojeda Marins é Administrador de Empresas pela FMU-SP e possui MBA em Marketing pela PUC-SP. Possui MBA em Gestão do Luxo na FAAP, é autor do Blog Infinite Luxury e escreve às sextas-feiras no Blog do Mílton Jung.

Cidadão tem aplicativo para avaliar Câmara; faltam os vereadores

 

A Câmara Municipal de São Paulo poderá ser avaliada através do aplicativo MyFunCity, uma plataforma de convergência social e digital, que incentiva a participação popular na gestão pública. Além de opinar sobre a qualidade do serviço prestado pelo legislativo, os moradores poderão dizer o que pensam da prefeitura e da qualidade de vida na capital paulista. O MyFunCity permite compreender como os paulistanos se sentem em aspectos como saúde, educação, segurança, transporte público, lazer, condições das ruas e custo de vida. A avaliação é feita de forma simples. Por exemplo, se quiser opinar sobre as condições de barulho da rua em que você está, o aplicativo identifica o local e você clica no ícone específico, aparecerão cinco figuras com carinhas que vão de um sorriso aberto até o choro. Se tiver interesse é possível registrar o local ou o motivo da reclamação com foto e incluir comentários. A soma das avaliações vai gerar o nível de bem estar por regiões. As primeiras análises mostram que as maiores preocupações neste momento dos paulistanos são o barulho e o custo de vida.,

 

Em relação a Câmara, até o momento em que publicamos este post, havia apenas uma avaliação com nível de satisfação de 30%, em uma escala que vai de 10% a 100%. A medida que os paulistanos começarem a expressar-se através do aplicativo, os vereadores terão ideia melhor sobre o desempenho da casa legislativa, assim como dos demais ítens, pois o acompanhamento pode ser feito em tempo real. Por enquanto, não é possível fazer avaliação individual dos vereadores, o que seria muito interessante, pois teríamos a oportunidade de entender um pouco o que o cidadão pensa de cada um dos seus representantes (se é que eles se sentem representados). Além de o aplicativo ser adaptado para que tenhamos esta possibilidade, a rede Adote um Vereador também sugere aos paulistanos que acompanhem mais de perto o trabalho no legislativo. Nossa ideia é que você monitore, fiscalize e controle os vereadores, escolhendo um dos parlamentares e levantando informações sobre ele a partir do que está publicado nos meios de comunicação, na internet, no site da Câmara, nas páginas e perfis dos vereadores nas redes sociais, através de contatos com os gabinetes e, se possível, com o próprio legislador. Importante, também, compartilhar este conhecimento com as demais pessoas em blogs, sites, twitter, facebook, jornalzinho da rua, mural do trabalho ou da escola. Assim, você estará ajudando os moradores a participar da vida pública da sua cidade. E a Câmara a trabalhar mais próxima do cidadão.

 


Baixe o MyFunCity e mãos à obra. Ou melhor, dedo no aplicativo: avalie, provoque, mude.

 

Gremista, radialista e demitido

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Minha semana não foi das mais tranquilas,tipo,por exemplo,das que passei usufruindo,na cidade balnearia de Tramandaí, merecidas férias(jamais ouvi alguém confessar não ter merecido os tradicionais trinta dias de descanso). Já desconfiava,porém,que seriam as minhas últimas férias como profissional de rádio, carreira que durou sessenta anos e durante a qual trabalhei somente em duas emissoras: Canoas – que deveria ter sido instalada na cidade da Grande Porto Alegre com este nome – e Guaíba. Fiquei quatro anos na primeira e cinquenta e seis na segunda. Atuei ao mesmo tempo em três agências de propaganda:a Standard-Ogilvy & Mather,levado pelo saudoso Pedro Carneiro Pereira,um dos melhores narradores de futebol que conheci; na Publivar e na Idéia (então com acento no é,uma das tantas estúpidas mudanças feitas em nossa língua – portuguesa do Brasil – com a intenção de padronizá-la com a falada em Portugal e em suas ex-colônias,algo puramente utópico). Além disso, tive durante bom tempo colunas tratando de futebol no Correio do Povo dominical,em que escrevia sobre o Grêmio e o Ibsen Pinheiro,ao meu lado,fazia o contraponto com o Inter. Também ocupei um espaço na Folha da Tarde sobre o mesmo tema:futebol. Se ainda tenho alguém me acompanhando nesta reminiscências,como vou recuar ainda mais nos anos logo a seguir,deixem-me contar para quem não acompanhou nas redes sociais como terminou a minha carreira no rádio:fui demitido. Aqui em casa já está uma placa,em que,abaixo do meu nome se lê:”Nosso reconhecimento aos relevantes serviços prestados à Rádio Guaíba. A emissora,que nasceu sob o signo de uma tradição,será sempre uma voz a serviço do Rio Grande”

 

O Mílton, que dispensa apresentações, tanto dos ouvintes do Jornal da CBN quanto dos leitores deste e de outros blogs,surpreendeu-me perguntando em um e-mail,como eu me tornei gremista. Em Porto Alegre, torcemos pelo Grêmio ou pelo Inter. Os pais,normalmente,tentam, desde cedo, influir os seus filhos(as) a torcer por um deles. Acho que ainda nenhum instituto fez pesquisa para se saber quantas crianças, às vezes por obra de parentes,padrinhos ou por birra, quando não querem ser forçados a torcer pelo time do pai,acabam adotando o rival. Na minha casa que,segundo o Mílton, tinha no Olímpico a extensão do nosso pátio,todos se tornaram gremistas por influência paterna. Hoje,os meus netos,embora dois morem em São Paulo – o Greg e o Lorenzo – mais o Fernando e a Vivi,ambos de Porto Alegre,são gremistões. Até aqui não respondi à pergunta do Mílton. Faço-o agora. Meu pai,na juventude,jogou num time da drogaria da qual era gerente. Ainda vou recuperar o álbum em que há uma foto dele ao lado dos companheiros da equipe. Não lembro dele,porém,como torcedor gremista ou colorado. Recordo que,um dia,me levou ao Estádio do Passo da Areia,para ver o São José jogar.Quando se é criança ou até algo mais do que isso,sempre temos amigos mais chegados,com os quais nos entendemos melhor. Eu tive dois desse tipo: o Valmor e o Vilmar. Quase todas as tardes brincávamos de fazer guerra com soldadinhos de chumbo. Em uma área na frente da casa dele dos meus dois amigos do peito,escondíamos esses soldadinhos atrás de barreiras montadas com toquinhos quadrados e,usando bolinha de gude,”bombardeávamos” mutuamente as nossas fileiras:bolinhas pra cá,bolinhas pra lá (quem imaginaria que os nossos filhos e netos jogariam vídeo game em computadores de última geração). Quebrei um pouco a minha velha cabeça,entretanto,para responder à pergunta do Mílton. Foi o Vilmar,mais perto da minha idade (10 anos,acho),quem me fez gremista.Nunca me arrependi da escolha. Quando o meu pai me internou no Colégio São Jacó,em Farroupilha,ouvi em um radiozinho de algum colega,que o Grêmio aposentara Júlio Petersen,seu goleiro titular,subsituindo-o por Sérgio Moacir Torres Nunes. Fiquei preocupado:era fã do veterano Júlio e não sabia ainda se “Sérgio daria no couro”. No internato,vivia correndo atrás de quem tivesse rádio de pilha para não perder a narração dos jogos do Grêmio.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Avalanche Tricolor: Grêmio vence e está classificado

 

Atletico Nacional 0 x 2 Grêmio
Libertadores – Medellín (COL)

 

 

Muita coisa mudou desde quando fomos à Colômbia conquistar a Libertadores, em 1995. Quase 20 anos nos separam daquele empate histórico que nos deu o bicampeonato sul-americano. Tenho certeza que você já não é mais o mesmo. Eu não sou. Estou mais velho (mesmo que ainda me sinta jovem), mais sério e, aparentemente, mais responsável. Construir uma família talvez nos leve a este amadurecimento, e o tempo nos cobra algumas atitudes. O Grêmio também amadureceu, passou por poucas e boas que deixaram cicatrizes e nos fizeram crescer. Fomos ao inferno e de lá saímos fortalecidos. Pelejamos pelos campos da América do Sul e muitas vezes, injustamente, fomos criticados por não sermos capazes de reconquistar o título que sempre sonhamos. Não entendiam que mesmo diante das derrotas nos empoderávamos porque o mais importante era jamais deixar de lutar. Se hoje vemos um time com maturidade e respeitado pelos mais difíceis adversários (lembre-se que este é o Grupo da Morte), esta imagem foi forjada no campo de batalha.

