Mundo Corporativo: Rafael Segrera, da Schneider Electric, explica por que eletricidade 4.0 é chave para a descarbonização

Segrera em entrevista no estúdio de podcast da CBN Foto: Priscila Gubiotti/CBN

O grande desafio das nações do mundo é triplicar a porcentagem de energias renováveis, mas duplicar gestão energética. E essa combinação, essa equação é a equação perfeita. Porque o mundo mais eficiente, utilizando cada vez mais energia elétrica, esse é o verdadeiro vetor da descarbonização.
Rafael Segrera, Schneider Electric

O custo da energia, que muitas vezes aparece apenas como uma linha na planilha financeira, está no centro de uma disputa que define a competitividade das empresas e o futuro da transição energética. Em um momento em que a COP30 coloca o Brasil no mapa das negociações climáticas, cresce a pressão para provar que sustentabilidade não é apenas pauta ambiental, é modelo de negócio — sustentado por digitalização, automação e uso mais intenso de eletricidade. Esse foi o tema da entrevista de Rafael Segrera, presidente da Schneider Electric para a América do Sul, ao programa Mundo Corporativo.

Segrera parte de uma provocação direta ao empresariado: “Sustentabilidade não custa caro, é um negócio”. A frase resume a estratégia que, segundo ele, vem sendo construída há mais de duas décadas dentro da Schneider Electric. A companhia decidiu desenvolver tecnologia com três objetivos combinados: “Ajudar o planeta, fazer bem para as pessoas e, para ser sustentável no tempo, ser bom para a empresa”. Isso significa, na prática, colocar gestão de energia e eficiência energética no centro da geração de valor.

Ele explica que, em qualquer setor, a energia é componente relevante do custo operacional – de 3% a 7% em prédios comerciais, chegando a 20% ou 30% em saneamento, aço ou data centers. A partir daí, o raciocínio é simples: “Tudo o que a gente faz é para assegurar que você utiliza essa energia da melhor maneira possível, que tenha economia particularmente, e essa economia que é gerada é uma economia que tem um benefício no bottom line, na rentabilidade”.

Eletricidade 4.0, digitalização e a conta de luz

A resposta passa pela combinação de três peças: gestão de energia, automação e software. Segrera descreve a trajetória da Schneider, que saiu de uma empresa de produtos elétricos e de controle industrial para soluções integradas e, mais recentemente, para plataformas digitais. O objetivo é medir, monitorar e controlar o uso da energia em tempo real, em diferentes ambientes – de indústrias a prédios, de infraestrutura crítica a data centers.

Nesse contexto surge o conceito de eletricidade 4.0. “A junção do mundo elétrico ao mundo digital é o que a gente chama de eletricidade 4.0”, resume. A ideia é usar o poder das ferramentas digitais – incluindo inteligência artificial e realidade virtual – para redesenhar processos, simular cenários de consumo antes da implantação física, otimizar a operação e reduzir desperdícios.

Segrera destaca que o benefício mais visível da digitalização é a capacidade de enxergar o sistema como um todo: “Se você não mede, você não sabe como está se comportando”. A partir dos dados coletados, torna-se possível criar arquiteturas de informação que suportem decisões rápidas e consistentes sobre investimentos, manutenção e ajustes operacionais.

O tema dos data centers, hoje no centro da discussão sobre consumo de energia, também entra na conversa. Para ele, é preciso relativizar: “Hoje o peso do consumo elétrico dos data centers tá por 1%. A gente não pode pensar que são 20% do consumo energético, não são”. Ao mesmo tempo, ressalta que esse é um dos setores que mais pressiona fornecedores por eficiência, já que consome muita energia, água e espaço.

A inteligência artificial, vista muitas vezes apenas como nova fonte de demanda energética, vira ferramenta de ganho de eficiência: “Mais se aprende sobre o sistema e a inteligência artificial, mais nos permite ajudar a nossos clientes a serem mais eficientes. Então, é um círculo virtuoso”, define.

O lugar do Brasil na transição energética

Quando o assunto é matriz elétrica, Segrera reconhece uma vantagem importante do país. Ele lembra que o Brasil está entre as melhores posições do mundo em participação de fontes renováveis, fruto de decisões tomadas no passado e de investimentos de grandes empresas do setor.

O problema aparece do lado do consumo. “Nada serve gerar uma energia limpa, maravilhosamente limpa, se você tem problema na transmissão e tem perdas que podem chegar a ser até 40% ou mais”, afirma. Nas contas dele, o país está bem em renováveis, porém ainda distante de uma boa posição em eficiência energética.

Daí a ênfase em uma equação que ele considera determinante para o futuro: “O grande desafio das nações do mundo é triplicar a porcentagem de energias renováveis, mas duplicar gestão energética”. A combinação entre expansão de renováveis e uso mais eficiente da energia, com eletrificação crescente, é apresentada como a base de um modelo de descarbonização que não seja apenas discursivo.

O setor empresarial brasileiro, na avaliação de Segrera, caminha em duas velocidades. “O mundo brasileiro das grandes empresas, absolutamente” já compreende o tema, segundo ele, com alto nível de conscientização e adoção de práticas ligadas à eficiência e à sustentabilidade. Já as pequenas e médias empresas ainda esbarram em falta de informação e acesso às soluções disponíveis. Por isso, ele defende que as grandes companhias tenham um papel ativo de apoio, compartilhando práticas e conhecimento com a cadeia de fornecedores.

