O estigma do cuidado: o viés machista na representação da Primeira-Dama

Por Christian Müller Jung

Foto de Alfo Medeiros on Pexels.com

A estrutura política e cerimonial brasileira, embora envolta em uma aura de tradição e sofisticação, preserva em seu núcleo um dos resquícios do passado mais resistentes da nossa sociedade: a figura da primeira-dama. O que o senso comum costuma analisar como um papel pomposo, simbólico e até mesmo requintado revela-se, sob um olhar crítico, como uma engrenagem do machismo institucional que insiste em confinar a mulher ao domínio do “cuidado” e da assistência social.

A construção da imagem da primeira-dama está diretamente vinculada a uma identidade de gênero que projeta na esposa do governante a responsabilidade pelas demandas sensíveis da nação. Baseado em uma mística de valores ditos femininos — como a caridade, a sensibilidade e o amor materno —, o imaginário social criou a ideia da mulher abnegada que trabalha por amor.

Este cenário estabelece o que se pode chamar de protagonismo perverso. A participação da mulher no mundo público é permitida e até celebrada, desde que suas atividades girem em torno do zelo e do acolhimento. É a transposição do modelo doméstico para a esfera estatal: enquanto ao governante cabe o poder real, administrativo e econômico, à sua esposa reserva-se o papel de mãe social, uma função que administra conflitos e mantém a estrutura estabelecida por meio de um paternalismo que muitas vezes substitui o direito do cidadão pela caridade da senhora.

O grande contrassenso reside no fato de que o papel da primeira-dama não é um cargo eletivo. Não há voto, mandato ou exigência legal para que o cônjuge tenha uma atuação decisiva no governo. Por norma, a função deve ser voluntária e não remunerada, exercendo um papel estritamente representativo em esferas culturais ou diplomáticas.

A prova de que essa vocação social é uma imposição de gênero, e não do protocolo em si, surge quando observamos as novas configurações de poder. Em uniões de pessoas do mesmo sexo, como no caso do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, a figura do primeiro-cavalheiro rompe essa lógica. Ao preservar sua carreira profissional — como a medicina — e não assumir a gestão das pautas sociais, o primeiro-cavalheiro expõe que a sociedade só espera o abandono da identidade individual em favor do assistencialismo quando o cônjuge é uma mulher. Onde o homem é livre para ser profissional, a mulher é pressionada a ser apenas “esposa”.

Entretanto, a história não é feita apenas de submissão. É indiscutível reconhecer que muitas primeiras-damas, percebendo a força do espaço que lhes foi concedido, transformaram o “primeiro-damismo” em uma tática de resistência. Elas subverteram a lógica da passividade, utilizando a visibilidade do cargo para pautar discussões que o sistema deixava de lado.

Por meio de discursos tecnicamente fundamentados e ações marcantes, diversas mulheres utilizaram essa plataforma para lutar pela igualdade no mercado de trabalho, pela presença feminina na política e pelo fortalecimento dos direitos das mulheres. O que nasceu como uma estratégia governamental para humanizar o governante foi convertido, por muitas delas, em um laboratório de liderança. Elas provaram que, mesmo dentro de uma estrutura desenhada pelo passado patriarcal, é possível exercer uma presença firme que desafia o binarismo e abre caminhos para as futuras gerações. Vale considerar que o perfil como esposa, mãe, avó e primeira-dama ainda permanece; porém, o que se vê hoje é uma capacitação profissional da mulher, bem diferente do que era no passado. O que antes era tratado apenas como um ‘bom coração’ hoje carrega diplomas e competências técnicas. Essa evolução transforma o antigo voluntariado em gestão estratégica, na qual a empatia cede lugar à eficácia, e a mulher deixa de ser apenas a face gentil do governo para se tornar uma articuladora política com voz, técnica e trajetória próprias.

O título de primeira-dama, por mais requintado que pareça, é um espelho de algo que ainda preservamos do passado: a dificuldade da sociedade em enxergar a mulher na política sem o filtro do cuidado doméstico. Reconhecer o viés machista dessa atuação não é diminuir as mulheres que o exercem, mas questionar as estruturas que ainda tentam definir o valor de uma mulher pela sua capacidade de servir, e não pela sua capacidade de liderar.

Christian Müller Jung é publicitário de formação, mestre de cerimônia por profissão e mentor na área de comunicação. Colabora com o blog do Mílton Jung (de quem é irmão).

Jornalista não deve ter medo da informação em rede, deve respeitá-la

 

#eSTAS2012: Redvolution, el poder del ciudadano conectado. The power of connected citizens

 

A multidão tem seus braços voltados para a cena que se desenrola ali na frente e na ponta dos dedos manipula o celular captando a imagem que será compartilhada imediatamente com um sem-número de pessoas. São centenas de imagens sendo registradas ao mesmo tempo e espalhadas para diferentes pontos até onde sua rede social alcança. A verdade ainda não é conhecida, o que não impede que comentários se multipliquem para diversas plataformas ajudando a construir a opinião pública (o que é mesmo que está acontecendo ali?).

 

O acesso simplificado à tecnologia e a facilidade com que nos conectamos em rede permitem que o cidadão conte os fatos a partir de seu ponto de vista e construa sua própria história, influencie pensamentos e se transforme em fonte da informação. Uma quebra de hierarquia em sociedades que se acostumaram a ter nos meios de comunicação o monopólio da notícia. Este empoderamento, que democratiza os debates e mobiliza a sociedade, não significa que o cidadão é um jornalista. Ele seguirá cidadão, mais forte e influente, e o jornalista permanecerá com seu papel de cobrir os assuntos, levantar as mazelas, cobrar mudanças, identificar exemplos e buscar a verdade que se constrói na investigação e não apenas no primeiro olhar. Tem obrigação de mediar as forças envolvidas, encontrar o equilíbrio que ajuda a esclarecer e assumir a responsabilidade da publicação, respondendo pelo que diz, mostra e escreve.

 

Jornalistas e jornalismo devem respeitar a força da informação em rede, estruturada pelo somatório de fatos registrados pelos cidadãos em diferentes meios, mas jamais temê-la. Quem souber melhor dialogar com esta sociedade, usufruir desta massa de informação à disposição e ofereccer a ela conteúdo qualificado e diferenciado vai se sobressair. Esta fórmula funcionará seja nos meios tradicionais de comunicação seja nos novos formatos que estão para surgir. Nada impedirá que o jornalista seja autor e autoridade, pois também não dependerá exclusivamente desse veículos para transmitir seu conhecimento. Formas de financiamento compartilhado já existem para sustentar a realização de reportagens e coberturas. E mais uma vez, independentemente de toda tecnologia desenvolvida, o que fará diferença é a credibilidade. Enquanto soubermos cultivá-la com nosso trabalho, o jornalista e o jornalismo persistirão. E o cidadão estará ainda mais fortalecido.

 


A imagem deste post é do Flickr da Fundacion CiberVoluntarios