Os sentimentos de apego e desapego

Beatriz Breves

Foto de Melanie Brumble on Pexels.com

O apego tem sua raiz no sentimento de posse, no desejo humano de manter por perto aquilo ou aquele que nos é significativo, manifestando-se como vontade de proximidade, necessidade de presença ou até sensação de posse. Pode ser por pessoas, objetos, memórias, ideias ou até mesmo doenças. O apego tem como essência a tentativa de garantir segurança e continuidade, um movimento interno que busca preencher as faltas que a vida por muitas vezes nos impõe.

O desapego nasce do sentimento de liberdade, no desejo humano de não se sentir prisioneiro de nada da vida. Mas que não se confunda o desapego com o sentimento de indiferença. De fato, é um sentimento que, tal como o apego, tenta garantir segurança e continuidade, um movimento interno que busca preencher as faltas que a vida por muitas vezes nos impõe, pela via oposta à do apego.

Fato é que, em tese, o sentimento é de que, se o apego nos acorrenta, o desapego nos liberta; se o apego nos torna escravos, o desapego nos restitui a liberdade; se o apego funciona como um preenchimento ilusório, o desapego funciona como uma plenitude igualmente ilusória; se o apego atravanca o coração, o desapego expande o espírito. Em essência, apegar‑se é tentar reter o tempo; desapegar‑se é tentar fluir com ele.

Mas, quando digo “em tese”, digo porque o desapego absoluto também pode se tornar uma forma de encarceramento interior, um recolhimento excessivo em si mesmo. Um certo grau de apego é necessário, por ser ele que funda laços, sustenta relações e alimenta o afeto. Uma criança precisa se vincular aos pais e os pais precisam se vincular aos filhos, e todo vínculo tem uma “pitada” do sentimento de apego. O problema surge quando o apego se transforma em dependência, controle pelo medo da perda. Da mesma maneira, o desapego levado ao extremo esvazia a existência, pois quem não se prende a nada não cria raízes, não se envolve, não se permite sentir.

O amor talvez seja o exemplo mais claro dessa dualidade. Há amores que florescem no desapego, desejando o bem do outro, mesmo que isso signifique seguir caminhos distantes. E há amores que se perdem no excesso de apego, quando a necessidade sufoca o próprio sentimento. Não há receita: cada relação precisa descobrir sua própria medida entre conservar e permitir partir.

O segredo está em reconhecer a transitoriedade da vida. Aceitar que tudo se transforma, que nada é permanente, pode assustar, mas também liberta. Afinal, desapegar é permitir que a vida siga seu fluxo, enquanto se apegar é tentar conter o inevitável. E, entre um e outro, existe o caminho da maturidade emocional: a capacidade de sentir profundamente sem se aprisionar, de amar sem dominar, de viver sem tentar deter o tempo. Difícil? Sim. Mas não impossível. E quem disse que viver seria fácil? Não é, mas, apesar de tudo, é muito bom.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.