Avalanche Tricolor: redivivo e pentacampeão!

Grêmio 2×1 Ypiranga

Gaúcho – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Festa gremista em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Puxei a cadeira azul claro, de ferro, relíquia original do saudoso Olímpico, pra frente da TV, pouco antes de a decisão dessa tarde de sábado se iniciar. Foi a maneira que encontrei de reviver as finais que me levavam ao estádio da Azenha, geralmente ao lado do pai. Hoje, substituo aquela companhia incrível com quem confidenciava minhas preocupações e ansiedades com a performance de nosso time pela dos filhos, especialmente a do mais velho, o Gregório. E talvez pela presença deles — e dele —, tenho, também, muito mais pudor em revelar meu sentimento e entusiasmo, por juvenil que costumam parecer.

Não foram apenas o estádio e o meu decoro que mudaram. Naqueles tempos de Olímpico, às decisões eram reservadas o domingo, dia santo, sagrado e de festa para algumas culturas e religiões. Dia de futebol para todos os brasileiros — hoje não mais. As finais eram um privilégio dos dois grandes de Porto Alegre, com as exceções de praxe. Atualmente, os times do interior se mostram presentes e tem beliscado a taça com muito mais frequência. Haja vista que os cinco títulos seguidos conquistados pelo Grêmio foram disputados contra quatro times diferentes.

Tudo é muito diferente se comparar com o que vivenciei no passado, quando levantar o troféu de campeão Gaúcho era a maior das vitórias almejadas. Desde lá, sonhamos mais alto, ganhamos o Brasil, estendemos nossas fronteiras ao continente e alcançamos o topo do Mundo.

Nessas reviravoltas da vida da bola, cá estávamos nós, mais um vez, depositando todas nossas fichas nessa competição — e assistir à decisão sentado em um cadeira do Olímpico, mesmo que em frente a televisão, fez do sábado um “domingo de final”.

Redivivos no gramado estavam Everaldo, Babá, Alcindo e Joãozinho. Havia Anchieta, Tarcísio, Iura e Loivo. Não faltaram Bonamigo, Cristovão, Cuca e Valdo. Nem Danrlei, Adilson, Paulo Nunes e Jardel. Todos craques que de alguma maneira ficaram na minha memória. E na história do Grêmio.

Redivivo na cadeira do Olímpico estava eu, o guri que forjou sua personalidade nas dependências do velho estádio, apreciando o sabor de uma conquista estadual.

Redivivo, na Arena, neste sábado, estava Roger que entrou para o seleto grupo de gremistas que conquistaram o título gaúcho como jogador e técnico, completando um ciclo que havia sido interrompido em 2016 quando desperdiçou o direito de ser campeão no comando do time com uma derrota na semifinal.

Redivivo estava o Grêmio, de Geromel, que, após o revés de 2021 e os tropeços no início de 2022, volta a ser campeão. Penta Campeão!

Avalanche Tricolor: forjados pelas batalhas e aflições, não desistiremos jamais

Grêmio 2×2 Flamengo

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Ferreirinha em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Se é de batalhas e aflições que queremos escrever essa jornada de 2021, o capítulo desta noite foi escrito a contento. Diante do mais caro time do futebol brasileiro, de uma crise técnica poucas vezes vista e de um silêncio retumbante na nossa Arena – pela punição imposta à torcida que assistiu a alguns alucinados invadirem o campo rodadas atrás -, sofremos dois gols já no segundo tempo e vimos o rigor do árbitro punir com expulsão um dos nossos atacantes. A derrota seria inevitável e desistir de lutar a única opção, não estivéssemos falando de um clube que já nos propiciou alguns dos mais impossíveis resultados da história do futebol.

Como se algo estranho ao campo da bola transcendesse a razão, o passe que foi inseguro durante quase todo jogo chegou preciso ao pé de Ferreirinha – que já havia recebido todo tipo de bola, mas sem conseguir finalizar de forma correta. Nosso ponteiro esquerdo, que em toda a partida arriscava dribles sem sucesso, livrou-se de três marcadores e deu o presente que Borja, recém-entrado no time, mais esperava. Nosso centroavante com um carrinho empurrou a linha do VAR para longe e a bola para as redes. 

As possibilidades de levar ao menos um ponto deste jogo ainda eram pouco consideradas pelos críticos quando mais uma vez o sobrenatural protagonizou. Ferreirinha, incansável. Ferreirinha, insistente. Ferreirinha, que há algumas partidas vem tentando sem sucesso marcar gols após desconsertar seus adversários, desta vez cortou uma, duas vezes e colocou a bola fora do alcance do goleiro, estufando as redes e empatando a partida.

Os matemáticos e pragmáticos seguem céticos às nossas chances de escaparmos da Inominável a quatro rodadas do fim do campeonato. Passarão os dias falando de percentuais, projeções e possibilidade de queda. Da impossível tarefa de construir no fechamento da temporada o que não fomos competentes de fazer ao longo de todo ano. Tomados pela lógica, se esquecerão que fomos forjados nas batalhas e nas aflições. E delas nos alimentaremos para persistirmos até o fim lutando pela presença na elite do futebol brasileiro. 

Avalanche Tricolor: que vergonha!

Grêmio 1×3 Palmeiras

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Geromel em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

A tabela de classificação já não era favorável na noite de sábado, quando sentei diante do computador para planejar o domingo futebolístico. Confesso que, pela primeira vez, o abatimento se expressou no coração deste torcedor (quase) sempre crente nas conquistas impossíveis do tricolor. O caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche sabe da minha tese — diante do desespero que assistimos nesta temporada — de que estamos disputando uma Batalha dos Aflitos estendida, em que os aflitos somos nós próprios. E haveremos de vencer, mesmo que tudo aponte no sentido contrário.

O que era ruim, pior ficou.

Tomamos uma virada ainda no primeiro tempo, o VAR apitou mais do que o árbitro – acertou nos dois lances cruciais, registre-se – e o azar deu às mãos à intranquilidade e passeou pelo gramado da Arena. Com cada vez menos rodada para se recuperar e a dificuldade de o treinador e o time enxergarem soluções a curto prazo, a esperança de uma reviravolta se esvaía.

Foi, então, que, ao fim da partida, ouvi as palavras de Geromel, que voltou ao time dois meses depois de se recuperar de uma lesão no pé e fez um jogo quase impecável, a despeito da falta de ritmo:  

“Temos de trabalhar. Não podemos desistir. Só juntos sairemos desta situação. Sabemos que é uma situação incomoda. Faltam 11 jogos e precisamos de seis vitórias. Temos que sair desta situação”. 

A afirmação de nosso zagueiro e capitão mexeu com meu ânimo. Tudo que estava prestes a desmoronar, me pareceu novamente possível — ao alcance de um time que,  com um chacoalhão e a inclusão dos jovens que deram mais ritmo no segundo tempo, se revelará imortal, como dito em seu hino e história. Estava prestes a levantar do sofá, sacudir a poeira e fazer minha reverência à camisa autografada por Geromel que está estendida em um quadro no memorial que mantenho em casa. Mas as cenas que vieram em seguida, me abateram de vez. 

Os alucinados torcedores invadindo o gramado da Arena, quebrando o que viam pela frente, vandalizando o VAR e correndo como baratas tontas (e covardes) me levaram ao fatídico ano de 2004 quando fomos rebaixados. Uma época em que o clube estava destruído, ao contrário de hoje; tínhamos um time muito inferior ao atual; e a sequência de violência nas arquibancadas do Olímpico nos tirou o direito de jogar em casa e com torcida quando mais precisávamos deste apoio. Uma atitude que praticamente definiu nosso destino.