Há também um recado para conselhos de administração e lideranças: “Se elas hoje conseguem ter processos que, com eficiência energética, conseguem 10%, 12% de economia, elas devem ser mais exigentes para ter ainda mais”. E faz um alerta para quem quer competir em mercados globais: “Se o Brasil quer se tornar mais forte em um mundo cada vez mais competitivo, é com a adoção da sustentabilidade. […] A adoção de tecnologia e da inovação é a chave se você quer ser competitivo fora”.

Carreira global e convite aos executivos brasileiros

Ao fim da entrevista, Segrera abre um parêntese sobre sua própria jornada profissional. Venezuelano, começou estudando engenharia, mas trocou para administração porque precisava trabalhar à noite e não tinha como seguir o curso técnico no horário disponível. A curiosidade pela tecnologia, no entanto, permaneceu.

“Essa curiosidade, uma empresa como a Schneider me permitiu aprender muito”, conta. Em quase 30 anos de companhia, passou por Venezuela, França, China, Canadá e chegou ao Brasil, sempre em posições ligadas a negócios e liderança, não à engenharia. Essa trajetória internacional moldou sua visão sobre o potencial dos profissionais brasileiros.

Ele considera que o país tem educação sólida, cultura de inovação e capacidade humana para ocupar mais espaço no exterior. “O mercado brasileiro é tão grande que muitos decidem ficar aqui”, observa. A aposta dele é que a internacionalização pode fortalecer, inclusive, a atuação doméstica das empresas.

Por isso, deixa um convite direto: “O Brasil é um país muito bacana, o mundo também tem muitas coisas que oferecer e você pode chegar e compartilhar as coisas que você faz aqui”. Em outras palavras, ampliar a atuação para fora é parte da mesma agenda que inclui tecnologia, sustentabilidade e competitividade.

Segrera encerra com números que, segundo ele, mostram que essa estratégia não é apenas discurso. “Nossas receitas se multiplicaram por quatro, nosso benefício net (profit), bottom line, EBIT, se multiplicou por nove e a capitalização, o valor da empresa no mercado, por 12, entre 2003 e 2023”, afirma. A mensagem é que eficiência energética e sustentabilidade, quando encaradas como negócio, podem mudar o patamar de empresas de diferentes portes.

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Dez Por Cento Mais: Diego Félix Miguel fala sobre os desafios das velhices LGBT+

Foto de cottonbro studio

Não é o outro falar de nós, é nós falarmos sobre a nossa existência

Diego Félix Miguel

Uma geração de lésbicas, gays, bissexuais, pessoas trans, travestis e transgêneros chegou à velhice carregando marcas de rompimentos familiares, da epidemia de HIV/Aids e de um sistema de saúde que muitas vezes as afasta, em vez de acolher. Nesse cruzamento entre idade, gênero, orientação sexual e desigualdade, estão as velhices LGBT+, tema tratado por Diego Félix Miguel, doutorando em saúde pública e presidente do departamento de gerontologia da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, em entrevista à jornalista e psicóloga Abigail Costa, no programa Dez Por Cento Mais.

Velhices plurais, vulnerabilidades acumuladas

Diego propõe que o ponto de partida seja enxergar o envelhecimento como conquista coletiva. “Eu acredito que nós precisamos pensar na longevidade como uma grande conquista”, afirma. O aumento da expectativa de vida está ligado a avanços científicos, tecnológicos e ao acesso à informação. Essa conquista, porém, não é distribuída da mesma forma para todas as pessoas.

Ele lembra que desigualdades atravessam a vida inteira: raça, gênero, identidade de gênero, orientação sexual, classe social. “Quando falamos de velhices, nós estamos falando de pluralidade”, resume. A ideia de “velhices”, no plural, tenta corrigir a imagem homogênea da pessoa idosa e expõe grupos que chegam à longevidade sob maior risco de violência, violação de direitos e isolamento.

Ao tratar especificamente das velhices LGBT+, Diego volta no tempo. Ele lembra que o movimento ganhou mais visibilidade a partir dos anos 1960, quando parte da população LGBT começou a se colocar publicamente. Esse gesto teve custo alto: “Muitas pessoas romperam vínculos familiares, porque, ao invés de receberem conforto e segurança, encontravam violência”, explica.

Longe de suas famílias de origem, essas pessoas formaram redes afetivas também conhecidas por famílias de escolha. O alicerce dessa rede, porém, foi abalado nas décadas de 1980 e 1990, com a epidemia de HIV/Aids. “As pessoas sobreviventes desse episódio são as que chegaram na velhice hoje”, diz Diego. Muitas perderam amigos, companheiras e companheiros, e envelhecem com redes de apoio fragilizadas.

Idadismo, saúde e medo de buscar cuidado

Além da história marcada por perdas e exclusões, essas pessoas enfrentam um obstáculo que atinge toda a população idosa, mas com impacto específico sobre quem é LGBT+: o idadismo, o preconceito baseado na idade. “Um dos aspectos que o idadismo traz é a invisibilidade da sexualidade e do gênero na velhice”, aponta.

Na prática, isso significa ver a pessoa idosa como alguém sem desejo, sem vida sexual, sem identidade de gênero que mereça atenção. Se esse apagamento já pesa sobre idosos em geral, o efeito se agrava quando se trata de uma mulher lésbica, de um homem gay, de uma pessoa trans ou travesti.

Diego cita pesquisas que mostram um padrão preocupante: “Muitas pessoas LGBT deixam de frequentar os serviços de saúde, de fazer exames preventivos ou acompanhamento médico, justamente por medo de sofrerem violência”. Esse medo nasce de experiências anteriores, em que não foram tratadas pelo nome social, tiveram sua identidade de gênero desconsiderada ou ouviram comentários discriminatórios.

Quando finalmente procuram ajuda, costumam esperar até o limite da dor ou da doença. E ainda correm o risco de enfrentar um atendimento violento, explícito ou sutil. Diego descreve situações em instituições de longa permanência para idosos em que o acolhimento é condicionado à ideia de que a pessoa LGBT precisa “se encaixar” em uma norma que nega quem ela é. Em alguns casos, pessoas trans são pressionadas a destransicionar para serem aceitas pela instituição. “Isso é perverso, é violento, é sutil, é silencioso e dói tanto quanto uma violência física”, resume.

Segurança, trabalho e renda: o impacto da exclusão

A discussão sobre saúde se mistura com outra camada de vulnerabilidade: a segurança financeira. Muitos idosos LGBT viveram na informalidade. Diego lembra que a escola, para uma parte das pessoas trans, era um ambiente hostil; o mercado formal de trabalho, pouco acessível; a discriminação, recorrente.

O resultado aparece agora, na velhice, em trajetórias marcadas por baixa renda, aposentadorias insuficientes ou inexistentes e dependência de redes de apoio que nem sempre existem. “São pessoas que sobreviveram a múltiplos processos de violência e demandam um cuidado maior em saúde mental”, explica. Depressão, pensamentos suicidas e isolamento social surgem como sinais de alerta.

Diego reforça que o isolamento é um fator central para a perda de autonomia e independência na velhice, o oposto do que se busca quando se fala em envelhecimento ativo: viver com dignidade, com possibilidade de decisão e com apoio adequado depois da aposentadoria.

Ambientes seguros e o papel dos profissionais

Uma parte importante da conversa passa pela formação de profissionais e pelo modo como eles se apresentam aos pacientes. Do preenchimento de um formulário à maneira de fazer perguntas, detalhes revelam se aquele espaço é acolhedor ou excludente.

Diego destaca um ponto simples, mas decisivo: abandonar perguntas que presumem heterossexualidade, como “qual é o nome do seu marido?” ao atender uma mulher. Para ele, o cuidado começa ao abrir espaço para que a própria pessoa nomeie sua realidade. Quando o serviço se mostra preparado para isso, a percepção muda. “Quando pessoas idosas LGBT chegam em um ambiente e percebem que há profissionais assumidamente LGBT, elas se sentem mais confortáveis e confiantes”, observa.

Em alguns países, profissionais aliados exibem símbolos, como a bandeira do arco-íris, para indicar que aquele consultório é um espaço sem discriminação. O objetivo não é criar um rótulo, mas sinalizar que a conversa sobre gênero e sexualidade pode acontecer sem medo.

Isso, porém, não elimina o risco de reforçar estereótipos. Diego alerta que, na tentativa de “fazer o certo”, serviços podem criar soluções que, na prática, segregam — como reservar um “quartinho” específico para uma idosa trans dentro de uma instituição, em vez de garantir o direito de ela viver no espaço das mulheres, em condições de igualdade.

Representatividade e a recusa da neutralidade

A presença de pesquisadores e profissionais LGBT na produção de conhecimento sobre velhices LGBT é outro eixo que Diego considera decisivo. “Não é o outro falar de nós, é nós falarmos sobre a nossa existência”, afirma.

Ele menciona o movimento de pessoas trans que reivindicam o direito de estudar e pesquisar suas próprias experiências de envelhecimento. A defesa é direta: políticas públicas, práticas de cuidado e pesquisas ganham outra profundidade quando formuladas por quem vive na pele as consequências do preconceito.

Nesse contexto, Diego rejeita a ideia de neutralidade como valor. A referência a Paulo Freire ajuda a organizar o raciocínio. “A neutralidade nada mais é do que a covardia de não se ter um posicionamento”, diz. Silenciar diante da discriminação não elimina o conflito; apenas cede espaço para que a estrutura de poder vigente siga intacta.

Ele lembra que já existem projetos de lei no Congresso voltados à criação de uma política nacional para pessoas idosas LGBT+, com foco na integração entre SUS (Sistema Único de Saúde) e SUAS (Sistema Único de Sistemas Sociais) e na qualificação dos serviços que já atendem a população idosa. A ampliação do acesso à educação, inclusive por meio de cotas, também é citada como caminho para que pessoas LGBT ocupem universidades, campos de pesquisa e espaços de decisão.

A dica Dez Por Cento Mais

Na parte final da entrevista, Diego volta a um ponto que atravessa toda a conversa: a importância de transformar gênero e sexualidade em temas que possam ser tratados em família, sem segredo nem tabu. “Vale muito a pena perguntar sobre a vivência dessas pessoas, escutar mais e supor menos”, recomenda.

Ele relata casos de alunos que, após suas aulas, perceberam que nunca tinham perguntado a um irmão gay como ele se sente nos lugares que frequenta, quais medos carrega, de que mudanças precisa para se sentir seguro. A sugestão de Diego é simples e direta: trazer esse assunto para a mesa, inclusive em um almoço de domingo.

Para as famílias que têm filhos, filhas, netos ou netas LGBT+, o recado é claro: a escuta pode ser ponto de partida para uma velhice com mais dignidade, menos isolamento e menos medo. E, para profissionais de saúde e para a sociedade em geral, a entrevista funciona como um convite à responsabilidade: reconhecer as velhices LGBT+ como parte legítima da população idosa e ajustar práticas, protocolos e políticas a essa realidade.

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Avalanche Tricolor: o sorriso da vitória

Grêmio 2 x 0 Vasco
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Gol de Carlos Vinícius Foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

“É gol…
Que felicidade!

O verso que atravessou décadas na voz do Trio Esperança ganhou fama nas transmissões esportivas do rádio e ainda ecoa no imaginário do torcedor brasileiro. Mesmo narrando um gol fictício do Flamengo, a música virou trilha de quem vibra diante da bola que estufa a rede. O refrão traduz um gesto simples e universal: o sorriso que surge sem pedir licença quando o time marca.

A quarta-feira, em Porto Alegre, foi guiada por esse sorriso — o de Carlos Vinícius, centroavante à moda antiga, daqueles que vivem da área e para a área. Até o segundo tempo, o Grêmio fazia um jogo em que era melhor, ocupava o campo adversário, trocava passes, mas não encontrava o caminho do gol. Coube ao camisa 9(5) desfazer o nó.

Pavón cruzou, como quem acende uma luz. Carlos Vinícius dominou na marca do pênalti, cercado, sem espaço e sem tempo. Controlou com a direita, girou com a esquerda e bateu forte. A bola entrou. E o estádio abriu o sorriso que estava preso desde o início da partida.

Outro que parece carregar um sorriso como parte do uniforme é Amuzu. O ponta belga, nascido em Gana, trata o drible como diversão e a velocidade como ferramenta. Atacou o jogo inteiro, insistiu, incomodou. No lance que selou a vitória, correu atrás do lançamento de Dodi, deixou a marcação para trás e finalizou com talento acima da média, tirando o goleiro da jogada.

O segundo gol trouxe alívio e alegria. O tipo de alegria que o torcedor reconhece no ato: aquele sorriso involuntário de quem sabe que os três pontos não vão escapar.

Com a vitória na Arena, o Grêmio respira, se afasta do perigo maior, reencontra um lugar mais confortável na tabela e volta a mirar um espaço nas competições sulamericanas. A noite termina e o torcedor se dá o direito de voltar para casa cantarolando pelas ruas de Porto Alegre:

“É gol…
Que felicidade!
É gol o meu time é alegria da cidade…”

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: o que as marcas podem aprender com o time do coração

Gremio x Juventude
Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

A relação mais estável da vida de muita gente não é com a cidade onde mora nem com a profissão que exerce: é com o time de futebol. Esse é o ponta pé inicial do comentário de Jaime Troiano e Cecília Russo no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, do Jornal da CBN, que se inspira nessa relação íntima do torcedor com seu time para extrair lições aos gestores de marcas.

Jaime começa fazendo um convite: “vamos pensar o seguinte: o que os donos de marcas esperam que seus clientes e consumidores sintam em relação a elas?”. Você dirá que é respeito, admiração, afeto, conexão, lealdade. A resposta parece óbvia, mas o caminho para construí-la é tudo menos simples. Por isso, Jaime propõe olhar para o território em que esses sentimentos são intensos, duradouros e, muitas vezes, irracionais: o futebol.

Vivemos em uma época em que quase tudo muda. Pessoas trocam de profissão, de cidade, de religião, de arranjo familiar. É a efemeridade descrita nos pensamentos de Zygmunt Bauman. Agora, quantas pessoas você conhece que mudaram de time de futebol? Se existem, são raridades. A comparação para as marcas é ainda mais cruel: quando um produto falha, o consumidor troca; quando o time cai para a segunda divisão, o torcedor continua. É só lembrar o caso do rebaixamento do Corinthians, em 2007, que acabou fortalecendo o laço com muitos dos seus torcedores e se transformou em um momento de comoção no ano seguinte.

Essa fidelidade absoluta é exatamente o tipo de vínculo que marcas gostariam de inspirar. Mas não se copia por decreto.

Cecília Russo retoma a discussão pelo lado emocional. Para ela, “as relações que ligam consumidores com marcas são acima de tudo de caráter emocional”. Características físicas e técnicas do produto ou serviço — como o nível técnico dos jogadores — são importantes, porém não sustentam sozinhas a conexão. O que mantém o vínculo é algo mais sutil, simbólico e intangível, que precisa ser cultivado com cuidado ao longo do tempo.

No comentário destacou-se também o papel da identidade. No futebol, o escudo, as cores, o uniforme e a bandeira carregam significados profundos, construídos em décadas de história. No universo das marcas, o paralelo está na identidade visual, no logo, nas embalagens e em todos os elementos que ajudam o consumidor a reconhecer de imediato quem está em campo. Marcas podem se atualizar, como times que lançam novos uniformes a cada temporada, porém sem desfigurar aquilo que é essencial. Quando essa essência é ameaçada, a reação costuma ser forte — e não apenas no estádio.

No fim, o paralelo com o futebol funciona como um espelho: mostra o quanto as marcas ainda estão distantes de construir relações tão sólidas quanto as dos torcedores com seus clubes.

