Avalanche Tricolor: os “Heróis de 1977” voltam a campo!

 

 

Santos 1×0 Grêmio
Brasileiro – Vila Belmiro/Santos-SP

 

 

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O gol do título de 1977 em foto de Armênio Abascal Meireles

 

 

Havia futebol no fim de semana. E quase todos os jogos estavam marcados para domingo porque o Campeonato está na reta final. Verdade seja dita: pra maioria de nós já terminou. O que esperávamos levar no Brasileiro já levamos. Daqui pra frente é envergar nossa camisa tricolor e chegar até a última rodada com dignidade e com a força que tivermos à disposição – se ficarmos com o vice campeonato, melhor, pois assim embolsaremos alguns milhões a mais. Claro que insisto em querer ganhar cada partida que disputamos e me irrito com a falta de gols quando esses não aparecem, mas enxergo com clareza a dimensão de cada momento. E nosso momento hoje é outro, distante do Brasileiro.

 

 

Além de futebol, havia um feriado estendido aqui em São Paulo, que se iniciou no sábado e se encerra nesta segunda-feira quando é comemorado o Dia da Consciência Negra. Aproveitei esses três dias, quatro se contar a sexta-feira, para ler um livro que comprei no feriado anterior, no Dia da República.

 

 

Estive em Porto Alegre e visitei a Feira do Livro por razão já suficientemente explorada nesta Avalanche. Lá o professor Paulo Ledur, ao me levar até a banca da AGE, editora que ele mantém como um competente militante da literatura, apresentou-me “Heróis de 77 – a história do maior campeonato gaúcho de todos os tempos”, escrito pelo gremistão Daniel Sperb Rubin. Dito isso, você, caro e raro leitor desta Avalanche, começa a entender porque escolhi para ilustrar este texto a imagem eternizada pelo fotógrafo Armênio Abascal Meireles, que morreu precocemente em um acidente de carro.

 

 

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Rubin foi minucioso ao contar a história daquele título regional que transformou nossa história. Pesquisou em jornais e revistas, leu cada reportagem e crônica esportiva produzida na época. Vasculhou sua memória e a de dezenas de outras testemunhas daquele feito. E como todo gremista que se preza pintou cada momento de azul, preto e branco.

 

 

O “Gaúcho de 1977” foi o primeiro título que ganhei como gremista. Ao menos o primeiro que participei como tal. Antes dele, havíamos vencido em 1968, mas eu tinha apenas cinco anos. Curiosamente, a primeira lembrança que tenho relacionada a futebol é de um ano depois, em 1969, quando meu pai protagonizou uma cena que foi definitiva para minha paixão pelo Grêmio – sobre essa, porém, falaremos em outra oportunidade se assim você quiser, caro e raro leitor.

 

 

Vínhamos de uma sequência de oito campeonatos perdidos, de uma descrença que já começava a marcar nossa alma. Vencer era preciso, contra tudo e contra todos, como nos lembra cada capítulo do livro de Rubin. A medida que folheava “Heróis de 77” fui relembrando de lances que assisti ao vivo, dos jogadores que admirava, das polêmicas que marcaram aquela conquista, dos pênaltis não sinalizados e dos clássicos disputados na bola e na porrada.

 

 

Eu estava no Olímpico, sentado ao lado de meu pai, nas cadeiras azuis e de ferro frio que formavam o anel superior do estádio, naquele diz 25 de setembro de 1977. Rubin estava como o pai dele no anel de baixo, onde ficava a social do Grêmio. Por coincidência, sentamos do lado esquerdo das cabines de rádio, ao lado da goleira em que André Catimba marcou o gol do título e protagonizou o salto “imortal” registrado por Armênio. Como se sabe, André não completou a comemoração, sentiu uma lesão e caiu ou caiu e sentiu uma lesão. Teve de ser substituído por Alcindo, mas conquistara para sempre lugar entre os titulares do nosso coração.

 

 

Diante da conquista do Mundial, das Libertadores já comemoradas, dos Brasileiros vencidos e das Copas do Brasil enfileiradas, pode causar estranheza para você, caro e raro leitor, um autor dedicar 285 páginas de um livro para o “Gaúcho de 1977”. Assim como pode parecer distante as façanhas de 40 anos atrás para ilustrarem essa última Avalanche antes da final da Libertadores de 2017, que se inicia na quarta, dia 22 de novembro.

