Avalanche Tricolor: tão longe e tão perto de ti

Guarany 0x2 Grêmio

Gaúcho – Estrela D’Alva, Bagé RS

Gremio x Guarany
Carlos Vinícius comeora quarto gol no Gaúcho Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Comecei a Avalanche passada falando da minha distância em relação ao Grêmio. Distância física, claro, porque de alma e coração estamos sempre próximos. Estava, como ainda estou, em João Pessoa, na Paraíba, enquanto o Grêmio disputava uma partida em Porto Alegre. A distância volta à nossa crônica, porque na noite de quarta-feira o Grêmio foi para mais distante ainda ao jogar em Bagé, cidade gaúcha tradicional de muitas histórias e personagens.

Na fronteira com o Uruguai, o futebol gremista também esteve tecnicamente distante do que havíamos assistido na rodada anterior, na Arena. É preciso considerar que o time não era aquele que entendemos ser o titular. Ressalvas ainda para  palco da partida: estádio acanhado, vestiários precários, gramado ruim e, como se viu, infraestrutura frágil. O jogo começou com 40 minutos de atraso por problemas no fornecimento de energia na subestação do Estrela D’Alva, segundo informou a companhia elétrica. 

Apesar de a falta de criatividade e coletividade, três nomes se destacaram no primeiro tempo: os jovens Luis Eduardo, na zaga, e Roger e Enamorado, no ataque. No segundo tempo, o time voltou a ter dificuldades para chegar ao gol. O cenário mudou pouco mesmo com a expulsão justa de um dos adversários, aos cinco minutos — pô, Serginho, esperava que ao menos você gritasse na hora que era caso de expulsão (desculpa aí, caro e raro leitor, foi só recado para um dos amigos que mais admiro na crônica esportiva).

Cansado de esperar um desempenho melhor, Luis Castro fez as mudanças necessárias para o time chegar ao gol. Gabriel Meck entrou bem na direita e foi dele o cruzamento para que Carlos Vinícius marcasse o gol que abriu o placar. Vini da Pose precisou de poucos minutos para mostrar a André Henrique como se posicionar corretamente entre os zagueiros e cabecear de maneira certeira no gol. Em lance parecido, no primeiro tempo, André havia desperdiçado uma das poucas oportunidades que tivemos.

O jogo ficou mais fácil com a necessidade de o adversário sair para o ataque e a presença no meio de campo de outro guri da base, Jefferson. O time ganhou em intensidade e criatividade, chegando ao segundo gol em lance que também teve participação de Carlos Vinícius e foi concluído por Edenílson. Uma nota positiva ainda para o goleiro Weverton que fez uma estreia segura nas poucas vezes que foi acionado. 

Domingo tem Gre-Nal. É o dia em que retorno das férias. Estarei um pouquinho mais próximo do Grêmio. E, espero, que o Grêmio esteja muito próximo de mais uma vitória no clássico.

O voo-cego do rádio esportivo

 

Por Milton Ferretti Jung

 

O autor do texto está na ponta esquerda da mesa

 

Preciso, antes de mais nada, agradecer aos leitores do meu texto de estreia, neste espaço, pela ordem, Carlos Magno Gibrail, Daniel Lescano, Nelson Valente, Armando Italo, Dora e Airton Gontow. Foram todos muito bondosos. Grato pelas boas-vindas, passo para a escrever o que reservei para esta quinta-feira.

 

Outro dia, o Mílton, em sua “Avalanche Tricolor”, a propósito de uma outra estreia – a do Grêmio no Campeonato Gaúcho- lembrou, com saudade, o início de sua carreira na Rádio Guaíba, no qual, repórter esportivo que era, trabalhava nos jogos dessa competição, muitos deles narrados por mim. A saudade se explica: os jogos, em geral, especialmente aqueles disputados no interior do estado,transformavam-se em batalhas campais ou quase nisso. Os jogadores, mesmo os da dupla Gre-Nal, mais bem remunerados, tinham amor à camiseta, coisa rara hoje em dia, pois o profissionalismo transformou muitos em verdadeiros mercenários. O que o Mílton não recordou, porque não havia nascido na época, foi das dificuldades que se enfrentava para transmitir as partidas do que agora resolveram apelidar de Gauchão, superlativo injustificável para o futebol que se vê.

 

Em algumas cidades interioranas – Bagé era uma delas – não havia linha telefônica, necessária para que se falasse dos estádios. Viajava-se, na véspera dos jogos, por estradas de chão batido, muitas vezes debaixo de chuva. Não havia motorista profissional. Dirigiamos nós mesmos inseguras kombis. Dentro delas, estava um enorme transmissor “single-side-band”, o substituto da linha telefônica. Para que funcionasse era preciso comprar dois postes de bom tamanho, estender entre eles um cabo, conectado a outro que, por sua vez, ligava-se ao transmissor. Na sede da rádio, um técnico passava trabalho para receber a transmissão. Esse, controlava o áudio girando um botão. Para a equipe que estava no estádio ouvisse o retorno do som que era enviado, fazia-se necessário sintonizar a onda-curta da emissora.

 

Em transmissões de futebol fora do estado precisava-se contratar a Radional, antecessora da Embratel e nem sempre confiável. Essa, certa vez – e com isso vou encerrar este papo, não se preocupem – nos deixou na mão num jogo entre Atlético Mineiro e Grêmio, em Belo Horizonte, no Estádio Independência. Sem conseguir captar a onda-curta da Guaíba, abri a transmissão depois de avisar para o estúdio que iriamos – o Ruy Ostermann e eu – entrar no ar em “voo-cego”. E entramos. Narrei 85 minutos. Foi então que a onda-curta deu o ar da graça. No estúdio, o locutor do noticiário apresentava o Jornal da Noite.

 

Seja lá como for (ou como era) que, tal qual o Mílton bem mais tarde, nós dois tenhamos bons motivos para sentir saudade dos velhos tempos do futebol e do rádio esportivo.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista, gremista e meu pai. Escreve toda quinta-feira aqui no Blog do Mílton Jung (o filho dele)