A marca do Sua Marca

A ideia central do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso pode ser resumida assim: se querem torcedores, e não apenas compradores ocasionais, as marcas precisam cultivar vínculos emocionais, cuidar da identidade com rigor e jogar sempre para vencer, não apenas para “não perder”. Como resume Jaime, a expectativa do consumidor não é que a marca jogue pelo empate; é que ela se posicione bem em campo e dê orgulho de torcer por ela.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Conte Sua História de São Paulo: passeava no cavalo do Seu Oliveira antes de o Ibirapeura ser parque


José Luiz da Silva

Ouvinte da CBN

Quando ouvi o senhor Francisco Assunção Ladeira, em entrevista em 2001, dizer que, na época em que era vereador, em 1948, ao passar pelo Ibirapuera, deparou com vários garotos brincando e lhe veio a ideia de projetar um parque com toda a infraestrutura — o que realmente foi feito —, fiquei deveras emocionado. Talvez um dos garotos que ali brincavam pudesse ser eu mesmo!

Morei de 1945 a 1950 nessa região, precisamente na Rua Octavio Nébias com a Rua Maria Figueiredo. Eu e outros meninos éramos assíduos frequentadores do parque, que tinha muita área verde, vários campos de futebol, eucaliptos e lagos onde nadávamos e até andávamos de carona nos barcos.

Na rua em que eu morava, havia uma padaria que, dentro do estilo da época, tinha cocheiras, carroças e cavalos. O proprietário era o senhor Oliveira, um português nato que, após um sermão, me pedia para levar um dos seus cavalos para pastar. O objetivo do sermão, na verdade, era evitar que eu montasse no cavalo e, sempre com o dedão em riste e o linguajar enrolado, encerrava dizendo: “…intendesti, oh mulequi?” E eu respondia: “Sim, sinhô.” Só então, seu Oliveira liberava o animal.

Bastava descer a ladeira de terra da Rua Maria Figueiredo e adentrar a Rua Tutoia para aproveitar o barranco que havia no local — que servia de trampolim — e montar no cavalo. Cavalgávamos em passos lentos até o Ibirapuera, onde nos juntávamos a outras pessoas e a outros animais, como ovelhas e cabras leiteiras, cujas ordenheiras vendiam canecas de leite tirado na hora. Era uma delícia, tudo isso, no nosso Ibirapuera de antigamente.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

José Luiz da Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Mundo Corporativo: João Neves, da Thopen, fala do desafio de levar energia limpa do atacado ao varejo

Os bastidores da gravação online do Mundo Corporativo. Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“Nós vivemos em um período em que o nosso grande desafio é que a gente faça coisas de forma que não destrua o mundo. Conforme a gente conseguir colocar dentro dos nossos negócios processos e valores alinhados com isso, eu acho que vai fazer com que os negócios sejam mais duráveis e mais rentáveis.”

João Neves, Thopen Energy

Uma conta de luz errada, um detalhe técnico quase invisível e um ressarcimento de cerca de 6 milhões de reais. O caso se deu quando a Thopen Energy identificou que um cliente estava ligado fisicamente em rede bifásica, mas era cobrado como se tivesse uma ligação trifásica: na prática, “aquela conta ali vinha sempre um terço a mais”. O caso ilustra o que está em jogo na abertura do mercado de energia no Brasil: tecnologia, regulação e educação do consumidor combinadas para reduzir custos, dar liberdade de escolha e, ao mesmo tempo, empurrar empresas em direção a modelos mais sustentáveis. Esse foi o tema da conversa com João Neves, CRO e cofundador da Thopen Energy, no Mundo Corporativo da CBN.

Da conta de luz ao churrasco: quando a energia vira varejo

A Thopen nasceu em 2018 olhando para uma transformação que já aconteceu em outros setores. Neves faz um paralelo direto: “Está acontecendo com a energia o que aconteceu nos anos 2000 em Telecom e nos anos 2010 com os bancos”. Assim como um dia foi normal esperar meses por uma linha telefônica ou deixar dinheiro parado na poupança, ele enxerga na energia um movimento semelhante de migração do atacado para o varejo — com mais opções e mais pressão por eficiência.

Hoje, o mercado livre de energia é consolidado em países que começaram essa abertura há cerca de 20 anos. No Brasil, a transição ainda avança com mais lentidão. A Thopen se posiciona nesse intervalo: quer “dar liberdade, empoderar os clientes para que eles possam consumir energia da melhor forma possível”, tanto pelo lado da oferta (de quem fornece) quanto da demanda (de quem consome).

Esse trabalho passa por reler a conta de luz. Segundo Neves, em sistemas que processam milhões de faturas “naturalmente” surgem erros. A diferença está no que se faz com eles: a empresa cruza dados físicos da ligação com as informações da distribuidora, identifica incoerências tarifárias e aciona a concessionária para ressarcir o cliente. No caso emblemático citado na entrevista, o ajuste gerou cerca de 6 milhões de reais devolvidos.

Ao mesmo tempo, a Thopen opera em um setor altamente regulado e projeta crescimento: hoje fatura entre 500 e 600 milhões de reais por ano e trabalha com a meta de chegar a 1 bilhão. São cerca de 300 funcionários diretos e uma cadeia produtiva que envolve algo em torno de 20 mil pessoas, entre representantes e parceiros comerciais. “As pessoas estão descobrindo que essa é uma forma delas ganharem dinheiro”, resume.

Um mercado cheio de possibilidades e desconfianças

O avanço do mercado livre exige menos improviso e mais método. Neves descreve o setor de energia como “um mercado que está abrindo, um mercado que está cheio de possibilidades”, mas faz um alerta: “É fundamental que esse processo educacional seja feito da melhor forma possível. Então, pessoas que conseguem conversar com pessoas fazem bastante diferença”.

Essa ênfase na educação tem uma razão prática. No Brasil, onde golpes e promessas fáceis fazem parte do imaginário cotidiano, a primeira reação à oferta de conta mais barata costuma ser a suspeita. Na entrevista, ele sintetiza o pensamento do consumidor diante de uma proposta de pagar 10% a menos: “Qual é o primeiro pensamento do cara? ‘Onde é que ele está levando vantagem? Que falcatrua tem aí?’”.

Daí a insistência em credibilidade e transparência como condições de crescimento: “O essencial na estruturação da empresa vai ser a gente conseguir entregar os ativos que a gente tem que entregar e criar credibilidade no mercado para que eles possam usar os produtos que nós temos”. Em outras palavras, reduzir a conta é importante, mas não basta. É preciso provar que a economia não vem acompanhada de risco ou de armadilha contratual.

Essa mudança também reorganiza a lógica de atendimento. No atacado, um executivo pode cuidar de um cliente que movimenta 20 milhões de reais por mês. No varejo, a realidade é outra: é preciso desenvolver sistemas que gerem informação e valor para contas de mil reais, com alto grau de automação, sem perder a capacidade de corrigir problemas rapidamente. Neves resume: “No atacado, ele pode ser mais artesanal. O varejo não, senão ele morre”.

Tecnologia, IA e o papel do CRO

O cargo de João Neves ajuda a entender a engrenagem. “Essa foi uma invenção do presidente da empresa”, brinca, ao explicar o que faz um CRO, Chief Revenue Officer — em tradução livre para o português, CRO é o Diretor Executivo de Receitas. Sua missão é “fazer com que a gente tenha um negócio sustentável, começando lá do institucional, o marketing, publicidade, até geração de lead, de venda, faturamento, crédito, cobrança e colocar esse dinheiro no caixa”. Na prática, o CRO acompanha toda a jornada da receita, da construção de reputação ao pós-venda. Esse desenho exige processos claros e métricas bem definidas. Para formar equipes, Neves aponta três requisitos: “Você precisa ter entregas super claras, um processo muito bem desenhado para chegar até ali e ferramenta para medir — e medir a coisa certa”. No tipo de negócio da Thopen, isso significa acompanhar ao mesmo tempo a relação com o consumidor, com a distribuidora e com os geradores de energia.

A tecnologia é o eixo dessa operação. A empresa montou uma frente específica de inteligência artificial, com dois focos: vendas e experiência do cliente. “A gente pegou todos esses processos, começou a digitalizar tudo e tem uma parceria com uma empresa da Califórnia, com um LLM proprietário”, conta. O objetivo é usar modelos de linguagem em tarefas que vão do relacionamento comercial até o pagamento, para “entregar valor para os nossos clientes”.

Energia limpa como valor social

No fim da entrevista, o tema se abre para além das faturas. Neves trata a energia limpa como questão técnica, mas também cultural e social. Ele amplia o horizonte do negócio: “Nós vivemos em um período em que o nosso grande desafio, como sociedade, é que a gente faça coisas de forma que não destruam o mundo”. Isso inclui medir impactos, entender o que emite mais ou menos carbono e desenvolver mecanismos — como o mercado de carbono — que incorporem esse custo às decisões.

Para ele, essa não é apenas uma demanda regulatória. É mudança geracional. “Acredito que as novas gerações não vão aceitar fazer alguma coisa que elas achem que seja suja”, diz. A imagem que usa tem forte apelo visual: lembra a época em que se fumava em aviões, com área de fumante e não fumante no mesmo ambiente. Imagina a reação dos filhos se alguém acendesse um cigarro dentro da cabine hoje: “Eles vão achar que é um terrorista e que vão explodir aquele avião, porque não vão entender nada”.

No dia a dia, essa sensibilidade já aparece na decisão de compra: “A tomada de decisão dele, quando ele percebe que aquilo é uma coisa sustentável, é bem mais rápida. Ele se sente mais tranquilo em fechar uma compra”. A lógica vale para contas de energia, mas também para qualquer empresa que transforme obrigações regulatórias em oportunidade de negócio. Quem conseguir alinhar processo, tecnologia e propósito ambiental tende a ganhar vantagem competitiva em mercados que passam a valorizar, também, a origem da energia que consomem.

Ao projetar o futuro da Thopen, Neves fala em crescimento interno e em expansão internacional, atrelados à evolução regulatória brasileira: a ideia é desenvolver, aqui, modelos de negócio capazes de competir em outros países, gerar empregos qualificados e exportar tecnologia. Nas palavras dele, o desafio é “gerar valor para as pessoas, para os clientes, e que isso seja competitivo em qualquer lugar do mundo”.

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A falta

Dra. Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Certeza, segurança, confiança, esperança, amor.

Há coisas que, quando faltam, esburacam.

Nossa ansiedade transborda quando perdemos algo que tínhamos ou quando não temos algo de que tanto precisamos.

