Como acordar?

Dra. Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Foto de cottonbro studio

Abrir os olhos pela manhã, sair da cama, tomar café, escovar os dentes… Pronto: muito simples acordar!

Mas quem nos garante que acordamos?

Acordar, para a medicina, é estar vigil, em estado de alerta. Acordar é estar consciente, conectado aos seus pensamentos e sentimentos e ao mundo fora. Parece bastante complexo, não?

Então, será que, todas as manhãs e ao longo dos dias, estamos mesmo acordados?

Vivemos tempos em que tudo nos distrai: redes sociais, site de notícias, troca de mensagens, memórias negativas, preocupações catastróficas, medo, insegurança…

É, estamos, de alguma forma, alertas. A questão é: para onde estamos olhando?

Toda essa distração tem nos sequestrado das nossas próprias vidas. Comemos sem perceber – “Nossa, já acabou o prato?”; falamos sem pensar – “Por que fui falar isso?”; gastamos dinheiro no impulso – “Só porque estava em promoção…”. Não estamos acordados, vamos nos permitindo ser arrastados.

Quando piscamos, o tempo passou. Quando piscamos, já perdemos momentos especiais, pessoas importantes – já perdemos vida. Lutamos tanto para termos coisas e para sermos reconhecidos e amados… e nem mesmo conseguimos ficar acordados e escolher como viver.

Olha para sua última semana e pensa aqui comigo: você esteve consciente do que sentiu, pensou, fez? Você realmente fez escolhas e executou seus planos com clareza de consciência? Você esteve acordado?

Ainda é tempo. A cada dia, ao abrirmos os olhos, podemos escolher acordar.

Desperte. Sinta a vida acontecer aí dentro de você e venha para o mundo aqui fora, atento – conectado àquilo que realmente importa.

A Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

De opção

 

Por Maria Lucia Solla

Chuva em São Paulo

Ouça De Opção na voz e sonorizado por Maria Lucia Solla

Olá,

quando eu era adolescente, entre os catorze e os cinquenta, tinha comigo uma sensação deliciosa que se manifestava o tempo todo, nas mais diversas situações. O meu acordar era seu momento favorito para mostrar que estava ali para ficar, e durante o dia pipocava: numa conversa solta com alguém, enquanto eu dirigia pela estrada sem fim. Ouvindo uma música que fazia ferver o sangue que corre pelas estradas de mim. No cinema, no teatro…

uma sensação folgada
iluminada
moleca
ilimitada
sem fronteira
nem preconceito
redentora

E não é que, depois de umas férias de mim, ela volta! Volta como se nunca tivesse ido embora, como se nunca nos tivéssemos afastado, firme e forte, vibrante, ágil como antes.

Noutro dia, quando abri os olhos, de manhã, lá estava ela, me acenando, sorrindo, se agarrando em mim. E eu não hesitei, me entreguei sem reserva, sem resistência, feliz com a volta dela. Fiquei rolando na cama, viajando na sensação, vendo de novo as prateleiras da vida abarrotadas de possibilidade, ideia, desafio, caminho, experiência. Onde eu posso tudo. Posso escolher o que ser. Posso ser padeira se quiser. Adoro fazer pão. Cada vez faço um pão diferente, é verdade; às vezes cresce, noutras não, um dia fica comprido e encorpado, no outro encolhido e embatumado. Mas eu faço.

Posso ser o que quiser, estar onde o meu dinheiro der, dizer o que me vier na telha, confessar, declarar, perdoar, fazer arte; ah! fazer muita arte. De todo tipo: arte artística e arte arteira. Preparar o almoço, fazer surpresa e ser surpreendida. Escolher morar onde quiser, economizar tostões ou gastar milhões. Sair de mim e passear na terra onde sim quer dizer sim, e não, não.

E de novo, cada dia que nasce, e num leque de lampejos ao longo do dia, vivencio isso tudo e me reinvento, como sempre fiz. Me lembro de que não devo nada, não tenho que, coisa nenhuma. Sou livre. Livre para desenhar e costurar os meus dias. Arrematá-los bem ou deixar os fios pendurados e sair pirilampa pelo mundo afora, saboreando o caminho, solta ou mendigando atenção e carinho,

entre o sonho e
o fato realizado
a ilusão e
a realidade palpável

vivi muitas vidas numa vida só

fui escrava
fui rainha
comi caviar
e sardinha
inebriada
fascinada
pela caminhada

Posso escrever, ler, subir, descer, chorar, rir, até tarde dormir, ou bem cedo acordar.

E você?

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung