Conte Sua História de SP: os ambulantes da minha travessa

 

Por Walter W. Harris
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

O fim da Avenida Paulista, antes da descida para o Pacaembu, é completamente diferente da aparência que tinha no começo dos anos 50. Não havia viadutos e várias ruas que afluíam para a avenida, já não existem mais. Lembro-me perfeitamente bem do ponto de táxi na esquina da Rua Minas Gerais com a Paulista. Quando ia passear com meu pai, gostava de parar lá para admirar aqueles automóveis Ford, Buick, Chevrolet … que eram tão usados como carros de praça.

 

Bem naquela região e conservada até hoje, porém com outro nome, está a rua sem saída — chamada de travessa — onde morávamos na época. Era uma vila bastante reservada, no sentido de que poucas pessoas costumavam entrar ali. Não obstante, foi lá que travei conhecimento com os primeiros ambulantes de minha vida.

 

Todas as manhãs eu era acordado pelo som de cascos nos paralelepípedos e descia correndo as escadas para, junto com minha mãe, comprar pão (e principalmente pão doce) do padeiro, que trazia seus produtos numa carrocinha fechada. O engraçado é que eu não dava a mínima atenção para seu cavalo, um interesse infantil comum; tudo que queria mesmo era que o padeiro abrisse a porta na parte de trás da carrocinha, para que pudesse inalar o delicioso aroma de pão fresco. O pão doce era comido ali mesmo.

 

Frequentemente, minhas atividades infantis eram interrompidas por um sujeito que andava por toda a travessa, entoando caracteristicamente: “Roupa velha! Roupa velha!”. Passavam-se menos de 30 segundos e ouvia-se novamente o mesmo adágio: “Roupa velha! Roupa velha!”. Sua aparição foi uma constante nos anos em que vivemos naquela rua e, em nenhuma ocasião vi alguém vendendo-lhe qualquer peça de vestuário. Era um judeu baixinho, de nariz adunco, que estava sempre de terno e chapéu, meio puídos, e ainda carregando outro paletó dobrado no braço esquerdo.

 

Outro personagem que invade minhas recordações daqueles tempos também me distraía de meus afazeres. Este, no entanto, parecia fazer negócios melhores com os moradores da vila do que o comprador de roupa velha. Ele entrava na travessa, fazendo sua presença sentida ao cantar: “Jornal, revista, garrafeiro! Jornal, revista, garrafeiro!”. Puxava um carrinho que, normalmente, encontrava-se apinhado com suas aquisições. Este ambulante vinha regularmente, e minha mãe sempre tinha alguma coisa para lhe vender. Foi a primeira vez que vi um dinamômetro, que o cidadão utilizava para pesar os jornais. Pagava uma ninharia por eles, porém era um trabalho digno e honesto.

 

Esses três ambulantes ficaram marcados em minha memória, talvez porque fossem habitués de nossa travessa onde, como crianças, passávamos grande parte do dia brincando em relativa segurança, pelo isolamento daquela ruela sem saída.

 

Todavia, seria injusto deixar de pelo menos mencionar aqui, outros ambulantes que presenciei naquela época, alguns dos quais existem até hoje: o realejo, com seu periquito e os bilhetes da sorte; o fotógrafo da Praça da República, mais conhecido como “lambe-lambe”; e o doceiro na porta da escola, com seu famoso “quebra-queixo”, e a “raspadinha”.

 

Walter W. Harris é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Venha contar mais um capitulo da nossa cidade: escreva para milton@cbn.com.br.

Comboio dos pobres

 

Comboio de Kombi

O comboio de kombi transportando carrinhos e ambulantes, fotografado pelo ouvinte-internauta Francisco dos Santos, revela bem mais do que uma curiosa imagem do cotidiano da cidade de São Paulo. Após publicá-la no nosso álbum digital do Flickr, o colaborador do Blog Devanir Amâncio acrescentou informações que alertam para um tipo de exploração bastante comum na periferia da capital. Fiquei sabendo que comboios como esses são muito conhecidos nas áreas mais pobres da Grande São Paulo, alguns considerados suspeitos e odiados por parte desta população:

“Eles vendem queijo, ‘danone  caseiro ‘, carne seca ,mel , roupas de cama,mesa e banho e muitas bugigangas. Pães não se vê mais. Vendem para receber no final do mês ou em três vezes. No Jardim Jangadeiro,  Jardim Ângela, Capão Redondo, os pobrezinhos – a um passo da “classe C” – estão endividados com as “lojas ambulantes”. São como agiotas ou piores. Ai de quem não pagar. A cobrança  fica por conta de um “Xerife”. Os índios, em Parelheiros, zona Sul e no Jaraguá, zona Oeste, estão devendo até a alma para os  ‘ambulantes deliverys’, que poderiam ser chamados de empresários da miséria e necessidade alheia.

……

Não podemos generalizar. A maioria dos jovens (vendedores) que empurram os carrinhos, subindo e descendo morros – quase sempre – é menor de idade, se alimenta e se veste mal; tem a aparência debilitada pelo desânimo, é semi-analfabeta. Eles saíram  do sertão do Nordeste e outras regiões do Brasil  em busca de uma vida melhor.

Devanir conversou, também, com Dona Antônia do Grajaú, gari e moradora da zona Sul da capital. Ela disse que essa gente não tem nada dos mascates de antigamente, de Minas e Paraná. Na descrição dela, aqueles eram honestos, donos do próprio negócio: “Quando chegavam, na época da colheita, era uma festa. Dormiam na casa do freguês, parecia da família”.

Pelo que se percebe a situação é completamente diferente e beira ao desrespeito aos direitos humanos, com necessidade de intervenção do Ministério do Trabalho, Vigilância Sanitária, Polícia Militar e órgão de assistência social.

Câmara de Guarulhos tem vendedor ambulante

 

A presença de vendedor ambulante nas cidades não chega a ser algo inusitado. Estão por todos os lados, principalmente nas regiões centrais onde o movimento de pessoas é mais intenso. Dentro de Câmara Municipal sei de poucos casos, por isso chamou atenção o fato de um vendedor de comidas que trabalha com tranquilidade dentro do legislativo de Guarulhos, na Grande São Paulo.

É no isopor que fica bem posicionado em uma mesa de escritório, que os vereadores matam a fome durante o expediente. Os parlamentares nem precisam se distanciar do plenário, porque o “restaurante informal” está atrás da tribuna, quase na porta do banheiro feminino e da Copa.

O dono da banquinha que funciona dentro da Câmara não tem alvará e a comida que fornece não passa pela vigilância sanitária. Há quem diga que mesmo assim o lanche enche a barriga e agrada o paladar dos vereadores guarulhenses.

Canto da Cátia: Venda livre

 

Camelôs na 25 de Março

Fiscalização na rua de comércio popular em São Paulo, a 25 de Março, não conseguiu impedir a ação dos camelôs na manhã desta sexta-feira 13, como mostra fotos feitas pela repórter Cátia Toffoletto. Apesar de que ela garante que esta “muvuca” é normal por lá. Tem dias em que a situação é muito pior. Ontem houve confronto entre os vendedores ambulantes e a Polícia Militar.