Sabatina Augusto Cury: o candidato de canela de fora

Augusto Cury
Cury na sabatina O Globo/Valor/CBN Reprodução do YouTube

Encontrei Escritor Augusto Cury — este é o nome próprio usado pelo candidato — já sentado na poltrona onde seria entrevistado pelos próximos 90 minutos, no estúdio da redação de O Globo. Estava de canela de fora.

Perdão se foi essa a primeira impressão que tive diante de tantas outras curiosidades que envolvem o homem que se apresenta como “o psiquiatra mais lido do mundo”. Fui induzido por uma história ouvida nos bastidores da sabatina de Renan Santos, no dia anterior.

Renan, que chegou de franja penteada, meia erguida e calça bem esticada, compartilhou conosco uma implicância do pessoal do Missão: homem que senta e deixa a canela à mostra não é de confiança.

Segundo essa particularíssima teoria política, políticos pouco confiáveis costumam usar calça curta e mocassim sem meia (ou algo assim). A ciência, até onde se sabe, ainda não se debruçou sobre a relação entre canelas, mocassins e caráter. Augusto Cury talvez possa fazê-lo. Entende da mente humana.

Psiquiatra, escritor, empresário e agora candidato à Presidência, ele passou boa parte da nossa conversa propondo diagnósticos para a política brasileira.

A política está doente. A polarização é esquizofrênica. Há egos demais, muros demais e pontes de menos. Cury se oferece como construtor de pontes.

Enquanto não chega à Presidência, faz o que aparentemente mais gosta: escreve. Escreveu um plano de governo com cerca de 200 páginas e está escrevendo cartas para Lula e Flávio Bolsonaro. Vai pedir aos dois que ajudem a pôr fim à polarização.

Se eleito, fará a segunda coisa de que mais parece gostar: conversar.

Pensa em anistiar condenados pelos atos de 8 de Janeiro, mas antes chamará juristas para analisar os processos. Quer mudar o sistema de governo, mas conversará com constitucionalistas. Quer cortar gastos, mas ainda precisará discutir onde e quanto com economistas.

Se Bolsonaro tinha um Posto Ipiranga, Cury aposta numa rede de postos.

Essa disposição para ouvir especialistas apareceu também quando Malu Gaspar perguntou como funcionaria, na Brasília real, o grande pacto político que ele propõe.

Cury apresentou suas credenciais:

— Eu sou um construtor de pontes. Já tratei psicopatas, sociopatas, pessoas agressivas, egocêntricas, tóxicas.

Foi irresistível imaginar o consultório em Brasília. Ele percebeu a armadilha:

— Não me coloquem nessa fogueira.

Não colocamos. Cury é que decidiu entrar nela.

E descobriu na sabatina que quem disputa a Presidência precisa fazer mais do que construir pontes. Precisa escolher para qual margem pretende atravessar.

Perguntado se houve tentativa de golpe, preferiu aguardar a opinião dos juristas. Questionado sobre quem apoiaria num segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, recusou-se a escolher.

— O senhor não quer escolher nada.

Cury não gostou. Afinal, ele escreveu 200 páginas de programa de governo. O problema aparece quando as 200 páginas precisam ser traduzidas em decisões.

Perguntamos quanto custariam suas propostas e onde cortaria despesas. Falou em reduzir talvez 30% dos cargos comissionados. Depois ponderou: podem ser 25%, 35% ou nenhum desses números.

Cury tem respostas abundantes para os males do país e ainda procura algumas respostas sobre como curá-los.

Talvez seja natural para quem estreia numa eleição. Até pouco tempo atrás, sua experiência com política era a de quem conversava e tratava políticos. Agora está do outro lado da mesa.

Neste sábado, estará diante dos entrevistadores do Jornal Nacional.

Quanto mais falar, mais será ouvido. E quanto mais for ouvido, mais terá de mostrar. Talvez, afinal, a canela de fora que me chamou a atenção antes da sabatina não tenha relação alguma com a teoria do pessoal do Missão. Provavvelmente seja apenas uma antecipação do que acontecerá daqui para frente.

Augusto Cury entrou de vez na campanha presidencial. Agora estará cada vez mais exposto. Com suas franquezas à mostra. E suas fragilidades também.

Sabatina com Romeu Zema: entre a camiseta e a realidade

Romeu Zema
Romeu Zema no estúdio de O Globo Foto: reprodução do video no YouTube

A primeira pergunta da sabatina de Romeu Zema começou a ser respondida antes mesmo de ele se sentar diante de nós. O candidato do Novo à Presidência chegou vestindo uma camisa preta. No peito, em letras grandes, uma mensagem que dispensava interpretação: “Chega de Bet.”

Uma hora e meia depois, eu havia entendido que a camiseta dizia mais do que parecia.

Não apenas sobre as casas de apostas.

Ao lado de Malu Gaspar, Maria Cristina Fernandes e Lauro Jardim, entrevistei Zema na primeira sabatina promovida em conjunto por Globo, Valor e CBN. Foram 90 minutos de perguntas sobre contas públicas, Previdência, relações com o Congresso, privatizações, segurança, educação, trabalho, corrupção e, claro, bets.

Zema fala como empresário. Gosta de exemplos do varejo, compara governo com empresa, emprego com casamento, política pública com administração doméstica. E gosta de propostas que chegam ao eleitor sem precisar de manual de instruções.

“Chega de Bet” é uma delas.

Só que governar costuma ser mais complicado do que estampar uma camiseta.

Quando Malu Gaspar perguntou se ele realmente pretendia acabar com as casas de apostas, a resposta foi ganhando condicionantes. Zema criticou a publicidade, comparou o vício em apostas a uma “cocaína psíquica” e defendeu restrições severas. Diante da pergunta direta sobre a proibição, veio a ressalva: quer acabar; se não for possível, pretende impor limites muito rigorosos.

Há ainda uma ironia nessa história. Como governador, Zema concedeu a Loteria Mineira, que passou a operar também apostas online. Questionado sobre a aparente contradição, argumentou que o Estado seguia a legislação federal e que, como governador, tinha a obrigação de buscar receitas para Minas.

A camiseta dizia “chega”. A resposta dizia algo mais próximo de “vamos ver como”.

Esse movimento apareceu outras vezes durante a conversa.

O programa de governo do Novo fala em privatização completa das estatais. Carlos da Costa, que cuida do programa econômico de Zema, havia sido enfático nesta questão, semana passada, em entrevista no Jornal da CBN.

“Tudo” é outra dessas palavras que funcionam muito bem em campanha. É curta, forte e não deixa espaço para dúvidas.

Até aparecerem as dúvidas.

Perguntamos se “tudo” incluía a Embrapa.

Não.

E a Caixa Econômica Federal?

Também não.

Zema disse que a Caixa exerce uma função social e a comparou a um braço da assistência social do governo. Banco do Brasil e Petrobras, sim, entrariam no projeto. E não simplesmente como estão hoje: ele cogita dividir o Banco do Brasil em três ou quatro instituições e fatiar a Petrobras, inclusive por refinarias e regiões, com o argumento de ampliar a concorrência.

Portanto, privatizar tudo não é exatamente privatizar tudo.

É nessas horas que uma sabatina cumpre uma de suas funções mais interessantes. O slogan chega inteiro. A pergunta vai retirando as embalagens.

A Previdência ofereceu outro exemplo.

O programa promete uma reforma “definitiva”. Quando Lauro Jardim pediu números — qual seria a nova idade mínima, quanto seria necessário aumentar, qual seria a conta — Zema não apresentou uma idade.

Sua proposta é outra: criar um mecanismo automático que ajuste as regras à medida que aumentar a expectativa de vida dos brasileiros.

E aí surgiu uma informação importante. A mudança valeria essencialmente para quem está entrando no mercado de trabalho e produziria efeitos ao longo de 20, 30 ou 40 anos. O próprio candidato apresentou o projeto como um legado, um mecanismo destinado a evitar que o país precise fazer uma grande reforma da Previdência a cada alguns anos.

A reforma “definitiva”, portanto, não é uma grande tesourada imediata. É uma régua que se moveria com o tempo.

No salário mínimo, o ajuste do discurso foi ainda mais explícito.

Diante da discussão sobre a necessidade de controlar as despesas obrigatórias, perguntamos se mudaria a política de reajuste. Zema respondeu que não. Disse que o salário mínimo terá, no mínimo, reposição da inflação e, questionado especificamente sobre a regra atual de ganho real, afirmou que ela não mudaria. Também garantiu que aposentadorias e BPC continuariam vinculados ao reajuste do mínimo.

Isso cria uma questão que provavelmente acompanhará sua campanha: onde estará, afinal, o corte capaz de produzir o ajuste fiscal que ele apresenta como ponto de partida para seu governo?

No começo da sabatina, fiz justamente essa pergunta. Todos os candidatos dizem que precisam cortar gastos. O difícil é dizer onde e quanto.

Zema citou reforma administrativa, combate a fraudes, redução de despesas e sua experiência em Minas. Apresentou exemplos de contratos que, segundo ele, foram renegociados por valores muito menores. O número concreto do corte federal, porém, não apareceu.

Essa talvez seja uma das contradições mais interessantes de sua candidatura.

Zema vende a imagem do gestor disposto a fazer aquilo que a política tradicional não faz. É o candidato do Estado menor, das privatizações, do corte de gastos e da redução de privilégios. Quando a conversa passa do princípio para a execução, porém, aparecem as exceções, as transições e as dificuldades políticas.

Nem sempre isso significa contradição. Muitas vezes significa apenas que a realidade entrou na sala.

A segurança pública mostrou algo semelhante.

Zema cita El Salvador como referência e esteve pessoalmente no país para conhecer a política de Nayib Bukele. Quando perguntamos quais medidas salvadorenhas traria para o Brasil, afastou justamente os instrumentos mais controversos do modelo: não defendeu restrições ao habeas corpus nem a adoção das medidas de exceção que permitiram prisões em massa.

O que pretende importar, disse, é o conceito de retomada de territórios dominados pelo crime organizado. Entre as mudanças concretas, propôs prisão preventiva a partir da terceira reincidência e regras mais duras para quem rompe tornozeleira eletrônica.

De novo: El Salvador, pero no mucho.

Talvez seja inevitável. Campanhas eleitorais vivem de frases curtas; governos vivem de letras miúdas. A primeira precisa caber na camiseta. A segunda precisa caber na Constituição, no Orçamento, no Congresso e, de preferência, na realidade.

Ao final de uma hora e meia, Zema brincou dizendo que nós quatro havíamos preparado uma “metralhadora” de perguntas contra ele e que, apesar disso, estava saindo vivo. Depois voltou à imagem que pretende levar à campanha: a do empresário que recuperou Minas e agora quer repetir a experiência no Brasil. Disse que havia tirado “o Titanic do fundo do mar” e que faria o mesmo com o país.

Saí da sabatina pensando menos no Titanic e mais na camiseta.

Ela continuava dizendo “Chega de Bet”.

Depois de 90 minutos de conversa, eu acrescentaria mentalmente uma linha menor, dessas que quase nunca aparecem nos slogans eleitorais:

Chega. Desde que seja possível.

Assista à sabatina com Romeu Zema

A relação entre os sentimentos de orgulho e autoestima

Por Beatriz Breves

Foto: Bruno Bueno Pexels

Os sentimentos de orgulho e autoestima caminham lado a lado. Ambos falam sobre como nos enxergamos, como nos reconhecemos e como atribuímos valor à nossa própria existência. O orgulho pode ser entendido como o sentimento que mede o grau de reconhecimento que temos de nós mesmos — uma espécie de termômetro interno que revela o quanto nos identificamos com nossas conquistas, nossa história e nossa identidade. Já a autoestima expressa o quanto de valor atribuímos a nós mesmos. É o sentimento que sustenta a forma como nos percebemos.

Um ponto essencial é que ninguém vive sem autoestima. Ela pode ser alta, baixa ou variar conforme diferentes áreas da vida, mas sempre existe. Mesmo quando alguém parece não ter autoestima alguma, ela está lá — talvez muito baixa, quase imperceptível, mas presente.

Quando a autoestima está elevada, a pessoa tende a reconhecer suas qualidades, valorizar suas conquistas e sentir satisfação com quem é. Surge então aquele orgulho gostoso de sentir de si mesmo, que pode ser direto — voltado para a própria pessoa — ou indireto, como o orgulho que pais sentem pelos filhos.

Mas quando a autoestima está baixa, o reconhecimento pessoal diminui. A pessoa passa a vivenciar sentimentos de inferioridade, menos-valia e incapacidade. Muitas vezes, evita situações nas quais não se sente competente, repetindo para si mesma: “ah, não dou pra isso”. São pessoas que, em geral, não aceitam críticas, sentem-se facilmente feridas e tentam ser o que não são, porque carregam um ideal interno de supervalorização que não conseguem alcançar. Como o orgulho mede esse reconhecimento, ele aparece enfraquecido. Para compensar essa falta de valorização interna, muitos recorrem, por exemplo, à arrogância ou à vaidade excessiva, criando uma espécie de defesa emocional.

A baixa autoestima também abre espaço para o orgulho ferido — aquele sentimento que surge quando alguém importante para nós não reconhece aquilo que acreditamos merecer. Quando isso acontece, o reconhecimento que temos de nós mesmos é vivido como ferido, provocando dor, frustração e uma série de outros sentimentos. A forma como reagimos ao orgulho ferido depende diretamente da autoestima: frente ao sofrimento, quem tem autoestima elevada irá refletir e seguir adiante; quem tem autoestima baixa tenderá a recorrer a algum tipo de defesa emocional.

A construção da autoestima, e, consequentemente, da forma como o orgulho se manifesta, começa desde cedo. Um bebê desejado, acolhido e amado sente essa atmosfera de bem-querer. O carinho dos pais, o olhar amoroso e o afeto constroem as primeiras bases desse sentimento. Embora essas primeiras marcas sejam fundamentais, elas não determinam tudo. Sempre existe a possibilidade de reparar equívocos e reconstruir a autoestima ao longo da vida. Todos temos potencial de valor e capacidade de sermos amados. O desafio é que, quando a autoestima está muito baixa, a pessoa pode não conseguir perceber a admiração do outro, mesmo quando ela existe.

E então surge a grande pergunta: como melhorar a autoestima e desenvolver um orgulho que nos torne saudáveis? Não existe fórmula mágica.

De nada adianta solicitar que alguém se permita ser amado ou admirado se essa pessoa não está aberta ao amor. Elevar a autoestima envolve conexão consigo mesmo, reconhecer qualidades e potenciais, aceitar-se como humano e compreender que todos têm defeitos e virtudes. Também exige entender que, na vida, sempre haverá quem goste de nós, quem não goste e quem seja indiferente; e isso é absolutamente natural.

Cultivar a elevação da autoestima e sentimento de orgulho de si é, acima de tudo, um processo de autoconhecimento, aceitação e gentileza consigo mesmo, uma caminhada que começa na pessoa e se reflete em tudo ao seu redor.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad

Controle acalma e sufoca

Dra. Nina Ferreira

@ninaferreira.psiquiatra

Controle

Mandar é “gostoso”, não é mesmo?! Organizar o que será feito; escolher como será a rotina; decidir como gastar o dinheiro … Ordenar e ser obedecido!

Quando eu comando, tenho a sensação de previsibilidade. Sei o que irá acontecer, me sinto mais confortável e com mais segurança sobre o futuro.

Quando eu comando, tenho a satisfação de conseguir o que quero. Meus desejos são concretizados, os medos são protegidos, me sinto o centro das atenções e protagonista no palco da vida.

O impulso de tentar controlar o comportamento das outras pessoas, definir o que é certo ou errado, justo ou injusto, e influenciar as decisões da família, dos amigos ou da equipe de trabalho é intenso. É daquele tipo de impulso forte e rápido: quando percebemos, ele já chegou.E será que a gente percebe a presença dele?

É difícil não desejar controlar. Provavelmente, quase sempre desejaremos. Seja pela previsibilidade, seja pela satisfação. Seja por tudo isso misturado. 

No entanto, esse desejo — o de controlar — nunca se concretiza plenamente. E, além disso, quando ultrapassa certos limites, invade o espaço e a autonomia do outro.

Me conte: como você se sente quando alguém tenta comandar você, interferir nas suas escolhas, ditar o que deve ou não fazer?

Então… 

Nenhum adulto gosta de sentir-se controlado. A tentativa de controle cheira a ameaça, perigo e sofrimento. Quando nos lembramos disso, entendemos por que o controle, apesar de acalmar nosso desejo de previsibilidade e satisfação, acaba sufocando.

Quando sufoco o outro, perco conexão, companhia e ajuda. E se perco isso tudo, também me sufoco, no isolamento, na  solidão, na angústia.

Desejamos controlar. Ainda assim, o controle raramente nos faz bem.

Fica o convite: que caminho você escolherá seguir, livremente?

Dra. Nina Ferreira (@ninaferreira.psiquiatra) é psiquiatra, psicoterapeuta e sócia fundadora da LuxVia Health Center. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: o que aprender da estratégia para a escolha do nome “Nubank Parque”

NuBank Parque
Foto: Divulgação NuBank

Você, não sei. Mas a torcida do Palmeiras, com certeza, participou da escolha do novo nome da arena do clube. A estratégia foi usada pelo banco digital NuBank que está assumindo o “naming rights” do complexo esportivo e cultural, em São Paulo. Para Jaime Troiano e Cecília Russo, do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, transformar as pessoas em participante de uma decisão pode ser mais eficiente do que investir apenas em propaganda. 

O Nubank colocou três opções em votação pública: “Nubank Parque”, “Nubank Arena” e “Parque Nubank”. Durante 20 dias, torcedores e consumidores puderam votar. O nome escolhido foi “Nubank Parque”, com 47% dos votos. A decisão trouxe um efeito importante para a marca: o público passou a discutir, compartilhar e defender a escolha.

Cecília Russo observou que o processo gera sensação de pertencimento. “Quando você convida, as pessoas se sentem ativas nessa mudança e você vai ter menos ruído em relação a isso”, afirmou.

A lógica por trás desse movimento é relativamente simples. Em vez de comunicar uma decisão pronta, a empresa cria uma experiência de participação. O consumidor deixa de ocupar apenas o papel de espectador e passa a atuar como alguém que ajudou a construir a história da marca.

Esse tipo de estratégia também produz outro efeito valioso: amplia espontaneamente a circulação da mensagem. Pessoas comentam nas redes sociais, discutem em grupos de conversa e levam o tema para ambientes fora do universo publicitário. O assunto ganha vida própria.

No comentário, Cecília lembrou que a discussão ultrapassa o ambiente digital e chega ao cotidiano das pessoas. “Na nossa empresa mesmo, a gente começou: ‘Que nome que você escolhe?’”, contou.

Jaime Troiano ponderou que esse movimento ainda não representa uma transferência das decisões estratégicas para o consumidor. Para ele, as empresas continuam definindo os caminhos principais, embora estejam aprendendo novas maneiras de gerar envolvimento. “As marcas estão aprendendo de alguma forma a navegar no mundo dessa hiper-informação”, disse Jaime.

Ele citou como exemplo a campanha “Compartilhe uma Coca-Cola”, que estampava nomes próprios nas embalagens. Embora não houvesse votação pública, a ação estimulava as pessoas a procurar seus nomes, fotografar as latinhas e compartilhar o conteúdo espontaneamente. “Quanto mais as pessoas se sentem envolvidas, mais elas ficam abertas a falar sobre isso, quase como se fossem embaixadoras da marca”, explicou Jaime.

Existe aí uma mudança importante na forma de comunicação das empresas. Durante muito tempo, marcas falavam e consumidores apenas ouviam. Hoje, muitas companhias perceberam que participação gera memória, conversa e engajamento. É como transformar o consumidor em coproprietário simbólico daquela narrativa. Mesmo que a decisão final continue nas mãos da empresa, o público sente que deixou sua impressão digital no processo.

A marca do Sua Marca

Marcas ganham força quando conseguem envolver as pessoas na construção da própria narrativa. Participação cria vínculo emocional, reduz resistência a mudanças e amplia espontaneamente o alcance da comunicação.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Você está se desconectando de si mesmo?

Por Beatriz Breves

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Vivemos em uma época em que sentir parece ter se tornado secundário. Muitas pessoas cresceram sem aprender a reconhecer seu mundo interno e, por isso, enfrentam ansiedades difíceis de nomear e desejos que nunca chegam a se concretizar. Ao mesmo tempo, o mundo externo oferece estímulos infinitos, enquanto nossas possibilidades reais de realização, limitadas pela própria condição humana, são bem menores. Esse descompasso fragiliza o sentimento de identidade, enfraquecendo o senso de eu.

O avanço acelerado da internet e da inteligência artificial intensificou esse cenário. A hiperconectividade tornou-se parte do cotidiano: trabalhamos, estudamos, nos informamos e nos entretemos por meio de telas. Embora isso amplie o acesso ao conhecimento e facilite a comunicação, também traz desafios profundos.

Fato é que, se, por um lado, estar sempre conectado democratiza informações e estimula novas formas de criatividade, por outro, pode nos afastar de nós mesmos. A mesma tecnologia que potencializa experiências e resolve problemas também favorece a dependência digital, reduz o tempo dedicado à vida off-line, prejudica a concentração e enfraquece as relações presenciais.

É nesse ponto que surge a necessidade urgente de resgatar o sentir: aquilo que vivenciamos internamente diante de cada experiência. Em uma sociedade que valoriza excessivamente a razão e o intelecto, o sentir é frequentemente negligenciado, como se o cérebro fosse a única fonte das experiências humanas. Talvez a vida seja mais ampla do que isso.

O resgate do sentir

A ciência do Sentir propõe que o sentir é a experiência vivenciada da vibração que somos e com a qual interagimos. A partir dessa compreensão, ela nos convida a uma mudança de perspectiva: deixar de enxergar o ser humano somente por uma ótica estritamente materialista, abrindo espaço para uma visão vibracional, que integra sensibilidade, subjetividade e presença. Essa mudança amplia a nossa compreensão da realidade ao reconhecer que o mundo interno é tão importante quanto o mundo externo. Afinal, quando priorizamos somente o que acontece fora de nós e ignoramos o que se passa dentro — ou seja, o que estamos sentindo —, desconectamo-nos da própria subjetividade; e isso pode gerar vazio, desorientação e perda de sentido.

Perda de sentido que se torna cada vez mais comum quando se observa, especialmente neste início de terceiro milênio, pessoas negligenciando suas necessidades afetivas, entregando-se ao consumismo e permitindo que um ideal robótico se sobreponha ao humano. Em outras palavras, vemos indivíduos se abandonando, o que, inevitavelmente, se transforma em sofrimento.

