Conte Sua História de SP: os beijos de despedida na estação Vila Mariana

 

Por Dalva Rodrigues 
Ouvinte da Rádio CBN

 

 

Meu amor por São Paulo é caso antigo, desde que nasci, no bairro do Ipiranga, pertinho do museu, no comecinho dos anos 60. Minha rua , a Aracatu, na Vila Liviero, era de terra, vizinhança pequena, muitos terrenos vazios, campinhos e matas para as crianças explorarem com as mais diversas brincadeiras.

 

Como era gostoso conversar nas noites de céu limpo e estrelado…Histórias de ETs e papos que não acabavam mais (até uma das mães gritar que já passara muito da hora de entrar).

 

Nas noites frias de inverno, mal enxergávamos quem estava ao lado, de tão intenso era o nevoeiro. Voltar da casa da vizinha que tinha televisão, depois de assistir ao cine mistério – aos filmes de terror – era um ato de coragem: rapidíssimo, pernas para que te quero!

 

E no dia seguinte acordava com os galos cantando, o apito das fábricas chamando os operários que sumiam na rua, envoltos em neblina e garoa.

 

Meu primeiro amor de infância era irmão de meu amigo. Numa noite quente, na brincadeira ‘beijo, abraço ou aperto de mão’ ele escolheu: ‘beijo’, mas quando abriu os olhos e me viu, só quis mesmo me dar a mão… Bem me quer, mal me quer…Minha primeira desilusão. Um dia a família se mudou, perdi o amigo e o amor que ainda viveria muito tempo, só em meu coração.

 

Já moça, meus pais separados, fui morar em Vila Mariana, depois passei uns tempos no interior com meu pai, gostei da cidade, mas minha maior alegria era quando, chegando em São Paulo, subindo as escadas rolantes da estação República do Metrô, via minha cidade surgindo, linda, imponente…Como é bom voltar para casa, para nossa cidade!

 

Vivi um grande amor nesses tempos, amor que mais uma vez, mesmo sendo correspondido, não era meu. Um dia nos despedimos na véspera de Natal, na esquina da São João, em frente ao Largo do Paissandú. Foi o beijo mais romântico de minha vida…e o mais triste… Eu ali parada … ele atravessava a avenida. E enquanto as lágrimas desciam, soube que era próximo o fim. Até hoje sempre que passo por lá me lembro da cena.

 

Tempos depois me apaixonei novamente. Como eram bons os beijos de despedida na estação Vila Mariana,  quase todo dia. A suntuosa sala de espera do Cine Ipiranga foi palco de uma cena hilária quando quase saí no “braço” com uma menina que vendia balas, que ousadamente me ignorou e pegava no braço do meu noivo insistindo na venda… Esse episódio quase rendeu o fim do romance, mas superamos e nos casamos.

 

Hoje, moro na zona leste e os amores se foram…Acho que meu tempo já passou, tenho boas memórias, mas o amor por São Paulo…Esse não passa nunca!

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, no CBN SP, logo após às 10h30 da manhã. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você participa escrevendo sua história para milton@cbn.com.br