 

O Grêmio está classificado com uma rodada de antecedência e ainda pode encerrar a fase de grupos com a melhor campanha entre todos os que se credenciaram a disputar a Libertadores (importante lembrar, também, que tem muita gente por aí que não foi capaz). Venceu com gols de Dudu e Barcos e vibrou com as belas passadas de Luan. Assistiu a mais um desempenho seguro de Rhodolfo, Edinho, Riveros e Ramiro. Mas, principalmente, comemorou as defesas espetaculares do nosso goleiro Marcelo Grohe que assim como eu e você mudou muito desde 1995, época em que ainda era um menino de calça curta e, como declarou ao fim da partida, sequer imaginava jogar futebol.

 

Realmente muito coisa mudou nestas quase duas décadas que nos separam do último título da Libertadores para esta classificação, ambas conquistadas na Colômbia. O que não mudou foi a nossa paixão pelo Grêmio. Esta jamais mudará. #SoyLocoPorTRIAmerica

Os discos voltam a tocar nossa lembrança

 

 

O toca disco Sony, com fonte improvisada e cabo RCA conectado ao primo mais novo, o tocador de DVD, trouxe de volta ótimas lembranças neste fim de semana. Os discos de vinil vieram na mala com a qual desembarquei em São Paulo, assim que deixei Porto Alegre, no primeiro dia de 1991. Um solo de Mick Jagger, um clássico dos Beatles, James Taylor, Cazuza e mais alguns exemplares interessantes que não listarei aqui para não tomar seu tempo. Todos ficaram guardados por anos e só ganharam o direito de se transformar em peça de decoração recentemente. Por curioso que pareça, foi um garoto de 12 anos que me incentivou a dar uma solução para o aparelho sem vida. Fernando, meu sobrinho mais novo, por influência do pai, o Christian, meu irmão mais novo, adora vinil e tem se esforçado para encontrar algumas raridades, em especial do Red Hot Chili Peppers, sua banda favorita. Quando esteve aqui em casa, fomos juntos à Galeria do Rock, centro da capital paulista e ponto de encontro de admiradores da velha mídia. Fiquei impressionado com o que é possível achar naquelas lojas e com o preço que cobram, especialmente em tempos de músicas baixadas de graça (ou quase) na internet.

 

De volta para casa, Fernando queria saber porque meu ‘prato’ – é assim que os jovens se referem a esse aparelho – estava servindo apenas de decoração ao lado dos discos. Sem resposta convicente, no dia seguinte saí em busca de alguém que me ajudasse a arrumar minha eletrola – é assim que os mais antigos se referem a esse equipamento. A solução foi caseira, pois descobri que um dos técnicos da CBN, Gugu, era craque nesses consertos, conhecia como poucos os atalhos necessários para encontrar as peças que faltavam e enjambrar soluções. Em menos de uma semana, o toca disco já estava de volta com uma nova fonte e agulha zero quilômetro. Bastava conectá-lo em um receiver e aumentar o som: foi o que fiz nesse fim de semana para alegria das minhas boas memórias.

 

O chiado no começo das faixas reativa as lembranças de um passado que deixou marcas e acumulou pó. Algumas dessas marcas impedem que a música continue tocando, repete estrofes e nos obriga a pular a agulha para o sulco seguinte. A turma mais nova se divertiu com minhas manobras para ouvir o disco até o fim e se impressionou com o fato de um dia alguém ter imaginado que aquelas trilhas riscadas em um vinil poderiam se transformar em música para nossos ouvidos. Um deles chegou a suar quando pedi para levantar o braço da agulha e trocar de faixa, movimento que exige habilidade e sutileza, coisa que aprendemos de pequeno, mas que é uma tremenda novidade para quem jamais havia visto um LP rodar.

 

Hoje somos capazes de registrar o mais sutil dos sons e de destacá-los em nossos aparelhos ultra sofisticados com muita precisão. É incrível, porém, como o som rústico que sai dos discos consegue nos trazer a sensação de pureza das canções, resultado da tecnologia de gravação que havia à disposição na época e das lembranças que tenho.