O que o passado nos ensina sobre as escolhas do presente

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Imagem de PixxlTeufel por Pixabay 

“O que poderia ter sido e o que foi

Apontam para um único fim, sempre presente.

Passos ecoam na memória 

Pelo caminho não escolhido

Rumo à porta que nunca abrimos.”

T.S.Eliot, “Burnt Norton”

Um dia você acorda e pensa: “e se eu tivesse aceitado aquela proposta de emprego e tivesse mudado de país?”. Ou então: “e se eu tivesse me casado com aquela pessoa por quem me apaixonei na adolescência, como teria sido a minha vida?”.

Temos a incrível capacidade de olhar para o nosso passado e, de certo modo, supor os rumos que nossa vida teria tomado caso tivéssemos agido de maneira diferente. Apesar desses pensamentos serem mera hipótese de uma vida não vivida e, por vezes, idealizada, o presente nos confronta com caminhos que exigem de nós uma escolha.

A tomada de decisão pode ser compreendida como a capacidade de escolher uma dentre as diversas opções possíveis, em situações que envolvam algum nível de risco ou incerteza. Entretanto, esse processo não é tão simples quanto parece e envolve a experiência de vida, a análise de custos e benefícios, bem como as consequências a curto e longo prazo para si e para outras pessoas. 

As neurociências têm desenvolvido modelos que permitem melhor entendimento de como o sistema nervoso realiza esse processo de tomada de decisão, levando em conta a participação de algumas funções cognitivas, como a atenção, a memória e o papel das emoções, especialmente a interface entre as reações emocionais – processadas no sistema límbico – e o controle dos impulsos e racionalidade na decisão, realizados, principalmente, pelo córtex pré-frontal. 

Os modelos sobre tomada de decisão se concentram, na grande maioria, nos benefícios passíveis de serem obtidos a partir das alternativas disponíveis. Nesses modelos, a pessoa teria todas as informações necessárias e, racionalmente, faria sua escolha; porém, pesquisas recentes apontam que muitas vezes essa decisão pode conduzir a resultados negativos. A escolha daquilo que nos satisfaça imediatamente, o medo do arrependimento e a avaliação com ênfase excessiva nas emoções atuais são alguns dos fatores que podem nos conduzir a decisões irracionais. 

Por um lado, podemos nos deixar influenciar excessivamente por nossas emoções; por exemplo, se sentimos um aperto no peito, acreditamos que seja um sinal de que não devemos escolher a alternativa em questão. Por outro, superestimamos as consequências de uma situação, acreditando ser possível sentir absoluta alegria com, por exemplo, aquela promoção, como uma linearidade de sentimentos, de duração indefinida.

Algumas reflexões podem nos auxiliar no processo de tomada de decisão: analisar nossas emoções atuais e levar em conta se, caso o estado emocional estivesse diferente, faríamos a mesma coisa; considerar o que avalia como importante para a vida – não adianta conseguir a promoção dos sonhos e não conseguir viajar com a família aos fins de semana, se isso for muito significativo; focar na gratificação a longo prazo. 

Não temos uma vida editada num roteiro. Se soubéssemos sobre o certo e errado em nossas decisões, bastaria seguir o script, o que convenhamos, roubaria de nós grandes surpresas que encontramos nesse caminho.

Olhamos em demasia para trás tentando enxergar como seria nossa vida e nos esquecemos que nossas escolhas – o melhor que poderíamos fazer naquele momento – construíram nossa história, nos permitiram ser exatamente quem somos. 

No fundo, maximizar ganhos, minimizar riscos e analisar os custos e benefícios se resumem em um desejo: ser feliz. Na impossibilidade de sabermos exatamente onde a felicidade está, abandonar as justificativas excessivas sobre o nosso passado pode nos encorajar a buscar caminhos que nos levem a benefícios almejados, não pela precisão do resultado, mas pelo simples fato de termos coragem para seguir em frente.

