Francesco, um imigrante italiano

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Muitos de nós temos em nossa árvore genealógica familiares que deixaram tudo em outras partes do mundo e vieram recomeçar suas vidas no Brasil. Entre os anos de 1800 e 1930, aproximadamente 40 milhões de europeus deixaram seus países. Os primeiros imigrantes italianos que chegaram ao Brasil eram, em sua maioria, provenientes da região do Vêneto e vinham substituir a mão de obra escrava, especialmente na agricultura, após a abolição do tráfico. Embora os primeiros italianos tenham se instalado na região sul, foi o sudeste brasileiro que recebeu o maior número de imigrantes da Itália. Até 1920, o estado de São Paulo havia recebido cerca de 70% dos imigrantes italianos que vieram para o Brasil, especialmente para o trabalho nas fazendas.

Assim como tantas histórias, a chegada do meu bisavô, vindo de Cremona, na Itália, está registrada nos livros presentes no museu da Imigração do estado de São Paulo. Francesco Villanova deu entrada na hospedaria de imigrantes do Brás – onde hoje está localizado o museu – em 22 de junho de 1912. Meu bisavô seguiu da hospedaria para a cidade de Guaratinguetá, no Vale do Paraíba, onde ficava o núcleo chamado Piaguí, local onde colonos italianos trabalhavam nas fazendas produzindo café, feijão, milho, batata doce e cana de açúcar.

Infelizmente, Francesco não conseguiu juntar dinheiro suficiente para comprar a própria terra. Nas fazendas, muitos italianos, assim como meu bisavô, viveram em condições indignas de trabalho e moradia. Diferentemente do sonho que tinham, a realidade foi amarga para muitos. Poucos anos após sua chegada, ele morreu vítima da gripe espanhola, deixando sua esposa e muitos filhos, dentre eles a minha avó, na época com cinco anos de idade. 

Como a maioria dos italianos que se estabeleceu na região do Vale do Paraíba, minha avó morou a vida toda em Guaratinguetá. Uma italianinha de um metro e meio, franzina, com olhos de um azul tão intenso que pareciam um pedaço do céu. Aprendeu a falar a língua portuguesa perto de seu casamento com meu avô, descendente de indígenas e portugueses, e nunca mais voltaria a falar o italiano. Não por esquecimento, mas por buscar um recomeço. 

Em 2016 ,visitei o museu da Imigração na cidade de São Paulo. Sim, o mesmo onde Francesco ficou hospedado em 1912. Que emoção eu senti naquela ocasião! Acomodações, nomes grafados nas paredes, objetos… Uma atmosfera que permitiu imediatamente imaginar o que passava por suas cabeças enquanto estavam ali. Na minha cabeça, uma explosão de histórias que já tinha ouvido vinham à tona, com um realismo comovente. Imigrantes que traziam na bagagem os sonhos e esperanças de uma vida melhor. Saudades que carregariam da terra natal, a qual muitos nunca mais voltariam a ver. Deixaram seu país por necessidade, por sobrevivência e pela expectativa de que a vida poderia ser diferente.

Foto: Simone Domingues

Na saída do museu, me deparei com a enorme árvore que fica no pátio central. Imensa, com tronco largo e inúmeras ramificações. Tinha a visto quando cheguei, mas depois da visita, quando me deparei com ela novamente, ainda tomada pela emoção, compreendi que não poderia haver nada mais representativo daquele museu. Essa árvore é o símbolo mais adequado para explicar sobre nossas origens. Raízes e tronco que simbolizam nossos antepassados. Entre eles, imigrantes que contribuíram para nossa formação. Assim como em minha família, as ramificações desta e muitas outras árvores vem nos delineando e gerando frutos. Frutos que são múltiplos por suas incontáveis influências. Ao mesmo tempo, únicos pela singularidade da nossa história que o Museu da Imigração, como tantos outros, ajuda a preservar. 

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung