Conte Sua História de SP: morei ao lado dos galinheiros da 25 de Março

 

Por Eduardo Britto
Ouvinte da CBN

 

 

Tenho 53 anos, nasci no Hospital do Servidor Público Estadual, mas como no dia seguinte minha mãe já estava em casa, na rua 25 de Março, considero que nasci bem no centro da cidade, entre o Parque Dom Pedro II e o Pátio do Colégio.

 

Naquele tempo, segunda metade da década de 1960, a rua 25 de Março já tinha um comércio forte. Nada parecido com o volume e a ebulição do comércio atual. Na verdade, o quarteirão em que eu morava, os primeiros 200 metros dessa rua tradicional, até hoje tem um movimento bem diferente do resto da rua. Naquela época alternava comércio de tecidos e galinheiros — isso mesmo, havia um grande comércio de galináceos naquele trecho. Bem, as aves foram embora, algumas lojas de tecidos estão lá até hoje, mas é um trecho, digamos, bem parado e decadente.

 

Tive a chance de conhecer o Parque Dom Pedro ainda com flores e jardins. Em volta do Palácio das Indústrias havia um tanque e chafariz com peixinhos vermelhos! Isso mudou quando começaram as obras do metrô nas praças Clóvis Beviláqua e Sé, e os ônibus que faziam ponto final lá mudaram para o novo terminal no Parque Dom Pedro II, que perdeu o verde, ganhou asfalto e cimento, nunca mais foi o mesmo.

 

Joguei muita bola na praça Fernando Costa, no encontro da 25 de Março com a rua General Carneiro, onde havia um grande gramado e árvores, uma praça que parecia do interior. Hoje ela está soterrada por barracas de comércio ambulante…

 

Em 1972, eu tinha nove anos, mudamos para o Bixiga. Mudamos só no meio daquele ano, e como eu tinha que começar o ano letivo já na escola nova, passei a tomar um ônibus, linha Previdência da CMTC, às 6h30 da manhã, no Parque Dom Pedro II — o ônibus que me deixava na rua da Consolação, na Escola Estadual Marina Cintra. O grande desafio era conseguir descer naquela altura da Consolação, pois o ônibus era hiper-lotado, e algumas vezes eu estava antes da catraca —-naquela época entrávamos pela porta de trás — e só conseguia descer quando o ônibus desovava a maioria dos passageiros, no Hospital das Clínicas.

 

Numa das vezes, lembro muito bem, eu desci lá nas Clínicas e, tendo perdido a hora, e querendo economizar o dinheiro da volta, desci a pé a Consolação, passei na frente da escola e continuei descendo, atravessei o Viaduto do Chá a rua Direita, a rua General Carneiro. Fui até a minha casa. Quantos quilômetros a pé e com apenas nove anos. Os pais naquela época não se preocupavam com os filhos andando na rua; e realmente não tinham razão para se preocupar.

 

Fiz o ginásio no Marina Cintra. Já o colegial me permitiu ter um dos maiores orgulhos de minha vida acadêmica: através de um “vestibulinho” consegui entrar no Colégio Caetano de Campos, coisa que a minha mãe sempre tentou no passado e não conseguiu, porque era uma escola estadual das elites. Em 1977, fiz o 1º ano do colegial naquele prédio suntuoso do Caetano de Campos, e já no ano seguinte, 1978, o prédio deixou de ser usado como escola para as obras da linha vermelha do metrô. Então, uma parte dos alunos foi para o novo e moderno prédio do Caetano, na Pires da Mota, na Aclimação, e um grupo, eu incluso, foi para a unidade do Caetano que ocupou o belo casarão da antiga escola alemã, o Colégio Porto Seguro, na praça Roosevelt.

 

Era uma época em que eu e toda minha geração tivemos a oportunidade de conhecer uma escola pública de muita qualidade, em São Paulo.

 

Eduardo Britto é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: minha cidade caleidoscópica

 

Por Carolina de Medeiros Cecatto

 

A São Paulo em que nasci é a cidade onde vou trabalhar desde os meus vinte anos. Não que eu tenha longeva idade, mas desde pequena já dava meus passinhos por ela. Aos 7, fazia exames na Vila Mariana, bairro em que nasci por sinal, porque logo precisei usar óculos e tampão. E minha nossa! Ia com minha mãe de metrô, e como eu adorava aquilo! Nunca achei em minha vida que entenderia os entremeios das linhas daquela lombriga de ferro – assim como nunca imaginei que essas linhas cresceriam tanto como agora, tanto como eu cresci.

