A antítese e a síntese de todas as coisas

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de Life Of Pix

“Medir-se por seu menor feito é calcular o poder

 do oceano pela fragilidade de sua espuma”

Khalil Gibran

Na Grécia Antiga, a dialética era considerada um método de argumentação de ideias opostas com o objetivo de se alcançar a verdade. Atualmente, é considerada o modo de compreendermos a realidade como essencialmente contraditória e em permanente transformação. Sua ideia básica é que toda posição contém sua antítese, ou seja, sua posição oposta.

O filósofo alemão Friedrich Hegel, um dos criadores dos sistemas filosóficos do final do século XVIII e início do século XIX, indicava a importância de se reconhecer a inter-relação entre as partes e das partes com o todo, afirmando que a busca pela verdade seria possível se conseguíssemos ter uma visão do todo, caso contrário, poderíamos atribuir valores exagerados a verdades limitadas.

Outro dia, caminhando na beira da praia, aliás uma das coisas que mais gosto de fazer, fiquei pensando na dialética da natureza: o oceano, com toda a sua potência, vai mudando suas características ao se aproximar da costa, e chega à praia numa ondulação rasteira, num vai e vem constante que se assemelha à uma dança.

Talvez seja mais fácil compreender a dialética na natureza e nas coisas, como dia e noite, som e silêncio… Mais difícil, aceitar que ela também está presente em nós.

Aprendemos muito precocemente que não podemos evidenciar nossas fragilidades. Aprendemos que precisamos mostrar apenas as nossas conquistas, escondendo e mascarando os nossos erros, ou então, seremos vistos como incompetentes. 

Nessa busca polarizada, enfrentar um desafio e errar, ou não conseguir fazer algo, pode gerar um rótulo autoatribuído de que somos falhos, fracassados, inúteis. Isso não se refere apenas a ações, mas em nossa sociedade, parece se estender aos aspectos emocionais. 

Muitas pessoas se sentem inadequadas por experimentarem emoções, como a raiva ou a tristeza, como se existisse um padrão exato do que se pode ou não sentir. 

Como se olhássemos através de lentes de aumento, as situações difíceis parecem nos sequestrar para um olhar enviesado, unilateral, capaz de medir a nossa força justamente quando nos sentimos mais fragilizados. Assumindo uma posição estanque, recusamos o convite da vida para entrarmos em sua dança e nos recolhemos.

Por receio de ser isso ou aquilo? Pois somos isso e aquilo, antíteses somadas, inter-relacionadas, expressas em situações diversas que mudam, se atualizam, se renovam. 

Somos isso, aquilo e o que ainda está por vir!

Talvez em alguns dias você se sinta fraco, quase como uma marola, aquela onda pequena que está na beira da praia. Recorde-se sobre a dialética de todas as coisas. Feche os olhos. Respire fundo. Perceba a ação dos ventos que batem na superfície das águas e mudam as suas direções. Respire fundo novamente. Concentre-se no ir e vir das ondas e lembre-se: mesmo nesses dias, você continua sendo o oceano!

Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicologia, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung.