Conte Sua História de SP – 461 anos: os lampiões de gás iluminavam os vagalumes da cidade

 

Por Alayde Toledo Silva Pinto

 

 

Ah, minha querida cidade São Paulo !

 

Nasci na Rua Conselheiro Furtado, 220 no ano de 1924 em uma família católica, apostólica, romana e paulista, maioria naquela época. Todas as passagens importantes da vida eram comemoradas em família: batizado, noivado e casamento, com a participação da vizinhança.

 

As festas do Natal não estavam focalizadas nas compras e presentes. A montagem do presépio natalino, por exemplo, era um acontecimento que unia a avó ao neto: todos os personagens eram arrumados nos mínimos detalhes em chão de alpiste. Na véspera da Natal, as crianças esperavam os adultos voltarem da Missa do Galo para aguardar seus presentes, que chegariam na madrugada pelas mãos do Papai Noel.

 

Brinquedos eram artesanais, feitos à mão, bastava a imaginação infantil para lhes dar vida…os meninos construíam caveiras na abóbora moranga recortada iluminada por velas, para causar susto nas meninas. Além disso, havia concurso de pipas que todos empinavam com talento. As pequenas, por sua vez, usavam uma espécie de argila para confeccionar panelinhas e bichinhos. Crianças brincavam nas ruas e nas escolas de jogos como barra-manteiga, cabra-cega, esconde-esconde, e de pular corda. Atividades simples e ingênuas que usavam apenas imaginação, sem gastos com dinheiro ou compras…

 

Lembro-me que ganhei uma boneca do meu tamanho em um aniversário da infância. Fui passear com a boneca e o tempo mudou, trazendo chuva forte. Minha bonecona foi se desmanchando e descobri então que ela era feita de papelão, não houve tempo para salvá-la na UTI…

 

Havia clara diferença entre os gêneros com uma escala gradativa para as mulheres: criança, menina, menina-moça e mocinha, para depois senhorita ou senhora. Os meninos até se tornarem moços, usavam bermudas, calça comprida era traje somente de reuniões solenes.

 

Nas cerimônias de batizados, além do padrinho e da madrinha, havia também a madrinha “de apresentação”, geralmente uma moça mais jovem que carregava o bebê até a pia batismal. E nos casamentos, havia a “madrinha de bandeja” para apresentar as alianças.

 

As casas sempre tinham árvores frutíferas nos quintais e nos jardins, na área da frente das moradias, as grades baixas eram coloridas por rosas trepadeiras e flores perfumadas, como madressilva, dama da noite e a rara e cobiçada “Flor de Baile” que só abria à meia-noite.

 

São Paulo era uma cidade romântica nas décadas de 40 e 50, até os anos 60, podemos dizer. Nas noites calmas e agradáveis, no clima fresco e com frequente garoa, nas ruas de paralelepípedo todos circulavam a pé ou de bonde, e era usual manter amizades com os vizinhos, sem rivalidade. No passeio noturno com meus pais e meus irmãos, apreciávamos assistir ao acendimento dos lampiões a gás para iluminação das ruas e ficávamos maravilhados com os lindos vagalumes, com suas asas em tons azuis e verdes, a colorir aquela atmosfera.

 

Ah, minha querida cidade que foi a terra da garoa !

 

Conte Sua História de São Paulo – 461 anos: da Serra Pelada ao Jardim Filhos da Terra

 

Por Clair Ramalho

 

 

Quando era pequena, ouvia dos velhos moradores algumas passagens históricas da conquista desse morro. No meu imaginário infantil, essas passagens eram tão fantásticas que me pareciam verdadeiras epopeias. Então, com o passar do tempo, eu quis recontar o que ouvi.

 

O pessoal daqui é gente simples! A riqueza está em nossa origem e em quem somos.

 

Construímos um patrimônio no alto do morro, carpindo o mato, limpando o terreno, martelando pregos em madeiras, colocando telhas de barro sobre a estrutura de paus, formando barracos.

 

Cada morador, ainda que não fosse muito escolarizado, escreveu a história desse lugar através da oralidade. Uma multiplicidade vozes sob uma arquitetura improvisada, no subir e descer das ladeiras, escadarias e becos.

 

Minha mãe também me contava, que o Jardim Filhos da Terra* (bairro localizado na região do Jaçanã, Zona Norte de São Paulo), a Serra Pelada, como ficou conhecido após a limpeza do mato, surgiu em um movimento de ocupação. Esse movimento foi iniciado pela igreja local na metade da década de 80, após a construção de um barraco à margem do córrego, abaixo da serra, para uma moça chamada Maria, vinda do nordeste com três filhos pequenos sem um lugar para moradia.

 

A notícia desse fato se espalhou rapidamente e trouxe inúmeras Marias e Josés, com histórias parecidas. Então, a igreja liderou a busca de terra e moradia.
Um terreno foi encontrado, estava desocupado e sem uso, no topo do morro íngreme e sinuoso. A estratégia de abrigar quase mil famílias foi desenha em cartolinas brancas que receberam grafites e riscos com a divisão do terreno para cada família. Tudo estava organizado.

 

Há 30 anos, no cair da noite, a ladeira foi tomada por um longo tapete de pessoas. Era quase cinco mil! Estavam com tochas, foices, martelos e enxadas as mãos. Mulheres grávidas e crianças à frente do grupo, formando um cordão, para repreender confronto policial, caso houvesse. O restante do grupo viera depois. Os policiais não usaram seus revólveres, e nem a multidão usou suas foices. A ocupação foi pacífica, com reza, com canto e com a lua testemunhando essa chegada.

