Por Christian Müller Jung

Ela se chamaria Marina. Na época, eu era fã da cantora de mesmo nome e tinha certeza de que esse seria o nome da minha filha. Bastou uma ida ao parque e ouvir uma mãe chamando sua pequena de Vitória para que eu e a Lúcia, imediatamente, optássemos pela troca. Estava definido: seria Vitória. Talvez a força do nome já premeditasse o que estava por vir.
Gestação normal, rompimento da bolsa, ida para o hospital. Não demoraram muitas horas após o nascimento para que surgissem os primeiros sintomas de que algo não ia bem. Nós, pais, não tínhamos a mínima ideia de que, daquele dia em diante, passaríamos a viver, a cada nova fase, uma nova descoberta.
Vitória apresentou um quadro de encefalite herpética. E não me perguntem como, porque isso ninguém consegue explicar. Aconteceu. Ficou em coma induzido e houve uma corrida dos médicos para barrar o que aquele vírus fazia, tentando preservar ao máximo o pequeno cérebro que estava pronto para se desenvolver.
Naquele tempo, não se falava em pais atípicos, filhos atípicos ou nos termos técnicos de hoje. Era um pequeno ser humano lutando com o que tinha para se manter vivo, sem saber o que aquele estrago inicial traria para o resto da vida.
De lá para cá, cada fase é uma nova adaptação. Há poucos dias, a levamos para consultar o neurologista — hoje ela está com 31 anos. E ela, na sua possibilidade de interação e necessidade de se comunicar, que nunca lhe faltou, disse para o médico: “Tu que me conhece desde criança…”.
“17 horas”. Sim, foi esse número que ele me trouxe à reflexão.
“Eu te conheço desde as tuas 17 horas de vida”. Foi quando ele foi chamado para tratar, na UTI pediátrica, aquele pequeno ser que precisava de alguém com visão profissional e desbravadora. Desde aquelas 17 horas, ele atuou diariamente, ministrando o que via como possibilidade e nos dando pequenas cápsulas de esperança em suas palavras.
Foi um caos em nossas vidas. Um caos na família. Dois meses em coma, e eu tendo de voltar para casa e olhar para o quarto onde tinha pintado cada detalhe. Tínhamos planejado o espaço necessário para ela ser uma criança feliz.
Desde essas “17 horas”, tivemos a oportunidade de conhecer um ser humano que surgiu entre tantos outros anjos em nossas vidas. Lembro-me como se fosse agora: após ser avisado pelo hospital sobre os custos de uma UTI pediátrica — e salvo pelo plano de saúde do Estado, o que é bom frisar —, perguntei a ele quanto custaria tudo o que ele tinha feito pela Vitória, já que no dia seguinte ela teria alta.
Ele desceu a escada rapidamente e disse para eu não me preocupar. Voltou-se e me disse: “Se tu soubesse o que representa para mim tratar uma criança e ter esse tipo de resultado… isso não tem preço”. Senti a mesma vontade de chorar que sinto agora, enquanto escrevo. Aliás, sempre que falo sobre aquele momento, não consigo terminar a história sem me emocionar.
Depois disso, foram muitas consultas, tratamentos, indicações e orientações. Uma gincana de possibilidades que se transformam de acordo com a idade e a necessidade.
Nessa história não há nada de “propaganda de margarina”, nada de mundo encantado ou de anjos que vieram do céu para nos ensinar algo de forma romântica. Somos nós, nossos problemas e algumas pessoas encantadoras, como o Dr. Rudimar Riesgo. Alguém que soube ser herói sem ter capa, psicólogo sem ter divã e ser humano acima de qualquer coisa.
Dr. Rudimar tornou-se um dos maiores especialistas em autismo do país e nos contou, com muita alegria, que está lançando o livro “Tratado sobre o Transtorno do Espectro Autista: Diagnóstico e Tratamento, em companhia com mais dois autores. Uma “bíblia” segundo ele me descreveu.
De lá para cá, passaram-se 31 anos. E Dr Rudimar continua tratando as tantas “vitórias” dele — e a Vitória, minha filha — com a mesma atenção e tranquilidade que nos transmite sempre que abre a porta do seu consultório.
Christian Müller Jung é o pai da Vitória — e, por hoje, é o que interessa.