 

Hoje, domino e escolho as plataformas, guiada às vezes pelo instinto das grandes massas, costurando entre elas, vislumbrando pessoas, paisagens e concretos: são os violinistas das estações de metrô, é aquela avenida de uma vida inteira chamada Paulista, são os adolescentes de cabelos coloridos e fãs de mangá nas escadarias da Liberdade, é o verde imperial do Parque da Independência, é o corre-corre, o compra-compra da 25 de Março, é a miscelânea abençoada de coisas que vejo e reparo e que me fazem sentir mais deslumbrada.

 

O lugar mais cosmopolita, de gente mais desconfiada, é a cidade mais acolhedora, acredite! Nos dias de chuva fica mais poética, mais indiferente e triste, mas é esse o seu charme. É de se ver o colorido da noite nas baladas, corpos e sinestesia e fluidos, é nelas que vinga um pouco de Sampa. Bate também o coração dessa cidade com o tráfego diário de carros, buzinas e xingamentos, e aquela palavrinha que todo paulistano detesta já é praxe: congestionamento.

 

Vibra a cidade com seus vários times valentes e pioneiros, além de tudo tradicionais, que jogam bola e dão brilho e paixão nos olhos da gente. Permeiam seus muros os grafites psicodélicos, sem contar as calçadas e as ruas com várias pernas malabares sobre seus skates e patins, a correria para pegar o ônibus – o lindo caos diário que tudo isso encerra!

 

É a cidade cheia de registros, de mistura fina, de seriedade, de inegável disposição, de comércio, da pizza mais gostosa, dos edifícios mais audazes e cinzas, da gente mais diversa e colorida. É a cidade que não desliga, nem pisca. É a minha São Paulo caleidoscópica.

 

Conte Sua História: Retalhos de minha infância

 

Márcia OvandoA invasão da rua 25 de Março ainda não havia ocorrido, apesar de as lojas de confecção já estarem lá, quando Márcia Ovando se mudou com os pais e as irmãos – o irmão mais novo ainda não havia nascido. Fez amigos e conhecidos, muitos dos quais continuaram a visitá-la quando deixou o apartamento da 25 por uma casa em Moema, outro bairro que tinha cenário distante daquele que conhecemos, atualmente.

Márcia foi personagem do Conte Sua História de São Paulo quando contou lembranças dos tempos de meninas. No depoimento ao Museu da Pessoa, descreveu com emoção a prisão do pai, vítima do regime militar, e com alegria a vivência com famosas personalidades da televisão.

Ouça o depoimento de Márcia Ovando, sonorizado por Cláudio Antonio

Você também pode participar. Agende uma entrevista pelo telefone 2144-7150 ou no site do Museu da Pessoa e Conte Sua História de São Paulo.

Pauta do dia no #cbnsp 25.03.10

 

25 de Março em dia de aniversário

O quarto dia do julgamento do caso Isabela é marcado pelo depoimento do pai e da madrastra da menina. Os repórteres da CBN atualizam as informações na programação, no site e no Twitter. No CBN SP, juiz eleitoral esclareceu a decisão do TRE sobre o primeiro recurso de um dos 23 vereadores cassados em primeira instância (leia mais no post acima) e o secretário Estadual de Educação Paulo Renato Souza respondeu às críticas em relação ao processo de avaliação do magistério. Além disso, lembramos o aniversário da 25 de Março (foto de Cátia Toffoletto)

Greve dos professores – O sistema de avaliação do magistério leva em consideração a assiduidade, tempo de permanência na mesma escola e resultado em exame promovido pelo Estado. O secretário de Educação Paulo Renato Souza disse, ainda, que com este método o professor não é prejudicado pela diferença de estrutura oferecida em cada escola ou cidade. Depois de ouvir a entrevista com Paulo Renato aqui aproveite e acompanhe a conversa que tivemos com dois professores da área de educação sobre o mesmo tema que também está na página da CBN.

Festa da 25 de Março – Das mais famosas ruas de comércio popular do Brasil, a 25 de Março comemorou 145 anos com posto de policiamento novo e número reduzido de camelôs, cenário diferente daquele com o qual os paulistanos se acostumaram. A repórter Cátia Toffoletto foi a sua rua preferida e conversou com comerciantes e consumidores

Esquina do Esporte – Chamaram de Dia da Zebra, mas não chega a surpreender o mau futebol jogado pelos grandes de São Paulo, exceção feita ao Santos. Quem comentou a rodada do Campeonato Paulista foi o Victor Birner.

Época SP na CBN – Três bons programas vão deixar muito paulistano em dúvida na hora de escolher qual show assistir: Frank Jorge, Banzé e Thiago Pethit, nas dicas do Rodrigo Pereira

Piratas e picaretas da sociedade moderna

 

Por Rosana Jatobáhttp://www.flickr.com/photos/paratyemfoco/

Depois de bater perna pela Oscar Freire, atraída pelas vitrines em liquidação, Patricia avisa à amiga:

-Preciso ir na 25 de março. Tenho que comprar minha Gucci. Soube que os coreanos estão fazendo cópias perfeitas!
– E se alguém descobrir que é falsa?
– Do jeito que eu sou fina e descolada, a maioria vai olhar pra mim, arder de inveja e constatar : ela é bem-sucedida! No meu metier, é preciso usar certos ícones de status social…
-Você não acha melhor ir até a loja da Gucci no shopping e investir numa bolsa verdadeira? Você terá um produto de qualidade, que suas netas poderão herdar. Veja o custo-benefício.
– Você acha que eu tenho R$ 3 mil pra dar numa bolsa?
– Mas eles dividem em até 5 vezes no cartão.
– Nem se dividissem em 20 vezes! Acho um absurdo a ganância desses  empresários da moda internacional.
– E quem paga a pesquisa feita pra desenvolver um produto como este? Quem paga a matéria-prima de primeira?  E o trabalho artesanal? Já ouviu falar em propriedade intelectual?
– Não sei quem paga. Eu é que não pago!!

A conversa se esvazia na abordagem superficial dos direitos do autor.

Enquanto isso, do outro lado do mundo, O jornalista italiano Roberto Saviano lança o livro Gomorra, em que revela o modelo de produção de grifes italianas. Para reduzir os custos, tercerizaram os serviços de tecelagem, normalmente em países da Ásia, por meio de um sistema de concorrência.

A grife desenha as roupas e entrega os modelos para inúmeras pequenas confecções. Imigrantes ilegais trabalham dia e noite, num regime análogo ao da escravidão,obrigados a produzir mais e em menos tempo. A confecção que ganha a concorrência é paga. Quem perde, não ganha nada, mas pode ficar com as roupas produzidas. Este “encalhe” vai para as mãos de comerciantes informais. O mercado é inundado por roupas e acessórios piratas infinitamente mais baratos do que os originais e com um alto padrão de qualidade.

Dos guetos de Pequim para a 25 de março, a bolsa da Patrícia chega de navio, invisível aos olhos de quem fiscaliza.

Eu pergunto: Se a poderosa indústria da moda não garante um processo de produção social e ambientalmente responsáveis, quem vai exigir tal responsabilidade do consumidor?
Eu respondo: Historicamente, as leis criadas para proteger a propriedade e o lucro são mais severas e efetivas do que as que foram implantadas para defender a vida e a dignidade.

Ali mesmo na 25 , o motoboy Gilvan encontra o desejado DVD que vai assistir com a família no fim de semana. Mas antes ouve a provocação do colega de profissão.

– Seu Capitão Gancho do asfalto, qualquer hora dessas tu vai ser preso. Pirataria é crime!
-A 25 tá cheia de polícia e em toda esquina tem venda de produto pirata, perante os homens da lei. O próprio presidente Lula assistiu a “Dois Filhos de Francisco” em cópia pirata. Se eu posso comprar o dvd por R$ 4, por que pagar R$ 40 ?
– Tá sonegando imposto e incentivando o crime organizado!
– Se eu pagar imposto, aí é que vou incentivar o crime organizado. Ou você conhece quadrilha mais organizada que o governo, que toma os impostos e não devolve nada ao povo? Pelo contrário, enfiam o meu dinheiro nas meias e cuecas. “Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”. E eu ainda tô ajudando o camelô, coitado, que tá trabalhando em vez de assaltar por aí.