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Avalanche Tricolor: um time cheio de alternativas

 

Grêmio 2×0 Atlético-MG
Brasileiro – Arena Grêmio

 

 

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Fernandinho, o goleador “alternativo”

 

Sei que já reclamei nesta Avalanche do neologismo futebolístico da temporada: chamar time reserva de alternativo. Foi bem no início do campeonato, quando o Grêmio colocou em campo uma escalação totalmente desfigurada, já pensando na maratona de competições que teria neste ano. Logo percebi que a expressão estava na boca de boa parte dos jornalistas esportivos e já havia contaminado o bate-papo do torcedor. Era o politicamente correto entrando em campo.

 

Hoje, enquanto assistia ao Grêmio desfilar talento na Arena, pensei melhor sobre o termo, talvez influenciado pelo fato de as duas equipes terem feito a mesma escolha: poupar alguns de seus jogadores principais visando a partida da Libertadores no meio da semana. Verdade que fomos menos econômicos do que eles. E a campanha na competição sul-americana explica a opção dos técnicos: nosso caminho é bem mais simples, apesar de nada ainda estar decidido. Podíamos arriscar um pouco mais.

 

E tínhamos alternativa.

 

Está aí aliás o que me fez mudar a opinião sobre o uso da expressão “time alternativo”. Só o tem, quem soube montar elenco. O resto tem time B. Ops, não quero que pareça provocação barata: o resto tem time reserva.

 

Se não, vejamos: Paulo Victor fez sua estreia em substituição a Marcelo Grohe com boas defesas desde os primeiros minutos de partida. Sempre que possível manteve a bola firme entre seus braços. Nas mais complicadas, mandou-a para longe, mesmo quando teve de se virar com os pés. E se virou bem. Não bastasse tudo isso, ainda defendeu pênalti com inteligência ao permanecer no centro da goleira no momento da cobrança. Mostrou-se excelente alternativa para o gol.

 

Na defesa, destaco os dois laterais.
Pela direita tem Léo Moura que joga com elegância e firmeza. Foi responsável pelo cruzamento de um dos gols que nos levaram a vitória ainda no início da partida. Substitui Edilson com a tranqüilidade que a longa jornada nos gramados lhe ofereceu. Não bastasse ser alternativa para o meio de campo como demonstrado no meio da semana.

 

Pela esquerda tem Marcelo Oliveira, titular até pouco tempo, campeão da Copa do Brasil em 2016, líder em campo e voluntarioso com a bola nos pés. Experiente para entrar e sair da equipe alternando-se na posição com Cortez, que é o atual titular pelo momento que vive.

 

No meio de campo, quem se atreve a chamar Maicon, nosso capitão, de reserva? Ele e Michel se alternam como volantes e mantém a mesma qualidade na marcação e saída de bola. Podem revezar com Arthur e Ramiro. Vê-los jogando juntos também é alternativa à disposição de Renato.

 

Já que citei Ramiro, vamos lembrar das multi-tarefas cumpridas pelo nosso meio-campo, que pode atuar em três funções diferentes, é dos que mais desarmam no time e marcou nove gols na temporada. Hoje, pode até descansar.

 

Lá na frente as alternativas são ainda mais curiosas. Tudo bem, Luan é insubstituível. É craque acima de qualquer suspeita. Mas na ausência dele, podemos montar times ofensivos da mesma maneira. Sem contar que alternamos os goleadores, também: Fernandinho, esse que dizem ser reserva no ataque, é o goleador do Brasileiro, com seis gols; Everton e Luan têm cinco cada um; Barrios, Ramiro e Michel têm quatro. Situação que explica termos a maior média de gols entre todos os times do Brasil nesta temporada: 1,9 por partida.

 

Diante dessas constatações passo a aceitar os que dizem que o Grêmio foi a campo com o time alternativo, desde que não usem a expressão como sinônimo de time reserva. Quando falarem do Grêmio, digam que é um time com muitas alternativas e uma delas é ser campeão de toda e qualquer competição que estiver disputando.Inclusive o Brasileiro (com todo respeito as outras alternativas).