Os torcedores que assim agiram neste fim de domingo, em Porto Alegre, me fazem sentir muito mais vergonha do que o rebaixamento que nos ameaça de forma mais intensa a cada fim de rodada. 

Avalanche Tricolor: evoluindo e sem sarcasmo

Grêmio 1×1 América MG

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre RS

Guilherme Guedes comemora em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O Grêmio está evoluindo. 

Foi o que ouvi do comentarista Lédio Carmona, do canal SporTV, lá pelos idos do segundo tempo da partida. A despeito de sua análise ser sempre cuidadosa e equilibrada, não me contive. Pensei cá com os meus gatos: até os doentes quando morrem, evoluem. A óbito. Meu sarcasmo talvez não seja justo, especialmente com o jornalista de qualidade incontestável como o Lédio. Mas o é com o momento que estamos assistindo, na Arena.

Mesmo que o time tenha demonstrado um pouco mais de organização desde que Scolari assumiu o comando técnico e tenhamos alcançado uma consistência maior na defesa, é evidente que estamos com problemas difíceis de serem superados, neste momento. Há uma fragilidade física, há erros de fundamentos e, principalmente, há um desequilíbrio emocional que torna todas as manobras táticas mais complexas.

Na partida desse sábado à tarde, o primeiro gol teve a mão do técnico e de uma juventude que pede passagem na equipe.

A escapada de Ruan pelo meio, a velocidade e condução da bola de Vanderson, no lado direito, e a conclusão nas redes de Guilherme Guedes, chegando na esquerda, mostrou o protagonismo destes guris de talento — que temo seja desperdiçado pelo mau momento da equipe. Sem esquecer de Fernando Henrique: nosso volante faz parte dessa turma de jovens que entende do riscado, marca forte, desarma bem e distribui o jogo.

Scolari, assim que chegou, mudou a maneira do Grêmio jogar. Fechou a casinha, como costumam dizer por aí. Chegamos a formar uma linha de seis marcadores na defesa, com a fixação dos alas mais próximos da área e o recuo dos ponteiros. Hoje, sem Geromel nem Kannemann —- que falta nos faz essa dupla —-, entrou com três zagueiros e postou seus dois volantes na entrada da área. Apostou na velocidade dos atacantes e no oportunismo de Diego Souza que sucumbiu na primeira escapada. 

Douglas Costa —- e vou me apoderar da opinião do Lédio Carmona mais um vez —- fez sua melhor partida pelo Grêmio. Puxou o ataque, virou o jogo, deixou os colegas bem posicionados e tentou, sem sucesso, chutar a gol. Em uma dessas tentativas, sua vulnerabilidade física se expressou.

O resultado contra outro time que busca fugir do rebaixamento não nos ajudou em nada. Apenas estancou aquela sangria desatada da péssima arrancada no Brasileiro, no qual somamos seis derrotas, em onze jogos disputados. Empatamos hoje, depois de sair à frente. Desperdiçamos mais dois pontos na tabela. Mas ao menos não perdemos. Desde que Scolari chegou, estamos invictos no Brasileiro: uma vitória e um empate. Não é nada, não é nada, são 71% dos pontos que o Grêmio conquistou até aqui na competição. 

Pensando bem — e sem o sarcasmo destilado enquanto a bola rolava —, o Lédio tem razão: o Grêmio está evoluindo.

Avalanche Tricolor: vai passar!

Grêmio 2×2 Santos

Brasileiro — Arena Grêmio, Porto Alegre RS

foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O gol de calcanhar há 50 anos, já contei.

O título que narrei há 20 anos, contei também.

Quem sabe o dia que assisti a Pelé jogar? 

Não, já falei.

Deixe-me pensar mais um pouquinho … 

Já sei, aquele jogo que chorei pela derrota acachapante.

Melhor não falar em derrota, né! 

É, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, está difícil de encontrar boas histórias para contar em lugar de me despedaçar em lamentos pelos maus resultados no Campeonato Brasileiro —- não que tenha sido um  jogo mal jogado, especialmente diante das últimas fracas apresentações, mas, novamente, fomos incapazes de vencer uma partida.