 

A Pracinha, lugar que preserva o verde de nossa origem, foi o primeiro lugar a ser ocupado. Depois formaram ruas estreitas, ao lado, barracos de madeira ligeiramente construídos. Surgiu a periferia! A informalidade urbana na metrópole paulistana. Nasceram os “Filhos da Terra”.

 

O tempo trouxe a evolução de nossas casas. Agora tijolo, cimento e laje.

 

O bairro foi edificado e vive nas lembranças doces dos antigos moradores que viveram essa conquista. E, hoje, a história perpetua em suas vozes, nas vozes de seus filhos e nas de tantas outras crianças, que assim como eu cresceram e continuam contando, aqui, no alto do morro.

 

Clair Ramalho é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também a sua história da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br

Venha declarar sua paixão por São Paulo, neste sábado, na CBN

 

5390270278_3c1bc4a4d3_z

 

Se você é apaixonado por São Paulo já está convidado a participar do programa CBN SP – especial, em homenagem aos 461 anos da cidade, que será apresentado, neste sábado, dia 24 de janeiro, a partir das 10 da manhã, no Pateo do Collegio. O Thiago Barbosa e eu estaremos recebendo convidados da área cultural, artística, esportiva e ambiental que falarão sobre suas experiências na capital paulista e as ações que desenvolvem para ajudar a cidade a crescer e melhorar a qualidade de vida.

 

Os ouvintes também terão espaço para declarar seu amor pela cidade. Desde às 9n horas da manhã, a CBN terá locais abertos para que o cidadão paulistano grave uma mensagem para São Paulo. Esses depoimentos serão publicados no site da rádio CBN para você compartilhar com os seus amigos nas redes sociais.

 

Participarão das conversas no palco central, do Pateo do Collegio, Andre Sturm, diretor do Museu da Imagem e do Som e responsável pela reabertura do Cine Belas Artes; Eduardo Kobra, artista plástico, criador de vários painéis de grafite da cidade, alguns representando uma São Paulo do início do século XX; Stela Goldenstein, ambientalista, diretora da ONG Águas Claras do Rio Pinheiros; e os comentaristas da CBN Juca Kfouri e Gilberto Dimenstein. Durante todo o programa vamos ouvir a música de Negra Li que estará ao vivo também declarando a sua paixão por São Paulo.

 

Ouça aqui a chamada para a festa da CBN:

 

Conte Sua História de São Paulo – 461 anos: meus passeios na Galeria do Rock e o cheiro do churrasquinho grego

 


Por Rogério Loro

 


 


Quando meus pais disseram que mudaríamos para a cidade de São Paulo, eu sabia que muita coisa seria diferente na minha vida. Imagina o que seria para um garoto de 14 anos que nasceu e viveu em uma cidade do interior, se mudar para a capital.

 


Nossa nova casa ficava em uma rua sem saída no bairro da Vila Formosa, bairro que tratei logo de explorar com minha bicicleta. Pedalando em meio ao trânsito local, pude conhecer lugares como o Mercado Municipal, o CERET, a Praça Sampaio Vidal e a Praça Silvio Romero.

 


Fui estudar na escola SENAI na Rua Anhaia no bairro do Bom Retiro e para chegar até lá utilizava o Metrô saindo da Estação Tatuapé, passando pela Sé até a Luz, mas na volta dava preferência ao trem que saia da Estação Brás, pois ele era mais barato que o Metrô e o dinheiro economizado, eu juntava com o que meu pai me dava, para comprar meus discos e camisetas na Galeria do Rock no centro, lugar que conheci com meus amigos de escola.

 


O centro de São Paulo era um paraíso para nós, lá ficavam além da Galeria, a maioria dos cinemas, lojas de troca de discos e livros e componentes eletrônicos. Ruas como a Barão de Itapetininga, 7 de Abril, Santa Ifigênia e a Praça da República, faziam parte do nosso roteiro particular em busca de novidades e claro, dos inesquecíveis carrinhos de Churrasco Grego com suco grátis, que alimentavam toda a molecada com um precinho bem camarada. As recomendações de meus pais eram sempre as mesmas: “-Tome cuidado nas ruas, pois é muito perigoso andar pela cidade e não fique comendo bobagens por aí”. Ah, nossos pais sempre exageram, a cidade nem era tão perigosa e os lanches e as esfihas da Rua Mauá nem eram tão porcaria assim. No Vale do Anhangabaú, eu e meu pai pegávamos os ônibus da CMTC em direção ao Morumbi para assistirmos aos clássicos do Timão, ou quando os jogos eram no Pacaembú íamos caminhando da Praça Marechal Deodoro até o estádio, e sempre tive a impressão que as caminhadas eram sempre mais curtas do que nossas conversas.

 


Passei minha adolescência e me tornei um adulto, casei e constitui família sempre aproveitando todas as inúmeras oportunidades que a cidade oferece, cheguei a retornar para Jundiaí minha são cidade natal, mas acabei voltando para São Paulo atraído pelas inevitáveis oportunidades profissionais que ela oferece.

 


Hoje sigo minha vida ainda pedalando pela cidade, em meio a um trânsito muito pior do que na década de 80, a Galeria do Rock hoje parece ter muito mais jovens fantasiados de roqueiros do que aquela molecada da época com correntes de xaxim das samambaias da mãe penduradas no cós da calça, o centro da cidade me parece mesmo perigoso como os meus pais diziam, para ir aos jogos do Corinthians não preciso mais ir ao Vale do Anhangabaú, apenas caminho até o Itaquerão que fica próximo da minha casa, agora sem a companhia e as conversas com meu pai. Os lanches de Churrasco Grego?

 


Alguns ainda estão pelo centro da cidade, me falta agora coragem para comê-los.

 


Rogério Loro é personagem do Conte Sua Historia de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também a sua história da nossa cidade, escreva para milton@cbn.com.br