Enquanto isso, o Pesquisador Pablo Ortellado , do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação (GPOPAI), da Universidade de São Paulo (USP), legitima o comportamento do Gilvan:

“Vejamos o caso da pirataria comercial, na venda em camelôs, que é uma transação comercial e um empreendimento de capital de pequeno porte. Quando esse tipo de pirataria é voltado para o segmento popular, ele tem a característica de oferecer às pessoas pobres o acesso a bens culturais digitais. O benefício comercial é enorme: a estimativa é de que se multiplica por sete o acesso à música e por 2,5 aos filmes. Isso não causa prejuízo significativo para a indústria porque essas pessoas estavam excluídas do mercado, pois não têm meios econômicos para pagar R$ 30 em um CD ou R$ 60 em um DVD”.

Numa outra universidade, o aluno Marvin sente-se à vontade para contar como usa os programas de compartilhamento na internet:

– Faço parte do grupo musical da minha igreja e posso afirmar que mais de 70% dos CDs e Playbacks utilizados por grupos e corais são piratas. Quem nunca usou uma imagem em seu blog que não foi criada pelo próprio blogueiro? Quem não baixou ou deixou alguém instalar um programa sem a compra da licença? Será que todos os programas que tem no computador foram comprados numa loja de produtos de informática?

Marvin engrossa as estatísticas. Entre os brasileiros que têm Internet em casa, 45% revelam que baixam conteúdo pirata.

Eu pergunto: Sendo a Internet uma rede baseada em computação digital, copiar arquivos digitais ou baixar um arquivo que está disponível é pirataria?

Desta vez quem responde é Sérgio Amadeu da Silveira, sociólogo e Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo.

“Os negócios construídos no mundo industrial não têm mais sentido nas redes digitais. No mundo das redes digitais, quando alguém copia um arquivo, não está tomando nada do original. É equivocada a ação das indústrias de copyright no mundo das redes digitais. Falar para não copiar nas redes digitais é ir contra a natureza técnica das próprias redes. A indústria agonizou sem se adaptar à nova situação tecnológica do mundo, e optou por reagir à pirataria de uma maneira repressiva. Só agora, há cerca de dois anos, é que efetivamente começou a desenvolver novos modelos de negócio, com a venda de música digital a preços mais baratos.

Patrícias, Gilvans e Marvins representam a parcela de 72% da sociedade que admite já ter utilizado um produto pirata.

Antes da crítica feroz, vale uma reflexão.

Tomemos o cuidado de não virarmos Piratas Sociais. Seres que ouvem ou lêem as versões lançadas pelos governos ou pela indústria, se apropriam das informações oficiais, e tecem longos discursos moralizadores.

A Sustentabilidade prega uma sociedade múltipla, em que todos são ouvidos e valorizados em seus desejos e necessidades.

O crescimento econômico não pode ser um fim em si mesmo, mas uma forma de atingir objetivos sociais, respeitando o meio-ambiente.

Rosana Jatobá é jornalista da TV Globo, advogada e mestranda em gestão e tecnologias ambientais da USP. Toda sexta, conversa com os leitores do Blog do Mílton Jung sobre sustentabilidade e consumo.

Veja mais imagens da Galeria de Exposição Coletiva do Paraty

Canto da Cátia: Venda livre

 

Camelôs na 25 de Março

Fiscalização na rua de comércio popular em São Paulo, a 25 de Março, não conseguiu impedir a ação dos camelôs na manhã desta sexta-feira 13, como mostra fotos feitas pela repórter Cátia Toffoletto. Apesar de que ela garante que esta “muvuca” é normal por lá. Tem dias em que a situação é muito pior. Ontem houve confronto entre os vendedores ambulantes e a Polícia Militar.

Canto da Cátia: Foto da hora

Confronto na 25 de Março, em SP
Imagens da 25 de Março, em SP

A história se repete: a prefeitura tenta retirar camelôs da rua 25 de Março, os ambulantes protestam, a polícia aparece e a confusão está formada. Os marreteiros acabam retomando as calçadas até que surjam novas reclamações e a prefeitura tentar retirar camelôs, novamente. A Cátia Toffoletto já cobriu este assunto um catatau de vezes e, nesta sexta, está de volta a uma das mais tradicionais e populares ruas de comércio do País. Ela registrou em voz para o CBN SP e em foto para o blog. A luta continua.