Nesse contexto, a Psicomplexidade, como proposta pela ciência do Sentir, ganha relevância ao nos convidar a integrar pensamento e sensibilidade, a desenvolver empatia por nós mesmos. É curioso: fala-se muito em empatia pelo outro, mas raramente se discute a empatia por si mesmo, ou seja, a capacidade de ocupar o próprio lugar interno, acolher os sentimentos que estão sendo vivenciados, reconhecer as necessidades do momento e estabelecer uma conexão profunda consigo mesmo.

Em tempos de hiperconectividade, esse movimento é essencial. Precisamos estar atentos para não nos abandonarmos, não ignorarmos nossas necessidades afetivas, não nos deixarmos levar pelo consumismo nem permitir que o ideal robótico se sobreponha ao humano, pois, quando isso acontece, o sofrimento se torna inevitável.

O protagonismo diante da tecnologia

Fato é que precisamos nos escutar e nos respeitar enquanto humanos, renunciando ao ideal do “ser robótico” que o mundo contemporâneo tenta nos impor. Isso não significa rejeitar a tecnologia, que é bem-vinda e responsável por avanços importantes, mas assumir o protagonismo diante dela, em vez de permitir que determine o modo como vivemos.

Enfim, escutar-se e respeitar-se significa não permitir que o que sentimos seja abafado, que as máquinas nos sirvam de espelho para definir como vivemos, sentimos ou nos relacionamos. Significa, sobretudo, não rejeitar a nossa própria humanidade, não nos desconectarmos de nós mesmos.

Beatriz Breves é presidente da Soc. da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com Esp. em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia tit. Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Entre o que sentimos, o que somos e o que a realidade permite

Por Beatriz Breves

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Quando deslocamos o foco para o sentimento de Eu, percebemos que se trata de uma estrutura fractal, ou seja, padrões que se formam e se transformam continuamente pela internalização das experiências, dos vínculos e da qualidade das relações vividas. Por isso, o Eu integra, inevitavelmente, dimensões biológicas, psíquicas e sociais, articulando-as em um movimento constante de construção e reconstrução.

Todavia, ainda vivemos presos a um paradigma reducionista que entende o biológico como a única “verdade” possível. Nesse modelo, cromossomos XX definem uma mulher; XY, um homem; e a cultura somente acrescenta comportamentos esperados. Mas a vida psíquica não cabe nesse binário. Essa é uma limitação de um olhar materialista cartesiano, que enxerga o ser humano somente pelo prisma material e, assim, impõe o determinismo biológico à identidade.

Entretanto, ao migrarmos do olhar mecanicista para o paradigma vibracional, torna-se mais fácil compreender que a identidade se manifesta em pelo menos dois planos: o da realidade materializável e o da realidade psíquica. À experiência humana inclui-se o nível microcósmico do ser, aquilo que não se vê, mas constitui grande parte de quem somos. Por esse olhar, a experiência humana é entendida como um complexo vibratório macromicro, uno, inteiro e indivisível, que só pode ser apreendido por meio de recortes. E cada recorte — biológico, psíquico ou social — revela somente um aspecto da totalidade que somos.

Assim, quando uma pessoa biologicamente classificada como um determinado sexo se sente e se reconhece no sexo oposto, ou quando alguém da espécie humana se sente e se reconhece como pertencente a outra espécie, muitos reagem descartando esse sentimento como exagero, confusão ou patologia. Isso ocorre porque o olhar social costuma se fixar exclusivamente no recorte biológico, ignorando o recorte psíquico, o modo como a pessoa se percebe, se sente e se reconhece internamente. É como se a identidade tivesse que obedecer apenas ao corpo, quando, na verdade, o corpo é apenas uma das camadas que compõem o Eu.

Esse descompasso não se aplica somente a pessoas trans ou therians, mas também àquelas que vivem uma preocupação persistente com supostos defeitos físicos mínimos ou inexistentes, como ocorre na dismorfia corporal. Abrange, ainda, quem é gordo e se percebe magro, quem é considerado bonito e se enxerga feio, quem é inteligente e se sente limitado ou mesmo situações em que alguém procura um profissional de saúde e recebe como resposta que “não tem nada, é psicológico”, reduzindo a psique a um nada. Em todos esses casos, há um descompasso entre a realidade e o que a pessoa está sentindo.

Entretanto, isso não significa abandonar referências. O ser humano precisa de referências para se orientar; sem elas, perde o senso de si. A ideia de que “a pessoa pode ser tudo” pode levar a uma perda de reconhecimento pessoal, pois aquele que pode ser tudo, paradoxalmente, torna-se nada.

Para facilitar a compreensão, podemos recorrer ao exemplo do movimento dos corpos. Desde Galileu, sabemos que todo movimento é relativo; porém, convencionou-se a Terra como sendo fixa a fim de organizar os movimentos no mundo, pois, sem esse ponto de referência, perderíamos a capacidade de descrever qualquer deslocamento que fosse realizado. Da mesma forma, o referencial biológico funciona como esse ponto fixo: os cromossomos XX e XY permanecem constantes, atravessando eras, épocas e culturas, oferecendo um parâmetro estável a partir do qual outras variações podem ser compreendidas.

Em outras palavras: mesmo não sendo possível definir a identidade de uma pessoa a partir de um único olhar, é necessário estabelecer referências de reconhecimento. E a referência biológica é socialmente pertinente. Entretanto, afirmar que ela é a única referência válida significa negar a identidade sob o prisma da realidade psíquica. A forma como uma pessoa adulta sente a si mesma e conduz suas escolhas deve ser respeitada.

Nesse contexto, é importante ressaltar dois referenciais de lógica: a lógica booleana, que opera com dois estados (0 e 1) e é adequada ao referencial biológico; e a lógica fuzzy, que admite infinitos valores entre 0 e 1, sendo adequada ao referencial psíquico, permitindo compreender que entre XX e XY existem inúmeras possibilidades de expressão. Isso se reflete na multiplicidade de termos usados por grupos como LGBTQQICAPF2K+, que buscam nomear nuances que não cabem no binário biológico.

Mas é preciso cuidado, pois nem sempre sentir significa ser. A realidade psíquica não anula a material; contudo, a realidade material, em muitas situações, anula a psíquica. Se alguém se sentir um super-herói capaz de voar e pular de uma janela, os limites da realidade biológica prevalecerão. Da mesma forma, se alguém, sentindo-se um gato, morar na rua e caçar ratos para se alimentar, não chegará a um bom lugar. Tal qual todos que nasceram um dia, mesmo que se sintam imortais, irão falecer. A realidade material impõe limites inegociáveis.

Há ainda outro aspecto importante a considerar. Em qualquer relação, de qualquer ordem, é necessário haver um fiel da balança que permita mediar conflitos de percepção, especialmente em sociedades democráticas. Nesse caso, o elemento que cumpre essa função é o biológico, por ser universal e atravessar o tempo: desde que a espécie humana existe, mulheres possuem cromossomos XX e homens, XY.

Sem esse parâmetro comum, surge um impasse. Se uma pessoa XY afirma à outra que “se sente mulher” e, por isso, deve ser reconhecida como tal, a outra pode responder: “eu não sinto você como mulher, portanto, meu sentimento não a torna mulher”. A pergunta que emerge é: por que o sentir de uma deveria prevalecer sobre o sentir da outra?

Quando não há um critério compartilhado, cada percepção subjetiva se torna absoluta e, portanto, inconciliável. Nesse cenário, o único fiel da balança possível é a biologia, justamente por ser atemporal, universal e independente das variações individuais de sentimento.

Enfim, com certa segurança, pode-se afirmar que o sofrimento surge justamente quando há uma ruptura entre o que a sociedade reconhece e o que o Eu reconhece em si mesmo. Essa fratura pode gerar um vazio profundo, um sentimento de desenraizamento que compromete a própria experiência de existir. Reconhecer a coexistência legítima dos recortes biológico, psíquico e social, respeitando os limites próprios de cada um, é fundamental para reduzir o sofrimento humano e ampliar o espaço de dignidade e compreensão mútua.

Entretanto, negar os limites impostos pela natureza em seus recortes biopsicossociais é perder referências essenciais, abrindo espaço para uma desorientação que não é somente individual, mas pode tornar-se coletiva, a ponto de já não ser possível distinguir o que é fato, o que é experiência e o que é delírio.

Beatriz Breves é presidente da Soc. da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com Esp. em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia tit. Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Sobre o sentimento de abandono

Por Beatriz Breves

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O sentimento de abandono, quando vivido em sua forma mais intensa, pode fazer o tempo parecer arrastado, o espaço tornar-se áspero e a dor ocupar toda a região interna do peito. É uma experiência que pode emergir da ausência de alguém, do enfraquecimento de um vínculo ou da quebra de expectativas que sustentavam a sensação de pertencimento. Em muitos casos, sentir-se abandonado equivale a perceber o chão se desfazendo sob os próprios pés.

É natural existirem diferentes intensidades desse sentimento, variando desde pequenos abandonos até vivências mais profundas. Inclusive, experimentar pequenos abandonos se faz até necessário para que a pessoa aprenda a se cuidar melhor e a se acompanhar com mais presença de si mesma.

Há também diversas defesas para evitar o sofrimento associado ao abandono. Entre elas, observa-se quem, movido pelo medo da perda, abandona antes de ser abandonado. Há ainda quem recorra a subterfúgios externos — às vezes evidenciados por excessos de ação — na tentativa de não entrar em contato com a dor, defesa que vale para qualquer forma de sofrimento.

Ainda assim, o abandono costuma vir acompanhado do desamparo, que ressoa em solidão, angústia, desespero, insegurança e tantos outros sentimentos. Acrescenta-se ser comum a sensação de um vazio interno que revela o quanto a pessoa se sente só diante da própria existência. A gravidade desses sofrimentos dependerá da intensidade com que se manifestam e do quanto paralisam a vida de quem os vivencia.

Fato é que sentir-se só pode nos afastar de nós mesmos e nos levar a perder nossas referências internas. É nesse movimento que pode emergir um abandono ainda mais sofrido: a renúncia de nós por nós mesmos.

É fácil compreender que, quando nos abandonamos, atropelamos a dor que sentimos, silenciamos necessidades legítimas e seguimos adiante sem nos escutar. Aspectos importantes de quem somos são colocados à margem, deixando-nos em desamparo e sem acolhimento, promovendo uma grande desarmonia interior. A desconexão interna então se impõe.

Entretanto, quando percebemos que nossas lágrimas não são somente pelo que perdemos, mas também pelo que deixamos de ser para nós mesmos, pelas palavras gentis que não nos oferecemos e pela atenção que deixamos de nos dedicar, compreendemos que o sentimento de abandono não diz respeito somente ao que se foi, mas também ao que nós mesmos nos negamos. É justamente aí que surge a possibilidade de resgate: ao percorrermos nossos caminhos internos pela via do autoacolhimento, temos a chance de recuperar nossa presença em nosso próprio mundo e voltarmos a nos acompanhar.

Ao nos cuidarmos com atenção e gentileza, abrimos um espaço interno onde a dor não precisa dominar, podendo ser vivida com mais lucidez e menos solidão. Nesse gesto de autoacolhimento, descobrimos uma força cuidadora que habita em cada um de nós, uma força que sustenta, reorganiza e nos permite seguir adiante, amparados pela presença mais constante que temos em nossas vidas: nós mesmos. Afinal, se nós não nos tornarmos o nosso melhor amigo, dificilmente alguém poderá ocupar esse lugar.

Beatriz Breves é presidente da Soc. da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com Esp. em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia tit. Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

A ciência do sentir: uma nova compreensão vibracional do ser humano

Por Beatriz Breves

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Um equívoco recorrente consiste em imaginar que a transdisciplinaridade se resume a importar conceitos de uma área para outra. Esse procedimento ignora que cada campo do conhecimento possui objeto próprio e métodos específicos, o que pode gerar interpretações profundamente equivocadas. Em termos triviais, seria como afirmar que “a vida dá voltas” porque a Terra gira em torno do Sol. A física investiga matéria, energia e suas interações; a psique pertence a outro domínio de realidade, com dinâmicas e critérios próprios de investigação.

Foi justamente essa lacuna, somada à ausência de uma reflexão mais profunda sobre o sentir, que me levou, após três anos como psicóloga, a buscar, em 1986, a graduação em Física, para compreender a energia a partir daqueles que a têm como objeto formal de estudo.

Os sonhos no encontro entre psique e energia

A primeira articulação consistente entre essas duas áreas surgiu por volta de 1988, quando investigava a fenomenologia dos sonhos. Analisando relatos oníricos, especialmente os de pessoas com deficiência visual, foi possível estabelecer uma sequência de observações: se na natureza não existe cor sem ondas eletromagnéticas; se os sonhos apresentam cor em sua expressão fenomenológica; e se os olhos, receptores dessas ondas, durante os sonhos, apresentam o movimento REM; então os sonhos poderiam ser compreendidos como um fenômeno psíquico processado sob a forma de ondas eletromagnéticas, isto é, ondas que se propagam à velocidade da luz.

Em contrapartida, o estado de vigília se apresenta extremamente lento quando comparado à velocidade da luz, sugerindo que a psique humana poderia funcionar em duas velocidades distintas: uma próxima da luz e outra próxima de zero. E foi nesse contexto conceitual que o Inconsciente Relativístico ganhou forma.

Chamo de Inconsciente Relativístico porque se baseia na teoria da relatividade de Einstein quando propõe que, quando dois sistemas interagem, um estando próximo à velocidade da luz e outro próximo à velocidade zero, surgem os efeitos relativísticos como dilatação do tempo, contração do espaço e variação de massa. Assim, os sonhos, a psique em estado inconsciente, processados à velocidade da luz, ao interagir com a psique em vigília, processada à velocidade zero, produziriam efeitos relativísticos, o que ajudaria a compreender a lógica aparentemente absurda dos sonhos. Nesse sentido, o inconsciente possuiria tempo, mas um tempo dilatado em relação ao da consciência.

O ponto cego da neurociência tradicional

A neurociência tradicional, porém, questionaria essa hipótese, afirmando que os neurônios atuam por sinais eletroquímicos extremamente lentos quando comparados à velocidade da luz, o que inviabilizaria ondas eletromagnéticas como base do sonho. Contudo, posso questionar a neurociência ao descrever o que acontece no cérebro, mas não explicando por que isso gera uma experiência tão semelhante à percepção real, especialmente no que diz respeito à vivência da cor. E este seria, digamos, um ponto cego importante: a neurociência tende a confundir correlação com explicação. O fato de certas áreas cerebrais se ativarem durante o sonho não prova que essa ativação seja a causa da experiência, mas somente que ocorre simultaneamente.

A fenomenologia dos sonhos expõe uma lacuna entre o funcionamento neural e a experiência subjetiva. A vivência onírica possui qualidades luminosas, intensas e imediatas que não se encontram nos sinais lentos do cérebro, sugerindo que a experiência ocorre em um regime distinto daquele descrito pela neurociência. E, ainda, soma-se a essa questão o tempo subjetivo: nos sonhos, segundos podem parecer horas. O ritmo onírico não acompanha a temporalidade fisiológica, reforçando a hipótese de que a psique humana funciona em mais de um regime temporal.

Fato é que, se deixamos o paradigma estritamente materialista e migramos para o paradigma vibracional, no qual o universo quântico também se faz presente, uma nova interpretação se torna possível. No modelo materialista clássico, a psique é tratada como consequência do cérebro, e toda experiência subjetiva seria produto direto de interações eletroquímicas. Já no paradigma vibracional, a realidade não se limita à matéria densa, mas inclui padrões sutis de organização que interagem com princípios do universo quântico. Nessa visão, o “padrão quântico” deixa de ser metáfora e passa a se constituir como hipótese estrutural. Certos fenômenos subjetivos, especialmente os oníricos, parecem obedecer a dinâmicas temporais e qualitativas incompatíveis com o processamento neural.

O gato, a incerteza e a experiência psíquica

Foi dentro desse contexto que vivi uma experiência decisiva quando meu gato esteve gravemente doente e o veterinário avaliou que poderia sobreviver ou falecer naquela noite. Mesmo angustiada pela incerteza, acabei adormecendo e, quando acordei de madrugada, tomada por um receio profundo, não tive coragem imediata de verificar se ele estava vivo ou morto. Permaneci somente pensando e, quando imaginava que estava vivo, sentia alegria; quando imaginava que havia falecido, a tristeza me invadia. Continuei por alguns instantes entre esses dois sentimentos que, apesar de superpostos, eram completamente distintos, até finalmente criar coragem para ir vê-lo.

Essa vivência me remeteu imediatamente ao experimento mental do gato de Schröndinger. Enquanto não observava, a incerteza imperava. Foi quando percebi que o funcionamento da representação psíquica, enquanto não materializamos a experiência por meio da observação, se apresenta como um campo de possibilidades superpostas.

Não tenho elementos para afirmar que a representação psíquica em sua subjetividade seja literalmente um fenômeno quântico, mas posso afirmar que a dinâmica é análoga: antes da observação, coexistem estados possíveis; no instante em que interagimos diretamente, um deles se atualiza como a experiência. Essa analogia reforça a pertinência de incluir o padrão vibracional‑quântico como ferramenta conceitual para compreender modos de funcionamento da psique que escapam ao paradigma materialista estrito e apontam para a necessidade de modelos mais amplos, como o próprio Inconsciente Relativístico.

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Feliz Ano Velho: das guerras às vacinas

Ataque dos EUA contra a Venezuela — Foto: STR / AFP

As luzes da árvore de Natal ainda piscavam quando as explosões iluminaram o céu da Venezuela. O brilho artificial da guerra ofuscou, mais uma vez, o olhar de esperança que a humanidade insiste em exercitar neste período de festas. Dias antes, fogos de artifício tinham marcado o que imaginávamos ser a passagem do velho para o novo ano — aquele instante em que nos convencemos de que somos capazes de fazer melhor, rever atitudes, nos reinventar se necessário. Ilusão. Pura ilusão. Foi o que revelou a ordem do presidente Donald Trump para atacar alvos venezuelanos.

A ação americana, que resultou na morte de dezenas de pessoas e na prisão de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, nos empurra para um tempo que julgávamos superado. Um tempo anterior às grandes guerras do século XX. Um mundo em que Estados fortes usavam a força militar como instrumento rotineiro de política externa, sem freios jurídicos ou diplomáticos. Um século XIX reciclado, agora embalado por discursos contemporâneos.

Convém registrar desde já: nada disso transforma Nicolás Maduro em vítima histórica. Seu governo é expressão do mesmo atraso que este texto denuncia. Uma ditadura que sufocou instituições, perseguiu opositores, produziu êxodo, pobreza e violência. Ao impor ao próprio povo um regime anacrônico e sanguinário, Maduro também desrespeitou valores que o mundo diz defender desde o pós-guerra. Criticar a violação da soberania venezuelana não significa ignorar, muito menos minimizar, a tragédia política e humanitária construída dentro do país ao longo de anos. O atraso, neste caso, opera em duas direções.

Depois de 1918, e sobretudo após 1945, o planeta tentou impor limites à barbárie. Criou regras, tratados, organismos multilaterais. Não para abolir conflitos — ilusão maior ainda —, mas para contê-los. Para reduzir danos. Para lembrar que soberania nacional não é detalhe negociável. Quando um país decide agir sozinho, à margem dessas regras, não está apenas violando o direito internacional. Está ensinando o mundo a ignorá-lo.

Em entrevista ao Jornal da CBN, a ex-juíza do Tribunal Penal Internacional Sylvia Steiner ofereceu a imagem mais precisa desse momento histórico. Disse que o direito internacional não está falido, mas constantemente abalado. Um paciente em estado grave, que ainda respira. A metáfora é poderosa porque desloca o debate: o problema não é a inexistência das normas, mas a reincidência de quem insiste em testá-las.

O caso venezuelano expõe também a fragilidade do Conselho de Segurança da ONU. Criado para preservar a paz, tornou-se refém de uma composição congelada no pós-guerra. Cinco países com poder de veto. Pouca renovação. Menos ainda capacidade de reação quando um desses atores decide romper as regras. A própria Steiner admite ter poucas esperanças de que dali surja alguma sanção efetiva. A lei existe, mas tropeça no desequilíbrio de poder.

O alerta do secretário-geral da ONU, António Guterres, de que a operação americana cria um “precedente perigoso”, soa quase como nota de rodapé em meio ao barulho das bombas. Precedentes são perigosos porque ensinam. Hoje é a Venezuela. Amanhã, outro país. O método é antigo; só mudam os alvos.

Enquanto lia a cobertura sobre a prisão de Maduro e as reações internacionais, meus olhos cruzaram outra manchete no The New York Times (leitura disponível apenas para assinantes). À primeira vista, distante da guerra. Na essência, parte do mesmo enredo. Nos Estados Unidos, o secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr. decidiu reduzir drasticamente o número de vacinas recomendadas para crianças. De 17 para 11. Uma guinada que ignora décadas de evidências científicas e o processo técnico conduzido por especialistas do Centers for Disease Control and Prevention.

Vacinas são uma das maiores conquistas civilizatórias da humanidade. Salvam vidas silenciosamente. Não produzem imagens espetaculares. Talvez por isso sejam alvos fáceis do negacionismo político. Quando a ciência preventiva passa a ser tratada como opinião, e não como evidência, o retrocesso deixa de ser abstrato. Ele ganha corpo. E rosto. Muitas vezes, infantil.

O elo entre essas duas notícias — guerra e vacina — é mais forte do que parece. Em ambos os casos, instituições incomodam. No direito internacional, porque impõem limites à força. Na saúde pública, porque exigem rigor, método e responsabilidade coletiva. Quando a política atropela essas instâncias, o que se perde não é apenas eficácia. É civilidade.

Wálter Fanganiello Maierovitch, em O Mercado da Morte, lembra que a primeira vítima da guerra é o próprio direito internacional. Talvez possamos ampliar a frase: a primeira vítima do poder sem freios é sempre o conhecimento acumulado. Seja jurídico, seja científico.

Mudamos o ano no calendário. Mas seguimos resolvendo conflitos com ferramentas gastas. Questionamos vacinas. Relativizamos soberanias. Desconfiamos das regras que nós mesmos criamos para nos proteger de nós mesmos. A essa altura, talvez o brinde mais honesto não seja ao novo, mas ao passado que insiste em governar o presente.

Seguimos celebrando a virada com práticas antigas.
O ano muda.
O mundo, nem tanto.

Feliz ano velho — expressão emprestada, com respeito, para descrever um tempo que se recusa a amadurecer.