 

 

Saiba, porém, que, como o próprio Rubin muito bem descreve na introdução do livro, não haveria Mundial, Libertadores, Brasileiros e Copas do Brasil não houvesse aqueles “Heróis de 77”: “… foi um divisor de águas, que forjou a personalidade do clube a ferro e fogo, lançando-o para o futuro cheio de glórias, conquistas e façanhas quase impossíveis”.

 

 

Só se tornou possível Marcelo Grohe, Edílson, Geromel, Kannemann e Cortez; Jailson, Arthur, Ramiro; Luan, Fernandinho e Barrios entrarem em campo, nesta quarta-feira, na Arena Grêmio, para buscar o Tri da Libertadores, porque existiram Walter Corbo, Eurico, Oberdan, Anchieta, Ladinho; Vitor Hugo, Iura e Tadeu Ricci; Tarciso, André e Éder.

 

 
Vai ser muito bom ver todos aqueles “Heróis de 77” em busca de mais uma façanha!

Avalanche Tricolor: Nem que seja no grito

 

Grêmio 1 x 0 Guarani
Brasileiro – Olímpico Monumental

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O centenário do Corinthians tomou conta do noticiário esportivo, nesta quarta-feira. A festa preparada pelo clube à sua torcida encheu o Vale do Anhangabau, na noite passada e virou a meia-noite. As emissoras de Tv, em especial os canais especializados, entrevistaram corintianos ilustres, remexeram em seus arquivos e prepararam programas especiais. Poucos gols foram tão repetidos como o de Basílio, em 1977.

E aqui começa a explicação pelo parágrafo acima estar dedicado a um outro clube que não o Imortal Tricolor.

Foi em 1977, também, que assisti ao primeiro título do Grêmio em sã consciência. A última conquista havia sido em 1968 e eu, muito menino, ainda não tinha o futebol entre minhas prioridades. Se em São Paulo, o Corinthians encarava 23 anos sem vencer o campeonato estadual, no Rio Grande do Sul, estávamos há oito anos na fila. E sempre perdendo para o mesmo adversário – mesmo quando jogávamos melhor. Tempos difíceis aqueles.

Alguém dirá que difícil é a fase que enfrentamos atualmente. Desde a derrota na semi-final da Copa do Brasil, o time perdeu o rumo, se distanciou de sua história, ficou pequeno apesar de seu elenco. As más línguas e o olho gordo chegaram a desenhar uma queda para a segunda divisão, apesar de faltarem tantos jogos até o encerramento do Brasileiro.

A situação realmente não é simples. Mesmo este espaço que costuma encontrar em pequenos casos grandes histórias para enaltecer o Grêmio tem andado desconfiado do desarranjo que o time vem enfrentando. Problemas que não se resumem aos jogadores e ao comando técnico. Que se iniciam na administração do clube com repetidos erros de decisões.

Nada se compara, porém, aqueles anos que antecederam 1977. O Grêmio era um time de poucas pretensões, por maior que fosse a alegria de vencer um Gauchão. Contentava-se em derrotar o adversário mais próximo e assistir aos jogos do Campeonato Brasileiro com jeito de quem era apenas um coadjuvante.

Nossa história começou a mudar naquele ano. Ali começamos a construir a consciência de que éramos muito maior do que imaginávamos. Que nossas fronteiras teriam de ir além da bacia do rio Uruguai. E se iniciou a trajetória a caminho da conquista do Mundo.

Toda vez que o gol de Basílio era repetido na tela da TV ou a sua narração era reproduzida no rádio, hoje, eu teimava em lembrar do gol de André Catimba, no estádio Olímpico.

Agora à noite, quando assisti ao Grêmio vencer por apenas um a zero tentei encontrar em campo resquícios daquele time, quem sabe em mais um exercício da minha alucinação revelada na Avalanche Tricolor do domingo passado.

Se entre os jogadores que se esforçaram para alcançar este resultado não tive sucesso nas minhas pretensões, ao menos a torcida me ofereceu uma bela oportunidade ao tomar boa parte das arquibancadas e gritar pelo seu time independentemente da apresentação que este fazia.

E foi nela que encontrei não apenas uma relação com aquele título de 1977 mas a certeza de que nós seremos capazes de superar mais esta fase. Nem que seja no grito.