A maior cidade do Brasil ainda depende do cara da chave do almoxarifado

 

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Ao “escorregar” e criar um degrau no meio do caminho dos motoristas de carro, o viaduto de acesso da Marginal Pinheiros à Rodovia Castello Branco, em São Paulo, também deixou à mostra como estamos atrasados na gestão pública. E isso não é coisa desse ou daquele governo. É coisa do Brasil.

 

Um dos exemplos mais evidentes dessa realidade é o fato de o problema ter ocorrido na quinta-feira da semana passada e até agora a prefeitura de São Paulo não ter tido acesso ao projeto original de engenharia, o que facilitaria a análise dos técnicos para identificar a causa do incidente e planejar a recuperação o mais rapidamente possível.

 

Tudo bem, a estrutura foi projetada e construída nos anos de 1970. Faz muito tempo. Vivíamos a era analógica. Tudo no papel e depositado em arquivos públicos nem sempre com organização apropriada.

 

Também deve-se levar em consideração que a obra foi feita em convênio entre a prefeitura de São Paulo e a Fepasa. Ou seja, havia órgãos municipais e estaduais envolvidos. E o diálogo entre autarquias e instâncias diferentes costuma ser precário no País.

 

Alguns registros estavam na secretaria municipal, mas os técnicos não encontraram o memorial de cálculo, que é um dos estudos mais importantes de uma obra.

 

Quem sabe a resposta não estaria nos arquivos do DER – Departamento de Estradas de Rodagem? Liga pra lá.

 

— Quem tem chave?
— O cara do almoxarifado
— Cadê o cara?
— Tá na praia.

(aviso aos nervosinhos: este diálogo é pura imaginação minha)

 

O problema é que tudo aconteceu em meio a um feriado prolongado e o órgão está fechado. E a autoridade não tem autoridade para acessar qualquer uma das salas onde o documento pudesse estar disponível.

 

O secretário de Obras da cidade, Vitor Aly, declarou aos repórteres: “o que acontece é que as vezes a gente consegue o diretor, às vezes você não consegue o cara que tem a chave do almoxarifado”.

 

Caos!

 

Foram, então, atrás dos engenheiros. Walter de Almeida Braga morreu em 2016 e a viúva, que atendeu ao telefone, disse que se desfez do acervo.

 

No último dia do feriadão, encontraram Roberto de Abreu, responsável pela execução da obra. Estava no Guarujá e agora se juntou a equipe de técnicos da prefeitura para ver o que dá pra fazer.

 

Graças a Deus!

 

Por coincidência, no mesmo último dia do feriadão, li na BBC News que policiais da cidade de Nápoles, cidade onde nasceu uma das organizações mafiosas mais perigosas do mundo, a Camorra, usam tecnologia baseada em algoritmo que identifica com algumas horas de antecedência locais onde há maior possibilidade de ocorrência de crimes. Com isso conseguiram aumentar o número de capturas de criminosos.

 

Em um mundo no qual o uso de Big Data, inteligência artificial e algoritmo já é disseminado, São Paulo, a maior cidade brasileira, em lugar de investir esforço e recurso na digitalização de todos os seus documentos — do presente e do passado –, ainda depende da chave do cara do almoxarifado para coisa dar certo.

 

É dose pra mamute!

Gol ouvido no rádio é bem mais rápido

 

 

Assisti ao primeiro tempo da partida do Brasil contra o México com o pessoal da redação até que percebi que os que estavam dentro do estúdio da CBN viam os lances em “primeira mão”. Os sinais de vídeo chegavam por sistemas diferentes — no digital ou no analógico — assim como por operadoras diferentes — na NET ou na Sky. Decidi mudar de lugar e comemorei o primeiro gol do Brasil antes de a turma que estava na redação pular. Se tivesse acompanhando pelo celular —- como faço quando não tem TV acessível — certamente estaria festejando bem depois deles.

 

A edição de hoje da Folha de São Paulo fez o teste usando diferentes meios para assistir ao jogo entre França e Dinamarca. O resultado:

 

“A TV aberta é a que traz a transmissão mais rápida. Entre quatro e cinco segundos depois, chegam as mesmas imagens na TV paga. E, pela internet, o tablet e o computador se alternavam, entre 15 e 20 segundos atrás da TV aberta”.

 

Imbatível, porém, é o rádio — que não foi medido pela Folha –, como você percebe na imagem que ilustra este post, registrada durante transmissão do jogo do Brasil. O torcedor em destaque, que ouve rádio, comemora o gol antes do restante que está apenas atento a imagem do telão.

 

Já havia escrito neste blog sobre a ilusão que os torcedores temos da capacidade de desviar a bola, seja quando somos atacados seja quando atacamos — queremos despachá-la para longe no primeiro caso e empurrá-la para dentro no segundo. A tecnologia disponível nos tirou esse poder, pois, se as coisas que vemos na televisão já aconteceram quando estão sendo vistas, torna-se impossível reverter o acontecido com o clamor a Deus, que incrédulos e crentes escancaram aos berros diante do risco.

 

Lá mesmo na redação da rádio proibiram a gente de gritar gol antes de a bola estufar a rede —- reação mais comum de todo e qualquer torcedor de futebol. Dizem que dá azar. Não dá não, porque o que estamos vendo já aconteceu.

 

Se quisermos manter esse poder de impedir um gol ou ajudar nosso atacante a convertê-lo, só tem um jeito: ouvir as partidas da Copa pelo rádio. É em tempo real — ou quase.