A falta esburaca e abre um espaço que parece nos deixar frágeis. Sem preenchimento, como vamos nos sustentar?

Vem aí uma questão: o que, de fato, nos sustenta? O que as outras pessoas ou a vida podem nos dar que traga completude?

Nós vivemos buscando: dinheiro, elogios, reconhecimento, experiências novas ou intensas, relacionamentos amorosos, felicidade. Vamos testando tudo para ver se preenchemos essa falta. E parece uma busca sem fim.

Quando conseguimos uma coisa, parece não ser suficiente. Quando construímos uma relação, passa a ser um problema na nossa vida. Corremos, corremos, cansamos… e nada.

O convite hoje é: vamos parar? Parar para perceber onde estamos, de onde viemos, quem já fomos no passado, quais já foram nossos sonhos.

Vamos parar e entrar nesse mundo interno único? O que podemos encontrar nele, além da falta? O que há de memória e de atual nos ocupando?

Sim, sempre haverá falta. Sim, isso nos fragiliza. Em se olharmos o que já temos? O que podemos fazer com o que nos ocupa por dentro? Que esse algo que já existe em nós seja terreno para novas construções. Nós mesmos ocupando nossas faltas.

A Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é psiquiatra, psicoterapeuta e sócia fundadora da LuxVia Health Center. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: três lições que as pequenas marcas ensinam sobre permanência

Imagem: divulgação

A força de uma marca pode estar mais perto do chão da rua do que dos luminosos das grandes capitais. A constatação é de Jaime Troiano, que trouxe para o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso as três ideias centrais que pautaram a apresentação dele, ao lado da filha Beatriz Russo Troiano (líder de Estratégia da TroianoBranding), no palco da Latam Retail Show, evento internacional de varejo.

A primeira ideia que surgiu da reflexão sobre as marcas regionais espalhadas pelo Brasil pode ser resumida em uma frase: “A marca sou eu, eu sou a marca.” Isso é resultado da proximidade quase visceral entre empresas locais e seus consumidores. A fronteira entre quem produz e quem compra é tão curta que, muitas vezes, há sempre alguém da família, do bairro ou da rua que já trabalhou ali. Esse vínculo não se inventa em área de marketing; nasce da convivência.

Memória vale mais que disputa por atenção

Jaime trouxe outro ponto central: a corrida por atenção no mundo digital não garante memória. Ele descreveu o bombardeio de estímulos que enfrentamos — stories, reels, notificações, prateleiras de supermercado. Nesse ambiente ruidoso, marcas regionais mostram um caminho simples e eficiente: entrar na memória é mais poderoso do que disputar segundos de atenção. Para ele, marcas fortes, ainda que pequenas, são feitas de rastros emocionais.

Cecília Russo apresentou a terceira ideia para entender o que essas marcas, muitas vezes escondidas do grande público, têm a ensinar: “Quando a empresa carrega como parte da sua razão de ser a família, a essência da marca não é apenas estratégia: é legado.” Muitas empresas regionais nascem de vínculos familiares, e isso altera tudo. A marca é tratada como uma história que não pode ser traída. Evolui, mas não rompe suas raízes. O exemplo das Balas de Banana Antonina, no Paraná, ilustra bem esse espírito: criadas há 50 anos por pai e filho, carregam até hoje a mesma alma.

Essa combinação de proximidade, memória e legado revela uma provocação: e se o futuro das marcas não estiver no tamanho, mas na profundidade da relação que criam?

A marca do Sua Marca

O comentário deixa uma síntese clara: marcas regionais ensinam permanência, fidelidade e respeito às próprias origens. Como disse Jaime, Golias sempre tem algo a aprender com David.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Conte Sua História de São Paulo: “Óhh! Masp e suas obras, não me despreze no olhar”

Expedito Peixoto

Ouivnte da CBN

Avenida Paulista

Óhh! Consolação, me consola; não brigues

Com Luís Antônio, o Brigadeiro; convença-o me advogar  

Da fortuna de Peixoto Gomide

Lhe peço a gentileza de me acertar

Me presenteie um trem de dinheiro

Pra no meu Araripe despejar

Óhh! Paulista da Boa Vista

Ao Dr. Arnaldo, me conduza

Me eleve ao topo, ao mirante

Com breve pausa na Augusta,

De lá me faça ver o Paraíso pulsante

De oportunidades reais, robustas.

Óhh Masp e suas Obras

Não me despreze no olhar

Me ilumine com suas artes

Ajude-me a leveza me levar

Vá ao ápice da mente dos astros

Me induza a pensar o seu pensar.

Óhh império das indústrias

Produza frutos pra conosco ratear,

Óhh terra berço do comércio

De suas rendas, vamos partilhar?

Não deixes o Leão, nem Haddock Lobo

Pão, leite e bom vinho nos faltar.

Óhh, imensos prédios e torres

Protejam-me e não me deixes parar

Me façam viajar às alturas

Pra com amplitude enxergar

Encha meu coração de sabedoria

Pra no meu Sertão poetizar.

Óhh!, Metrô, linha verde, em trilhos

Quantas e quantos a transportar

Oriente-me e me mantenha na linha

Una todas suas forças a me focar

Me eleve pro alto fora do túnel

Guia-me pra com leveza voar.

