Falando com as máquinas

 

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Dia desses testei pela primeira vez o uso do sistema de voz para pedir orientação ao aplicativo de trânsito — parece incrível que o recurso esteja disponível há tanto tempo e eu continue a dedilhar os endereços onde pretendo chegar. É cultural. Mesmo a TV conectada que recebe comando de voz segue sendo acionada em casa pelo controle remoto. Sempre fiz assim. Nunca me senti confortável falando com uma máquina — ainda que tenha dedicado a vida a falar com um microfone.

 

Ao telefone, quando procuro o call center de algumas empresas, a máquina que me atende tenta disfarçar sua falta de humanidade. Se esforça para revelar intimidade que não existe entre nós. Faz perguntas com reticências, mas não me engana. É máquina como qualquer outra e minhas respostas saem em tom de constrangimento. Acho estranho.

 

Por outro lado, minha sobrinha americana mais nova já faz lição de casa com auxílio de uma assistente digital, para a qual faz perguntas ao deparar com uma dúvida ou pede música para acompanhá-la enquanto realiza os trabalhos escolares. Lá no país em que mora quase um quinto das casas têm assistentes de voz — logo ocuparão o cômodo das nossas casas aqui no Brasil, em grande escala, também, porém antes a maioria delas terá de falar em português.

 

As novas gerações estão aderindo muito rapidamente a esses equipamentos, talvez até em maior velocidade do que aderiram aos smartphones. Nós, migrantes digitais, também vamos nos acostumar com essa realidade. E o que para mim ainda é constrangimento ganhará ares de naturalidade.

 

Relatório da National Public Media, contou o Globo dia desses, mostra que a maior parte dos americanos usa os assistentes para ouvir música (60%), responder a uma pergunta (30%), contar uma piada (18%) —- convenhamos, que coisa mais sem graça —, falar sobre o clima (28%), ligar o rádio (13%) — esta eu gostei —, dar notícias (13%) e programar o alarme (13%).

 

Como em todos os avanços tecnológicos que impactam nossos hábitos é preciso cuidado — corremos o risco de criarmos filhos que falam mais com as máquinas do que com os pais. Ou com os amigos.

 

Aliás, já estamos fazendo isso — e o inimigo nas são as máquinas — como se percebe em reportagem da edição dominical de O Globo, na qual traduz texto da pesquisadora Rachel Simmons, publicado originalmente no Washington Post.

 

Segundo ela, estudo de uma empresa de saúde identificou que a turma mais velha do que minha sobrinha, jovens de 18 a 22 anos, forma a geração mais solitária de americanos.

 

Jovens solitários, que triste!

 

Apesar do uso constante de equipamentos eletrônicos — como celulares e assistentes digitais — , estes estão longe de serem os responsáveis pela solidão. O grande mal constatado é o excesso de tarefas na fase entre o fim do ensino médio e o período na universidade.

 

Com agenda repleta, eles e elas têm pouco tempo para o convívio — mesmo que estejam realizando trabalhos em grupo. Não conversam sobre a vida, têm de falar de compromissos.

 

Pesquisa de Calouros da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) de 2015, que inclui respostas de 150 mil estudantes em tempo integral de mais de 200 faculdades e universidades, mostrou que o número de alunos de primeiro ano que passavam 16 ou mais horas por semana com os amigos caiu pela metade em dez anos —- são apenas 18%.

 

Mesmo se a oportunidade de relaxar surge, ficam constrangidos, pois temem serem vistos como pessoas desocupadas, sem objetivo na vida. Sofrem pressão em casa, na escola, dos gestores e dos grupos sociais em que sobrevivem.

 

Se realmente decidirmos entregarmos nossos filhos mais novos à companhia de assistentes digitais, acreditando que preencheremos a lacuna de nossa ausência, é provável que os próximos estudos revelem crianças solitárias — menininhos e menininhas que deixarão de conversar amenidades, sequer saberão como olhar no olho do outro e incapazes de exercitar a generosidade.

 

Simmons escreve que “a capacidade de fazer amigos atrofia se não for usada”.

 

Precisamos de amigos para confidenciar nossas angústias e nossos filhos precisam de pais mais próximos e dispostos a conversar com eles sempre que forem “acessados” — com a mesma agilidade que as máquinas o fazem, mas com o amor que só os seres humanos são capazes de oferecer.

O áudio vai ser considerado cidadão de primeira-classe, diz Google

 

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Foi em um encontro na Campus Party Brasil, em 2015, que tive a primeira oportunidade de discutir a força do podcast em um painel que trazia a atrevida proposta de tratarmos da “futurologia do áudio”. Fui preparado para ouvir poucas e boas de produtores de podcast que fariam parte do debate, afinal era o único representante da “grande mídia” — nome que se dá, muitas vezes com viés negativo, aos veículos tradicionais de comunicação.

 

Saí surpreso com o que ouvi de meus colegas — sim, foi assim que passei a encará-los a partir daquele encontro. Eles se anteciparam na fala para mostrar que o fato de a CBN transformar seus principais produtos em podcast facilitava a vida dos produtores independentes, que manipulavam modelo de programa ainda pouco conhecido pela maioria do público. À medida que falávamos de podcast no ar, os ouvintes se familiarizavam com o tema — disseram eles.

 

Hoje temos em produção na CBN programas que são ouvidos exclusivamente no podcast — caso do CBN Professional, que tem o comando do Thiago Barbosa. E não se coloca no ar um novo quadro ou comentarista sem “traduzi-lo” para o podcast. Deixá-lo de fazer, é a senha para abrir uma caixa de reclamações de ouvintes.

 

Há quem veja o podcast como o substituto do rádio — e não faço parte deste time, pois a transmissão ao vivo e a atualização de notícias, em tempo real, ainda se fará necessária por longo tempo. Assim, ouvir rádio — seja no carro seja em casa seja a caminho do trabalho seja como for — ainda será útil para as pessoas.

 

Para mim, o podcast é outro modelo de rádio, no qual podem ser explorados novos formatos, que não têm mais espaço na grade tradicional de programação — seriados e documentários, por exemplo. E se é um modelo de rádio, as emissoras têm de investir nele, sob o risco de enfrentarem a mesma concorrência que a televisão foi obrigada a encarar com a chegada de serviços como o Netflix.

 

Tenho insistido neste blog, sobre a relevância do áudio, ideia que se reforça a cada novo fato que surge no cenário. Nesta semana, deparei com artigo publicado por Steve Pratt — um dos fundadores do Pacific Content, produtor de podcast — no qual reproduz as intenções do Google em tornar acessível a busca de áudio da mesma maneira que hoje conseguimos encontrar texto e vídeo na internet.

 

Apesar do avanço dos podcasts, encontrar conteúdo de áudio ainda exige busca mais apurada nem sempre disponível para o público em geral. Agora, o time do Google Podcasts, liderado por Zack Reneau-Wedeen, quer usar a expertise da empresa para organizar as informações em áudio e ajudar as pessoas a encontrá-las quando precisarem ou quando quiserem.

 

O trabalho do Google poderá ser útil especialmente para parcela do público que ainda não sabe o que é podcast — seguidamente recebemos perguntas neste sentido na CBN — ou não imagina como se inscrever, baixar os episódios e acompanhar suas atualizações nas plataformas disponíveis — como é o caso do iTunes.

 

Imagine que você vá procurar informação sobre “tecnologias exponenciais”.

 

Fiz esse exercício agora para testar: nove dos 10 primeiros links que o Google me ofereceu são textos; e o décimo é um vídeo. E já que você talvez não encontre podcast sobre o tema, ofereço este link para o último episódio do CBN Professional que reúne uma série de entrevistas e informações sobre o tema.

 

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O que quero dizer é que há excelente conteúdo à disposição em áudio sendo produzido no mundo todo, mas o acesso nem sempre é fácil ou conhecido pelo público. Se esses produtos aparecerem na busca que você faz na internet, mesmo que nunca tenha ouvido falar em podcast, lá estará o arquivo à disposição.

 

“Com os incríveis podcasts produzidos todos os dias, não há uma boa razão para que o áudio não seja considerado um cidadão de primeira classe”

 

É o que disse Zack Reneau-Wedeen em uma auto-crítica ao próprio tratamento que o Google tem dado até agora a esse recurso — afirmação que reforça o que tenho falado com frequência nos últimos tempos: o futuro está no áudio.

 

Arquivos de Joesley e CBN têm tempos diferentes; interrupções podem ser causadas por sensor de áudio

 

Um áudio paralisa a Nação. Assim tem sido desde que foi divulgada a gravação feita por Joesley Batista com Michel Temer, semana passada.  Não é uma conversa qualquer: fala-se da maneira como a política é feita no Brasil.

 

Um mega-empresário se encontra com o Presidente da República, fora de agenda oficial, entra na casa de forma sorrateira e com nome falso, e conta que mantinha dois juízes e um procurador na mão e silenciava um ex-deputado preso, com pagamentos mensais. O Presidente não esboça reação negativa. Ao contrário: dá sinais que concorda e incentiva – apesar das controvérsias que seus defensores impõem a estas interpretações.

 

A delação premiada da JBS vai muito além daqueles 30 e poucos minutos de gravação, mas a discussão tem se centrado na veracidade do áudio porque é assim que Michel Temer tem tentado derrubar as suspeitas que recaem sobre ele. O perito contratado pelo Presidente disse que a gravação não pode ser considerada autêntica: é imprestável (assim como também são as negociações entre empresários e políticos, digo eu).

 

Tem perito que fala em 50 pontos de edição, tem quem conte 14 e tem quem diga que nada dá para dizer.

 

O  arquivo de áudio em questão começa e se encerra com o som da programação da rádio CBN, uma forma que teria sido encontrada pelo empresário para deixar registrado o dia e o horário da conversa deles.

 

Hoje, a reportagem da CBN, após usar um software profissional de edição, comparou a gravação do empresário com a programação original da rádio e identificou que existe uma diferença de 6 minutos e 21 segundos.

 

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Ouça a reportagem produzida por Julio Lubianco e André Coelho:

 

 

Em outro trabalho produzido pela CBN, profissionais de investigação e inteligência afirmaram que gravações feitas através de aparelhos com sensores de áudio ambiente podem provocar a impressão de que foram editadas. E afirmam que gravadores que entram em modo de espera diante da ausência de ruídos podem apresentar um áudio menor do que o tempo que durou uma conversa.

 

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Ouça a segunda reportagem produzida por Julio Lubianco e André Coelho

 

 

Como fiz questão de ressaltar no Jornal da CBN, desta segunda-feira, ainda antes de termos o resultados dessas duas reportagens, somente perícia oficial e juramentada é capaz de resposta definitiva. E disse isso porque levantamento prévio, baseado em registros manuais de produção da CBN, apresentado ainda na sexta-feira passada, mostrava que o tempo do áudio da gravação era condizente com o tempo de intervalo entre os dois programas da rádio que aparecem no arquivo entregue por Joesley à Justiça. A apuração mais precisa e comparando os arquivos de áudio, agora, mostra o contrário. A contradição apenas reforça a necessidade de análise técnica e isenta para que se tire qualquer conclusão.