O ponto ganho foi ponto amargo. Só o ‘conquistamos’ porque perdemos os outros dois que a vitória nos oferecia, mas que entregamos em duas oportunidades — uma em uma bola mal dividida no meio de campo e outra em uma bola em que sequer tentou-se dividir. Resultado que nos mantém mais uma rodada naquela-posição-que-você-sabe-qual-é (melhor não citar aqui para não dar mais azar).

Um amigo de redação para me consolar, logo cedo, comentou: calma, Milton, é só o começo do campeonato. É exatamente isso que me preocupa. Ainda temos todo um Brasileiro pela frente.

Mais amargo do que isso só acordar de madrugada para trabalhar e descobrir que a máquina de café estava quebrada. Mas esta é outra história e hoje não estou com disposição de contar histórias nesta Avalanche. 

Vai passar!

Avalanche Tricolor: É campeão! É campeão!

Grêmio 3×0 Santa Cruz

Recopa Gaúcha – Arena Grêmio

A Recopa é nossa, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O almoço dominical em família ainda não estava servido e o Grêmio já havia levantado mais um troféu. Na transmissão da TV, rolou vinheta com o título de campeão e sobe som do hino. Em campo, montaram palanque, teve entrega de medalha e fumaça colorida para erguer o troféu. O segundo no ano. 

Sei que o título não é daqueles que vira DVD, filme no cinema ou será lembrado para sempre nas conversas com os filhos. Mas ganhar é sempre bom, mesmo que o adversários seja o humilde e honesto Santa Cruz —- time que vem de uma terra famosa pelas plantações de fumo e, pessoalmente, pelos tradicionais e, às vezes, violentos embates que meu time de basquete encarava sempre que enfrentávamos a equipe da cidade,  que leva o nome de Corinthians.

O Grêmio teria compromisso importante pelo Campeonato Brasileiro, mas o destino nos permitiu o adiamento da rodada e o agendamento da decisão regional. Providencial adiamento. Estamos com 11 integrantes do elenco contaminados por Covid-19: de goleiro a atacante, de lateral a técnico — sem contar os dois convocados para a seleção olímpica. Tantos desfalques seriam fatais. Não para essa final, quando pudemos selecionar apenas os mais jovens ou os menos aproveitados do grupo.

Dos que entraram em campo, Fernando Henrique, o volante pifador, foi talvez a melhor das notícias na manhã deste domingo.

Com uma personalidade rara para a idade, distribuiu jogo de um lado e do outro com talento e precisão no passe. Ainda arriscou-se a chutar de fora e quase marcou o que seria o terceiro gol gremista. Não por acaso, ganhou lugar de destaque na foto do título, sentado atrás do troféu e tendo Geromel — nosso líder —- como guarda-costa.

Havia uma expectativa grande quanto ao desempenho do lateral esquerdo Guilherme Guedes, jovem da base que está voltando à ativa depois de uma série de problemas físicos. Cumpriu bem o seu papel e deu demonstrações de que sabe bater bem na bola, na única falta em que teve oportunidade de cobrar.

Os jovens atacantes Guilherme Azevedo, Léo Pereira e Jhonata Robert —- esse tendo entrado apenas no segundo tempo —- deixaram suas marcas, com tentativas de dribles, sendo agressivos no ataque e marcando cada um o seu gol.

Ninguém ficará para a história devido ao Bi da Recopa Gaúcha, mas é provável de que alguns dos que vestiram a camisa gremista nesta manhã de domingo estejam começando a escrever sua passagem pelo tricolor —- e que bom que comecem essa história de maneira vitoriosa.

Avalanche Tricolor: uma estreia para respirar aliviado

Grêmio 4×1 Brasil RS

Gaúcho – Arena Grêmio

Foto Lucas Uebel Grêmio FBPA

Quase um ano após uma sequência de sufocos, sofrimentos e empates, bem que eu merecia assistir à tranquilidade de uma partida como desta noite, que marcou a estreia do Grêmio no Campeonato Gaúcho de 2021. Sim, o ano de 2020 ainda não se encerrou —- domingo temos a final da Copa do Brasil — e o ano novo do futebol já se apresenta com a mediocridade de sempre das competições estaduais.

Neste ano ao menos não teremos o que reclamar do público que costuma só se apresentar nas partidas finais —- e com toda razão. Com a Covid-19 influenciando comportamentos e escalações, as arquibancadas seguirão vazias no Gaúcho. De resto, é aquele jogo de futebol sem o glamour das competições principais. Não tem bola no pedestal para a entrada dos times no gramado.  Não tem banner com patrocinador fazendo cenário para a entrevista no intervalo. Não tem VAR para aliviar a culpa do árbitro. É futebol raiz, como costumam dizer. 

Independentemente das condições e do adversário, como disse na abertura desta Avalanche, eu e toda a torcida gremista estávamos mesmo precisando de um dia de calma. Com gol logo no início da partida e goleada antes de o intervalo chegar, respiramos aliviados mesmo com um time bastante modificado e a presença de vários jovens recém-saídos da base. Lucas Silva fez de pênalti, Ferreirinha de cabeça, Guilherme Azevedo só completou para as redes e Isaque eliminou qualquer risco de reação.

Para mim, por curiosidade que seja, nem era jovem nem marcou gols o jogador que mais se destacou: Pinares, chileno, prestes a completar 30 anos, que chegou com boa fama por ser titular da seleção do Chile, mas que teve poucas oportunidades na temporada, fez um partidaço, tomando conta do meio de campo, dominando a bola com qualidade e metendo duas assistências para consagrar os atacantes. 

Nem Pinares nem outro de seus companheiros desta noite devem sair jogando no domingo quando decidiremos o título da Copa do Brasil de 2020. O time de Renato já está escalado e teve uma rara semana de preparação, avaliação de erros, correção de problemas e mobilização interna. O desempenho nessa estreia e a goleada conquistada, porém, são importantes para desanuviar o ambiente pesado dos últimos tempos. Assim como é motivador saber que, independentemente do que acontecer domingo —- e torço para que o melhor se realize —- Renato permanecerá no comando da equipe.

Avalanche Tricolor: o Papai Noel é azul e tem nome

Grêmio 1×0 São Paulo

Copa do Brasil — Arena Grêmio

Diego Souza comemora gol em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

O Papai Noel passou mais cedo aqui em casa. E vestido de azul. Porque essa é a tradição no Rio Grande, que começou lá pelo fim dos anos de 1950 como uma brincadeira de torcedores arqui-rivais. O resultado do último Gre-Nal do ano, que fechava o Campeonato Gaúcho, decidia nos costumes do nosso povo que cor seria o Papai Noel.

Em 1961, um jovem de apenas 22 anos havia sido escalado para ficar no vestiário a espera do apito final e invadir o gramado dos Eucaliptos — antigo estádio colorado —-  em caso de vitória tricolor, que veio em uma incrível virada de 3 a 2 com um homem a menos em campo —- sim, a imortalidade nos acompanha desde o início de nossa história. 

Após superar a barreira de policiais que tentavam impedir qualquer invasão de torcedores, o Papai Noel foi parar nos braços dos jogadores e erguido como um troféu para a história. Vestindo a parafernália do bom velhinho, naquele ano, estava o jovem que mais tarde se transformaria em um dos mais gremistas dos jornalistas gaúchos, Paulo Sant’Ana. Se não foi o primeiro Papai Noel azul certamente foi o mais famoso de todos até a noite de hoje.

Nesta ante-véspera de Natal, o Papai Noel azul que invadiu a sala de casa pela tela da televisão foi outro. Atende pelo nome de Diego Souza, mas pode chamá-lo de Goleador. O atacante que passou a partida sendo escorraçado pelos adversários teve uma e apenas uma chance de chutar a gol; e de costas para o gol. Tudo começou na sem-vergonhice de Ferreirinha, o guri driblador que Renato acabara de colocar em campo. Com cara de piá que ainda acredita em Papai Noel, Ferreirinha se lançou para cima do marcador e o deixou para trás com velocidade e talento no drible. Cruzou forte e fez a bola chegar a outro dos nossos guris, Pepê, que de cabeça jogou para dentro da pequena área, onde os zagueiros se atrapalharam para deleite de Diego Souza.

O gol de Diego não é definitivo para nos colocar em mais uma final de Copa do Brasil … 

A propósito: a performance do Grêmio nesta Copa é inacreditável. Fomos o primeiro campeão. Chegamos a semifinal em quase metade das edições disputadas. E vencemos cinco Copas do Brasil. Tem de respeitar.

Como dizia, caro e raro leitor desta Avalanche, o gol de Diego não é definitivo. Tem muito jogo pela frente na partida de volta no Morumbi. E um adversário bem treinado e embalado. Posso lhe garantir, porém, que independentemente do que vier acontecer, este ano o Papai Noel é azul, não só porque ganhamos o Campeonato Gaúcho lá no início da temporada, mas, principalmente, porque o “bom velhinho” tá batendo um bolão veste a camisa 29.

Avalanche Tricolor: Diego Souza, o goleador

Grêmio 2×0 Cuiabá

Copa do Brasil —- Arena Grêmio

Diego Souza a caminho do gol em foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

 

O Grêmio engatou oito vitórias seguidas, dez jogos invictos, subiu na tabela do Campeonato Brasileiro e hoje se credenciou a disputar a semifinal da Copa do Brasil, mais uma vez. O melhor momento da equipe nesta temporada — na qual já foi Campeão Gaúcho e conquistou vaga às oitavas-de-final da Libertadores mesmo com um futebol irregular — passa por uma série de personagens, a começar por Renato (sim, aquele que você, torcedor ingrato, pediu a demissão), que soube como poucos ter tranquilidade para administrar toda e qualquer crise que entrou no vestiário. Jean Pyerre, renascido e talentoso, e Pepê, enlouquecido e enlouquecendo, são outros dois nomes que se destacam.

Quero, porém, hoje, dedicar esta Avalanche a um cara que muitos davam como abatido e ultrapassado: Diego Souza, o goleador. Com 35 anos, houve que não acreditasse quando o nome dele foi anunciado como novo reforço para 2020. Aproveitou bem o Campeonato Gaúcho para provar que tê-lo de volta ao time valeria a pena. Foi o artilheiro da competição com nove gols —- tendo feito o gol do título e, antes, o da vitória no clássico Gre-nal, no primeiro turno. Na Libertadores fez um e facilitou a vida de seus colegas nos demais. No Brasileiro está com cinco gols. 

Desde a retomada dos jogos, com a liberação do futebol sem torcida, Diego parecia isolado dentro da área, onde a bola raramente chegava. Esboçava alguns movimentos, mas o resultado não aparecia. Amargou uma série de partidas sem marcar, apesar de ter servido de garçom especialmente para Pepê. Os ombros caídos e os braços jogados ao longo do corpo sinalizavam o desconforto dele com sua produtividade e também com a maneira do time jogar.

Com a chegada de Churín, o Diego Gringo, houve quem apostasse que Diego, o Souza, perderia a posição de titular. Não demorou muito para ele voltar a marcar e em partidas decisivas —- como nos dois jogos destas quartas-de-final em que fez três dos quatro gols do Grêmio. Dois deles hoje: de cabeça, logo no início, e, em seguida, com os pés e com a tranquilidade do matador diante do goleiro. Diego está agora com 18 gols neste ano. 

Acreditar que foi o surgimento de um concorrente para a posição que o fez mudar de postura dentro de campo é precipitado e injusto com o time e com Diego Souza. Ele voltou a marcar não porque Churín está no banco, mas porque o time todo evoluiu após sequência de partidas com vitórias e empates sem convicção. Renato foi capaz de dar segurança a seus jogadores, teve paciência para remodelar uma equipe que sofreu perdas na temporada, seja devido a venda, a lesões ou a Covid19. O time voltou a confiar na troca de passe, com a aproximação dos jogadores, movimentação intensa, dribles e velocidade. E assim a bola voltou aos pés — e à cabeça — de Diego. E quando chega nele encontra experiência, talento e precisão; a possibilidade de parar no fundo do poço é enorme.

Avalanche Tricolor: Jean Pyerre é 10

Grêmio 4×2 Ceará

Brasileiro — Arena Grêmio

O 10 de Jean Pyerre na foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

 

“Temos camisa 10”, gritaram os torcedores nas redes sociais. Perdão, amigo! Sempre tivemos. Nosso 10 apenas não tinha condições de jogar por motivos mais do que conhecidos por todos — só os impacientes e descrentes faziam questão de não entender, preferindo atacar Renato e suas escolhas. E quando nosso camisa 10 voltou, estava vestindo a 21, mas isso, convenhamos, era apenas um detalhe na jornada de nosso craque. 

Aliás, como você, caro e raro leitor desta Avalanche haverá de lembrar, na edição passada desta coluna esportiva, eu escrevi: “nosso camisa 10 —- mesmo que não carregue o número às costas, ele é o 21 do time —- é um jogador especial”. Quis a coincidência que no dia seguinte a minha Avalanche, Renato e o Grêmio decidiram premiar Jean Pyerre com o número que o futebol mundial costuma oferecer aos craques da bola — apesar de que no nosso time a camisa que consagra é a 7; não é mesmo Renato?

A maneira refinada com que Jean Pyerre toca na bola encanta a todos. Isso ficou evidente desde os primeiros movimentos do Grêmio em campo no início desta noite. Com o nosso camisa 10 buscando jogo no meio de campo e conduzindo o time para o ataque, o deslocamento dos jogadores que estão à sua frente ganha em produtividade. Luis Fernando, Diego Souza e Pepê, especialmente, sabem que podem partir em direção ao gol porque a bola será entregue a eles em condições de marcar. Os laterais e volantes que estão ao lado passam e correm porque sabem que vão receber um presente. Todos saímos ganhando quando o camisa 10 está em campo.

O toque não se restringe ao passe. Jean Pyerre enxerga o gol e lança a bola em direção as redes com a mesma facilidade com que deixa seus companheiros em condições de dar sequência à jogada. Hoje, assistimos a dois ou três chutes que obrigaram o goleiro adversário a se esforçar ao máximo para impedir que a bola entrasse. O chute não parece forte. É como se fosse em câmera lenta. Faz o futebol parecer fácil de ser jogado. 

Em campo, Jean Pyerre é leve, solto e preciso … como na cobrança de falta que abriu o placar, depois de um lance bem ensaiado com Diogo Barbosa (1×0). Como no passe que encontrou Luis Fernando livre pela direita para cruzar e Pepê completar (2×0). Como no momento de perspicácia que o fez pegar a bola que acabara de sair pela lateral e cobrar, sem esperar o jogador de ofício, o que deu velocidade na jogada, e, mais uma vez, permitiu que Luis Fernando desse assistência para o gol —- gol de Diego Souza (3×1). 

E não se satisfez …. 

Jean Pyerre mostrou também seu talento no cruzamento que deu a Diego Churín — o atacante sorriso — o prazer de marcar seu primeiro gol com a camisa gremista segundos após entrar em campo (4×1). 

Jean Pyerre é diferenciado. Tem talento. É craque. É o nosso camisa 10!