É Paulista!!! É que nasci pequenino

Longe!, bem longe, distante de cá

Lá viví a infância e juventude

Depois me debandei de lá para cá

Aqui labutei, cresci, resisti, até ri

Mas nunca esqueci, a saudade de lá.

Óhh Paulista!, reembolse-me energias,

Não é que eu queira te deixar;

O segredo é que tenho uma dívida

Só serei (imenso) feliz se quitar…

Desejo é retornar pro meu sertão  

E minha imensa saudade matar.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Expedito Peixoto da Paz é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Ouça outros capítulos da nossa cidade no meu blog miltonjung.com.br ou no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Mundo Corporativo: André Clark, da Siemens Energy, fala do desafio de transformar o potencial energético do Brasil em desenvolvimento

Bastidor da entrevista online de André Clark Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“O Brasil é uma potência energética, não só na produção de energia, mas na cadeia de valor da energia.”
André Clark, VP Siemens Energy

O Brasil está numa posição rara no mundo: tem energia renovável em larga escala, uma malha de transmissão avançada e agora começa a atrair data centers e novos investimentos porque consegue oferecer eletricidade verde e em quantidade. Mas, segundo André Clark, vice-presidente sênior da Siemens Energy para a América Latina, isso não garante por si só que o país liderará a transição energética, é preciso organizar setor privado, governo e sociedade para implementar o que o mundo já decidiu fazer em clima. Esse foi o tema central da entrevista dele ao programa Mundo Corporativo, na CBN.

Clark lembrou que o país não chegou ao atual patamar por acaso “O Brasil é um país que produz 92% da sua eletricidade de forma renovável. Não chegou aqui à toa e certamente não por acidente. Foi com políticas públicas muito bem feitas que datam da década de 60”, afirmou, citando hidrelétricas, Proálcool, eólica e solar como escolhas feitas ao longo de décadas. Ele também destacou o papel diplomático brasileiro no tema: “O Brasil é um líder geopolítico disso. Na Rio 92 inicia a discussão do conceito de sustentabilidade na sociedade e nos negócios.”

Transição energética não é teoria: é implementação

Ao analisar a preparação do país para a COP30, em Belém (PA), Clark chamou atenção para o fato de que o debate climático está mais difícil no cenário internacional, mas que isso não pode servir de desculpa para a inação. “A humanidade ainda tá lutando para não aquecer mais de 1,5ºC, mas nós estamos perdendo essa corrida e nós vamos ter que correr muito mais, eletrificando os transportes, reduzindo o consumo de hidrocarbonetos e mudando o nosso estilo de vida como pessoa. O planeta não aguenta tudo isso que nós estamos fazendo.”

Para ele, a COP30 será uma conferência de execução: “Ela celebra 10 anos do Acordo de Paris e ela é uma COP da implementação.” Por isso, o setor privado brasileiro precisa chegar unido, com propostas concretas. “A primeira lição de casa do setor privado é se unir em uma agenda comum brasileira e construtiva.”

Clark fez um alerta que interessa diretamente ao país: o mundo, hoje, corre atrás primeiro de segurança energética, e só então de transição energética. O Brasil, ao contrário, vive um momento de excesso de energia renovável — e isso também exige gestão. “O mundo não tá preparado para acumular energia em larga escala. A energia produzida tem que encontrar do outro lado um consumo. Se ele não encontra esse consumo, o operador nacional do sistema tem que fechar aquela fonte.”

Na prática, isso significa que o país precisa acelerar soluções como armazenamento, baterias, hidrelétrica reversível e, principalmente, atrair consumidores intensivos de energia — caso dos grandes data centers e, no futuro, da produção de hidrogênio verde. “Nós estamos vivendo excesso de energia. Por isso que hoje o Brasil começa a atrair data centers, grandes devoradores de energia.”

Cadeia de valor, empregos e formação profissional

Ao falar da atuação da Siemens Energy no Brasil, Clark explicou por que produzir equipamentos no país é questão estratégica: “Tudo que a gente produz são equipamentos ultracríticos para o sistema energético de um país. Ter fabricação no país é um ativo estratégico, é quase uma questão de soberania nacional.” Segundo ele, a presença industrial no Brasil permite atender emergências e ainda exportar.

Esse movimento vem acompanhado de outra transformação: a dos empregos. A transição energética, afirmou, já está criando demanda por mão de obra técnica. “A transição energética vem junto com o que a gente chama de green jobs e esse green jobs, apesar de parecer só um mistério, é eletricista, técnicos em eletrônica, programadores, programadores de sistemas energéticos… coisa que existe hoje, só que em um volume muito maior.” Ele citou, inclusive, a decisão de direcionar recursos para formação no Pará, em vez de levar uma grande comitiva à COP.

Diversidade como proteção empresarial

Na parte final da entrevista, Clark ligou transição energética, cultura e gestão de pessoas. Para ele, empresas que se afastam da sociedade correm mais riscos. “Diversidade nos enriquece, reduz os riscos e nos faz enxergar os momentos em que a sociedade muda. Os grandes incidentes empresariais na última década foram quando a empresa perdeu visão da mudança da sociedade. Diversidade conecta a empresa à realidade da sociedade.”

Ele defendeu que organizações mantenham canais abertos para ouvir mulheres, negros e população LGBTQIAP+ sobre obstáculos internos. “Não é sobre como a gente erra, é sobre como a gente corrige os nossos erros.”

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Letícia Valente.